quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Nada é Tudo




Tenho hábitos madrugadores. Desde tenra idade, acordo com a luz do sol. Antes, levantava-me e ia caminhar, depois tomava uma boa ducha gelada e saia para o trabalho, onde fazia o desjejum e iniciava com gosto as atividades do dia, renovado pelo frescor da manhã bem vivida... Tempos já passados, hábitos tornados dispensáveis pela aposentadoria e terceira idade que finalmente chegou. Então, fico mais um tempo na cama, meditando. 

Me-ditar é uma prática boa, significa "dizer para mim mesmo", ou, de outro modo, ouvir a minha voz interior. Nesses momentos, antes de botar o pé no chão da cozinha para o café da manhã, fico um tempo fazendo Reiki, orando minha reza miscigenada de catolicismo e budismo, fazendo símbolos no ar e pronunciando pedidos explícitos em bom português. Na verdade, a maior parte do tempo fico agradecendo, mas, minha ganância sempre encontra o espaço de um novo pedido, um novo desejo, uma nova vontade de atingir mais isso e mais aquilo, não necessariamente em termos de valores medíveis, mas, na linha da realização sensorial afetiva de auto aplacamento das vivências perdidas no tempo. A busca pela paz interior, digamos assim...   Gostaria de poder escrever neste horário, para registrar melhor os insights, mas, infelizmente outros deveres menos charmosos, mas igualmente importantes, me chamam, como aguar as plantas e trabalhar na jardinagem da Chácara Holística, um enclave maringaense pé vermeio no centro do Rio Tavares, interior da Ilha de Santa Catarina. 




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Dylan rompeu com o judaísmo, por não aceitar sua herança maldita de dor e sofrimento. Migrou para o cristianismo, ora vejam só! Parece que ficou pouco tempo por lá... Eu também rompi com minha herança religiosa, por não aceitar os dogmas introduzidos pelos romanos, coisa que só fui tomar conhecimento histórico muito tempo depois das missas domingueiras com minha avó, dominu-dominis, confessionários, hóstias e padres com vestidos-batinas, incensos, dúvidas e mistérios. O respeito e o medo impedem a reflexão, até que chega a idade da consciência e tudo fica questionável, até os dogmas.  Ninguém precisa mesmo de nenhum salvador, ninguém está pagando seus pecados com o sangue de ninguém, nem há pecado, de fato. Apenas contas a acertar.  Todos seremos salvos, é apenas uma questão de tempo. Aliás, o que é o tempo? Na perspectiva universal da eternidade, o tempo nem conta. Minha base atual só poderia ser teosofista, depois de tudo, mas, não sigo movimento nenhum. Acho que a maestria deve ser algo construído individualmente,  embora pense que talvez seja bom ter uma relação mestre-discípulo. Acho que ajudaria na evolução de ambos, desde que o mestre não se revele um espertalhão, o que é mais comum do que as pessoas imaginam, como aprendi desde que minha namorada de muito tempo atrás contou-me que seu "mestre" lhe disse que, se ambos ficassem pelados, o efeito energético seria maior, rs rs rs... Quanto a isso, não resta dúvida de que seria !
  
Não tenho vergonha de dizer que fiz trinta anos de terapia. Do grito primal ao divan lacaniano. Participei de grupos de biodança, chamanismo, bioenergética e terapia convencional em grupo, várias vezes. Acho que tudo me ajudou muito, ainda que também me tenha levado muito dinheiro. Apenas para dez dias de internamento num sítio em Itapecerica da Serra no ano de 1990, foram mais de mil dólares. Investia muito em terapias, por que eu me sentia muito culpado de ter, de certa forma, rompido com a família tradicional quando caí no mundo. Ela nem eu nunca nos perdoamos por termos valores tão diferentes. Quando me descasei pela primeira vez, as crianças ainda muito pequenas, passei por profunda crise pessoal que me levou a síndrome de pânico. Aí muito me ajudaram as terapias, especialmente aquelas fincadas em vivências profundas, em jornadas de final de semana, do tipo psicodrama ou catarses com meditações dinâmicas, feitas em grupos fechados, de auto confiança e proteção. Foram minhas mais verdadeiras experiências comunitárias.  






