- Camille Saint-Saens
(1835-1921)
Camille Saint-Saens was born in Paris and brought up by his mother. He began music lessons early and by the age of three had already composed his first piano piece. From the age of seven he took composition lessons and soon gained a reputation in Paris as a child prodigy. In 1846, aged 11, he gave a recital of Mozart and Beethoven piano concertos; for an encore he offered to play any one of the Beethoven piano sonatas from memory.He entered the Paris Conservatoire in 1848 and over the next five years his dazzling gifts won both the friendship and patronage of composers such as Rossini, Gounod, Liszt, and Berlioz. His mentors feared only that his chameleon-like ability to absorb information and musical styles, while in one sense an advantage, might inhibit originality of expression in his own compositions.The 1860s were probably the most contented and stable years of Saint-Saens's life. During this time he quickly acquired a formidable reputation as a composer and a virtuoso pianist. In 1868 his Piano concerto No. 2, written m just 17 days, received warm praise from Liszt. He went on to produce a total of five concertos for piano, ranging in mood from the graceful, capricious, and lyrical, to the heroic and, in the case of No. 4 — untypically for Saint-Saens - the tragic.At the Ecole Niedermeyer between 1861 and 1865, in Samt-Saens's only professional teaching appointment, his pupils included the composer Gabriel Faure, who became a close friend. In 1871 Saint-Saens co-founded the Societe Nationale de Musique, an institution designed to promote the works of French composers. The Societe gave important premieres of works by Debussy, Ravel, Saint-Saens himself, and many others. In 1875 he married a young woman half his age, but the union lasted less than six years, probably due in part to Saint-Saens's highly-strung temperament and the couple's frustrated desire to start a family (two children died in infancy).The 1870s and 1880s saw the composition of some of Saint-Saens's best and most characteristic works, including the opera Samson et Dalila (1 877), the Symphony No. 3 ("The organ"), and in 1886 Le carnaval des animals (The carnivalof the animals). The last consists of musical portraits of various animals — including such species as "Fossils" and "Pianists", among the more conventional animals, such as the famous "Swan" music for cello. The carnival of the animals was written as a private joke: Saint-Saens did not allow a performance during his lifetime. It is ironic that this piece more than any other has secured his fame in the present day.Saint-Saens spent his final years travelling in Europe and the United States. On his death in 1921 he left a body of music that revealed a passion for order, clarity, and precision, as well as an always attractive - and very French - melodic charm.
Fragmento do encontro de corais na Catedral Metropolitana de Florianópolis,quarta feira, 03.04.2013.Parte da apresentação do Coro Lírico Catarinense como trilha musical.
quarta-feira, 27 de março de 2013
Ave Verum Corpus
domingo, 3 de março de 2013
Los Morenos
Consta que a população de Buenos Aires no ano 1750 era formada 75% de negros.
Em toda Argentina, Uruguai e Chile, nos conta o folclore sobre grupamentos negros importantes, seja na luta pela independência, seja na consolidação da nação nacional, a partir de um povo racialmente reduzido e oprimido pela maioria branca, até o ponto de desaparecer da face da terra local e da história. De fato, é praticamente nula a presença histórica da raça negra nestes países, com a possível exceção do Uruguai.
Quando eu estive pesquisando na Universidade de Córdoba sobre a organização da Companhia de Jesus, deparei-me com o fato histórico de que aqueles padres tinham por costume negociar com os estancieiros do Rio Grande do Sul. Trocavam negros escravos brasileiros por mulas de linhagem própria, desenvolvida por eles, apropriadas para transporte a longas distâncias, com o que foi possível o estabelecimento da rota comercial entre as cidades de Viamão (RS) e Sorocaba (SP). Em princípio, fiquei fascinado com esta informação e tentei discuti-la com meus amigos intelectuais argentinos. Pois, nenhum deles quis entrar a sério neste assunto. Parece que o esporte preferido nacional argentino, ao contrário do que todos supomos, não é o futebol, mas, o ato de esconder de sua história que um dia tiveram escravos negros também.
Há sobre isso um poema de ninguém menos que Jorge Luis Borges, o eterno escultor da língua espanhola, que minha amiga Suely Riskalla teve a sorte de conhecer num navio, antes que ele se fosse para a outra dimensão. Sorte dela e do artista brasileiro Vitor Ramil, que fez uma milonga para resgatar esta história que fala da participação de negros na luta pela emancipação do país vizinho. Compreensivelmente, esta canção é praticamente desconhecida no repertório do cantor gaúcho, embora tenha feito relativo sucesso em Buenos Aires.
Quando Milton Nascimento se preparava para gravar o álbum Clube da Esquina, foi apresentado a um grupo musical chileno do deserto de Atacama, que o acompanharia naquele projeto. Ali, deparou-se com uma composição de Violeta Parra, a qual não poderia ignorar. Disso resultou uma obra prima, praticamente desconhecida em seu pais original, o Chile, a qual, a partir desta descoberta, correu o mundo e hoje faz parte do cancioneiro tradicional daquele país andino.
Quando o Lulla ainda era nossa esperança de liderança popular, a serviço da mudança que não veio, ele disse uma frase que espantou a burguesia e os conservadores. "Nosso Brasil vive sonhando com a cara virada para Paris e New York. E vive de bunda virada para nossos vizinhos latino americanos".
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Sobre Cuba, blogs e viodeotapes
Quando servi ao exército brasileiro na posição de recruta, algumas vezes entrei na sala do capitão de minha companhia. Ali existia um quadro com a figura do Che Guevara, a foto famosa com a boina de guerrilheiro. Nesta foto estavam pregados vários alfinetes vermelhos, que aumentavam em volume na medida em que as forças da repressão eliminavam mais um guerrilheiro, ou suspeito de ser guerrilheiro. O Capitão era um sujeito moreno, bigodudo, duro, implacável, disciplinador, enfim, tudo que se espera de um oficial do exército em tempos de ditadura militar. Ainda mais que em nosso quartel funcionava clandestinamente o centro de torturas comandado pelo DOI-CODI, de triste memória. Ali morreram muitos prisioneiros, debaixo das mais bárbaras práticas de interrogatório, ensinadas pela CIA norte americana. Culpados ou inocentes, não sei. Mas, vi famílias inteiras sendo torturadas, apenas por que um filho ou sobrinho ou mesmo agregado adotado tinha entrado para a guerrilha. A busca por informação valia tudo e nada estava proibido ao regime. Curioso que o comandante do quartel, um coronel ultra conservador e da elite do exército, morador de Ipanema, fazia discursos diários na formatura, lamentando a forma como os agentes do órgão repressor se vestiam, cabelos compridos, roupas descoladas de hippies, e pior, frequentando o cassino e restaurante dos oficiais fardados. Essa era sua grande questão ética. O que se passava nos muros do presídio interno do quartel, isso o nosso coronel fazia questão de ignorar.
