terça-feira, 8 de maio de 2012

WESAK 2012


"Assuntos de religião, futebol e política não se discute", diziam nossos avós,  do alto de suas sabedorias e experiências de vida. São temas onde dificilmente se chega  a alguma conclusão ou consenso, assuntos espinhosos que só dividem, ao invés  de somar.  Política, por exemplo. À partir de minhas próprias experiências, concluí  que é impossível se chegar a consensos sobre o assunto Política, a não ser entre aliados, o que torna a própria discussão menos agressiva, na medida em que aliados   sempre   se    respeitam  e  se colaboram,  mesmo em circunstâncias lamentáveis para a cidadania, como temos visto pela imprensa.   Em todos os demais casos, a briga é certa, com a devida exceção dos encontros entre pessoas altamente desenvolvidas, coisa muito rara.



Sítio da Mestra Cleusa, Águas Mornas, SC



O campo das religiões é ainda mais perigoso, onde cada um tem a salvação para si e para o resto do mundo, o que inclui o interlocutor que vos fala. É melhor não discutir! Sempre que posso, aceito convites para assistir rituais religiosos de amigos ou parentes, nos quais participo de forma respeitosa, sem questionar qualquer dogma ou procedimento, a não ser que sejam explicitamente maléficos, o que realmente ainda nunca me aconteceu.  

Por isso aceitei o convite feito por uma amiga muito querida, alguns bons dez anos passados, para assistir um Festival de Wesak daquele ano, que se realizou num sítio particular, em meio às montanhas do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro. Lá passei duas noites e dias repletos de maravilhas, o que veio a tornar-me não só frequentador desses eventos para os demais anos seguintes, mas também um buscador e praticante de vários princípios budistas,  na medida do possível, claro.   





O Festival de Wesak é uma cerimônia milenar budista, festiva e meditativa, que se realiza durante o período da Lua Cheia de Touro, evento planetário que ocorre quase sempre  no mês de maio e, em algumas raras ocasiões no mes de abril . Nos últimos cem anos, esta festa tem se tornado cada vez mais popular no ocidente. A maioria dos místicos acredita que este fenômeno da popularização de vários conceitos filosóficos e práticas orientais, dá-se por conta da entrada da humanidade na chamada Era de Aquarius, período de mais ou menos dois mil anos, ao qual adentramos muito recentemente, onde as energias do amor universal e da evolução espiritual estarão influenciando fortemente nossos destinos enquanto raça e astro cósmico, ou seja, o Ser Humano e o planeta Terra. Outros pensadores, mais racionais e céticos, confirmam que há, sim, uma crescente interconexão mundial entre crenças e valores de vários matizes, que resultam na integração de diferentes culturas, entre as quais o oriente e o ocidente, que historicamente sempre foram separados. Os fatores responsáveis por isso  seriam vários, nenhum deles de origem mística,  destacando-se o desenvolvimento científico e tecnológico, que torna o nosso Planeta uma aldeia global, segundo a famosa profecia de Marshal McLuhan nos anos 1970, escrita por um estrategista de comunicação social midiática, e não por um místico ou lider religioso, como poderia parecer. 









Enfim, entramos na Lua Cheia de Touro. Para os agnósticos pensadores céticos como nós, 
isso é apenas mais um evento físico, que ocorre de forma regular desde sempre. Para várias tendências místicas, no entanto, esse evento tem valores variados, mas sempre focados na questão da relação homem versus divindades, desde a tenra idade das pedras, passando pelos gregos e romanos  e chegando até nós. Os racionais que somos, eu e minha galera,  nos comportamos como analistas estruturalistas,  em pensamento lógico e sistêmico, segundo a concepção clássica científica e materialista. Jamais acreditaremos em lendas como a do Festival de Wesak. Diremos que são contos de fadas, criados pela originalidade humana, para aplacar o sentimento de solidão que nos assola cada vez mais,  mesmo à bordo de nossas bandas largas e aparelhos celulares. 

A questão que se nos  apresenta dos pontos de vista espiritual e material é que, neste momento, a Lua está literalmente "fora do caminho",  por estar ao lado da Terra no amplo espaço do sistema solar. Por isso, a vemos iluminada integralmente pelo sol. Ela própria não tem luminosidade nenhuma, conforme nos explicou o mitológico álbum "The Dark Side of the Moom", do Pink Froyd. Por estes dias, a ligação entre o Centro Solar e o planeta Terra está em seu ponto máximo, o que nos possibilitaria aproximarmo-nos de uma tal energia que poderia ser definida como "Deus", na verdade, a energia criadora, o centro da Vida e da Inteligência, pelo menos na nossa.galáxia, senão pelo universo inteiro.  




Estes momentos são propícios para mobilização das massas dos homens e mulheres que responderam aos ideais de amor e paz,  que foram lançadas pelos Mestres ancestrais desde o início da humanidade na Terra, seres iluminados como Lord Gautama Buda e Jesus Cristo. Nesta última solenidade do Wesak, eu particularmente não pedi nada pessoal aos divinos seres. Apenas compreensão internacional, interdependência econômica e unidade para a paz mundial. É o festival de Wesak.









terça-feira, 1 de maio de 2012

Encantos e Cantorias em Imbituba


Ainda hoje se pode ver pelas imensas dunas e restingas do litoral de Imbituba o famoso cipó imbé, como chamado pelos índios Carijós que habitaram aquele trecho por tempos imemoriais. Era o material básico na prática da pesca, a principal ocupação dos indígenas e também dos pioneiros açorianos, que aqui desembarcaram lá por 1720 e, embora a atividade tenha se tornado indústria de alta tecnologia, ainda é utilizado nas lidas artesanais, graças a sua surpreendente resistência, que pode durar cinquenta anos ou mais, mesmo submersos nas profundezas oceânicas. Além da utilidade nos serviços da pesca, pintam de verde o branco predominante nesta terra dos imbés em abundância, a nossa Imbituba. 