O amor é mesmo a base de tudo, no entanto, mesmo pessoas amorosas podem tentar impor suas visões de mundo aos demais viventes. É o caso de nossos heróis cristãos, né? Quem não acreditaria na boa vontade de um João Paulo II? No entanto, foi o principal responsável pela igreja católica regredir décadas, talvez séculos, e voltar a seu mundinho de exclusões e preconceitos. Uma vez fui a Brusque participar da festa de 80 anos do mestre Edino Kruguer , o maior personagem musical catarinense de todos os tempos, professor, compositor, diretor, músico, ativista cultural, secretário pessoal e ajudante de Villa Lobos, uma sumidade tão perfeitamente integrada em sua humildade, que não precisa de nenhum reconhecimento oficial, como realmente não o tem. Ele é luterano, como bom alemão, e a festa estava programada para a frente da Catedral de Brusque. Choveu a píncaros e uma comitiva foi falar com o padre, para deixar que o concerto de uma orquestra sinfônica da PM do Paraná fosse executado dentro da Catedral. Ele não deixou e o concerto foi cancelado. A princípio fiquei revoltado com a atitude do padre, e não só por que o estado brasileiro gasta milhões mantendo e reformando catedrais católicas, mas, principalmente pelo seu profundo desprezo com o semelhante diferente, no caso uma personalidade luterana. Achei que teria sido elegante da parte dessa autoridade católica retribuir um pouco do que recebe da sociedade, abrindo-se para aquela ocasião especial em Brusque. 

---  "Não, senhor!", responderia um eventual interlocutor burocrata católico.  "O estado não faz mais do que sua obrigação, já que as Catedrais são imóveis tombados pelo patrimônio histórico".    

Tá bem, já passou, já nem me lembro como era a triste figura do padre. Mas, é bem difícil saber quando o coração está no comando ou quando o ego é que predomina. Imagine um monge tibetano que se imola pela libertação de seu país do jugo estrangeiro. Até que ponto está sublimando sua própria vida em função de uma causa nobre ou até que ponto está indo ao extremo do egoismo, destruindo-a em função de uma causa que o tornará respeitado e talvez famoso. Outro caso são os homens bombas islamitas. Claro que são extremos, casos de provável e profundo desespero, mas, o que dizer de Madre Tereza de Calcutá? Uma vida inteira dedicada à caridade, sendo capitalizada pelo establishment conservador e elitista do Vaticano. Eu considero religiosidade e espiritualidade coisas bem próximas, senão sinônimos, mas, isso não tem nada a ver com igreja. Os chefes de igrejas se consideram os portadores da religiosidade, e bem sabemos que não são. É perfeitamente possível iluminar-se espiritualmente numa catedral milenar católica, como a Notre Dame à beira do Senna, ouvindo a música de um luterano alemão como Bach, interpretada por  Anglicanos, apenas para ficar no mundo cristão, uma minoria absoluta em termos religiosos no planeta ...










Viajar por culturas e paisagens estranhas também pode ser uma forma de contemplação, muito próxima da religiosidade. Gosto muito de viajar assim.   Prefiro o estilo mochileiro, que me deixa livre, leve e solto, além de sair muito mais barato, claro. Nas cidades, prefiro andar de metrô ou ônibus. É impossível andar por Paris, Londres, Madrid, São Paulo, se não for assim. Uma vez fui de trem ao Charles De Gaulle pegar o vôo para Madrid. Encontrei um brasileiro sozinho na fila do checkin. Ele levava quatro malas imensas e pagou 80 euros de taxi. Eu havia gasto 4, imagina a diferença de estilos. Ele só queria saber de como estava indo a Bolsa de Valores em SP, eu estava chegando na França, ele voltando ao Brasil e achava que eu poderia ter informações úteis. Ao final, perguntou-me se eu havia ido ao Crazy Horse. Esse também é o nome da minha banda de rock preferida e, para espanto do meu parceiro de fila, eu perguntei: "Eles estavam aqui? Puxa vida, como fui perder essa?".    Desfeitos os equívocos, ficou claro que o Cavalo Louco em questão é uma casa de dançarinas de can can,  rs rs rs. 

