terça-feira, 22 de março de 2016

Luzes do Cedro Baixo de Brusque - "A ÚLTIMA CEIA"


A antiga localidade Cedro Baixo de Brusque (1880), atualmente é chamada Dom Joaquim, em homenagem ao arcebispo metropolitano de origem portuguesa, que ficou à frente da principal arquidiocese de Santa Catarina por longos 54 anos, entre 1914 e 1967, ano em que faleceu na cidade de Florianópolis. Em Cedro Baixo existe um grupo espiritualista que se reúne a cada 14 dias, para estudar e praticar aspectos múltiplos da religiosidade humana. No último encontro, o tema escolhido foi uma das obras primas de Leonardo da Vinci, o afresco denominado A ÚLTIMA CEIA. 




Leonardo nasceu numa pequena aldeia rural (Vinci), situada entre Florença e Pisa, no norte da Itália. Apesar da origem, teve uma formação clássica, graças à visão progressista de seu pai. Dominou amplas áreas do conhecimento, como anatomia, engenharia, matemática, música, história, arquitetura, escultura e pintura. Em 1469, aos 17 anos, o artista vai para Florença, o centro artístico por excelência da Itália renascentista. Ali passa 13 anos de sua juventude, aprendendo tudo sobre arte com os renomados mestres de Florença. Em 1482, aos 30 anos de idade, segue para Milão, aceitando ficar sob a proteção de um nobre local, Duque Sforza. Para o monastério mantido por este nobre é que Da Vinci executa a obra A ÚLTIMA CEIA, pintada na parede da sala de refeições dos monges.  

Significado astrológico da Última Ceia


O primeiro aspecto que se observa na obra, é o agrupamento dos apóstolos em quatro grupos de três. Uma primeira interpretação evidente é que o significado da vida está vinculado à eterna submissão da realidade passageira,  para com os aspectos do eterno e perene: as quatro estações (primavera, verão, outono, inverno) e os quatro elementos naturais (água, ar, fogo e terra). Em seguida se observa que os apóstolos estão agrupados seis à direita e seis à esquerda de Jesus. Este aspecto leva a uma concepção zodiacal da obra, com os signos representados pela aparência e postura dos personagens, assim como pela concepção de que os signos dos que estão à direita, são o lado contrário e antagônico dos que estão à esquerda de Jesus. Obter o equilíbrio entre os dois lados é a missão do aprendizado nesta passagem terrena.  Da direita (lado visual e claro) para a esquerda (lado escuro e inconsciente), vamos observando os signos e seus representantes. Para isso, vamos nos valer da interpretação do astrólogo Pedro Tornaghi e seu livro "Leonardo Astrólogo". 



ÁRIES – APÓSTOLO SIMÃO
Simão tem uma expressão muito enérgica e firme, olha nos olhos de Judas Tadeu. E Áries gosta de falar olhando no olho do outro. As duas mãos decididas para frente do apóstolo sugerem que ele é possuidor de dons próprios, indicando algo que deve ser feito. Já o fato de ele estar sentado na cabeceira, mostra a liderança ariana, além de impulsividade.
TOURO – APÓSTOLO JUDAS TADEU
Judas Tadeu está em uma posição receptiva. O pescoço para a direita mostra que ele está ouvindo as ideias e, ao mesmo tempo, questionando a praticidade e viabilidade do que Simão propõe. A união de receptividade e desconfiança formam a típica postura pragmática do taurino: dificuldade de aceitar fantasias e disciplina para ouvir as ideias. 
GÊMEOS – APÓSTOLO MATEUS
O rosto para um lado e os braços para o outro no quadro, mostra um lado disperso e indefinido, que é característico de Gêmeos. Ele está comunicando duas realidades diferentes: “Gêmeos tem esta multifacetação, cede um pouco a cada um dos lados. Ele tem essa capacidade de dar atenção a dois ao mesmo tempo. Uma sensibilidade, curiosidade e agilidade mental.” 
CÂNCER – APÓSTOLO FÍLIPE
Fílipe está virado na direção de Cristo com olhar suplicante. Quer sensibilizar e envolver os outros sempre. As duas mãos voltadas para o próprio peito mostra a tendência de introversão de Câncer. O apóstolo está mostrando quanto o sentimento é importante para ele, algo primordial ao canceriano. 
LEÃO – APÓSTOLO TIAGO MENOR
Esse apóstolo abre os braços em expansão, como raios, combinando assim com Leão, que é regido pelo sol. Ele está expandindo a energia dele, advogando que Jesus seja o centro da cena. Tiago Menor se mostra profundamente indignado com a traição, porque Leão não consegue viver na desordem.
VIRGEM – APÓSTOLO TOMÉ
Tomé levanta o próprio dedo para Jesus. Virgem gosta de criticar, opinar e sugerir, é muito perfeccionista. Para ele, a expressão extremamente atenta do apóstolo mostra a tendência virginiana de buscar a melhor solução possível. 
LIBRA – APÓSTOLO JOÃO
João tem os dedos entrelaçados numa postura meditativa no quadro. Mostra a tendência de Libra de querer meditar sobre a situação e se posicionar assertivamente, é o oposto de Áries. O apóstolo busca esfriar o calor das emoções para considerar melhor o assunto em questão. 
ESCORPIÃO – APÓSTOLO JUDAS ISCARIOTES
Judas Iscariotes olha pra Cristo desafiadoramente, se recolhe ao silêncio. Uma estratégia tipicamente escorpiana. Como um vulcão, parece calmo, por fora, mas por dentro é intenso. Judas, na pintura está quieto, mas pronto para dar o bote quando for necessário.
SAGITÁRIO – APÓSTOLO PEDRO
O símbolo de Sagitário é um centauro, metade humano, metade animal. A parte animalesca do signo está em Pedro na faca que o apóstolo esconde. Ele está escondendo seu instinto animal. Enquanto isso, a outra mão dele está apontando para o divino. Pedro tem uma postura professoral. Quer dizer para os outros como deve agir, que caminhos o outro deve seguir, comportamento característico de Sagitário. 
CAPRICÓRNIO – APÓSTOLO ANDRÉ
Ele está com a típica postura de cautela de Capricórnio, como quem diz: ‘Vamos refletir’, ‘Vamos tentar ser Maduros’”. A postura do apóstolo é a mais vertical de todas, o que mostra como o signo busca a responsabilização por tudo. 
AQUÁRIO – APÓSTOLO TIAGO MAIOR
Tiago Maior está conspirando no ouvido de André, inflamando os outros para fazer a revolução. Na pintura ele também está tocando Pedro, querendo juntar os dois para uma ação em comum, mas ao mesmo tempo sendo discreto. “Aquarianos são os mais revolucionários, mas buscam a discrição.” 
PEIXES – APÓSTOLO BARTOLOMEU
Apesar de estar no canto escuro da tela, Bartolomeu tem os pés iluminados. Além disso, o apóstolo está de pé porque quer ver a cena de cima. “Não se posiciona com relação ao que está acontecendo. Bartolomeu está só contemplando, parece só querer entender tudo”.