Não sabíamos nada disso quando embarcamos no ônibus, às 07:30 da manhã de domingo em Florianópolis, sob os primeiros frios do inverno. Assim como ainda não sabíamos das hospitalidades e amabilidades dos imbitubenses da Vila Nova, pequena comunidade que foi fundada muito antes de Imbituba, propriamente dita, por que seria ali a sede da missão religiosa que por lá chegou com o objetivo principal de catequizar os Carijós. Eram tempos ásperos aqueles de 1620 e os sacerdotes encarregados de implementar a missão foram expulsos por guerreiros portugueses e espanhóis, que não queriam ver seus virtuais futuros escravos sob a proteção papal. Assim, a Vila Nova voltou a ser apenas um território Carijó selvagem por mais cem anos, até a chegada dos açorianos.

Vila Nova de Imbituba. Onde chegaram os primeiros brancos, em 1620. 

Assim que chegamos, encontramos nos esperando as nossas amadas irmãs nativas da terra, Mada e Rosa. Tinham como presente para nós um docinho feito com farinha de mandioca e amendoim, com certo nome estranho e difícil de pronunciar, além do reconfortável café da manhã que a Paróquia de Santa Ana nos oferecia. De nossa parte, levamos também um presente para a Rosa, na figura do seu cambaleante, porém firme cravo, o Pedro, apoiado em sua bengala pós cirúrgica.  

E iniciamos as cantorias.




Leínha, emocionada com o próprio encanto.
Talvez fôssemos mil ou mais cantantes, entre sopranos, contraltos, tenores e baixos. Alguns grupos mais sofisticados ainda se davam ao luxo de apresentar vários solistas, além de especialistas mezzo-sopranos e barítonos, nas receitas de arranjos dos naipes de cantantes, que nos mostravam suas emoções sobre o pequeno palco formado no altar da igreja histórica.  Tecladistas e guitarristas vários acompanhavam os cantantes. Não raro, as mocinhas desciam do palco sob  a forte emoção do choro, visto que aos marmanjos esses arroubos são devidamente reprimidos, por não serem bem vistos pela moral coletiva ocidental machista, mesmo que algumas lágrimas furtivas insistissem na tarefa de molhar nossas faces levemente ruborizadas, preventivamente enxugadas às pressas, antes que a nossa realidade emocional interna fosse denunciada. 



Maestro Robson e algumas de suas centenas de cantantes.






A platéia se encantava a cada nova presença no palco-altar. 
No final da tarde, ouvi muitos moradores de Imbituba se perguntando, "será que o maestro Robson ainda vai se apresentar com algum de seus coros?". 
Eu, intrometido que sou, para variar, disse que "sim, ele ainda vai nos reunir para encerrar o Encontro". Então,  meus confidentes reafirmavam sua admiração: "ha, se é assim, não dá para ir embora, temos que esperar!".   Com a chegada da hora do ângelus, todos os corais presentes cantamos juntos a última canção. 
E o domingo musical de cantoria veio conosco, de volta, destinado a ficar gravado em nossa memória, tais quais as lembranças boas que embalam nossos sonhos na dura batalha do cotidiano de cada um. Até que um próximo encontro nos anime a repetir tudo de novo. 



sábado, 14 de abril de 2012

O melhor coral do planeta





A base da música ocidental, como a conhecemos hoje, foi consolidada no período Barroco,  que durou até o início do período Clássico, lá por 1700. A passagem de uma etapa à outra é bastante polêmica, mas, parece que a maioria dos especialistas defendem que este evento importante da história da música deu-se com o florescer da obra de Johann Sebastian Bach, considerado o primeiro clássico, embora muita gente o coloque na lista dos barrocos. Melhor dizer que com ele deu-se a transição. É autor de uma obra considerada básica, "O Cravo bem Temperado", composto com 24 peças entre prelúdios e fugas, onde ele cobre todo o quadro de tonalidades disponíveis. Ao longo da vida, Bach compôs mais de mil obras. Para se ter ideia da importância deste compositor, seu patrício Beethoven disse, em tom de piada séria, que ele deveria se chamar "oceano" e não "riacho", que é a tradução da palavra alemã bach.   . 



















A música de Bach vem sendo esmiuçada ao longo de mais de vinte anos pelo Coro Monteverdi, de Londres, considerado pela crítica como o melhor do mundo. Este coral rompe o paradigma do mundo da música, que é o de valorizar as orquestras. Quando uma determinada obra necessita vozes humanas, então a orquestra convoca um coro terceirizado para ajudá-la. Algumas sinfônicas e cameratas mais famosas possuem seu próprio coro, mas são raros, e, mesmo assim, tratam de deixar claro que os cantores não fazem parte da orquestra, tipo assim "Orquestra Sinfônica e seu coro".  Agora, com o Monteverdi Choir acontece o contrário. Quando ele se anuncia, as mídias de propaganda especificam "Coro Monteverdi e sua orquestra". Observem no primeiro vídeo que o coro está mais alto que a orquestra, de modo que o público pode vê-lo por inteiro, quando o usual no mundo muscal é o contrário. Bom para elevar a auto estima dos coralistas, não?  



O Monteverdi Choir consagrou-se cantando Bach

A experiência do Monteverdi é bem interessante. Primeiro, por que escolheram o nome de um compositor italiano, coisa rara em se tratando de britânicos, o que já demonstra sua visão global da música. Depois, pertence a uma universidade de grande prestígio na Inglaterra, o que lhe garante mão de obra farta e talentosa, além de apoio logístico e financeiro.   O coro principal vive viajando pelo mundo, por isso é enxuto o suficiente para buscar a excelência, senão a perfeição. No entanto, mantém programas de treinamento e vivências musicais abertas aos acadêmicos e à comunidade no entorno, como qualquer coral de universidade, inclusive as UDESC e UFSC daqui de Florianópolis.  Desse modo, o Monteverdi conta com capital intelectual e artístico imenso, formado por centenas de pessoas doidinhas para assumir o coro principal. Já pensou na grandiosidade da competição que se estabelece entre os candidatos?


Acompanhe o capítulo final de um especial da BBC sobre a obra de Bach, onde atua o nosso Monteverdi Choir. Felizmente, tem legendas em espanhol. 



sexta-feira, 6 de abril de 2012

Norwegian Wood

                    --- Ahhnnn, então você é brasileiro, heim?
                     --- Sim, sou do Brasil. Você já esteve no Brasil?
                       --- Não, não... Fora da Europa, eu só conheço os Estados Unidos.
                        --- Não tem vontade de conhecer um dia?
                          --- Não. O lugar que eu gostaria de conhecer é a Patagônia.




