domingo, 16 de junho de 2013

Incas



Houve um imperador chamado Pachacuti, que foi o grande organizador do império Inca, um estado pré colombiano latino americano que ia da Colômbia à Patagônia argentina. Esse imperador é tido como um grande Avatar, um enviado da divindade para promover as mudanças necessárias à evolução planetária. Seu reinado ocorreu a partir da década de 1430, quando o país por ele concebido viria atingir um patamar superior de organização, dominando ampla maioria da população e das lideranças indígenas da América do Sul, reproduzindo aqui um tipo de imperialismo típico dos reinos antigos da Mesopotâmia e da Ásia. O império de Pachacuti atingiu em seu esplendor 4500 quilômetros de extensão por 400 km de largura.  Este cacique era tão eficiente que chegou a desenvolver um estratagema político para não precisar entrar em combate. Quando ele tinha em mente a conquista de uma nova tribo, mandava antes uma delegação diplomática a dialogar com os atuais governantes, explicando-lhes as vantagens de fazer parte do Império Inca. Nunca propunha a derrubada da elite governante, ao contrário, prometia apoio estrutural e tecnológico, no sentido de melhorar as condições de produtividade da agricultura,  do controle social, da organização política, e exigindo em troca apenas duas coisas: que a elite governante passasse a praticar a religião oficial, tendo o Inca como um representante divino na Terra,  e aprendesse a língua quetchua. 








Além de  pagar os impostos devidos, evidentemente, o que se tornava até fácil, a partir dos novos ganhos de produtividade.  









O fim do império Inca coincide com a chegada dos espanhóis. Mas, não foram estes os verdadeiros responsáveis pelo fim desta civilização extremamente adiantada para sua época. Na verdade, o "exército" espanhol que chegou ao altiplano peruano mal passava dos cem soldados. Muitas foram as causas da derrota Inca, incluindo o mito de que os espanhóis barbados impunham grande temor aos guerreiros indígenas, principalmente pelo uso de um animal desconhecido até então, o cavalo, o qual fazia supor que os cavaleiros e cavalos eram uma só pessoa, um pégaso místico, contra os quais os indígenas se recusavam a lutar,  imaginando-os como criaturas divinas. Porém, a principal razão da derrota dos Incas foi sua divisão interna, a partir da luta pelo sucessão do Trono, opondo  de forma sanguinária dois irmãos filhos do velho Inca. Abriu-se uma guerra civil ente os governadores do Cusco e de Quito, as duas principais sedes do império, luta na qual pereceram cerca de cem mil pessoas, um absurdo para a época. 


Valendo-se dessa divisão, os espanhóis espalharam a inveja e a disputa entre as famílias de Athaualpa (Quito) e Huascar (Cusco). Finalmente, o líder da legião de Quito venceu a guerra, promovendo a destruição da família original na capital do império, matando cerca de 1500 pessoas, apenas por que eram parentes de Huascar, o lider derrotado.  Neste clima desolador foi que Pizzarro, o lider espanhol, resolveu interferir e conquistar os domínios andinos dos Incas, destruindo suas bases e abrindo espaço para a colônia espanhola. 


Os Incas tinhas intensa religiosidade baseada nos fenômenos da natureza. Consideravam vários deuses, sendo o sol e a lua os mais importantes, até sub deuses como montanhas, rios, vales e objetos sagrados.  Consta que promoviam rotineiramente sacrifícios de animais como lhamas e alpacas e, em ocasiões especiais, sacrifícios humanos, como reverência a futuros enfrentamentos guerreiros ou em agradecimentos por boas safras,  terremotos, ou até vitórias militares.  De acordo com uma lenda, uma menina de dez anos de idade chamada Tanta Carhua foi escolhida pelo seu pai para ser sacrificada ao imperador Inca. A criança, supostamente perfeita fisicamente, foi enviada a Cusco onde foi recebida com festas e honrarias para homenagear-lhe a coragem e depois foi enterrada viva em uma tumba nas montanhas andinas. Esta lenda prescreve que as vítimas sacrificiais deveriam ser perfeitas, e que havia grande honra em conhecerem e serem escolhidas pelo imperador, tornando-se, depois da morte, espíritos com caráter divino que passariam a atuar junto aos sacerdotes oficiais. Antes do sacrifício, os sacerdotes adornavam ricamente as vítimas e davam a ela uma bebida chamada chicha e chás de ervas, que as induziam a fenômenos alucinógenos, até hoje praticados.


Por essas e outras, Lalá Zen, em recente visita aos andes peruanos, recusou-se a assumir o posto de novo Inca, para o qual fora convidado por lideranças religiosas locais. Diante da curiosidade dos repórteres, e saboreando uma tradicional xícara de chá de ervas, Lalá explicou sua decisão "Não posso aceitar tal honra, visto não concordar com essas práticas obscuras, principalmente contra o sacrifício de virgens".





terça-feira, 11 de junho de 2013

Bach, primeiro dos clássicos ou o último dos barrocos?






Bach (Riacho, em alemão) foi o primeiro dos clássicos ou o último dos barrocos? Esse é um dos mistérios da civilização ocidental, sobre o qual nunca houve e talvez nunca haverá consenso. 