Significado esotérico da Última Ceia

Para abordar este aspecto desta específica obra de Da Vinci, usamos como referência um estudo feito pela corrente teosófica chamada Gnosis,  no campo de pesquisas que eles chamam "antropologia gnóstica". 



Jesus está rodeado por seus 12 Apóstolos. São o Sol e seus 12 Planetas. Sim, nosso Sistema Solar possui 12 planetas, três dos quais ainda não foram descobertos pela ciência acadêmica, segundo o pensamento gnóstico. Estes planetas ainda ocultos seriam: Vulcano, Perséfone e Clarión. Atenção materialistas, estes planetas ocultos podem ser apenas objetos mantidos na quarta dimensão ou superiores, não identificáveis pela nossa vã percepção física da terceira dimensão. Quem sabe sejam coisas como o mundo dos mortos, o inferno ou o purgatório ? Há mais mistérios entre a terra e o ar, do que os simples aviões de carreira. 
Ao lado direito de Jesus (à nossa esquerda), um personagem feminino se destaca.  Seria João, o discípulo amado de Jesus, ou uma mulher, Maria Madalena, sua esposa-sacerdotisa(?).  Observe que esta mulher possui expressões típicas do pudor feminino, ela estaria usando uma corrente de ouro no pescoço e afasta-se de Jesus com uma coqueteria feminina, incontestável.
A figura feminina e Jesus usam o chamado “efeito espelhado”: Jesus está usando túnica vermelha e manto azul. E Madalena, túnica azul e manto vermelho. O “espelho” simboliza a entrada para uma realidade oculta. Um crítico de arte verá que os grupos formados por Jesus e Madalena, pelo afastamento de Madalena, formam um M no centro do Quadro.   O M foi um código muito usado pelos Templários e sobre o qual existe controvérsia: M, símbolo da Constelação de Virgo, pode ser também o M de Madalena, venerada pelos Templários? Ou seria o Eterno Feminino de Deus, nossa Mãe Divina?   No afresco de Da Vinci, aparece uma “mão anômala” fazendo o “gesto ou dedo de João” (o Batista), tão caro a Jesus. Apesar de ser a cena do Sacramento Mágico da Eucaristia, não há vinho ou pão na mesa posta por Da Vinci (o pão estaria reduzido a migalhas). Na verdade, Da Vinci representou os 12 Trabalhos de Hércules, que são os passos iniciáticos necessários para encarnarmos o Cristo Interior. Essas 12 faculdades superiores de nosso Ser Divino são representadas na tradição cristã-gnóstica como os 12 apóstolos, mas podem ser vistas também nos 12 Cavaleiros da Távola Redonda.

Outro aspecto interessantes da obra de Da Vinci é sua contradição com o que representava a catedral de Notre Dame, em Paris, que teria sido concebida pelos maçons quatro séculos antes, com a intenção de elogiar o passado. Aqui, Da Vinci focaria no futuro da humanidade,  como representado na figura do Apóstolo João, tão feminino quanto masculino, os cabelos iguais aos de Jesus, significando que o crescimento espiritual não tem sexo nem idade. 