                  
Não faz nada bem para a auto estima nacional ouvir algo assim de um estrangeiro. Como pode alguém, aparentemente bem informado, dizer que prefere geleiras e vulcões, em vez das nossas praias ardentes de sol e mulheres bonitas? Mas, o diálogo existiu mesmo e foi travado numa cabine de navio. Meu interlocutor era um norueguês típico, loiro e forte, olhos azuis e inglês fluente. Antes que alguém imagine coisas, saibam que para mim não foi nada agradável encontrá-lo já instalado na cabine onde eu deveria passar a noite, durante o trajeto pelo mar do norte, entre Copenhaggen, na Dinamarca, e Oslo, na Noruega, viagem que dura umas dezoito horas de navegação. Tinha feito mil fantasias de encontrar uma loira viking, com quem teria quentíssimo afair sobre as ondas frias dos mares nórdicos, e me aparece aquela novidade. Este é o problema de viajar sozinho. Em vez de passar a noite numa agradável companhia feminina, me coube o constrangimento de dividir o espaço com aquela figura rara. Ele também não gostou muito da coincidência, pela cara de poucos amigos que fazia, enquanto balbuciava insistentemente a mesma frase "então, quer dizer que você é brasileiro, heim, ora veja só."  


Apesar da sua panca bem comportada, descobri mais tarde que seus concidadãos gostam mesmo é de uma boa sacanagem. Conversando com uma garota norueguesa, depois que desembarquei na linda capital do país, a gata estava com férias programadas para Recife, no mes de junho, e não acreditou quando eu lhe contei que nessa época fazia frio e havia neve na serra catarinense, onde eu disse que morava. Para eles, nós estamos eternamente na canção do Michel Teló, que, por acaso, está neste momento fazendo o maior sucesso por lá também. 

Voltando à nossa conversa naval, deixei o galego falando sozinho e fui passar a noite na boate do navio. Afinal, era minha primeira viagem num transatlântico e queria aproveitar ao máximo.  Quando me cansava da musica alta, ia para o convés admirar o sol da meia noite. Quanto mais perto do polo norte, mais o sol nunca se põe no verão. No máximo, fica na altura do horizonte, entre meia noite e tres da manhã, aproximadamente, horário em que sai da penumbra e começa de novo a singrar o céu.  Parece que o dia nunca mais vai virar noite, dá uma espécie de medo atávico e a pessoa desacostumada não consegue dormir direito. Você dorme, por que não aguenta mais ficar desperto e, quando acorda, continua sendo dia.  A sensação é estranhíssima!


Viajar em grupo ou em casal é a forma mais confortável de fazer turismo. No caso do casal, é uma aventura espetacular, aprofunda a relação e gera lembranças quase sempre agradáveis, a serem compartilhadas pelo resto da vida. No grupo, você não precisa se preocupar com nada, tudo já está providenciado pela companhia que organiza a viagem. Os hotéis já estão reservados, os passeios que você vai fazer já estão definidos, enfim, não há surpresas e, por este lado, é muito bom. No entanto, a sua liberdade é inexistente ou mínima. E você começa a se perguntar se vale a pena gastar tanto dinheiro para ficar ouvindo gente falar português. Pior ainda quando começam a ligar para suas respectivas casas, a perguntar pela saúde do  cachorro, se a criança já tomou banho ou até para pedir ao filho orientações sobre o funcionamento da filmadora. É de matar! .




Nada que se compare a uma viagem sozinho, numa terra e língua estranhas, onde você tem que se virar por conta própria, desde alimentação até sexo, se for o caso. Talvez o ideal fosse juntar as duas coisas, digo, viajar em casal, mas ter cada qual sua liberdade pessoal. Um amigo me disse que com ele era assim. A mulher ficava no hotel e não se importava se ele passasse a noite inteira fora. Não havia cara feia ou perguntas, quando ele regressava. Disse ele que experimentava mil aventuras eróticas, mesmo quando viajava com a esposa. Bem, na verdade, esse sujeito era magro, alto, bonito e meio gay. Eu, de minha parte, não tenho nenhum destes predicados atendidos, por isso, tenho que batalhar cada momento; e não pense que brasileiros são bem recebidos, por serem simpáticos e bem falantes, como nós mesmos nos achamos. Isso é mito. De forma geral, latino americanos não são bem vindos, nem nos países latinos, quanto mais nos anglo saxões, eslavos e escandinavos. Já passei por situações onde entrei num bar e pedi uma cerveja, sendo praticamente expulso pela garçonete, sob o argumento que não havia a bebida, quando ao meu lado um barulhento grupo de norte americanos bebiam à vontade.  Coisas da vida e da sina de ser pobre. Mas, não vai ser isso que vai nos afastar da grande aventura de correr o mundo, ora, não vai mesmo!  Ainda este ano, quero fazer uma experiência diferente: conhecer a Itália com uma namorada brasileira, porém, dentro de uma excursão espanhola. Só falta encontrar a namorada!






domingo, 1 de abril de 2012

loucos de cara




Certa madrugada eu estava no Bar Brahma, famoso ponto boêmio da noite paulistana, na esquina mística de Ipiranga com São João, quando entrou um grupo de jovens, todos vestidos de preto, sentaram-se numa mesa e ficaram em silêncio, caras de monges budistas, todos lindíssimos, principalmente a garota loira que pediu os vinhos brancos que tomaram, pagando sozinha a conta com um cartão de crédito, coisa rara na época. Depois sairam, sabe-se lá para onde, provavelmente para continuar a noitada. Nada de "rua augusta a 120 por hora" ou "pode vir quente que eu estou fervendo". Nada disso. Aquela turminha da pesada pegava firme, mas suas drogas eram apaziguantes, pela aparência zen que todos apresentavam, qual artistas de cinema. Naquela noite aprendi mais uma lição e entendi a canção do Caetano Veloso: "como são lindos os burgueses".