Nascido, criado e falecido dentro da igreja Luterana, assim como seu pai que também foi compositor sacro, passou toda a vida a serviço do que imaginava ser o serviço de Deus. E para ele não existia mesmo outro Deus senão aquele velho Jeová luterano, de origem pré histórica nas tribos nômades dos desertos da Palestina. Um Deus resultante de vários enganos históricos. Bach não estava interessado nessas questões de discussões religiosas, bem próprias de seu tempo. Só queria amar sua família e servir ao Senhor. Nesta missão, foi modificando a música que se tocava nas igrejas, que, junto com os palácios, eram os lugares onde se desenvolvia a técnica de entreter pessoas com um barulho agradável, útil para dançar as alegrias ou chorar as tristezas, além de ser ótimo lenitivo e auxiliar no processo de suportar as alegorias religiosas que pastores e padres impunham como o padrão cristão de adoração. Não tendo outra coisa para fazer, e sendo por natureza trabalhador inquieto, Bach começou a "inventar" coisas. É dele a extensão das notas musicais para registrar os meio tons, utilizando os bemóis e sustenidos para ampliar a possibilidade de acordes. 

É autor de uma obra considerada básica, "O Cravo bem Temperado", composto com 24 peças entre prelúdios e fugas, onde ele cobre todo o quadro de tonalidades disponíveis. Ao longo da vida, Bach compôs mais de mil obras. Para se ter ideia da importância deste compositor, seu patrício Beethoven disse, em tom de piada séria, que ele deveria se chamar"oceano" e não "riacho".

A música de Bach vem sendo esmiuçada ao longo de mais de vinte anos pelo Coro Monteverdi, de Londres, considerado pela crítica como o melhor do mundo. Este coral rompe o paradigma do mundo da música, que é o de valorizar as orquestras. Quando uma determinada obra necessita vozes humanas, então a orquestra convoca um coro terceirizado para ajudá-la. Algumas sinfônicas e cameratas mais famosas possuem seu próprio coro, mas são raros, e, mesmo assim, tratam de deixar claro que os cantores não fazem parte da orquestra, tipo assim "Orquestra Sinfônica e seu coro".  Agora, com o Monteverdi Choir acontece o contrário. Quando ele se anuncia, as mídias de propaganda especificam "Coro Monteverdi e sua orquestra de Solistas Barrocos". 
Barrocos? Mas, Bach não foi o primeiro dos clássicos?


O maestro inglês John Eliot Gardiner formou sua própria orquestra em 1968, aos 25 anos de idade,  à qual deu o nome de Monteverdi, em homenagem a seu compositor italiano preferido. Coisa rara, em se tratando de britânicos. Com o tempo, foi migrando da música clássica convencional para uma especialização no estilo barroco. Percebeu que para isso era essencial a presença de um arcabouço vocal super especializado, dadas as características intimistas das canções. Isso fez com que formasse um conjunto de cantores para acompanhá-lo, o que resultou no futuro Monteverdi Choir, onde a presença dos cantores é tão ou mais importante que a da orquestra. Reparem nessa apresentação que segue, gravada na igreja onde Bach tocava na Alemanha. Os cantores estão num patamar acima da orquestra, dentro do palco improvisado no altar. Eu já cantei em várias apresentações onde ficávamos apertados no fundo, pendurados desconfortavelmente em puleiros de madeira perigosos, ou completamente escondidos do público, por que a orquestra tomava conta de todo o palco frontal. No caso do Monteverdi Choir isso não é apenas uma questão de posicionamento físico. É uma estratégia muito bem estudada e implementada. Que bom para a auto estima dos coralistas!








segunda-feira, 10 de junho de 2013

Missa de Sétimo Dia




Esis Rocha foi nosso companheiro no naipe dos baixos do Coro Lírico Catarinense. Convivi pouco tempo com ele, o suficiente para admirar sua coragem, lucidez e inteligência. Era um ativista por natureza, inquieto, polêmico, contestador... Conhecia profundamente a música erudita, especialmente a de natureza sacra, na qual era especialista. Extremamente bem humorado, de vez em quando assustava os taciturnos com sua personalidade de brincalhão: "Ainda seremos o melhor coro do Brasil, especializado em música sacra eslava", ao propor Tiebe Poem para o repertório do Coro. 










Nunca desistia da vida. Ao voltar para o Coro, depois de meses em tratamento de saúde, sugeriu uma lista de (apenas!) quinze canções sacras pouco conhecidas, para nossa apresentação no Concerto Páscoa 2013 da Catedral de Florianópolis, lista da qual aproveitamos duas.  


Sonhava com a turma toda excursionando pela Europa. Sonhava com uma orquestra própria, com os cartazes anunciando nossos espetáculos "Coro Lírico Catarinense e sua orquestra". E justificava "deste modo, não teremos mais que pagar cachê para  orquestras de terceiros, ora bolas!".  E ria...  como sabem rir as crianças inocentes, sem se darem conta de sua tremenda força, a mesma que impulsiona os puros de coração na direção do infinito. Acho que foi assim que ele partiu. Olhando com doçura e inocência a sua passagem. Sem culpas, sem rancores, sem remorsos, apenas agradecendo à Divindade pelas oportunidades que teve. E talvez lamentando um pouco por não tê-las aproveitado tanto quanto sonhara. 