Percebe-se ao fundo da pintura, três janelas abertas. Representariam a santíssima trindade, da qual Jesus seria o componente do meio, o mais importante para o homens,  por que representaria a porta de passagem para uma nova realidade, entre o mundo físico e o espiritual. Também se notam quatro janelas fechadas a cada lado da sala. À esquerda estão as janelas escuras, representando o aspecto inconsciente da vivência humana, a ignorância. À direita estão as janelas claras, que representam a consciência, que deve ser iluminada pela presença de Jesus na vida das pessoas. Aqui, Jesus não é o salvador da humanidade pelo seu sangue derramado, mas, o personagem clarificante de uma realidade até então inconsciente, desconhecida do ser humano em sua caminhada pela vida. Neste sentido é que Leonardo assume a presença de Jesus, como o mestre iluminador das consciências. 

A morte de Leonardo da Vinci



Leonardo da Vinci sempre viveu entre Milão e Florença, em conformidade com os patrocínios que recebia dos nobres ricos da região. Em 1513 foi convidado para viver no Vaticano, em Roma, ao lado de artistas como Rafael e Michelângelo. A partir de 1516, já considerado um ancião para a época, aos 64 anos foi convidado pelo rei da França, para fazer algumas obras de sua especial preferência artística, a escultura. Tornou-se grande amigo do rei, e segundo consta a crônica mundana da época, tornaram-se amantes. A bissexualidade de Leonardo já era então bastante conhecida. Por conveniência ou não, aceitou a oferta do rei para fixar-se no Vale de Loire, onde lhe foi destinado um castelo em Amboise, para abrigar ele e seus discípulos italianos, entre os quais consta a presença de Catarina de Médici, da família dos papas tradicionais neste período. Ali morreu Da Vinci, nos braços do rei Francisco I, no ano de 1519, aos 67 anos de idade.   








segunda-feira, 21 de março de 2016

Luzes do Cedro Baixo de Brusque

O Cedro sempre foi considerado uma árvore sagrada

Até a década de 1950, a atual localidade chamada Dom Joaquim, em Brusque, tinha o nome de CEDRO BAIXO, devido a grande quantidade deste arvoredo em sua mata ao redor. Os primeiros a se fixarem na localidade, por volta de 1880, foram imigrantes alemães, a maioria professantes da fé Luterana. Os descendentes de alemães ainda predominam na área, embora a religiosidade da população local tenha se transformado numa grande salada ecumênica, como atestam as várias igrejas e templos ali existentes.  A inspiração inicial do então abundante CEDRO, símbolo oficial da cidade de Brusque,  continua dando seus frutos, embora a árvore propriamente dita já esteja quase extinta na região. 

O Cedro é uma árvore mundialmente conhecida, em suas diversas variedades, e está associada intimamente com a prática da religiosidade. Na Bíblia dos judeus e cristãos, o cedro está citado 75 vezes. No campo muçulmano, o Cedro também é sagrado para muitos praticantes, sendo a árvore símbolo do Líbano, que a produz em grande quantidade.  A sua madeira, homogênea e aromática, foi bastante utilizada na antiguidade. Pelos Fenícios, para construir as suas embarcações militares e comerciais, bem como para a construção de templos e habitação. Os Egípcios utilizavam a sua resina na prática da mumificaçãoHá vestígios da sua serragem até nos túmulos dos Faraós. Papiros antigos comprovam a sua grande comercialização entre Líbano e Egito.


Moisés aconselhava os sacerdotes judaicos a utilizarem cascas de Cedro durante a circuncisão dos meninos e no tratamento de doenças da pele. De acordo com o livro sagrado Talmude, os Judeus queimavam madeira de cedro no Monte das Oliveiras para anunciar o início do ano novo. Vários reis da região do Oriente Médio o procuravam nas montanhas do Líbano,  para as suas construções civis ou religiosas,  sendo o caso mais famoso o da construção do Templo de Salomão, em Jerusalém. 


Réplica artística do que teria sido o Templo de Salomão original.
A madeira de cedro revestia o teto e as paredes internas.





quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O CATOLICISMO É DIFERENTE


Quando chegam na Porta Santa da Catedral de Compostela,
as peregrinas estão bem cansadas e merecem um momento de repouso. 

Vale dos Caídos, homenagem do ditador Franco a seus soldados mortos na guerra.