Sérgio Dias foi um desses burgueses loucos de cara, compositor de canções lendárias, como "2001" e "Ando Meio Desligado", e que nos deixou órfãos de pai vivo, quando ele se abandonou do meio artístico antes dos 30  anos de idade, corroído pelas drogas e álcool. Sérgio, felizmente, foi salvo por ter literalmente "pirado", passando quase quarenta anos sob tratamento pesado, às vezes internado em hospícios e clínicas psiquiátricas. Foi o primeiro namorado de Rita Lee, a "mais completa tradução de São Paulo", segundo o louvado compositor baiano já citado. Sérgio e Rita montaram uma das bandas mais representativas do rock brasileiro, os Mutantes, pioneiros a pressentirem os novos tempos do som universal, que seriam posteriormente popularizados pelos rock progressivos como Pink Froid. Misturavam sons de catira e viola caipira com acordes dissonantes, fora do padrão temperado da música bem comportada.


Naqueles anos loucos, estava em destaque a competição entre dois monstros sagrados do rock and roll, The Beatles, na Inglaterra, e The Beach Boys, na Califórnia. Como todos sabemos, este estilo musical nasceu pobre, nas plantações de algodão do delta do Rio Mississipi, sul dos Estados Unidos. Foi um dos tres herdeiros dos cantos negros religiosos, conhecidos como Spirituals, para diferenciá-los dos hinos cristãos respeitáveis, feitos por brancos europeus. Pois os Spirituals invadiram as zonas de prostituição de Nova Órleans, na foz do Mississipi, e se tranformaram em blues e jazz. O rock permaneceu caipira, na zona rural, até ser descoberto na década de 1950. Estourou no mundo todo, principalmente a partir das canções do pop-star Elvis Presley, transformando-se no mega negócio que é hoje. Então, de fato, Beach Boys e Beatles faziam parte do mesmo negócio, mas, devido a intensa competição entre seus países, se colocaram como adversários no mundo do show business. Tremendo azar dos norte americanos, quando os Beatles lançaram em 1968 o seu mais espetacular álbum, uma maravilha chamada "Banda do Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta". Os Beach Boys se preparavam para dar a resposta, mas, seu líder  foi à pique. As drogas pesadas o fizeram "pirar", tal qual o brasileiro Sérgio Dias. Resultado: os Beach Boys sairam do mapa. E da competição.

Na disputa surda entre John Lennon e Brian Wilson, os Beatles lançaram uma homenagem à União Soviética, em contra partida à canção mais popular dos Beach Boys, a famosa "Surfing in USA". Os cabeludos ingleses lançaram "Back in USSR". Hoje parece cômico, mas, naqueles anos da guerra fria, imagine o impacto deste combate!





   
Nós brasileiros assistimos de longe este desafio, pois estávamos isolados do mundo dito civilizado.  Uma ditadura militar estúpida não deixava entrar nada diferente do trivial. Só fomos conhecer Jimmy Hendrix muito tempo depois que ele já tinha partido para a outra esfera. Janis Joplin esteve no Brasil, tomou cachaça e fumou maconha na Barra da Tijuca, e nós nem ficamos sabendo, pois a moça não era exemplo para a nossa juventude e foi devidamente censurada a sua honrosa visita. Mas, as rádios costumavam tocar os dois grupos roqueiros de quem falamos, muito mais os Beatles, claro, por razões de preferência das gravadoras. Até por que dos Beach Boys não se esperava mais nada. Uma coisa posso garantir: seu vocal era o melhor de todos. As letras nem tanto. Prefiro um maluco brasileiro, que pode ser até mais jovem que o Sérgio Dias. Sempre teremos "loucos de cara" para suprir nossa sede musical.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Brasileiros não são benvindos

Eu e minha companheira passeávamos de carro pelo interior da Espanha em 2001. 
Abandonamos a caríssima estrada pedagiada, de onde não se via nada a não ser os carros te ultrapassando a duzentos por hora, e preferimos seguir por umas estradinhas do interior, apreciando a paisagem, parando nas vilas que outrora fizeram parte da velha colônia romana de Valentia, fundada antes da era cristã, assim como a vizinha Barcino, atual Barcelona.

Se achávamos alguma cidadezinha simpática, buscávamos um hotelzinho e lá ficávamos dois ou tres dias, convivendo com a vida simples do povo rural, frequentando suas tabernas, comendo seus pratos típicos e, principalmente, provando de seus vinhos. Nesta região, a atração principal são os estupendos espumantes, de nome cave, talvez por serem envelhecidos em túneis subterrâneos, como os franceses, aliás.  A primeira coisa que fazíamos numa parada era visitar os super mercados e adquirir os que nos pareciam melhores, todos a preços de banana, brasileira, claro, por que as bananas espanholas (africanas) são caríssimas. 

De repente, na beira do asfalto, um velhinho nos acena com o sinal inconfundível de "carona". Instintivamente eu paro o carro e o velho entra, já falando no dialeto valenciano, quando eu lhe interrompo e informo no meu castelhano macarrônico que não entendemos sua língua, pois somos brasileños.

--- Brasileiros? Como? Seu carro tem placas de Madrid!
--- O senhor já ouviu falar em carro alugado?
--- Haaaannnn! E alugam carros para brasileiros?
--- Se pagar adiantado, eles alugam até para marcianos.
--- Eu pensei que brasileiros eram todos pretos e catavam lixo.

Vários preconceitos e ofensas numa só frase. Arrependi-me da boa ação, ainda mais que tivemos que suportar a tagarelice do idoso senhor até a próxima cidadezinha. Ele contou muitas histórias, todas terríveis, o que me vez acreditar tratar-se francamente de um Franquista, com perdão da evidência evidente.

Estou cansado de ver brasileiros serem destratados no exterior. A Espanha, país à beira da falência, esqueceu que passava fome até 1960, sob as botas do regime Franquista, que fazia o país crescer igual cola de caballo, quer dizer, para trás e para baixo. Mesmo assim, se dá ao luxo de barrar cidadãos latino americanos em seu aeroporto principal, como se lá fôssemos roubar suas migalhas. Dizem que é para proteger seu mercado de trabalho, que apresenta  fantástico desempenho, com mais de 20% de desempregados. 