Deixou várias coisas e várias mensagens. Seus ternos escuros como herança para o Coro. Seus pertences, sua incrível coleção de músicas sacras, seus livros, suas memórias... e principalmente sua sabedoria, estampada claramente na lucidez com que fez a passagem da linha de chegada, como o demonstra o seguinte texto que foi encontrado entre seus deixados:



"A morte é nada

Eu somente passei para o outro lado do caminho.

Eu sou eu, vocês são vocês,
O que eu era para vocês,
Eu continuarei sendo.
Me dêm o nome que vocês
sempre me deram,
Falem comigo como vocês sempre fizeram.
Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas,
Eu estou vivendo no mundo do criador.
Não utilizem um tom solene ou triste,
Continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos.
Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.
Que meu nome seja pronunciado como sempre foi.
Sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra ou tristeza.
A vida significa tudo que ela sempre significou.
O fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora de seus pensamentos,
Agora que eu estou apenas fora de suas vidas?
Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho.
Você que ai ficou, siga em frente.
A vida continua
Linda e bela como sempre foi."







terça-feira, 4 de junho de 2013

Trilhas






A cidade de Cusco fica nos Andes peruanos. Foi a sede do Império Inca, um conglomerado de tribos indígenas que floresceu entre os anos 1200 e 1500. Foram unificadas a ferro, fogo e sangue por uma elite altamente desenvolvida. Seus domínios iam do que é hoje a Colômbia até a Patagônia. A capital preserva as construções incas, em razoável estado de conservação, além das edificações coloniais espanholas, como os famosos páteos internos, uma característica hispânica presentes em todas as suas ex colônias. 

Existem vários caminhos bem preservados até hoje, que eram utilizados pelos Incas. Eles não conheciam nenhum meio de transporte e, portanto, eram grandes andarilhos. Lembremo-nos que cavalos e bois foram trazidos pelos espanhóis. Os índios usavam pequenos animais, como lhamas, vicunhas e alpacas, para transportar mercadorias, mas, nunca para montaria.  

Existem trilhas que levam até uma semana para serem percorridas. São localizadas sobre as montanhas. Há vários serviços de guias, para levar os turistas através delas. A mais famosa liga Cusco ao santuário de Machu Picchu e leva quatro dias, em média, para percorrer os cerca de 80 quilômetros. Alguns pontos se aproximam dos 5 mil metros de altitude. Não é para qualquer pessoa. A maioria dos que a percorrem são jovens ou pessoas de meia idade, muito bem preparadas fisicamente. Eu achei que já passou a minha época e não a encarei. Ainda bem. A simples altura dos 4 mil metros já me deixou suficientemente cansado e com problemas de respiração. 

Preferi fazer uma trilha que segue em local plano, acompanhando a linha do trem entre a estação de Águas Calientes, aos pés da montanha de Machu Picchu e a estação chamada Hidroelétrica, um trecho de 10 quilômetros numa altura confortável, cerca de 2 mil metros de altitude. Seguimos margeando o Rio Urubamba, um dos formadores do colossal Amazonas, muitas centenas de quilômetros abaixo, na região tropical peruana. A paisagem é um espetáculo à parte. Leva-se menos de três horas, para uma caminhada confortável e tranquila. Cruza-se com diversos grupos pelo caminho. E alguns trens, o que torna o passeio ainda mais agradável. O que não é nada confortável é cruzar algumas pontes, por que os dormentes da linha do trem deixam à vista os intervalos abertos entre eles. Para pessoas medrosas como eu, o medo é incrivelmente ameaçador, embora saibamos que não há risco de cair, se tomamos os devidos cuidados. Mas, cruzar tais pontes com uma mochila nas costas é o máximo de risco que me permiti. Ainda assim, vivi meu dia de aventureiro.  



segunda-feira, 3 de junho de 2013

Machu Picchu


Depois de cem anos de exploração turística e arqueológica, ainda restam mais dúvidas do que certezas sobre o significado e a história de Machu Picchu. Sabe-se que era um refúgio especial para a elite que governava o Império Inca, cuja capital era a cidade de Cusco, distante 80 quilômetros do santuário. Cusco, a 3500m de altitude, era o centro do império inca, o "umbigo do mundo", e conforme o escritor mestiço inca Garcilaso de La Vega, "era la gran ciudad del Cuzco, cabeza de los reinos y provincias del Perú". O império Inca consolidou a conquista de tribos diferentes, que ocupavam o espaço andino desde a Colômbia até a Patagônia argentina. Seu auge ocorreu por volta de 1430. Para a capital, Cusco, todo inca deveria peregrinar pelo menos uma vez na vida. Por isso, existem ruínas de várias cidadelas que serviam como portais e centros de controle dos viajantes. Originalmente a cidade de Cusco tinha a forma de um grande puma e era centro religioso, administrativo e militar do império. Hoje a cidade preserva em sua base as construções incas de pedra, sob as quais os espanhóis erigiram suas construções militares e religiosas. Aqui é o ponto de partida para muitos locais sagrados como Ollantaytambo, Tambomachay, Vale Sagrado dos Incas, Pisaq, Puca Pucara, Salcantay, Raqchi, Chincheros e, principalmente, Machu Picchu, a cidade sagrada. 