Quando vejo os pastores protestantes do ramo dos pentecostais reverberando suas mensagens de condenação e salvamento, lembro dos rituais da umbanda. Ambos são baseados na catarse. É um estado de alma que se altera unicamente pela emoção do momento. Alguns crentes podem dizer que é pela energia que circula no ambiente. São apenas variações em torno da mesma coisa !
Os demais protestantes do ramo tradicional, são tão chatos que as pessoas dormem nos cultos. Não que eles sejam ruins. As palestras dos pastores, sempre elegantes e falando uma linguagem educada, podem até trazer brilhantes mensagens aos seguidores, mas, infelizmente são desprovidos da mesma alegria e movimento da macumba e dos êxtases e "aleluias".  
Já as missas católicas se aproximam da primeira classe, baseada na emoção. Primeiro pela extrema beleza de seus templos e da  ritualística das missas. As cidades históricas de Minas Gerais não seriam nada sem seus templos católicos. Quando todos os sinos de todas as igrejas de São João del Rei, por exemplo, tocam ao mesmo tempo numa manhã de domingo, cada qual com seu ritmo e altura típicos, a cidade se transforma numa chama sonora, que a todos ilumina, independente de serem ou não católicos praticantes.
Mas, mesmo dentro do catolicismo, há diferenças de rituais marcantemente opostas. Eu já vi dezenas desses templos famosos da Europa, tanto como visitante comum, quanto como participante de um coral católico que excursionou por lá. Percebi que uma espécie de ideologia suporta os estilos diferentes dos templos. Fátima é conservadora, Pilar de Zaragoza é alegre e extrovertida. As igrejas da França são formais e austeras, como a Notre Dame de Paris, ou jovens e esportivas como a catedral de Chartres, todas com seus vitrais maravilhosos, uma características das catedrais francesas. Mas, a principal diferença está entre Compostela e Vale dos Caídos, ambas na Espanha.

Vitrais de Notre Dame
Vitrais de Chartres


Catedral de Santiago de Compostela

Catedral do Vale dos Caídos

Compostela é uma cidade onde supostamente o apóstolo São Tiago teria sido sepultado, depois de percorrer a Europa pregando o cristianismo. Vale dos Caídos é um monumento com o qual o ditador Francisco Franco procurou homenagear seus soldados mortos na guerra civil. Na base da montanha onde estão enterrados seus milhares de corpos, encontra-se uma basílica toda construída em pedras, retiradas da própria montanha. Na verdade, ela está incrustada na própria rocha. Um projeto belíssimo, mas a catedral é toda fechada em cores escuras. A energia que circula no ambiente é extremamente pesada.
Enquanto em Compostela, na missa de domingo meio dia, destinada a receber os peregrinos, a alegria é a energia dominante, e seu idoso bispo de longos cabelos brancos sai da missa dançando, acompanhado por uma legião de crianças, do outro lado, no Vale dos Caídos, o silêncio é total, e só se ouve a voz uníssona e sepulcral do oficiante, a dirigir a cerimônia. No palco de Compostela, padres do mundo inteiro celebram a alegria em várias cores. Padres negros africanos vestem suas roupas coloridas, enquanto os espanhóis, mais conservadores, vestem batinas de extremo bom gosto em tons brancos e vermelhos. Vi até um padre japonês pintado de loiro. Já no Vale dos Caídos, os padres vestem apenas negro, enquanto os coroinhas meninos respondem a cantos em latim e vestem cinza.
A presença de mulheres também é outro diferencial muito interessante. Em Compostela, as meninas entram na catedral de bermudas ou shortinhos, quando não com suas vestimentas de peregrinas, alegres e risonhas com seus cajados para lá serem deixados, enquanto no Vale dos Caídos as poucas mulheres vão cobertas de preto, dos pés à cabeça, ornamentadas com seus chales e véus.
Que tipo de igreja católica você teria preferido ?
Grande abraço e desculpe, caso alguém tenha se ofendido com os comentários !





terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

MEMÓRIA HIPPIE - ÍCONES INVERTIDOS



JOÃO SANTANA, O MARQUETEIRO DO MAL

João Santana era um músico e poeta hippie em Salvador (BA). Também ajudava os jornais nanicos que combatiam a ditadura. Até que, quando chegou na virada do milênio, resolveu mudar sua vida e começar a ganhar dinheiro. Entrou para o ramo da publicidade, trabalhando com o premiado Nizan Guanaes. Ali descobriu que o tesouro estava nas campanhas políticas e passou a trabalhar com Duda Mendonça. Aproximou-se do PT na campanha vitoriosa de 2002, cujo marqueteiro era justamente Duda Mendonça. Dali pra frente, foi só correr para os abraços ! E os dólares !  

Nos dias de hoje, depois de conquistar o sonhado status de milionário, comporta-se conforme o esperado. Quer acumular mais poder e mais dinheiro. Foi além da função de marqueteiro e tornou-se conselheiro profissional na política petista comanda por Lula. Está sempre à disposição do partido, além de ajudá-lo nas campanhas, tanto no próprio Brasil quanto no exterior, trabalhando em campanhas de políticos afinados com Lula. Comandou a vitória de Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo e perdeu a campanha do sucessor de Cristina Kirchner na Argentina. Em ambas, colocou Lula no centro do palco. Para o bem ou para o mal.  Agora, quando estava em campanha novamente para renovar o mandato do corrupto presidente de El Salvador,  eis que a justiça brasileira descobre suas ligações com a corrupção nos contratos da Petrobrás, em operações mais que complicadas. Tanto recebia dinheiro ilícito em contas no exterior, quanto mandava de volta ao Brasil, para abastecer o caixa dois do PT. 