E não é só a antiga Hispânia, mas, toda a Europa. Em Londres, noutra ocasião,  também me deram um chá de cadeira de duas horas. Ficaram repetindo as mesmas perguntas, para ver se eu entrava em contradição. Quando finalmente me dispensaram, um outro funcionário estranhou que eu havia desembarcado de um vôo vindo de Copenhaggen. 

"Fui lá visitar minha irmã", eu disse, enquanto o oficial se ajeitou na cadeira para continuar: "Então, quer dizer que tens parentes na Dinamarca. Tens parentes aqui também? Quem está te esperando do lado de fora?", e começou tudo de novo. Numa sala ao lado eu via vários latino americanos com jeitão de índio,  lendo um grosso manual, em Inglês. Era o regulamento do serviço de imigração, sobre o qual eles fariam perguntas mais tarde àqueles pobres seres humanos. Será que vale a pena levar nosso rico dinheirinho para países assim, que nos recebem como bandidos? Eu adorei quando a Polícia Federal deteve aquele piloto mal educado, da American Air Lines, quando ele reclamou com gestos obscenos, obrigado à mesma revista que os norte americanos fazem em nossos cidadãos. Isso devemos ao Lula. Pelo menos nenhum de seus ministros tirou os sapatos para passar na aduana americana.  



Eu entraria por Lisboa, se fosse de novo à Europa. Mesmo que sejam mal educados, como todos os funcionários de aduanas, pelo menos eles falam algo parecido com a nossa língua e, se não nos tratam como iguais, respeitam como assemelhados. Porém, mesmo entrando pela porta amiga de Portugal, estamos sujeitos a todo tipo de risco. Em 2008, fomos num grupo grande, 100 pessoas entre cantores e acompanhantes do coral representando a arquidiocese de Floripa, cantar em várias Basílicas Católicas de Portugal, Espanha e França. Entramos por Lisboa, porém, quando desembarcamos em Madrid na continuidade da viagem, o carimbador de passaportes quis nos fazer enfrentar de novo a imigração. Nosso guia uruguaio tentava de todos os modos se fazer entender, o que só foi possível quando a guia portuguesa, que já nos esperava com seus ônibus, no lado de fora do aeroporto, foi chamada para prestar socorro e subiu nas tamancas contra os funcionários.

--- Vocês estão nesta porra de comunidade européia? Sim ou não, caralho? Se estão, tratem de seguir as leis. Ou vocês vão querer que eu lhes explique?  

Não sei se os funcionários espanhóis nos liberaram, por que entenderam o recado da  portuguesa ou se ficaram com medo dela. 


Para terminar com uma pergunta: por que fazemos todos esses sacrifícios? Não seria melhor ir para Miami fazer compras? Pode até ser, nossa questão é que lá não vamos encontrar essa cultura antiga e sempre renovada. 





quinta-feira, 22 de março de 2012

Tragédia anunciada

Cada vez que se aproximava a época de seu compromisso no oeste, aquele meu amigo de botequim  vinha me pedir ajuda para a passagem de ônibus. Tudo por que, certa ocasião, eu lhe repassei uma passagem que ganhei do TRE-SC, por conta da minha convocação para o serviço de apuração eletrônica das eleições no interior do estado. Fomos de carro num grupinho, de modo que sobrou a passagem de ônibus.  Depois de muitos meses, talvez anos, eu lhe perguntei os motivos que o levavam a ter que se apresentar rotineiramente naquela  Comarca.

 --- "Foi pobrema de revólver ...."

Assim, curto e grosso. Eu não perguntei mais nada, mas, fiquei imaginando o tipo de pobrema que ele tinha arranjado, ou provocado, sei lá...  De vez em quando era comum aparecer no Campeche algum sujeito de jeitão estranho, assim como o deste rapaz. Gente desgarrada, que tinha vindo provavelmente fugido de alguma coisa ruim, mas sempre à procura de serviço e encosto. Este do revórver acabou  se encostando com uma nativa da terra, filha de pescador, gente boa e ingênua. Ele trabalhava aqui e ali, fazia uns biscates na construção civil ou limpava terrenos, essas coisas. Rapidamente começou a fazer filhos na jovem campechana e, assim que ganhou a confiança da família da moça, foi buscar um garoto que tinha ficado com a avó lá no oeste. O piá não tinha mais que cinco anos de idade. Era moreno, quase negro, mas de cabelos pretos escorridos, como o pai, velho gaudério sem eira nem beira, que tinha encontrado asilo nestes interiores da Ilha de Santa Catarina, terra amável e hospitaleira. O guri  logo se integrou com os manezinhos e foi crescendo.  

Mudei-me daquele local e não voltei ao bar. De vez em quando, via de longe o gaudério das passagens de ônibus, mas nunca mais falei com ele. Até que, há questão de dias, entrei numa loja de eletro domésticos e o guarda me cumprimentou "Como vai, seu doutor?". Surpreso, reconheci o mesmo personagem, agora num uniforme, atuando como segurança da loja. "Olá, amigo, há quanto tempo...", cumprimentei-o e fiquei batendo papo, já que ele havia me reconhecido. Conversa daqui, papo dali, e, lembrando do piá, eu lhe pergunto "E o seu filho que veio lá do oeste, como vai ?". O constrangimento foi grande, pois eis que o meu antigo jovem amigo, agora já um senhor de meia idade, não conseguiu esconder as lágrimas. Eu quis me desculpar e não sabia se dava tchau ou esperava ele parar de chorar, até que ele soltou o verbo.

--- "Não repare, doutor, mas é que não consigo segurar a tristeza. Ele já tinha até parado com as drogas, por que eu consegui um internamento pra ele lá na serra, ficou seis meses, trabalhava na roça, voltou com as mãos calejadas. Mas, por azar, a velha turma foi atrás dele. Não tenho certeza, mas, pode até ser que tenha tido alguma recaída e voltou a cheirar, de modo que pode ter ficado devendo grana pros demonhos. Foi achado dentro de uma vala lá pros lados de Palhoça, com duas balas na cabeça."



Eu também senti uma imensa tristeza por aquela tragédia inesperada. 
Não consegui falar nada,   fiquei apenas em silêncio,   até que ele me trouxe de volta à realidade: "Mas, ele me deixou um netinho, que eu mais a minha véia estamos criando".  Agora mesmo é que eu não sabia se o animava pro futuro ou se chorava eu. 
Será que este mundo seguirá eternamente sua rotina de carmas que não têm fim ??? 