Machu Picchu  (que na língua quechua significa Montanha Velha), está a 2400m de altitude e é o ponto máximo da religiosidade andina, onde até hoje diversas pessoas do mundo buscam equilíbrio, energia e espiritualidade. O local leva esse nome devido à denominação do pico de onde se originaram as pedras que construíram a cidade sagrada.  Para se chegar à Machu Picchu, o único acesso é um trem que parte de Ollantaytambo, levando cerca de 2 horas de viagem para percorrer os poucos quarenta quilômetros de ferrovia.  Os peruanos dizem que esse acesso dificultado é proposital, para que não haja frequência de pessoas à cidade sagrada. Lá só podem ingressar três mil pessoas por dia. Também há peregrinos que fazem a trilha inca,  subindo a altitudes de mais de 5000m e ingressam na cidade depois de alguns dias de caminhada através do Portal do Sol, o Intipunku.



Estudiosos acreditam que Machu Picchu foi um centro religioso onde moravam xamãs, bruxas e sacerdotes.  Constatou-se que grande parte da população era formada por mulheres. Até hoje existem dúvidas sobre o papel dessas sacerdotisas, conhecidas como "Virgens do Sol". Muitos acreditam que elas eram originárias das famílias nobres do império, e estavam destinadas ao serviço religioso do Inca, inclusive para sacrifícios humanos em louvor aos seus deuses. Consta que antes de uma guerra, por exemplo, sacrificavam-se as virgens como recompensa aos deuses, pela proteção aos guerreiros e garantia da vitória. Há um caso supostamente real de um rei Inca que cortou o próprio pênis, como forma de adivinhar em meio à imensa dor o futuro resultado de uma batalha contra seus inimigos. Quando os espanhóis invadiram e conquistaram a capital, Cusco, a cidade sagrada foi propositalmente abandonada, afim de ser resguardada dos invasores. E assim ficou por longos cinco séculos, até que foi descoberta por um pesquisador da Universidade de Yale, Estados Unidos. Mas, já existem evidências de que um explorador alemão a tinha encontrado por volta de 1860. Na verdade, nunca se saberá o que de fato houve, até por que os nativos indígenas sempre souberam de sua existência, tanto que foram eles que venderam a informação ao arqueólogo norte americano.

Machu Picchu era dividida em três setores: 1) o Bairro Sagrado, onde se encontra o templo utilizado para homenagear o Sol, além da casa das três janelas, de onde se contempla uma vista impressionante do Vale do rio Urubamba; 2) o Bairro dos Sacerdotes, onde se encontravam as habitações dos religiosos;  3) o Bairro Popular, onde os trabalhadores e camponeses habitavam. São abundantes também as pacchas, fontes de água interligadas que percorrem toda a cidade, um exemplo de planejamento urbano ainda para os dias de hoje.







Em Cusco se encontra misticismo em toda parte. Cada guia se converte num pregador chamânico. Cada vila tem suas tradições e sua música é impressionantemente forte do ponto de vista espiritual. Quem quiser se recarregar de energia cósmica, não poderá achar outro lugar mais especial no continente sul americano. 




Outras fotos de Machu Picchu estão disponíveis em
http://www.meualbum.pt/Album=A43G7AIH


domingo, 2 de junho de 2013

Saga da Amazônia


Rio Branco é a mais bela cidade da Amazônia brasileira. Extremamente violenta, como todas as demais.

Um caboclo de mais ou menos vinte anos de idade me olha com seu jeito raivoso no centro de Rio Branco. Está de olho na minha câmera fotográfica e possivelmente me imaginando como turista endinheirado. Está prestes a me atacar. Seu olhar demonstra uma enorme e insaciável raiva. Parece dizer que sou eu o responsável pela sua carência total, de dinheiro, de saúde, de amor e provavelmente de comida. Não é o primeiro olhar desta natureza que encontro pela Amazônia afora, nas diversas vezes que estive por aqui. É o mesmo olhar duro, desconfiado, sorrateiro e envenenado, observado muitas vezes em Belém, Manaus, no Maranhão, em Rondônia e agora aqui, no Acre.  Eu entro no escritório do serviço de informações turísticas, com medo do olhar ameaçador nesta manhã ensolarada debaixo dos trinta graus de sempre, como todas as manhãs do ano. A chuva refrescante virá, como vem todos os dias, mas, quase sempre depois das tres da tarde. Por enquanto, é apreciar este calor e esta natureza marcada pelas contradições mais violentas, entre a sensualidade gritante das moças pelas ruas, combinando com a exótica natureza embriagada de cheiros e promessas,  enquanto paira no mesmo ar a ameaça de um assalto a qualquer hora. Como vêem, é bem variada a experiência de andar pela Amazônia.