Gosto da simplicidade, da natureza e das tradições populares. Evito o luxo e a luxúria. A elite econômica e intelectual não me interessa.   Mesmo em Buenos Aires, eu prefiro as casas de tango mais simples, na periferia, sem aquela ostentação para turistas estrangeiros. Gosto de associar a viagem a um propósito cultural. Já fiz todo o roteiro de Van Gogh, desde sua vila rural na Holanda até seu túmulo nos arredores de Paris, passando pelas margens do Rhone no sul da França. Desci em Barcelona para caminhar com Caetano Veloso e sua vaca profana pelas "ramblas", com Miró e Gaudi,  depois fui de trem até a Noruega, ver as loiras mais sensuais e lindas do planeta. Fui  num coro cantar nos grandes templos católicos, Lourdes, Fátima, Saragoza, El Escorial, Santo Antonio em Lisboa, Matosinhos no Porto e Santiago de Compostela na Galícia. Visitei alguns dos mais deliciosos terroirs do planeta (locais especiais de cultivo de uvas para vinhos) provando seus encantos, da Borgonha aos vinhedos das terras altas arriba do Minho, o mais fino branco sequíssimo da Andaluzia ao branco frutado da Pomerânia, caminhadas à pé pelas montanhas Toscanas e passeios de carro entre milhares de Chateauxs pela planície sem fim de Bordeaux. Sempre que bate a saudade, vou tomar um branco seco no deserto de Cafayate, província andina de Salta, ou um malbec nas cantinas de Mendoza.   Hospedei-me num hotelzinho defronte ao mercado público del Abasto, onde cresceu Gardel, e fui visitar seu túmulo em Chacaritas, no final da avenida Corrientes. Dancei na pista onde hoje está uma das melhores e mais simples casas de tango do mundo, descrita na canção 'Sur', o mais lindo tango de todos os tempos:



"San Juan y Boedo antiguo, y todo el cielo,

Pompeya y más allá la inundación.

Tu melena de novia en el recuerdo

y tu nombre flotando en el adiós.

La esquina del herrero, barro y pampa,

tu casa, tu vereda y el zanjón,

y un perfume de yuyos y de alfalfa

que me llena de nuevo el corazón."








Muitas histórias, verdadeiras viagens sensoriais, delícias para um narrador aposentado, debruçado sobre suas memórias.  É preciso aproveitar o tempo que resta.  Pois, mestre Fellini já ensinava que "La nave va...".   E quem sou eu para questionar???




7 comentários:

  1. Muito legal.Com tanta coisa vivida só pode render lindas historias.
    Conta tudo....rsrsr

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  2. Só completando: o Todo é repleto de sabedoria. Os obstáculos não só são fatos ou decorrências da vida, como também são oportunidades de crescimento ( evolução consciencial). Olha o que escreveu Wagner Borges:

    "E eu me sinto pequeno diante de tudo...
    Como uma criança dentro de um sol.
    Ah, eu sou uma centelha dentro de uma Grande Luz.
    E os homens da Terra e os espíritos são outras tantas centelhas...
    E todos nós gravitamos na Luz do Coração do Todo";

    Olhando por este viés holistico: "O Todo é Tudo", e nessa linha, o nada faz parte do todo.

    Abraços,

    Pedro
    Florianópolis - SC

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    1. Perfeito, Pedro. Não poderia ser melhor analisado.

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  3. Oi Laércio, como vai. Gostei muito de lê suas palavras, sempre muito bem colocadas e com estórias gostosas de serem lidas. Um grande abraço ao amigo.

    Vitor Pereira - Ex-Eletrosul

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  4. Nada melhor do que estar em Paz consigo mesmo fazendo da vida um viver descompromissado com tudo e todos...Amando a Vida como de fosse o ultimo tempo...!!!

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  5. Oi, Laercio, muito bom como sempre. Gostei muito do vídeo em que é mostrada a paisagem maravilhosa, cheia de flores, córrego, cascata; imagino que seja o lugar onde vives e escreves; inspirador; parabéns!

    Janete.

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  6. É muito gostoso ler esta crônica. Um misto de verdade, simplicidade, sensibilidade, irreverência, impermanência... a cada momento vivendo a vida como ela se apresenta, do jeito que o coração manda, no propósito de tirar o melhor de tudo a cada momento. Momentos de sentir o pé na terra, de conexão da alma com os céus; de coragem para rever os sonhos e equívocos do caminho e tecer sua história; de tentar encontrar o amor como o grande combustível da vida, onde quer que ele se manifeste. Enfim, usufruir dos prazeres da graça do viver, tomar posse da vida e não deixa-la simplesmente passar.

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