Naquela época, o simples fato de divulgar para jornais estrangeiros informações relevantes sobre as torturas, era considerado crime que devia ser punido com tortura muito pior. Assim foi que conheci algumas aeromoças da Varig, que foram descobertas levando material de denúncia para a Europa. Foram consideradas de alta periculosidade, presas, torturadas e mantidas em cárcere do estado por vários anos, até serem condenadas formalmente e libertadas, por que já tinham cumprido as penas com muito mais pena do que a sentença do juiz militar previa.
Os militantes que hoje atuam no PT, pelo menos os mais velhos, foram vítimas preferenciais do DOI-CODI. Os torturadores não davam muita importância para o PCB, que consideravam apenas uns velhotes soviéticos burocráticos. O que lhes importava eram os novos idealizadores da revolução socialista, entre eles figuras como José Dirceu e José Genuíno, que pregavam a luta armada.
Agora, estas figuras, associadas com o embaixador cubano no Brasil, tentam evitar que a blogueira Yoani Sanches conte sua história e mostre seu filme, retratando a repressão de uma outra ditadura militar, esta muito mais atual, no caso, a ditadura militar de Cuba. E para isso usam recursos do estado brasileiro, como funcionários de confiança da presidência da república, polícia política infiltrada nas manifestações de rua, militantes que desencadeiam brigas e agressões profissionais, enfim, um conjunto de ferramentas absolutamente anti-democráticas, apenas para evitar que um regime autoritário amigo seja colocado no alvo midiático. Exatamente o que os militares brasileiros fizeram quando o Brasil foi visitado por ninguém menos que o ditador Augusto Pinochet, preservado oficialmente como legítimo estadista chileno, coisa que ele nunca foi, pois não passava de um sanguinário fascista que tomou o poder à força em seu país.
Dá pena ver este esforço petista para tapar o sol com a peneira.
Em 1995 eu visitei Cuba pela primeira vez, quando os vôos se abriram, por conta dos novos ares inaugurados pelo novo presidente da república eleito, contra o qual eu combati aguerridamente na campanha eleitoral. Em Havana, um ponto de passagem obrigatório é o bar La Bodeguita del Medio, onde vários intelectuais importantes passaram bons tempos de suas vidas. Pois ali, nas paredes famosas, havia um cartaz que dizia: "Lula é nosso amigo. Mas, FHC não é nosso inimigo". Pelo jeito, os tempos mudaram.
Estávamos num grupo de esquerdistas latino americanos, muitos dos quais militantes petistas, entre eles alguns assessores da prefeita de São Paulo, Luiza Erundina. Fomos em viagem de lazer e estudos, no meu caso, pago com meu próprio dinheiro. Vimos muitas coisas maravilhosas e outras nem tanto. Numa das cenas, estamos na praia de Varadero, um paraíso caribenho, bebendo num bar sobre a areia. O filho de uma companheira chilena tinha arrumado uma namoradinha cubana e com ela se dirigia para um canto escuro da praia. Neste momento, um homem em trajes civis lhes interrompeu o caminho e disse: "Meu jovem, nós estamos encarregados da sua segurança. No entanto, se você prosseguir em sua intenção de levar esta moça para a escuridão da praia, para fazer o que presumimos seria algo muito pessoal, nós temos a obrigação de alertá-lo de que nossa atenção sobre o senhor estará suspensa, até que voltem para o claro. O senhor está consciente disso?"
Nos edifícios que circundavam a orla, agentes disfarçados se escondiam com suas câmeras de video tape, a cada vez que apontávamos nossas câmeras fotográficas para o alto.
Nos edifícios que circundavam a orla, agentes disfarçados se escondiam com suas câmeras de video tape, a cada vez que apontávamos nossas câmeras fotográficas para o alto.
Para que serve esta estorinha? Apenas para mostrar que o verdadeiro Big Brother não é o da Rede Bobo.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Timbre de gallo. Chamamé.
A República Guarani foi um sonho de poder dos padres jesuítas, que pretendiam romper com o império espanhol e construir um estado teocrático nos trópicos sul americanos. Depois de 150 anos de organização e proselitismo, tinham 100 mil índios treinados para a guerra. Faltavam armas. Inocentemente, pediram ao papa autorização para comprá-las. Este, passou a informação ao rei de espanha, que providenciou o fim da companhia de jesus em suas terras americanas. Assim, o sonho foi por água abaixo. Parou em Corrientes, Argentina, e se transformou no Chamamé.
A conquista do Rio Grande do Sul foi uma batalha monumental. Os impérios de Portugal e Espanha disputavam aquelas terras sem valor, onde apenas o gado crescia selvagem na pampa e não servia para nada mais, e, no entanto, a região tinha uma importância estratégica incomum, como porta de entrada para o interior do continente em direção às escarpas minerais dos Andes. E também pela proximidade com o caminho marítimo para o oceano pacífico, contornando o extremo sul da Terra do Fogo, afim de atingir o que realmente interessava, as minas de pedras e metais preciosos da costa de Chile e Peru.
Em 1750 fizeram um acordo. O atual Uruguai ficava com a Espanha e o Mato Grosso ficava com Portugal. E trataram de tomar providências para acabar com as missões jesuíticas.
Alguma coisa restou na tradição popular.
Ainda hoje, o oeste Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná, e o sul do Mato Grosso se associam aos povos das Missões de Argentina e Paraguai. Juntam-se na língua guarani, para reproduzir a mesma música construída sob a orientação dos padres jesuítas.