A religiosidade cristã se mistura com os ritos nativos ancestrais. O barulho feito pelos pregadores evangélicos não combina com o chá alucinógeno servido em reuniões secretas da União do Vegetal e outras seitas amazônicas, de um misticismo profundo e arraigado nas tradições dos cultos indígenas, quase sempre focado nas forças da natureza. No meio das procissões católicas, assim como nas igrejas concorrentes, a alegria das pessoas tem evidente energia sexual. As pessoas e o ambiente amazônico respiram sexo o tempo todo. São os casais de mocinhas e rapazes pré adolescentes se amassando pelos cantos, atrás de árvores e por sobre os bancos das praças. Mulheres maduras e encantadoras na sua doce sensualidade, te encarando pra valer, quase convidando para o amor, mesmo que você esteja já acompanhado. Certa vez, em Manaus, sentou-se a meu lado no banco do ônibus uma linda cabocla no esplendor de seus vinte e cinco anos. Estávamos indo em viagem para Manacapuru num sábado de manhã, eu de turista e ela em visita aos parentes. Começou a reclamar do frio do ar condicionado, esfregando seus lindos ombros desnudos, aos quais eu me ofereci para aquecer com minhas mãos massageadoras, oferta imediatamente aceita e respondida com um sonoro e não pedido beijo de língua. Ficamos nos acariciando pela estrada afora, a coisa ficando mais quente na medida que esfriava o ar condicionado. Desci na estação rodoviária num estado sufocante, já certo de que nosso passo seguinte seria a entrada imediata num apropriado hotel, quando a moça se despediu com um beijinho no rosto. "Como assim? Ora, sua mãe pode esperar algumas horas", reclamei meus direitos, mas, não teve jeito. A moça queria chegar logo em casa e me deixou na mão, sem mais nem menos. Não deu sequer telefone ou endereço, dizendo que me procuraria em meu hotel de Manaus, fato que realmente não aconteceu pelos tres meses seguintes em que estive naquela metrópole tropical. 

Assim são as mulheres amazônicas e assim é que exercem sua sedução diabólica e irresponsável. Trabalhando na empresa de energia elétrica local eu vi coisas do arco da velha, envolvendo mocinhas bonitinhas, de classe média e bem casadas, mães de família com filhos pequenos e amantes bem grandinhos. Estes habitantes das florestas de pedras das cidades grandes da Amazônia têm um jeito muito próprio no estabelecimento de regras de condutas sociais, incluindo procedimentos muito estranhos para nós forasteiros, totalmente diferentes quando se aborda o vasto campo da sexualidade tropical.

Com tanto sexo em abundância, só mesmo a violência urbana para completar o quadro de sensualidade perigosa. Em todas as grandes cidades o quadro é o mesmo. Conselhos para tomar cuidado. "Não ande por estes lados da cidade, moço, é muito perigoso", ouço de uma senhora dentro do ônibus urbano em Belém, quando ameaço descer num ponto que me parecia animado. "Cuidado com os nóia que andam assaltando por aqui, para comprarem mais drogas", me aconselham em Porto Velho, quando eu tentava achar o caminho de volta para o hotel. Aqui em Rio Branco é igual. A Amazônia é muito diferente de Santa Catarina, embora ambos estejamos no mesmo e violento Brasil. No sul, a violência está mais escondida e mais disfarçada dentro dos morros e nas favelas. Aqui, não. Ela é explícita e pode ser encontrada na saída do teatro ou na porta do restaurante de luxo, a qualquer hora. Não há muito o que a polícia possa fazer. O negócio é não "dar bobeira", como já estou aprendendo meio que "na marra". Não há outro jeito.  É ficar de olho, principalmente quando o olhar do caboclo que te observa está carregado de ódio.  




O estado do Acre é realmente um diferencial de qualidade em meio à devastação moral e ambiental amazônica. Sua capital, Rio Branco, é uma pérola de encantamento, limpa, bem cuidada, com elevada auto estima por parte da população. Os últimos governos são exemplo de sabedoria e capacidade. É impressionante o resgate histórico que fizeram do herói ambiental Chico Mendes. Acho até que ele próprio não se sentiria bem, no meio de tanta homenagem. É parque, é biblioteca, é mural, é tanta homenagem que provavelmente o velho militante acharia estranho, principalmente vindo de um governo que acaba de ser investigado pela Polícia Federal, resultando disso acusações pesadas de corrupção. São os mesmos companheiros de Marina Silva, que não pode ser afastada das fotos em que aparece nos velhos tempos de combate aos jagunços sob ordens dos fazendeiros e poderosos locais, lutando ao lado dos irmãos Viana, um governador e outro senador. É triste constatar a decadência moral de um governo que se mostrava insuspeito, amado pelo seu povo a ponto do governador Tião Viana desfilar na procissão de Corpus Christi de peito aberto, sem qualquer segurança. Como pode acontecer mais este fracasso? Será que não haverá mesmo esperança? Será que a política será eternamente esta oficina do diabo?

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Cusco, Peru



Quando chegamos a Cusco fazia seis graus às tres horas da manha. Rodoviária velha, suja e vazia. Um único táxi aguardava passageiros. "Por favor, queremos ir ao Hostal Rojas".

-- Tienes la direción?

Nao tínhamos. Havíamos reservado por Internet em Rio Branco, Acre, justamente temendo pelo pior, o que agora se configurava.

-- "Sei que é perto da Praça de Armas. Vamos lá e procuramos", eu disse ao taxista.