Triste fim para um sujeito que pregava apenas o lema hippie "faça amor, não faça guerra".  João Santana, sob o apelido Patinhas, participou da gravação do álbum Jóia, de Caetano Veloso, em 1975.




ÍCONES INVERTIDOS. A SUÁSTICA
Símbolo do horror e da boa sorte - Veja a diferença
A palavra vem do sânscrito "svastika", que significa "condutora do bem-estar". Conhecida como símbolo de boa sorte pela maioria das culturas, a suástica ornamentava as moedas da Mesopotâmia 3 mil anos antes de Cristo e também aparecia na arte de povos como os bizantinos e os primeiros cristãos. Os índios maias, da América Central, e os navajos, da América do Norte, também a retrataram - e ainda hoje ela continua a ser usada como símbolo de fortuna pelos hindus. Quem trouxe a suástica como um símbolo místico para o ocidente, foi Madame Blavatsky, que a descobriu no Tibete. Esta suástica "do bem" gira para a direita.
Já o símbolo nazista gira para a esquerda. Foi Heinrich Himmler, o supremo comandante do exército e da polícia política nazista, quem idealizou este símbolo invertido. Ao girar para a esquerda, ela sinaliza o mundo das sombras, o trabalho dos "anjos caídos", ou seja, os satânicos. Himmler se alicerçava no misticismo para reafirmar os propósitos de poder sem limites e de supremacia da raça ariana. Esta raça também foi definida por Madame Blavatsky, que a descreveu como os que conseguiram se salvar da destruição de Atlântida, migrando para as partes altas situadas ao pé da cordilheira de Himalaia, onde fundaram o Tibete, antes de se espalharem para a Europa. Este estudo é confundido por muitos defensores da supremacia racial, talvez de propósito. Mas é algo que Blavatsky nunca defendeu.









domingo, 31 de janeiro de 2016

MEMÓRIA HIPPIE - América Latina atávica e profunda




SALTA - das cidades tranquilas se pode ver a cordilheira

LA NOCHERA - zamba argentino

Houve um tempo em que todos os países do Cone Sul, nossos vizinhos, estavam submetidos a tenebrosas ditaduras militares. A primeira foi a do Brasil (1964), seguida por Uruguai, Chile e a última, Argentina (1976). O Paraguai e Bolívia sempre foram ditaduras. O sufoco era grande, não havia liberdade para nada e o seu próprio vizinho poderia ser seu delator de coisa nenhuma, por que não se necessitava motivo para prender um cidadão, submetê-lo a todo tipo de humilhação e violência, e até tirar-lhe a vida, se o indivíduo que estivesse na posse transitória do seu corpo indefeso assim o desejasse. No caso do sujeito ser acusado de crime mais grave, como pertencer a algum grupo guerrilheiro, por exemplo, ou simplesmente ajudá-los financeiramente ou estruturalmente, as torturas poderiam ser insuportáveis e muita gente morreu sob elas, em todos os países do sub continente, inclusive no Brasil.

Por essa época, uma parte da juventude mais descolada, saia a percorrer as trilhas do interior do continente, onde não havia nada, a não ser memórias de outros tempos. Foi assim que um grupo de hippies argentinos, fugindo da violência em Buenos Aires, fundaram a aldeia de El Bolson, uns cem quilômetros abaixo de Bariloche, incrustada num vale no meio dos Andes, na altura do equivalente chileno de Chiloé, outro refúgio famoso. Ao norte, entre Argentina, Chile e Bolívia, a província de Salta era um dos roteiros preferidos dos brasileiros, por que reunia também vários jovens europeus e norte americanos, todos em busca do deserto de Atacama, cujo acesso pelo oeste se dá cruzando a fronteira em Salta.
Noventa e nove por cento da populacão de Salta é descendente de índios. Vinte e cinco por cento ainda vivem em tribos, falando exclusivamente a língua nativa. Aqui, na solidão entre o deserto e as geleiras eternas, criou-se um estilo de canção triste, la Zamba. Os compositores brancos, descendentes de espanhóis, Jaime Dàvalos e Ernesto Cabezas, ambos da cidade de Salta, foram os autores de uma das canções mais emblemáticas para descrever o estado de solidão e as memórias de tempos idos, universalmente quase sempre felizes. Justamente por que já passados. O que nos causa apreensão é o futuro. O passado, quase sempre, é apaziguante.
Aqui vamos ouvir uma versão feita pelo autor da letra e sua própria filha. Trata-se de uma versão preciosa e histórica, embora mais triste que o usual.








terça-feira, 26 de janeiro de 2016

LUGARES IMPROVÁVEIS - Curitiba e a 34ª Oficina de Música




Não fosse pelo sol escaldante à pino, Curitiba teria sido neste janeiro um verdadeiro paraíso. Ruas tranquilas, quase sem engarrafamentos, parques e praças de padrão europeu, limpos e bem cuidados, gente educada nos teatros e restaurantes, enfim, a turba estava toda de férias nas praias, enquanto os músicos, arranjadores, compositores e estudantes, montavam um cenário cultural e artístico dos mais importantes na América Latina. Sopros, cordas e metais dedicados à 34ª OFICINA DE MÚSICA, que se realiza entre 07 e 27 de janeiro de 2016. 