Todos os músicos e compositores ligados às suas raízes guaranis, saem de seus portos naturais, seja o Pantanal matogrossence, seja a região gaúcha das missões, seja a fronteira de Guairá ou Ponta Porã. Todos buscam suas origens atávicas na cidade de Corrientes, onde se encontram os rios Paraguai e Paraná. Ali foi fundado o mundo gaúcho... Inicialmente como bandoleiros, como o Gauchito Gil, o maior santo popular argentino, devidamente ignorado pela igreja católica oficial. Seu sapucay era tão forte que fazia paralisar a tropa policial, enquanto ele fugia no meio do cerco. Só morreu por que, assim como Jesus Cristo, foi traído por um seguidor, pelos mesmos trinta dinheiros.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
A língua dos anjos
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| Derrama o Teu Espírito aqui. Acende o fogo outra vez |
Quando tinha lá meus dezesseis anos de idade, minha mãe queria que eu entrasse para a banda de metais que animava os cultos na sua igreja, o templo da Congregação Cristã no centro de Maringá (PR). Mas, eu só queria estar no meio dos roqueiros, principalmente para transar com as meninas que andavam atrás deles. Logo fui parar num quartel bem longe e em seguida ingressei na dura vida de adulto. Perdi as duas coisas. De fato, na conta Perdas Intangíveis do balanço existencial de minha adolescência, consta com destaque não ter aprendido a tocar numa banda gospel, assim como não tive as menininhas que sonhava.
Passadas muitas décadas, a vida me deu a sorte de cantar num espetáculo de músicas spirituals, os hinos cristãos dos negros norte americanos. Em outubro de 2012 nós transformamos o Teatro Álvaro de Carvalho, no centro histórico de Florianópolis, num grande templo evangélico e cantamos ao som de uma banda de metais. Eu mal podia conter o choro, para não fazer feio junto a meus companheiros do Coro Lírico Catarinense.
A seita onde minha mãe professava sua religiosidade, depois de ter perdido a fé no catolicismo, está considerada dentro do grupo de igrejas pentecostais. Este movimento místico foi uma dissidência tanto do lado dos reformistas, como luteranos e calvinistas, e ao mesmo tempo anglicano, rompendo com a igreja Batista. A partir do ano 1900, um pastor norte americano começou a pregar diferente do usual dos demais pastores batistas. Ele considerava que o culto religioso não era apenas ouvir lições da bíblia, que muitos consideravam chatas e sonolentas, nem rezar de forma convencional. Ele propunha algo mais alegre, mais vivo e mais vibrante. Em sua pregação, o Pastor Charles Parhan, do estado de Kansas, dizia coisas como: "Gente, vocês aprenderam errado a Palavra de Deus! Vocês são uma geladeira! Agora vocês vão dar ouvidos aos sentimentos que fluem de vossos corações! Esqueçam o que os fundamentalistas ensinaram por mil anos, está tudo errado!". E passou a incluir nos atos religiosos um espaço para que os crentes pudessem expressar seus reais sentimentos de adoração.
Nos cultos pentecostais, é comum a igreja entrar em transe coletivo. Todos rezam ao mesmo tempo, em alto brado, cada qual fazendo sua oração pessoal, o que gera dentro do templo um barulho ensurdecedor e catártico. Alguns crentes entram em estado de semi alucinação, proferindo cantos e frases sem sentido algum, que julgam terem sido canalizadas pelo espírito santo. Seria a língua dos anjos, a mesma que pairou sobre os apóstolos no dia de Pentescostes, como descrito no novo testamento da Bíblia, daí o nome do movimento.
No Brasil, o movimento pentecostal desembarcou em 1904, trazido por dois pastores suecos. Surpreendentemente a igreja Assembléia de Deus, uma das principais entre as pentecostais, iniciou sua propagação por Belém do Pará, uma das capitais brasileiras sob maior influência dos cultos afro, indígenas e católicos. Além de apresentar uma paisagem humana única, sensual e erótica, própria do forno tropical que é a floresta ao redor, em meio a um mar de águas doces. Junto com estes pregadores suecos, veio o mega sucesso gospel de sua igreja.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Pingos de luz
"No trato com as religiões, com as crenças dos outros seres humanos, devemos ter prudência, pois se nosso objetivo é mostrar as pessoas que lá estão presas que existe um outro caminho, não podemos simplesmente atacar a crença ou religião dessa pessoa. Quem vai se colocar em posição defensiva não é a instituição religiosa (enquanto entidade), mas sim, a crença naquela religião que existe internamente em quem nela acredita. Assim, o embate passará a ser pessoal, e não institucional, não levando a nenhum resultado efetivo, pelo simples fato de que a defesa de uma crença ou fé, só faz aumentar o poder desta crença ou fé naquele que a defende. Para se transformar uma crença, é necessário que ela se transforme em descrença".
Jorge Antonio Oro - Florianópolis (SC)
"Vi muitas pessoas anunciando que sua meta para este ano é encontrar a "felicidade". Há um equívoco conceitual, aqui. Meta é algo que pode ser medido. E como medir o nível de felicidade? Ela até pode ser um objetivo vago e difuso, mas, não pode ser Meta com 'M' maiúsculo. Felicidade não se mede, apenas se sente. A felicidade é feita de momentos! Como disse Guimarães Rosa, o grande escritor mineiro, "felicidade se encontra nas horinhas descuidadas". Se eu me perguntar: "Será que sou feliz?", já não sou.
Não há felicidade perene. Se você ficar um mês em estado de êxtase, portanto, super feliz, terá virado rotina e você vai querer outra coisa no lugar. O segredo da felicidade é a novidade. Renovar sempre, não se acomodar na rotina, estar atento para o novo onde quer que ele se manifeste, abrir-se para o mundo, questionar-se permanentemente sobre as regras e usos comuns, enfim, viver cada dia como se ele fosse o último. Aqui e agora, eis a chave da felicidade. Prazer e risco são inseparáveis. O contrário de amor não é ódio, mas, medo."
Laercio Do Arte - Florianópolis (SC)
"Seu dever é SER, e não ser isso ou ser aquilo. "Eu sou o que eu sou" resume toda a verdade. O método para se chegar ao SER é simples: "fique em silêncio". O que significa o silêncio? Significa "destrua seu eu", pois qualquer forma de ego é causa de problemas para o SER. Só se pode ser o que se é. Todo mundo quer ser diferente. Tente não mudar só para atender expectativas alheias, se aceite e sinta uma vida maravilhosa surgir de dentro de você.".
Nato Alves - Florianópolis (SC)
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Heróis e Bandidos
Em 1989 realizava-se a primeira eleição presidencial desde 1961. Todas as tendências políticas estavam representadas. Foi a última eleição realmente politizada de nossa história recente. A escalação era sui generis: na direita, Paulo Maluf. No centro, Mário Covas. Na meia direita, Fernando Collor, e, na meia esquerda, Luis Inácio disputava o posto com Leonel Brizolla. A ponta esquerda estava, de fato, desprovida de representantes, mas, o conjunto da opinião pública, influenciado grandemente pelas grandes mídias se encarregou de colocar Lula neste posto.