O centro histórico da cidade de Cusco nao tem nada a ver com sua periferia, onde fica a Rodoviária. Naquela madrugada de domingo, a cidade fervilhava de atraçoes por todo lado, jovens loiros europeus e norte americanos bailavam alegremente pelas ruas, saindo de uma e entrando em outra boate, onde bandas de rock ou conjuntos folclóricos animavam as festas. Restaurante abertos, com seus pregoeiros em pleno frio da madrugada, tentando atrair clientes para dentro de seus estabelecimentos. Policiais dirigindo o trânsito, que se mostrava complicado nesta parte da cidade. Paramos o táxi na Praça de Armas e perguntamos a uma policial, pois julguei mais recomendável envolver uma mulher. Ela prontamente passou a consultar sua lista de hotéis, enquanto o motorista consultava outros companheiros na praça e rapidamente localizamos o endereço. 

Chegamos na porta do hotel, acordamos o porteiro e quando perguntei pelo preço da corrida, recebi minha segunda surpresa agradável em Cusco. A primeira havia sido o encanto de uma cidade andina luzindo suas luzes festeiras numa alta madrugada. 

-- Sao 20 soles, senhor.

Isso correspondia a 16 reais, para sair da rodoviária, esperar pela localizaçao do hotel e nos deixar na porta. Era praticamente de graça. Dei 30 soles ao bom homem e adentramos a uma suíte de dar água na boca, ampla, com sacada para a rua barulhenta, porém completamente silenciosa no seu interior. Uma banheira gigante nos aguardava, para o merecido descanso depois de 28 horas de viagem de ônibus pela selva Amazônica e cordilheira dos Andes, saindo de praticamente nível do mar para 5 mil metros de altitude, no ponto mais alto da cordilheira, até baixarmos para os atuais 3.400 metros do centro de Cusco.  

Para ver fotos de Cusco, visite meu álbum
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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ônibus amazônico de Rio Branco a Cuzco





Ao contrário de Porto Velho, a cidade de Rio Branco, no Acre, é uma belezinha!  Tudo muito limpo, bem cuidado, bonito, equipamentos urbanos modernos, uma auto estima evidente no ar!  

Ao se parabenizar seus moradores pelo que encontramos, não raro a resposta era "Não foi sempre assim, não senhor." E quando se investiga para saber detalhes, fica muito claro que a transformação deveu-se ao período que se iniciou com o primeiro governo de Jorge Viana, irmão do atual governador, também do PT.  Eu que não tenho qualquer simpatia por este auto denominado Partido dos Trabalhadores (arre!), ainda que tenha sido um de seus fundadores,  sou obrigado a tirar o chapéu para este grupo político, que tirou o Acre das mãos dos antigos exploradores de recursos naturais e deu a seus cidadãos a experiência de escolher suas próprias alternativas. É certo que no final se formou uma outra elite, em torno desse povo da classe média de Rio Branco, a capital, em aliança com a herança que sobrou de Chico Mendes e sua experiência comunitária nos seringais. Mas, é evidente que mesmo isso é muito melhor que os que serravam os corpos dos inimigos com moto-serras.    



 













Quando iniciamos esta aventura, pensávamos que haveria linha aérea que servisse as duas importantes cidades. Não há. Para o indivíduo deixar Rio Branco e chegar a Cuzco de avião, tem que passar por Manaus e Lima. Coisas de países em "franco processo de desenvolvimento", que deixaram de ser miseráveis, e estão integrando suas populações ao mundo civilizado. Assim, "compartem" melhor suas potencialidades turísticas, não é mesmo? 

Fomos obrigados a tomar um ônibus, que faria os mil quilômetros em não menos que as incríveis 29 horas que levamos nesta "viagem".  O jeito foi encarar a buraqueira e a burocracia, que só abriu a aduana brasileira na fronteira às 9 horas da manhã, prestigiado lugar onde nosso ônibus estacionou às 6 da manhã. A população local nem reclama, pois já está acostumada... Haja paciência ...

O ônibus em Rio Branco seria continuação de uma viagem que começa em São Paulo (! e termina numa cidade litorânea perto de Lima !). Estava marcado para 10 da noite, mas, a vendedora de passagens já avisou "Olha, tem dias que ele passa meia noite e meia, tem dia que passa às quatro da manhã, mas, antes de meia noite, nunca passou, não!". E não haveria de ser naquela noite que isso aconteceria. Saímos de Rio Branco 00,30 da madrugada de sábado, com temperatura ao redor de trinta graus. Ufa!

Apesar da miséria evidente, o ser humano e suas obras sempre apresenta suas curiosidades exuberantes, como a floresta que lhe serve de moradia e sustento. Paisagens belíssimas e exóticas, primeiro as amazônicas, depois, se diferenciando na subida da cordilheira, até chegar a 5 mil metros de altitude, de onde se baixa em seguida para os 3,4 mil metros de Cuzco, nosso destino final, onde chegaríamos cansados, gripados, famintos e atordoados pela altitude. Felizmente havía feito uma reserva num hotel padrão mediano, onde me esperava uma deliciosa banheira quente, no meio dos seis graus que fazia em Cuzco.  Eram 5 horas da manhã de domingo, em horário correspondente a Rio Branco.