    

domingo, 18 de março de 2012

Breguices, sim ou não.

A nossa Floripa velha de guerra faz aniversário esta semana. Por conta disso a prefeitura promove várias atividades de entretenimento para o povo, entre elas muitas apresentações teatrais e musicais, envolvendo corais e grupos artísticos da cidade, mesclados com atrações nacionais. Uma delas será um show com o premiado Lenine, porém, o que todo mundo comenta são duas apresentações de música dita sertaneja, mas que de caipira não têm nada, o cantor Daniel e a dupla Vitor e Léo. Desde algum tempo atrás vem sendo discutida publicamente uma questão levantada pelo colunista Cacau Menezes, o mais lido do estado, sobre mudanças que ocorreram no gosto musical da cidade. Antes, Floripa era considerada uma cidade roqueira, por ser habitada sobretudo por jovens, aqui nascidos ou migrados de várias partes do Brasil, entre eles muitos estudantes e surfistas. Mais recentemente, sofreu grande influência da música campeira gauchesca, também por conta da intensa migração que trouxe gente do interior  e do estado vizinho. A par do sucesso popular dos vaneirões e chamamés, os locais de divertimento passaram a ofertar também o que se auto denomina "sertanejo universitário", uma agressão artística e acadêmica, numa só adjetivação. Na verdade é a mesma música brega dos antigos Odair José, Agnaldo Timóteo, Vanderlei Cardoso e outros menos votados, só que travestida de roupagem moderna, no vestir e no falar, trazendo temas bem pouco inocentes, na verdade carregados de erotismo ou grande dramaticidade.     

As opiniões ficaram divididas. Gente contra a nova moda, que acha o estilo brega apenas devaneio comercial que cai fácil no gosto do povão, por isso mesmo é o preferido da indústria de entretenimento. E também gente a favor, considerando que gosto não se discute e quem estiver incomodado que se mude ou mude de canal. O problema é que não existe alternativa para os que não gostam, uma vez que o estilo  tomou conta de tudo e o rock and roll e a MPB desapareceram de cena.Certamente voltarão um dia, por que a arte muito comercial se caracteriza por ser de consumo expresso e tende a durar pouco na linha do tempo histórico. Uma ópera de Verdi será para sempre, mas o "Ai, se eu te pego" daqui a pouco passa. 

Na verdade esta polêmica sempre existiu. Já houve implicação com a guitarra elétrica, que Gil e Caetano introduziram em suas músicas, vencedoras de grandes festivais, devidamente e integralmente vaiadas pelos puristas. Um pouco antes, a Jovem Guarda já havia provocado calafrios na intelectualidade militante, que a considerava alienada e brega demais. Nem tanto. Roberto Carlos, o eterno rei das canções melosas e românticas, também produziu obras primas, bem recebidas pelo setor popular tanto quanto no meio sofisticado. Algumas de suas canções foram assumidas por grandes astros do mundo urbano, legítimos representantes das classes que habitam os andares superiores do edifício social. 

Vejam o que a "musa da bossa nova" fez com uma das canções do "rei": 


O próprio Roberto daria uma lição de ecologia e preservação ambiental, muito antes de virar moda.


Pra variar, muita gente acha que essas canções são exceções que confirmam a regra, por que foram na verdade feitas pelo outro Carlos, o "amigo irmão camarada" Erasmo. Bem, se ele próprio não reclama ou bota a boca no trombone, que poderemos fazer a não ser aplaudir? 

E aproveitar a diversão garantida !





sábado, 17 de março de 2012

Igreja Progressista

Nunca mais se ouviu falar na Igreja Progressista, aquela parte do Catolicismo que tentava recuperar o caráter transformador da primitiva seita cristã, subjugada e costumeiramente massacrada por Roma, até que quatro séculos depois o Império se viu ante a iminente hecatombe social e, numa jogada de mestre, acabou com a liberdade religiosa e adotou o culto do povão bárbaro como sendo seu, o que lhe deu mais duzentos anos de sobrevivência. Ao ser oficializado como "estatal", o cristianismo desenvolveu o conjunto de dogmas e paramentos que teve seu resplendor na idade média, com seus Papas indicados por reis, príncipes Arcebispos e sacerdotes isolados em monastérios.  A partir dos anos 1950, mas, principalmente nos 60 e 70, uma parte importante da Igreja achou que lhe cabia o papel de militante político, a serviço da elevação do padrão social dos miseráveis, contra, portanto, o status quo vigente nos sistemas de produção e governo do mundo cristão.  Essa visão de mundo foi particularmente facilitada durante o mandato de João XXIII, que no seu curto pontificado de cinco anos transformou completamente o catolicismo, coroando com chave de ouro sua carreira eclesiástica de enorme sucesso, sendo inclusive núncio apostólico em vários países, destacando-se nos dois últimos, Turquia e França, antes de transformar-se no Patriarca de Veneza; naqueles dois locais o diplomata do Vaticano teve atuação brilhante, ora ajudando os judeus perseguidos pelo nazismo, ora atuando em favor do apaziguamento dos ódios remanescentes contra militares alemães presos na França, após a reconquista do território pelos Aliados. Com tais antecedentes ecumênicos, só podia mesmo ser o papa da liberdade e da transformação, que causou grande alvoroço nas hostes conservadoras quando promoveu o concílio Vaticano II, gerando o revolucionário conjunto de orientações estratégicas ao clero católico, que passou a influenciar sua atuação pelos próximos 15 anos, até ser propositalmente "esquecido" pelo Papa João Paulo II em 1978, o responsável pelo retorno da igreja Católica às posições conservadoras dos dias atuais.  