Eu já era ex-militante do PT, mais pela minha impaciência e falta de disciplina, do que pelos defeitos do partido, que era o mais organizado dos partidos de massa, ou seja, aqueles voltados para o grande público, e não centrado em si mesmos, como os partidos de "quadros", como se auto intitulavam os nanicos marxistas. No entanto, eu torcia pelo Leonel Brizolla, por que achava que o PT não tinha justamente os quadros necessários para comandar uma transição tão difícil, como seria o da ditadura para a democracia plena, convivendo com as diferenças sociais e os interesses capitalistas tão fortes e politicamente poderosos, que desde sempre influenciaram os governos nacionais, inclusive os militares. Já o PDT tinha gente experiente e bem formada, cheia de qualidades, como o professor Darci Ribeiro e o arquiteto Oscar Niemayer, além do próprio Brizolla, um comandante de porte internacional, que já havia provado sua capacidade de organizar mudanças.
Meses antes da eleição, fui a um encontro de ambientalistas na Chapada dos Guimarães, próxima a Cuiabá. Lá, a maioria das pessoas presentes eram torcedores do Mário Covas, devido a sua fama de moderado e habilidoso nas negociações, uma qualidade que Brizolla não tinha. Até o pessoal do PV, cujo candidato era Fernando Gabeira, torcia pelo Covas, a começar pelo Gilberto Gil, que animava a festa e falava pelos cotovelos nas horas vagas, quando não estava cantando ou discursando.
Apurados os votos do primeiro turno, surpreendentemente Lula ficou 200 mil votos na frente de Brizolla e assumiu a tarefa de dar combate a Collor no segundo turno. Covistas e Brizollistas insistiam que ele deveria renunciar, deixando esta tarefa para alguém mais experiente e palatável ao gosto do povão. Diante do absurdo proposto, Lula desafiava os aliados com bravatas "quando eu quis ter um filho, eu fiz o filho, não pedi pra ninguém fazer", ou "se o povo quisesse o Brizolla no segundo turno, teria votado nele mais do que em mim", até que o velho caudilho gaúcho decretou "É, vamos ter que engolir o sapo barbudo".
Lula não fez feio na votação final. Acho que a diferença foi abaixo dos 10 milhões de votos, mas, com todas as forças conservadoras a bater-lhe impiedosamente, perdeu para Collor de Mello. O ambiente das vésperas do pleito estava carregado. Nós tínhamos muito medo de um novo golpe, enquanto os ultra esquerdistas desafiavam a direita escancaradamente, sem medo de ser feliz. Mario Amato, presidente da FIESP, dizia que se Lula ganhasse, 800 mil empresários deixariam o país. O presidente do Bamerindus contratava artistas e soltava dinheiro a rodo, em apoio a Collor, cuja campanha suja foi buscar uma filha fora do casamento e o depoimento da mãe dela, a acusar que Lula tinha tentado que ela abortasse a criança... Assunto tabu no Brasil, que destrói lideranças construídas em longos anos de intenso trabalho. Foi o caso de Lula. No debate final contra Collor, Lula não foi bem. Mas, na edição da Rede Globo, veiculada fartamente pela TV na véspera da eleição, Lula era apresentado como um idiota despreparado, enquanto Collor brilhava como bom moço. Bonito já era, contra o baixinho e feio Lula, mas, em termos de propaganda enganosa, a TV foi ao seu momento mais triste em nossa história.
Hoje, Lula é o grande lider político brasileiro. Venceu a eleição na prefeitura de São Paulo com um ilustre desconhecido, que tinha 3% das intenções de voto quando começou a campanha. Bancou Dilma como candidata e a elegeu, contra as forças da direita convencional, que se reagrupavam em torno de José Serra, quanto contra os petistas da velha guarda, que viam Dilma com desconfiança, por ela ter vindo do PDT de Brizolla, ou melhor, de Alceu Collares, do qual foi secretária tanto na prefeitura quanto no governo do estado. Se quiser, volta à presidência em 2014, apesar de Dilma ter-se antecipado e se lançado com todo o poderio de sua artilharia pesada, a caneta presidencial. Se Lula quiser, basta ordenar à convenção petista que não dê a Dilma o direito de disputar a reeleição, e duvido que sua ordem seja desobedecida. Mas, não o fará, por que não precisa. Dilma lhe faz todos os desejos e vontades.
Diante desse quadro de hegemonia política, eu me pergunto por que o PT precisa dos aliados que tem. Collor empurrou goela abaixo da nação o sequestro das contas bancárias da população, quando tinha apenas 18% de apoio no congresso. Por que Dilma precisa ter esta maioria escandalosa e, para isso, dar abrigo em seu governo a figuras como Sarney? Por que não organiza sua base de acordo com métodos modernos, alinhados com sua política de governo, orientada para a reforma social? Por que insiste em manter aliança com o que há de mais retrógrado na política brasileira?
Alguém é capaz de me responder?
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
O Nada é Tudo
Tenho hábitos
madrugadores. Desde tenra idade, acordo com a luz do sol. Antes, levantava-me e
ia caminhar, depois tomava uma boa ducha gelada e saia para o trabalho, onde fazia o
desjejum e iniciava com gosto as atividades do dia, renovado pelo frescor da
manhã bem vivida... Tempos já passados, hábitos tornados dispensáveis pela
aposentadoria e terceira idade que finalmente chegou. Então, fico mais um tempo
na cama, meditando.
Me-ditar é uma prática boa, significa "dizer para mim mesmo", ou, de outro modo, ouvir a minha voz interior. Nesses momentos, antes de botar o pé no chão da cozinha para o café da manhã, fico um tempo fazendo Reiki, orando minha reza miscigenada de catolicismo e budismo, fazendo símbolos no ar e pronunciando pedidos explícitos em bom português. Na verdade, a maior parte do tempo fico agradecendo, mas, minha ganância sempre encontra o espaço de um novo pedido, um novo desejo, uma nova vontade de atingir mais isso e mais aquilo, não necessariamente em termos de valores medíveis, mas, na linha da realização sensorial afetiva de auto aplacamento das vivências perdidas no tempo. A busca pela paz interior, digamos assim... Gostaria de poder escrever neste horário, para registrar melhor os insights, mas, infelizmente outros deveres menos charmosos, mas igualmente importantes, me chamam, como aguar as plantas e trabalhar na jardinagem da Chácara Mansidão, um enclave maringaense "pé vermeio" no centro do Rio Tavares, interior da Ilha de Santa Catarina.