Ao longo da estrada, observa-se várias derrubadas e os acampamentos de seus trabalhadores. 

"Chiquita" peruana embarcada em São  Paulo. "Se vá a visitar la abuela...".



domingo, 19 de maio de 2013

Porto Velho, terra da desesperança

Centro da cidade vista de um barco no meio do Rio Madeira

A capital de Rondônia é uma grande decepçao. De um ponto perdido no meio da floresta Amazônica,a cidade de Porto Velho aparenta realmente uma cidade velha, descuidada, feia, quente como o inferno e inadequada em todos os sentidos. Por onde se anda, principalmente pela noite, as recomendaçoes sao sempre as mesmas: "Muito cuidado com os nóia." ou "Amigo, este lugar é perigoso, melhor sair daqui."

Deve ser, mesmo. Nem a populaçao local gosta de sua cidade. Até um garotinho de doze anos, com quem conversei (sou ótimo para papear com prè adolescentes!) disse que nao vê a hora de se mandar daqui. Prefere viajar com o pai caminhoneiro, do que frequentar a escola. Todos parecem apenas estar aproveitando a oportunidade que vier para dar no pé. Uma terra de aventureiros!

 
Tudo na cidade lembra o Nordeste. Vieram construir a Madeira-Mamoré e nunca mais foram embora.
Desde o início do sèculo passado foi assim, quando levas de nordestinos migravam para lá, contratados para construir a estrada de ferro Madeira Mamoré, compromisso do governo brasileiro de entao, como recompensa aos bolivianos pela incorporaçao do território do Acre. Hoje, a cidade continua sendo nordestina, com suas comidas, diversoes públicas, músicas, comportamento, etc. Há uma sexualidade muito forte impressa no ar. Mocinhas de doze anos já estao agarradas com rapazes, se amassando nos cantos escuros. E cantos escuros nao sao propriamente uma carência da cidade, ao contrário, precisariam de muito mais luz.

Luz que está sendo providenciada pelos consórcios que constroem as usinas do Rio Madeira. Mas, aos que pensam que este investimento monumental, capitaneado pelos franceses da Tractebel, vai solucionar o problema de segurança a escuridao da cidade, podem tirar o cavalinho da chuva. A inteligência tupiniquim planejou o uso desta energia elétrica para alguns milhares de quilömetros daqui, em lugares situados no espaço desenvolvido do leste brasileiro, Sao Paulo na frente da demanda. Nao sei se vai sobrar alguma coisa para os rondonianos. Por isso estao construindo linhas de transmissao com tres mil quilômetros. Voltamos ao Brasil Grande da ditadura militar. Seria mais fácil construir termo-nucleares no estado de Sao Paulo e deixar os bagres do Rio Madeira em paz ...
 
O desmatamento das margens do rio sò poderia provocar isso mesmo: erosao

O porto é velho, mesmo. E pequeno. E ruim!

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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Ser ou não ser. Era a questão. Agora, é Ser Humano.


Seres humanos são imperfeitos, impacientes, impermanentes e insatisfeitos.

Embora a filosofia religiosa oriental budista soubesse disso há milênios, a Igreja Católica construída pelo império romano tentou nos passar a ideia de que seres humanos poderiam ser perfeitos em vida encarnada. Essa é a noção de santidade cristã, alguém que superou em vida as contradições da existência humana. Se isso acontecesse, na visão budista, o Ser já não teria se encarnado de novo, pois estaria perfeito e iluminado. Em outra esfera, com certeza, talvez no paraíso. Para cristãos, o paraíso só será possível após o julgamento por um tribunal celestial, depois de concluída a única passagem do Ser por este vale de lágrimas. Esquisito, não?  Tudo mudou com o estudo profundo da condição humana, dos anos 1800 pra frente, quando  a ciência positivista entraria em acordo com os antigos mestres, construindo matrizes de "verdades" que deles se aproximavam.  Por exemplo, a psicanálise passou a afirmar coisas que espantavam os religiosos fundamentalistas, que logo os classificaram como a serviço do demônio. 

"Não há culpa sem prazer", afirmou o pai da psicanálise, Sigmund Freud, que escapou da fogueira apenas por que não tinha nascido em 1600. 
"Não há prazer sem riscos", acrescentou Wilhelm Reich, o pai da bioenergética, que revolucionou o pensamento ocidental ao concluir suas pesquisas sobre a função psico-física do orgasmo. Por isso mesmo, morreu envenenado numa prisão norte americana, onde tinha ido buscar abrigo fugindo dos nazistas alemães, ora veja!


Uma das condições naturais da impermanência humana é o eterno conflito de gerações. Já se ouviu dizer que as netas imitam as avós. Não há dúvida. O mundo dá voltas em torno de si mesmo há milênios. Mas, avança, ahhh, se avança. Dois passos pra frente e um para trás, rsrsrs.