Durante o período que a Igreja Progressista tinha liberdade de ação, muitos sacerdotes adotaram posturas políticas influenciadas pela esquerda, particularmente na América Latina, destacando-se o Brasil, onde líderes como dom Helder Câmara causavam mal estar na cúpula romana, ao aliar-se abertamente com as forças que combatiam a ditadura militar. Durante os anos mais trágicos do regime que sobreveio do golpe de estado de 1964, a Igreja Católica foi uma das poucas instituições que prestava algum abrigo aos perseguidos políticos, através de organizações como a Pastoral Operária, Conselho Indigenista Missionário, Grito da Terra e outros movimentos de caráter contestatório. Foi notória a participação de alguns sacerdotes na ajuda à luta armada de caráter comunista, como no caso dos frades Franciscanos de São Paulo, apanhados pela espionagem da repressão ajudando a organização clandestina de Carlos Marighela. Presos e torturados barbaramente, eles acabaram entregando um ponto marcado para futuro encontro com o líder guerrilheiro, que foi morto naquele ponto do centro de São Paulo. Os sacerdotes envolvidos foram  todos levados para o exílio, após intervenção da diplomacia do Vaticano. Alguns deles morreram em consequência das torturas físicas e morais sofridas, mas, muitos continuam ativos entre nós, atuando como professores e até empresários. Um deles, Frei Beto, chegou a ser assessor especial da Presidência durante parte do mandato de Lula, depois deixou o governo por conta própria, tornou-se confessor de certa elite paulistana, onde oficiou o casamento do empresário Ricardo "virando a própria mesa" Semler. Outro que sobreviveu aos infortúnios do período repressivo é o professor da Unicamp, Roberto Romano, que frequentemente está em debates sobre ética e filosofia na televisão brasileira.

Porém, nada se compara aos sacerdotes que se envolveram diretamente na luta armada, como no caso de outros países do continente, destacando-se o pequenino país da América Central que há décadas sofria sob a ditadura dos Somoza, patrocinada pelos Estados Unidos. Vários padres lutaram no exército da Frente Sandinista de Libertação Nacional da Nicarágua, à exemplo do cura Gaspar Garcia Laviana, a quem foi dedicada esta canção.

domingo, 11 de março de 2012

O Fim do Mundo



"Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar..." 
(Assis Valente, 1938)



Será que o mundo vai mesmo acabar em dezembro de 2012? Não agüento mais receber mensagens explicando tudo tin-tin por tin-tin, dando as razões mitológicas, científicas e históricas da tal profecia maia. De minha parte, tenho certeza de que o mundo vai se acabar um dia, até por que nada é eterno no universo, exceto ele mesmo, movido pela energia universal, completamente fora do nosso alcance racional, ou seja, o próprio Deus. Fora disso, tudo acaba. Até os melhores casamentos...  Se fosse possível prever o futuro sob razoáveis perspectivas históricas, o mundo não seria essa catedral babilônica, onde ninguém se entende. Isso valeria também para o caso de Deus ser o protetor onipresente, que todos crêem estar do seu lado e a seu serviço. Pelo andar da carruagem, Deus não está nem aí para o que rola ou deixa de acontecer no mundo real, por isso se diz que os propósitos divinos são mistérios para o ser humano.   






Não apenas os propósitos divinos, mas tudo o que diz respeito a Ele, dado que os humanos adoram  vários deuses, segundo cada necessidade e conveniência momentânea, ao longo das eras. Há profecias para tudo e crenças as mais variadas, de acordo com cada uma das várias concepções religiosas, cada qual reivindicando para si a verdade verdadeira. Isso já deu muita tragédia na forma de guerras e horrores variados. Só para lembrar, as Cruzadas cristãs da idade média achavam que tinham a missão de resgatar da mão dos árabes pecadores a terra santa onde Jesus viveu, resultando disso a narrativa de que, terminada a conquista, na cidade de Jerusalém o sangue corria pelas ruas, feito enxurrada. Os missionários cristãos, católicos e protestantes de várias tendências,  saem desesperados pelo mundo a converterem o que se lhes atravesse na frente, por isso já ajudaram na destruição de muitas culturas primitivas, tal qual as de várias tribos de indígenas brasileiros, sob o argumento de que tais comunidades professam ritos diabólicos, que devem ser substituídos por aqueles legitimamente autorizados por deus, ou seja, o deles próprios.  





E assim vai: no campo dos teosóficos, supostamente mais recatados, há também previsões para todos os gostos. Há uma que também profetiza o fim do mundo, que se daria quando se completasse a formação e passagem pela terra de sua sétima raça. E para que o indivíduo não fique perdido no tempo, a profecia já agrega a informação de que estamos na quinta raça, portanto, só faltam mais duas. Dentro da mesma doutrina codificada por madame Bravatski no final dos anos 1800, vários segmentos contam tempos diferentes para cada raça, uns calculam 40 mil anos e outros chegam a 100 mil, o que daria para a terra no máximo mais uns 200 mil anos. 









Nossa, ainda vamos ter que agüentar tudo isso? Não é tempo demais, não? Por isso, muita gente prefere ficar com o calendário maia. Menos algumas pessoas especiais, como a presidenta Dilma e o presidente Obama, que estão seriamente pensando estender seus mandatos mais uns quatro anos, pelo menos.   



sexta-feira, 9 de março de 2012

Conservatória, onde os grilos são astros.


O grande apelo turístico do Brasil são as praias. Claro que a Amazônia e outras belezas naturais também atraem turistas, mas não se compara com o fascínio exercido pelo litoral. As únicas montanhas apreciadas pelos turistas são o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor, de preferência admiradas a partir das areias das praias que estão visíveis desses dois pontos, Copacabana, Ipanema, Leblon, etc. Por isso, a Serra Fluminense não é tão conhecida, exceto por alguns nichos muito específicos, os amantes da natureza, por exemplo, que vão passar seu tempo de folga nas imediações de Visconde de Mauá e Itatiaia, na Serra da Mantiqueira. Também é bastante comum que as famílias da classe media alta carioca tenham suas chácaras e casas de montanha nas cidades de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, mais perto da cidade do Rio de Janeiro e oferecendo maior conforto e variedade para o consumo desse público mais interno (se bem que, ultimamente, essas cidades encontram-se em certa decadência, devido às várias enchentes sofridas pela região nos últimos anos). Por isso foi com surpresa que os integrantes do Coral Eletrosul receberam a sugestão vinda de um colega, para que participássemos do festival de coros programado para a cidade de Valença, aliás, para ser mais exato, no seu distrito chamado Conservatória, situado a 600 metros de altitude, numa região de serra no estado do Rio de Janeiro.  