Me-ditar é uma prática boa, significa "dizer para mim mesmo", ou, de outro modo, ouvir a minha voz interior. Nesses momentos, antes de botar o pé no chão da cozinha para o café da manhã, fico um tempo fazendo Reiki, orando minha reza miscigenada de catolicismo e budismo, fazendo símbolos no ar e pronunciando pedidos explícitos em bom português. Na verdade, a maior parte do tempo fico agradecendo, mas, minha ganância sempre encontra o espaço de um novo pedido, um novo desejo, uma nova vontade de atingir mais isso e mais aquilo, não necessariamente em termos de valores medíveis, mas, na linha da realização sensorial afetiva de auto aplacamento das vivências perdidas no tempo. A busca pela paz interior, digamos assim... Gostaria de poder escrever neste horário, para registrar melhor os insights, mas, infelizmente outros deveres menos charmosos, mas igualmente importantes, me chamam, como aguar as plantas e trabalhar na jardinagem da Chácara Mansidão, um enclave maringaense "pé vermeio" no centro do Rio Tavares, interior da Ilha de Santa Catarina.
Dylan rompeu com o
judaísmo, por não aceitar sua herança de dor e sofrimento. Migrou para
o cristianismo, ora vejam só! Parece que ficou pouco tempo por lá... Eu também
rompi com minha herança religiosa, por não aceitar os dogmas introduzidos pelos
romanos, coisa que só fui tomar conhecimento histórico muito tempo depois das
missas domingueiras com minha avó, dominu-dominis, confessionários, hóstias e
padres com vestidos-batinas, incensos, dúvidas e mistérios. O respeito e o medo
impedem a reflexão, até que chega a idade da consciência e tudo fica
questionável, até os dogmas. Ninguém precisa mesmo de nenhum salvador,
ninguém está pagando seus pecados com o sangue de ninguém, nem há pecado, de
fato. Apenas contas a acertar. Todos seremos salvos, é apenas uma questão
de tempo. Aliás, o que é o tempo? Na perspectiva universal da eternidade, o
tempo nem conta. Minha base atual só poderia ser teosofista, depois de tudo,
mas, não sigo movimento nenhum. Acho que a maestria deve ser algo construído
individualmente, embora pense que talvez seja bom ter uma relação
mestre-discípulo. Acho que ajudaria na evolução de ambos, desde que o mestre
não se revele um espertalhão, o que é mais comum do que as pessoas imaginam,
como aprendi desde que minha namorada de muito tempo atrás contou-me que seu
"mestre" lhe disse que, se ambos ficassem pelados, o efeito
energético seria maior, rs rs rs... Quanto a isso, não resta dúvida de que
seria !
Não tenho vergonha
de dizer que fiz trinta anos de terapia. Do grito primal ao divan lacaniano.
Participei de grupos de biodança, chamanismo, bioenergética e terapia
convencional em grupo, várias vezes. Acho que tudo me ajudou muito, ainda que
também me tenha levado muito dinheiro. Apenas para dez dias de internamento num
sítio em Itapecerica da Serra no ano de 1990, foram mais de mil dólares.
Investia muito em terapias, por que eu me sentia muito culpado de ter, de certa
forma, rompido com a família tradicional quando caí no mundo. Ela nem eu nunca
nos perdoamos por termos valores tão diferentes. Quando me descasei pela
primeira vez, as crianças ainda muito pequenas, passei por profunda crise
pessoal que me levou a síndrome de pânico. Aí muito me ajudaram as terapias,
especialmente aquelas fincadas em vivências profundas, em jornadas de final de
semana, do tipo psicodrama ou catarses com meditações dinâmicas, feitas em
grupos fechados, de auto confiança e proteção. Foram minhas mais verdadeiras
experiências comunitárias.
O amor é mesmo a base de tudo, no entanto, mesmo pessoas
amorosas podem tentar impor suas visões de mundo aos demais viventes. É o caso
de nossos heróis cristãos, né? Quem não acreditaria na boa vontade de um João
Paulo II? No entanto, foi o principal responsável pela igreja católica regredir
décadas, talvez séculos, e voltar a seu mundinho de exclusões e preconceitos. Uma
vez fui a Brusque participar da festa de 80 anos do mestre Edino Kruguer , o
maior personagem musical catarinense de todos os tempos, professor, compositor,
diretor, músico, ativista cultural, secretário pessoal e ajudante de Villa
Lobos, uma sumidade tão perfeitamente integrada em sua humildade, que não
precisa de nenhum reconhecimento oficial, como realmente não o tem. Ele é
luterano, como bom alemão, e a festa estava programada para a frente da
Catedral de Brusque. Choveu a píncaros e uma comitiva foi falar com o padre,
para deixar que o concerto de uma orquestra sinfônica da PM do Paraná fosse
executado dentro da Catedral. Ele não deixou e o concerto foi cancelado. A princípio fiquei revoltado com a atitude do padre, e não só por que o
Estado brasileiro gasta milhões mantendo e reformando catedrais católicas, mas, principalmente pelo seu profundo desprezo com o semelhante diferente, no caso uma personalidade luterana. Achei que teria sido elegante da parte dessa autoridade católica retribuir um pouco do que recebe da sociedade, abrindo-se para aquela ocasião especial
em Brusque.
--- "Não, senhor!", responderia depois um bispo católico brasileiro, com quem conversei no interior da França. "O estado não faz mais do que sua obrigação, já que as Catedrais são imóveis tombados pelo patrimônio histórico".
Tá bem, já passou, já nem me lembro como era a triste figura do padre. Mas, é fácil saber quando o coração está no comando ou quando o ego é que predomina. Imagine um monge tibetano que se imola pela libertação de seu país do jugo estrangeiro. Até que ponto está sublimando sua própria vida em função de uma causa nobre, ou até que ponto está indo ao extremo do egoismo, destruindo-a em função de uma causa que o tornará respeitado (e talvez famoso)...? Outro caso são os homens bombas islamitas. Claro que são extremos, casos de provável e profundo desespero. Eu considero religiosidade e espiritualidade coisas bem próximas, senão sinônimos, mas, isso não tem nada a ver com igreja. Os chefes de igrejas se consideram portadores da religiosidade, e bem sabemos que não são. É perfeitamente possível iluminar-se espiritualmente numa catedral milenar católica, como a Notre Dame à beira do Rio Sena, ouvindo a música de um luterano alemão como Bach, interpretada por Anglicanos, apenas para ficar no mundo cristão, uma minoria absoluta em termos religiosos no planeta ...