Curitiba desde há muito tempo pratica a arte musical erudita, como poucas cidades brasileiras. À esta modalidade, vieram juntar-se brasileiros e estrangeiros que admiram ou praticam a música popular brasileira, como o samba, o chorinho, a valsa, a bossa nova e a música caipira, assim como experimentações de novos sons e tecnologias. Até o velho e bom rock-and-roll teve seu espaço.  Dos 113 professores que ministraram cursos e oficinas ao longo do festival, numa passada de olhos eu, que sou leigo no assunto, identifiquei algumas das figuras emblemáticas do cenário musical popular brasileiro, Sergio Valdeos, violonista peruano; Roberto Correa, violeiro; Paula Santoro, cantora, atriz e produtora; Paulo Belinati, violonista; entre outros.  

Cheguei à cidade na sexta feira 22,  à noite, e já vi um show fantástico com dois violões, o de Paulo Belinati e o de Marco Pereira.  São simplesmente dois monstros sagrados entre os principais instrumentistas brasileiros. Milhares de jovens estudantes aprendiam e aplaudiam na platéia.



Sábado, era dia de rock, estranhamente com o sol de meio dia queimando o palco na Boca Maldita, como convém a este estilo musical. A Banda Gentileza continuou apresentando estranhamentos, com um repertório inteligente e audível. Rapazes jovens e talentosos, bem educados e bons músicos, quase não combinando com a tribo que ali estava para esperar a apresentação dos velhinhos da Blindagem,  a épica banda do Paulo "chutes de poeta não levam perigo à meta" Leminski, cujo crooner foi Ivo Rodrigues, o "lobo da estepe". Ambos morreram de cirrose, para mostrar que não pegavam leve de jeito nenhum.   





Na noite do sábado, veríamos algo muito raro. Um quarteto camerístico só de violões, o Quarteto Maogani. Eles tocaram canções autorais variadas do quarteto e outras do disco Canela, que gravaram no Peru com o cantor Renato Braz, um intérprete único, de primeira linha. 



Agora, me diz, por que não se faz algo assim em Floripa? Das três capitais do sul, a nossa é a mais desprovida de atividades culturais. Será por que Curitiba e Porto Alegre possuem duas grandes Universidades e vários conglomerados educacionais ?  A nossa capital também tem duas grandes, UFSC e UDESC, além de várias fundações e entidades privadas como Unisul, Univale, Colégio Catarinense, etc., todas de grande importância e inserção social. Será por que Curitiba teria gestores melhores que os nossos? O atual prefeito de Curitiba é do PDT, que, assim como o PSD de Raimundão e Cezinha, estão na base aliada do PT federal. 

Será, então, que os políticos de Curitiba são mais cultos? E por isso dariam maior apoio para projetos culturais não comerciais? Aqui no estado também temos uma secretaria e um conselho estadual de cultura, que selecionam projetos a serem apoiados pelo setor público. Se usam estes recursos para patrocinar corridas de patinete, é por que se sentem à vontade, sem pressão da sociedade. Os políticos de Curitiba não são especialmente interessados em arte, por que isso não dá voto, nem lá, tampouco cá. O que acontece é que Curitiba foi capaz de criar pressão sobre os políticos que comandam o Estado e suas verbas, através de uma opinião pública atuante, politizada e organizada.    
  
Antes de pagar 300 reais ou mais para assistir um show de grandes artistas nacionais, pense que você poderia ver algo semelhante ou até superior, pagando a micharia de 10 reais, como eu paguei em Curitiba. 

domingo, 17 de janeiro de 2016

MEMÓRIA HIPPIE - Jokerman


Em 1984 os Estados Unidos passavam por uma fase ruim. Ronald Reagan era o presidente. Apesar de ele próprio ser pai de um filho gay, os homossexuais nunca foram tão perseguidos na América do Norte. As liberdades democráticas eram completamente ignoradas no país da liberdade. Do ouro lado do Atlântico, Margaret Thatcher fazia com Reagan a dupla de área que defendia o time do atraso.

Era a ressaca dos anos gloriosos da luta contra a guerra do Vietnam, que mobilizou a juventude nos anos 60 e 70.  Não para Bob Dylan, que foi ao principal programa da TV norte americana lançar ao vivo seu espetacular sucesso chamado Jokerman, um verdadeiro desafio ao presidente Reagan.

Caso não saibam, Jokerman é o nome do personagem Coringa, bandido ardiloso que tentava acabar com os heróis Batman e Robin.



Sobre as águas, jogando seu pão,
Enquanto os olhos do ídolo, com a cabeça de ferro, estão brilhando.
Barcos distantes rumo à bruma seguem seus cursos,
Você nasceu com uma cobra em seus pulsos, enquanto um furacão estava soprando
Liberdade logo ao virar a esquina para você
Mas, com a confiança tão longe, de que servirá?

Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.

O sol põe-se tão velozmente no céu,
Você se levanta e diz adeus para ninguém.
Tolos correm para lugares onde anjos temem pôr seus pés,
O futuro dos dois, tão cheios de temor, você não tem nenhum.
Mudando mais uma camada de pele,
Mantendo-se a um passo a frente do perseguidor dentro de você.

Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.

Você é um homem das montanhas, você pode andar nas nuvens,
Manipulador de multidões, você distorce sonhos.
Você irá para Sodoma e Gomorra,
Mas o que te importa? Lá ninguém vai querer casar com a
sua irmã. Amigo do mártir, um amigo da mulher que causa vergonha,
Você olha dentro da fornalha escaldante, vê um homem rico sem nome.

Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.

Bem, o Livro do Livítico e Deuteronômio,
A lei da selva e do mar são seus únicos professores.
Na fumaça do crepúsculo sobre um corcel lácteo,
Michelangelo realmente poderia ter esculpido sua feição.
Repousando nos prados, longe do espaço turbulento,
Meio adormecido perto das estrelas, com um pequeno cachorro lambendo seu rosto.

Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.

Bem, o fuzileiro aproxima-se silenciosamente dos doentes e aleijados,
O pregador busca o mesmo, quem chegará lá primeiro é incerto.
Cassetetes e canhões de água, gás lacrimejante, cadeados,
Coquetéis molotov e pedras atrás de cada cortina,
Juízes pérfidos morrendo nas teias que eles mesmos tecem,
É só uma questão de tempo até que a noite se instale.

Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.

É um mundo sombrio, céus são escorregadiamente cinzentos,
Uma mulher acabou de dar à luz a um príncipe hoje e o vestiu de escarlate.
Ele irá pôr o padre no bolso, pôr a lâmina para aquecer,
Tirem as crianças sem mães da rua
E coloquem-nas aos pés de uma meretriz.
Oh, Curinga, você sabe o que ele quer,
Oh, Curinga, você não demonstra nenhuma reação.

Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Floripa velha de guerra



O Palácio Cruz e Souza tornou-se residência oficial do assassino Moreira Cezar


No ano de 1894, a capital de Santa Catarina passou por um banho de sangue, por que ousou apoiar os Maragatos gaúchos, que haviam se revoltado contra o governo tirano de Floriano Peixoto. No dizer do jornalista Duarte Schutel, "encheu-se de presos tudo que se podia servir de prisão". A cadeia propriamente dita, mais a câmara de vereadores, o quartel central da polícia, o teatro Álvaro de Carvalho e a Fortaleza de Anhatomirim. A tortura era utilizada como meio trivial de interrogatório. Os condenados sem sentença nem julgamento foram escolhidos à dedo, para servirem de exemplo de como a República pune com rigor os que se lhe ousam fazer confronto. Muitos inocentes foram fuzilados, degolados ou enforcados, calculando-se entre 185 e 220 os executados na Ilha de Anhatomirim. Pais eram obrigados a assistir o fuzilamento dos filhos, outros tinham que enterrar em covas rasas seus parentes e conhecidos, antes de eles próprios serem mortos. 

Para coroar o escárnio, o governador Hercílio Luz, que perdera vários parentes e amigos entre os executados, decretou a mudança do nome da capital do estado, de Nossa Senhora do Desterro para FLORIANÓPOLIS, uma homenagem ao "marechal de ferro" Floriano Peixoto.  Como se vê, o atual Raimundo Colombo não está inovando, ao puxar o saco dos chefões federais do PT. 

Quis o destino que o coronel Moreira César, autor da carnificina, tivesse pouco tempo a celebrar seu feito nas rodas do Rio de Janeiro. Enviado dois anos depois a combater os revoltosos de Canudos, foi morto por uma bala certeira cabocla, durante a segunda tentativa do exército em tomar o baluarte de Antonio Conselheiro, no sertão da Bahia. 

Florianópolis continua tendo o nome oficial de seu algoz, mas, nenhum logradouro na capital ostenta este nome sangrento, nenhuma praça, nenhuma rua ou avenida, nenhum prédio sequer. Por outro lado, a cidade está cheia de homenagens às vítimas: Gama D'eça, Pinto da Luz, Caldeira de Andrada, Batovi, etc.  É estranho que o poder político não tenha providenciado a mudança de nome da capital.  Talvez seja a síndrome de Hercílio Luz, ou o medo de não agradar aos poderosos. Apesar disso, o povo se encarregou de mudar na prática e, nas conversas internas, poucos cidadãos se referem à cidade pelo seu nome oficial. Instituiu-se o simpático "Floripa", que acabou sendo "oficializado informalmente" pelo resto do Brasil. 