Conservatória, distrito de Valença (RJ)


Saindo de Volta Redonda, às margens da Via Dutra, pega-se uma estrada tranquila e agradável, que vai até o entroncamento de outra grande estrada, ligando Belo Horizonte ao Rio, nas cercanias de Petrópolis. Ao longo do trecho de aproximadamente 150 km, estão as terras férteis que receberam as primeiras lavouras de café no país, ciclo econômico do qual herdaram grandes e imponentes fazendas, em meio a ondulação de montanhas que variam de 500 a 1500 metros de altitude, revezando paisagens bucólicas e cidades históricas. As cachoeiras e corredeiras para esportes radicais, também se revezam com rios tranquilos e limpos, bons de banho e pescaria. A população local junta a simplicidade e a ingenuidade dos mineiros, com a alegria e a musicalidade dos cariocas. Da mesma forma, a gastronomia atende aos dois apelos, o caipira e o afro-brasileiro. As excelentes cachaças da região abrem o apetite para os pratos típicos da cozinha mineira, embora estejamos do lado de cá da fronteira com Minas Gerais.

Estive uma única vez em Conservatória, na década de 1990, levado não pela fama de seresteira que a cidade ostenta, mas, atraído pela tragédia que se abateu sobre sua artista maior, a cantora, compositora e instrumentista Rosinha de Valença, que teve um acidente vascular e ficou em estado vegetativo por longos 12 anos, até morrer em 2004.  Eu pretendia visitá-la no hospital, para se ver o tanto que eu gostava daquela  pessoa, mas, o único contacto que obtive foi conversar rapidamente com o irmão dela, que me informou da proibição de visitas, algo mais que compreensível. Emocionado até as lágrimas, ele disse que o único que entrava em seu quarto e passava horas tocando violão para ela (como se ela pudesse ouvir), era o seu discípulo Raphael Rabello, um rapaz que ficou pouco tempo entre nós, mas, na sua curta passagem foi um dos mais geniais violonistas da música brasileira. Eu, volta e meia, me pergunto a deus  por que estranhas razões certos artistas sensíveis e inspirados, como esses dois,  se vão tão cedo para a outra dimensão, enquanto facínoras e estúpidos duram tanto nesta terra.

Rosinha de Valença teve fama internacional, em várias tournés à volta do planeta, incluindo mais de cinquenta países. Fora os Estados Unidos, onde  protagonizou sucesso espetacular com a banda Sergio Mendes e Brasil 66.  Depois que se consolidou artística e economicamente, voltou à sua Valença, de onde saia apenas para visitar amigos e matar as saudades do Rio de Janeiro, além de ocasiões especiais, como a tourné que fez junto com o grande multi-instrumentista Sivuca. No mesmo ano de sua morte, sua amiga Maria Betânia juntou vários artistas do círculo de amigos que dividia com Rosinha, gravando um álbum em sua homenagem, onde estão algumas de suas obras primas, uma delas cantada pela própria Betânia. O  violão que ornamenta a voz angélica de Maria Betânia é de Turíbio Santos.



Outro que participou do álbum foi Chico Buarque, em dueto com sua sobrinha Bebel, a filha de João Gilberto e Miúcha.
















sábado, 3 de março de 2012

Neves e Vulcões

Videiras Torrontés, especialidade de Salta.












Deu na televisão a morte de um brasileiro que tentava escalar um vulcão no Chile. Mais um, infelizmente. Quantos jovens brasileiros já se foram nessas aventuras que nos são estranhas, visto que não temos neves nem vulcões... Por que não vão cruzar o deserto, mais ao norte? Por que não vão assistir às  Peñas de folclore chileno em Santiago, onde pontificam las cuecas, que nada têm a ver com a vestimenta interior dos homens, senão com o ritmo festivo daquele país apertado entre os Andes e o Pacífico, apenas e tão somente alguns duzentos quilômetros de largura.  Nada disso! O que move a juventude é o desafio! É uma pena, sem ñ, por que não é fácil repor um engenheiro da Petrobrás, muito embora qualquer vida, pelo simples fato de existir, seja perda irreparável.


Há alguns anos atrás encontrei-me com um desses petroleiros andantes, num ride que eu fazia pelos interior da província de Salta, na Argentina. Ele estava na mesma excursão ao deserto de Cafayate, ao lado das vinhas de um dos melhores vinhos branco do mundo, o Torrontés. Esse vinho foi desenvolvido na França, porém não deu certo por lá, só vindo a florescer nestes vales secos e gelados da província de Salta. É levemente gaseificado, como o vinho verde português.

Voltando ao nosso assunto, eu conversava animadamente com todos os demais integrantes do passeio, cidadãos de diversas nacionalidades, tentando todos nós falarmos a língua castelhana, para divertimento da índiazinha guia que nos acompanhava. De repente, numa parada, se aproxima de mim um casal, uma bela loira falando espanhol e um rapaz que fala perfeito  português, com sotaque nordestino: "Tú é de onde?"  Eu me surpreendi: "Ora, viva, um brasileiro!" . Então ele me contou que eles passam 15 dias trabalhando embarcados numa plataforma petrolífera, depois têm 15 dias de folga. O que fazer com tanto tempo livre?  Alguns acham que é interessante conhecer lugares estranhos, como o deserto de Cafayate ou o Vulcão de Villarica, ambos lugares totalmente fora dos roteiros turísticos normais. 

Eu também prefiro esses destinos, ao invés dos tradicionais Buenos Aires (para compras), Miami (para compras) e Nova Yorque (para compras). E quem não quer comprar nada, como é que fica? 
"Haaa, aí tem Paris e Londres", me responde um agente de turismo. OK, eu não quero fazer compras, mas também não sou milionário...  Alguém já viu algum pacote turístico para Salta ou Paraguai? (Não confundir com Foz do Iguaçu, para mais compras).  Por isso admiro essa gente que aproveita seus quinze dias de folga para conhecer algo diferente. 

Confrontei a foto do rapaz que morreu na escalada do vulcão. Não me pareceu que fosse a pessoa que eu conheci naquele passeio pelo deserto andino, a dois mil metros de altitude no norte da Argentina.