Gosto da simplicidade, da natureza e das tradições populares. Evito o luxo e a luxúria. A elite econômica e intelectual não me interessa. Mesmo em Buenos Aires, eu prefiro as casas de tango mais simples, na periferia, sem aquela ostentação para turistas estrangeiros. Gosto de associar a viagem a um propósito cultural. Já fiz todo o roteiro de Van Gogh, desde sua vila rural na Holanda até seu túmulo nos arredores de Paris, passando pelas margens do Rhone no sul da França. Desci em Barcelona para "caminar" com Caetano Veloso e sua vaca profana pelas "ramblas", com Miró e Gaudi, depois fui de trem até a Noruega, ver as loiras mais sensuais e lindas do planeta. Fui num coro cantar nos grandes templos católicos, Lourdes, Fátima, Saragoza, El Escorial, Santo Antonio em Lisboa, Matosinhos no Porto e Santiago de Compostela na Galícia. Visitei alguns dos mais deliciosos terroirs do planeta (locais especiais de cultivo de uvas para vinhos) provando seus encantos, da Borgonha aos vinhedos das terras altas arriba do Minho, o mais fino branco sequíssimo da Andaluzia ao branco frutado da Pomerânia, caminhadas à pé pelas montanhas alpinas e passeios de carro entre milhares de Chateauxs pela planície sem fim de Bordeaux. Sempre que bate a saudade, vou tomar um branco seco no deserto de Cafayate, província andina de Salta, ou um malbec nas cantinas de Mendoza.
Certa vez, hospedei-me na Avenida Corrientes, Buenos Aires, num hotelzinho defronte ao mercado público "del Abasto", onde cresceu Gardel, e fui visitar seu túmulo em Chacaritas, no final da avenida. Dancei na esquina mística, descrita na canção 'Sur', o mais lindo tango de todos os tempos.
--- "Não, senhor!", responderia depois um bispo católico brasileiro, com quem conversei no interior da França. "O estado não faz mais do que sua obrigação, já que as Catedrais são imóveis tombados pelo patrimônio histórico".
Tá bem, já passou, já nem me lembro como era a triste figura do padre. Mas, é fácil saber quando o coração está no comando ou quando o ego é que predomina. Imagine um monge tibetano que se imola pela libertação de seu país do jugo estrangeiro. Até que ponto está sublimando sua própria vida em função de uma causa nobre, ou até que ponto está indo ao extremo do egoismo, destruindo-a em função de uma causa que o tornará respeitado (e talvez famoso)...? Outro caso são os homens bombas islamitas. Claro que são extremos, casos de provável e profundo desespero. Eu considero religiosidade e espiritualidade coisas bem próximas, senão sinônimos, mas, isso não tem nada a ver com igreja. Os chefes de igrejas se consideram portadores da religiosidade, e bem sabemos que não são. É perfeitamente possível iluminar-se espiritualmente numa catedral milenar católica, como a Notre Dame à beira do Rio Sena, ouvindo a música de um luterano alemão como Bach, interpretada por Anglicanos, apenas para ficar no mundo cristão, uma minoria absoluta em termos religiosos no planeta ...
Viajar por culturas e paisagens estranhas também pode ser uma forma de
contemplação, muito próxima da religiosidade. Gosto muito de viajar assim.
Prefiro o estilo mochileiro, que me deixa livre, leve e solto, além de
sair muito mais barato, claro. Nas cidades, prefiro andar de metrô ou ônibus. É
impossível andar por Paris, Londres, Madrid, São Paulo, se não for assim. Uma
vez fui de trem ao Charles De Gaulle pegar o vôo para Madrid. Encontrei um
brasileiro sozinho na fila do checkin. Ele levava quatro malas imensas e pagou
80 euros de taxi. Eu havia gasto 4, imagina a diferença de estilos. Ele só
queria saber de como estava indo a Bolsa de Valores em SP, eu estava chegando
na França, ele voltando ao Brasil e achava que eu poderia ter informações
úteis. Ao final, perguntou-me se eu havia ido ao Crazy Horse. Esse também é o
nome da minha banda de rock preferida e, para espanto do meu parceiro de fila,
eu perguntei: "Eles estavam aqui? Puxa vida, como fui perder essa?".
Desfeitos os equívocos, ficou claro que o Cavalo Louco em questão
é uma casa de dançarinas de can can, rs rs rs.
Gosto da simplicidade, da natureza e das tradições populares. Evito o luxo e a luxúria. A elite econômica e intelectual não me interessa. Mesmo em Buenos Aires, eu prefiro as casas de tango mais simples, na periferia, sem aquela ostentação para turistas estrangeiros. Gosto de associar a viagem a um propósito cultural. Já fiz todo o roteiro de Van Gogh, desde sua vila rural na Holanda até seu túmulo nos arredores de Paris, passando pelas margens do Rhone no sul da França. Desci em Barcelona para "caminar" com Caetano Veloso e sua vaca profana pelas "ramblas", com Miró e Gaudi, depois fui de trem até a Noruega, ver as loiras mais sensuais e lindas do planeta. Fui num coro cantar nos grandes templos católicos, Lourdes, Fátima, Saragoza, El Escorial, Santo Antonio em Lisboa, Matosinhos no Porto e Santiago de Compostela na Galícia. Visitei alguns dos mais deliciosos terroirs do planeta (locais especiais de cultivo de uvas para vinhos) provando seus encantos, da Borgonha aos vinhedos das terras altas arriba do Minho, o mais fino branco sequíssimo da Andaluzia ao branco frutado da Pomerânia, caminhadas à pé pelas montanhas alpinas e passeios de carro entre milhares de Chateauxs pela planície sem fim de Bordeaux. Sempre que bate a saudade, vou tomar um branco seco no deserto de Cafayate, província andina de Salta, ou um malbec nas cantinas de Mendoza.
Certa vez, hospedei-me na Avenida Corrientes, Buenos Aires, num hotelzinho defronte ao mercado público "del Abasto", onde cresceu Gardel, e fui visitar seu túmulo em Chacaritas, no final da avenida. Dancei na esquina mística, descrita na canção 'Sur', o mais lindo tango de todos os tempos.