Eu, o autor dessas mal tecladas linhas, vim parar em Floripa no ano de 1979. Larguei de mão um par de boas propostas para trabalhar em São Paulo. Não me arrependo. Aqui passei os melhores momentos da minha vida. Incríveis manhãs de domingo na praia de Ingleses, da qual voltava em 20 minutos até minha casa no Saco dos Limões, onde preparava o almoço sorvendo uma boa caipira de cachaça artesanal, produzida no Engenho do Joca, Sertão do Peri. As praias do sul da ilha, incluindo as inacessíveis Lagoinha do Leste e Naufragados, exigiam uma visita de dia inteiro. Deslumbrantes almoços tipo festivais artísticos no Bar do Arante, Pântano do Sul, coroavam nossa aventura por este território não imaginado. 




domingo, 10 de janeiro de 2016

MEMÓRIA HIPPIE - Jimmy Webb, o gênio da música, poesia e orquestração


Mac Arthur Park em 1950.
Uma área verde no centro de Los Ângeles,
serviu de inspiração para a canção de Jimmy Webb  em 1967.

Mesmo que a maioria das canções norte americanas sejam as mais consumidas, isso não significa que são as melhores, senão que são as mais bem vendidas, do ponto de vista do marketing. Se eu coloco uma música como tema de um filme famoso, se a programo como trilha sonora importante da novela das nove horas, se encho as lojas de discos com este produto ou artista, parece certo que esse produto vai vender mais. Não por que seja melhor, mas, por que foi melhor trabalhado em termos mercadológicos. Em se tratando da força do mercado norte americano, qualquer margem extra conseguida nos demais países já passa a ser apenas um agregado, um lucro a mais, enquanto uma canção brasileira, por exemplo, vai encontrar muito mais dificuldades de competir dentro do nosso próprio país, imaginemos então a dificuldade de acessar mercados externos. Além da barreira comercial, outros fatores culturais vão dificultar o acesso a esses mercados, a começar pela língua. Mas, ainda assim, não são poucos os produtos que ultrapassam as barreiras e chegam ao mercado externo, como aconteceu com o movimento da bossa nova, um estilo brasileiro que continua a fazer sucesso no mundo inteiro e particularmente nos Estados Unidos, o país do Jazz, ritmo no qual se inspirou a bossa nova.
Ainda assim, é possível avaliar-se o produto musical com critérios bastante técnicos, o suficiente para distinguir o bom do ruim. Dou um exemplo: no ano de 1968 houve um festival internacional da canção, promovido pela Rede Globo. Na fase nacional, duas canções chegaram à grande final. Uma, altamente sofisticada, escrita por dois mestres, um da música propriamente dita, Tom Jobim, outro o seu parceiro Chico Buarque, um notório escritor de letras primorosas. A canção dos dois, chamada Sabiá, ganhou o prêmio do juri. Tratava-se de um poema sobre o exílio, musicalizado e arranjado de forma brilhante. Ao ser apresentada como vencedora, esta canção foi vaiada no ginásio Maracanazinho durante todo o tempo de sua apresentação, por uma orquestra sinfônica, e cantada pelas irmãs Cinara e Cibele, numa apresentação de nível excelente. A outra canção que com ela foi à final era uma guarânia no melhor estilo chorão paraguaio, puxada por um violãozinho muito sem vergonha, tocado pelo seu compositor e cantor. O público a amou e ela foi o maior sucesso comercial do ano de 1968. Até hoje é aclamada pelo grande público. Seu nome: "Caminhando (pra não dizer que não falei das flores)" e seu cantor-compositor era Geraldo Vandré. O que quero dizer com isso? Que "quem sabe faz a hora e não espera acontecer?". Não, rsrsrs. Na verdade, a questão do sucesso comercial depende de muitas variáveis e tem pouco vínculo com a qualidade.
No caso da música norte americana, além das facilidades de apoio estrutural providas pela tremenda vantagem comercial do país, eles possuem verdadeira qualidade, derivada de sua vasta diversidade cultural, pois o país, tal qual o Brasil, é um dos mais miscigenados do mundo, um conclave de todas as raças e das principais tendências culturas do planeta. Já é meio caminho andado, né?
Nesta edição da MEMÓRIA HIPPIE, vamos apresentar um artista norte americano de primeira grandeza, que soube como ninguém usufruir da infra estrutura proporcionada por sua indústria, mas agregou a ela o componente fundamental da qualidade. Foi um verdadeiro ícone do século passado, o único artista a ganhar tres prêmios Grammy's em tres áreas diferentes, orquestração, poesia e música. Trata-se de um rapaz simples, nascido no centro geográfico do interior do país, Oklahoma, aclamado como um dos mais brilhantes artistas da música popular norte americana. Apresento-lhes Jimmy Webb, o gênio da música, poesia e orquestração.
A canção, "McCarthur Park", é uma verdadeira obra prima composta em 1967 para o grupo The Association, que se assustou com o tamanho da canção e abandonou o projeto, originalmente pensado como uma opereta de 20 minutos de duração, completamente inviável do ponto de vista comercial. Foi a oportunidade de ouro que o ator Richard Harris aproveitou para se eternizar, assumindo a tarefa de enquadrá-la nos sete minutos atuais, amparados pela majestade da Orquestra Sinfônica de Londres.