É preciso aproveitar o tempo que nos resta.
Pois, mestre Fellini já ensinava que "La nave va...".
E
quem sou eu para questionar???
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Estratégia ou Sorte ?
Corria o ano de 1982. Eu gostava de caminhar ao léo pelo centro de Floripa, ainda relativamente nova para mim, em busca dos segredos que a velha Desterro escondia em suas entranhas históricas. Subir a Felipe Schmitt até a ponte Hercílio Luz, de onde se apreciava o esplendor do Cambirela e sua cadeia de montanhas, ao fundo da Baía Sul, logo acima dos prédios ainda baixos do centro de São José. Cruzar a ponte à pé e ir tomar cerveja ou almoçar uma feijoada no Tritão, em Coqueiros, hoje tristemente transformado em bar da terceira idade movida à viagra, sob o ilusório nome de "Trintão", ora veja! Interessava-me particularmente os museus e bares, talvez por alguma herança genética. Refiro-me ao segundo item.
Pois o Vitor Meirelles ficava exatamente na frente da Quibelândia, mistura de mineiro com turco, intelectual com viciado, gatas gostosíssimas com sapatões incríveis, enfim, tudo o que um rapaz de 30 anos quer da vida boêmia, além do impagável "quibe", claro, a seis reais a unidade, pudera! Mas, tinha o Chopp mais bem tirado do país, a preço convencional. Na Praça XV, a Confeitaria Chiquinho servia suas empadinhas de camarão e o Bar do Japonês fazia sua batida de limão adoçada com mel.
Ai, ai, ai, ... não dava pra juntar os dois? Não! O freguês tinha que comprar umas na Confeitaria e levá-las empacotadas no bolso para a bancada do Japonês, que não gostava nem um pouco daquela prática desleal, pois ele próprio servia um pratinho de pasteizinhos de camarão, que deixava o freguês vendo papagaio e gritando "Gol do Avaí !".
Pois o Vitor Meirelles ficava exatamente na frente da Quibelândia, mistura de mineiro com turco, intelectual com viciado, gatas gostosíssimas com sapatões incríveis, enfim, tudo o que um rapaz de 30 anos quer da vida boêmia, além do impagável "quibe", claro, a seis reais a unidade, pudera! Mas, tinha o Chopp mais bem tirado do país, a preço convencional. Na Praça XV, a Confeitaria Chiquinho servia suas empadinhas de camarão e o Bar do Japonês fazia sua batida de limão adoçada com mel.
Ai, ai, ai, ... não dava pra juntar os dois? Não! O freguês tinha que comprar umas na Confeitaria e levá-las empacotadas no bolso para a bancada do Japonês, que não gostava nem um pouco daquela prática desleal, pois ele próprio servia um pratinho de pasteizinhos de camarão, que deixava o freguês vendo papagaio e gritando "Gol do Avaí !".
E, se o distinto público olhasse para o alto da cozinha, onde se abria a única janela para o mundo externo, seria capaz de ver que a fantasia era real.
Pois bem, caminhava eu pela Vidal Ramos numa tarde de sexta feira, bem na frente do point das gatinhas, o antigo Bar Degrau, quando alguém bate no meu ombro e me diz: "Oi, companheiro !". Era o marido da futura senadora e ministra, querendo saber onde ficava a sede da ALISC. Eu tinha sido apresentado ao casal na casa de alguns amigos cristãos, que compartilhavam conosco a criação da escolinha Sarapiquá, então uma cooperativa de pais de crianças pequenas, a maioria comunista e ateu (os pais, quero dizer!)
O casal tinha recém chegado de Joinville, onde a esposa fora trabalhar como professora de matemática e ele atendia afazeres auxiliares em escritórios de contabilidade. A origem de ambos era a Grande São Paulo, onde atuaram como militantes dos movimentos de base da Igreja Católica, alinhados com os grupos que fundaram o PT. Por isso, eram amigos pessoais de Lula. Ela veio a Floripa para assumir um cargo de direção estadual na associação representativa dos professores de segundo grau da rede pública estadual, numa época em que os funcionários públicos não podiam se sindicalizar, razão pela qual optavam por criar "associações", que, a bem da verdade, eram sindicatos. Ali, na "associação" ALISC, nossa amiga fez carreira e chegou a eleger-se deputada estadual. O mandato não foi grande coisa e o mais certo é que não seria reeleita. Foi então que a sorte bafejou o casal, então já separado (uau! militantes católicos também se separam!). Perdido por perdido, ela resolveu sair para Senadora. Foi levada na Onda Vermelha de Lula!
Quase o PT faz os dois senadores naquele ano de 2002 e, não fosse uma fatídica semana a separá-los das eleições, faria também o governador, segundo admitiu o próprio Luiz Henrique (PMDB), igualmente beneficiário da "onda".
O casal tinha recém chegado de Joinville, onde a esposa fora trabalhar como professora de matemática e ele atendia afazeres auxiliares em escritórios de contabilidade. A origem de ambos era a Grande São Paulo, onde atuaram como militantes dos movimentos de base da Igreja Católica, alinhados com os grupos que fundaram o PT. Por isso, eram amigos pessoais de Lula. Ela veio a Floripa para assumir um cargo de direção estadual na associação representativa dos professores de segundo grau da rede pública estadual, numa época em que os funcionários públicos não podiam se sindicalizar, razão pela qual optavam por criar "associações", que, a bem da verdade, eram sindicatos. Ali, na "associação" ALISC, nossa amiga fez carreira e chegou a eleger-se deputada estadual. O mandato não foi grande coisa e o mais certo é que não seria reeleita. Foi então que a sorte bafejou o casal, então já separado (uau! militantes católicos também se separam!). Perdido por perdido, ela resolveu sair para Senadora. Foi levada na Onda Vermelha de Lula!
Quase o PT faz os dois senadores naquele ano de 2002 e, não fosse uma fatídica semana a separá-los das eleições, faria também o governador, segundo admitiu o próprio Luiz Henrique (PMDB), igualmente beneficiário da "onda".
Na liderança do governo Lula no senado, nossa amiga fez chover. Primeiro na sua horta pessoal. Depois, choveu a atual mulher de seu ex marido na superintendência estadual do INSS. Ciúmes? Isso é coisa para fracas de cabeça! Principalmente quando o assunto principal são negócios! Assim que foi possível, nomeou o próprio ex marido como presidente da Eletrosul, a maior estatal federal no sul do país, embora o pobre coitado não saiba a diferença entre uma tomada e um focinho de porco. Isso depois que ele já tinha falido o banco do estado, BESC, incorporado pela falida mãe de todos os banqueiros falidos, o Banco do Brasil. Não seria o caso de ter montado um simples escritório de contabilidade para o sortudo ex marido?
Agora, consta que dona Ideli vai colocar o ex prefeito Dário Berguer numa diretoria da Eletrosul, além de seu irmão Djalma, que perdeu a eleição em SãoJosé, num cargo importante do lucrativo setor que cuida de obras em estradas federais. Isso faria parte da sua estratégia regional de combater os Ramos-Bornhausen no comando da oligarquia local há mais de cem anos. Ocorre que a dupla de irmãos que ela tenta escalar para a importante missão civilizatória, acabam de largar as prefeituras de Floripa e São José na mais completa penúria financeira e moral. Que boa companhia em tão boa hora, dona ministra da articulação política ! Isso lembra minha avó, dizendo sobre os acordos políticos dos coronéis de sua época: "Por fora, bela viola! Por dentro, pão bolorento."
Agora, consta que dona Ideli vai colocar o ex prefeito Dário Berguer numa diretoria da Eletrosul, além de seu irmão Djalma, que perdeu a eleição em SãoJosé, num cargo importante do lucrativo setor que cuida de obras em estradas federais. Isso faria parte da sua estratégia regional de combater os Ramos-Bornhausen no comando da oligarquia local há mais de cem anos. Ocorre que a dupla de irmãos que ela tenta escalar para a importante missão civilizatória, acabam de largar as prefeituras de Floripa e São José na mais completa penúria financeira e moral. Que boa companhia em tão boa hora, dona ministra da articulação política ! Isso lembra minha avó, dizendo sobre os acordos políticos dos coronéis de sua época: "Por fora, bela viola! Por dentro, pão bolorento."
domingo, 13 de janeiro de 2013
Quando fui para a pampa
A palavra "pampa" para nós brasileiros está ligada ao interior do Rio Grande do Sul. Todos imaginamos os gaúchos como os aventureiros dos "pampas", e assim tudo fica meio explicado, meio misterioso, afinal quem são esses pampeiros e como se originaram? Instintivamente, nos damos conta de que se trata de mais uma mestiçagem com os castelhanos. O próprio termo "gaúcho" , para muitos de nós não passa de uma identificação dos habitantes ou nativos do Rio Grande do Sul... Não vamos entrar nesta questão, por enquanto. Vamos ficar apenas com o significado da palavra "pampa", o que já nos dará suficiente trabalho.
A palavra "pampa" é um vernáculo Quechua, língua de diversos povos indígenas subordinados ao império Inca, que ia do sul da Colômbia ao norte da Patagônia. Significa "planície", exatamente o relevo geográfico predominante que se inicia na metade de baixo do Rio Grande do Sul e vai até as escarpas de acesso a Bariloche, nos Andes argentinos. Neste imenso território floresceram dois importantes ritmos musicais. Um urbano, criado nas cercanias de Buenos Aires e Montevidéo, o mundialmente conhecido "Tango". Outro, rural, originado nas solidões perdidas das terras onde não se vê nada além do horizonte, um ritmo tão importante quanto o tango, só que absolutamente desconhecido fora de sua zona de influência regional. Este ritmo é a "Milonga", presente com muita força, inclusive em nossa pampa gaúcha, quero dizer, naquela planície pampeira que fala português.
No entanto, existe uma outra Pampa, não ao nível do mar como a que estamos falando. A "pampa" andina situa-se a 2 mil metros de altura. Os únicos animais que habitam aquelas paragens nevadas no inverno e quentes no verão, além dos insensatos humanos, são as alpacas e lhamas, animais mamíferos que substituem com vantagem vacas e cabritas. Os humanos lá estão por conta de uma indústria importantíssima para a economia global, a mineração. A vida destes pobres mineiros foi cantada por muitos poetas, no entanto, nenhum deles chegou perto da chilena Violeta Parra.
A canção de Violeta é do início da década de 1960. Imediatamente foi associada com as músicas de protesto político que influenciou fortemente aqueles anos no mundo todo, a partir de movimentos denunciando a cruel injustiça que predominava em nossos países terceiro mundistas, vítimas quase sempre da guerra fria entre o "primeiro" e o "segundo" mundos.
ARRIBA QUEMANDO EL SOL é um tremendo clássico do cancioneiro popular chileno. Clássico e perigoso, por que aqueles que a cantavam nos anos da ditadura Pinochet eram automaticamente acusados de comunistas traidores da pátria, como os rapazes do grupo folclórico Inti Illimani ("festa do sol", em quechua), um dos grupos latino americanos de mais belo vocal que já ouvi. Por cantarem essa e outras canções de Violeta, notória comunista morta em 1966, o Illimani foi expulso do Chile. Só voltou depois que os milicos de Pinochet já não mandavam na justiça e na polícia chilena. Fizeram um show no Estádio Nacional de Santiago, no ano de 2002, para resgatar aquele importante monumento da história moderna do Chile, onde brilhou Mané Garrincha em 1962, que os fascistas transformaram em campo de concentração, logo depois do golpe em 1973, local do sacrifício de milhares de cidadãos chilenos, cujo único crime foi o de pensar diferente. Naqueles anos, pensar era muito perigoso. Ser independente também. Era por demais arriscado. Apenas por que se negou a saudar o ditador Pinochet, convidado de honra dos ditadores brasileiros, em visita ao "nosso" Congresso Nacional, o deputado baiano Francisco Pinto foi punido com a perda do mandato. Anos de chumbo puro. Salve Inti Illimani e sua festa da reconquista do Estádio Nacional para a nação chilena em paz, ainda que continue injusta!
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
No tempo em que as palavras eram importantes
Nesta apresentação, Dylan já cortava duas estrofes de seu poema, para caber no formato comercial do festival. Um ano depois, o grupo The Byrds atingia o primeiro lugar nas paradas dos Estados Unidos e Inglaterra. Para isso, cortou mais um tantão, ficando só com a estrofe central, que cabia nos 2,5 minutos que a banda dispunha nas rádios do planeta musical. Menos no Brasil, onde o poeta não era considerado bom exemplo para a nossa juventude.
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