A cultura de massas do século XX é uma demonstração do avanço da civilização. Até então, a arte se restringia à elite dominadora. Reis e poderosos contavam com seus casts particulares de artistas, músicos, escritores, adivinhos, mágicos e magos, enfim, todo o conhecimento artístico estava a serviço da elite. Não há dúvida que se produziram obras magníficas, inclusive aquelas feitas durante o período medieval, barroco e clássico, longo período de mil anos, onde a Igreja detinha o monopólio da música. Neste cenário se criaram grandes obras da humanidade, sob a inspiração de gênios como Bach, Mozart e Bethoven. Mas, já na segunda metade dos anos 1800 ocorreu um evento significativo, a Ópera. 

A partir de 1850 a Igreja perdia o monopólio da diversão. Já era possível romper com o padrão machista de bispos e padres, ao se encenar as aventuras de uma cigana enfeitiçada, que seduzia todos os homens, como a Carmen de Bizet, ou a mulher rainha supostamente destinada a governar a Terra, graças aos seus super poderes de fêmea, brilhantemente descrita por um russo na obra Carmina Burana.  

Mas, foi a música popular que transformou tudo. O principal evento transformador foi o canto negro spiritual norte americano, que se transformou no Blues, Jazz e Rock, que dominam o mercado até hoje. Todos os ritmos regionais, do tipo Samba, Tango, Bolero, árabes, asiáticos, africanos, indianos, etc., mesmo os que se aventuram no mercado ocidental, como a música New Age, estão longe de competir com o padrão elegido pelo mercado. Ou seja, o padrão norte americano de música. 

Ele não é necessariamente bom. Mas, é, sem dúvida, o melhor que temos. Envolvente, filosófico, questionador, transformador, midiático, meditativo, religioso, literário. Enfim, é o meu preferido também!





Isso não quer dizer que a periferia não faça boa música. Claro que faz! Constantemente, produtos da periferia do sistema capitalista adentram aos Estados Unidos e Europa, fazendo relativo sucesso, o que, pelo menos, lhes garante o sustento em suas comunidades originais.

Foi o caso de diversos artistas brasileiros, desde a clássica Carmen Miranda, que voltou da matriz com sua paródia "disseram que eu voltei americanizada". Na verdade, Carmen Miranda só fez sucesso por que correspondeu a um  apelo de mercado, propiciada pela morte inesperada de Carlos Gardel. Então, para preencher o espaço destinado aos latinos, chamaram a luso-brasileira das bananas na cabeça. Assim como Tom Jobim e seus bossa-novas, que preencheram um lack dos cubanos, que brilhavam no show business de jazz latino, e foram abruptamente cortados pela revolução cubana de Guevara-Castro em 1959.

Enfim, tudo é mercado e cada artista tem seu preço. Felizmente esta regra não se aplica a todos. Pelo menos um de nossos ídolos está fora dela:  Milton Nascimento.  Ele só  cedeu algumas poucas vezes ao Sistema, a maior parte delas em engano de consciência, seduzido por terceiros, de forma inocente e até infantil, como no apoio à campanha das Diretas Já, em 1984, com a canção "Coração de Estudante", que, depois, viria a tornar-se o hino oficial da Nova República e do governo Sarney, valha-me-nossa-senhora-do-bigode-preto! Milton sempre foi inclassificável, como na alegoria de Caetano Veloso, "salve os mil-tons e seus sons geniais". 

Nesta canção emblemática, chamada "Uma Moeda", Milton faz duo com simplesmente Flora Purim, brasileira auto exilada, então uma das grandes damas do jazz norte americano nos anos setenta.


O encontro da música de Milton Nascimento com Waine Shorter e Herbie Hanckok, em 1976, foi uma festa para os ouvidos. Nós, que estávamos totalmente isolados pela ditadura militar, podíamos nos encontrar em ambientes particulares, supostamente protegidos dos espias da repressão, beber nossa cachaça e ouvir um som de outro espaço, que nos colocava a salvo daqueles tempos bárbaros. Pelo menos pelo tempo que durava a festa... E que festas!!! 






quarta-feira, 1 de maio de 2013

Não me dá nos cornos, seu istepô!



O primeiro de maio amanheceu ensolarado e brilhante, o mesmo azul turquesa a prenunciar um dia de espetáculos, que se acabou em nuvens na altura do meio dia... rsrsrs. Nesta época do ano, os dias começam sempre assim, como se estivéssemos no outono de Aux-en-Provence, sul da França, curtindo os primeiros ventos gelados que sopram do Saara e atravessam o mar Mediterrâneo, enchendo de areia e glamour a cozinha de Lion, uma centena de quilômetros longe da costa, a central milenar da cozinha francesa e, por conseguinte, do mundo civilizado. De Lion se pode pegar um trem numa das várias estações que servem à civilização, com o detalhe de metrô grátis, e subir até os Alpes, para tomar um banho térmico e encharcar-se de lava vulcânica, sorver um branco seco e voltar para a janta no mercado público mais interessante da Europa. 

Nada disso importava nesta manhã. Nos mantivemos entretidos com uma conversa amena, pois nossa musa iria dar uma entrevista na TV de Itajaí, estava muito nervosa, de modo que precisamos apelar para várias técnicas de tranquilização, até que ela se mostrou tão agradecida e emocionada que chorou em público, quero dizer, um público privado, só para mim, embora eu desconfiasse que algo assim pudesse suceder no decorrer da entrevista em si, fato que realmente não aconteceu, ainda bem, nossa!, livramo-nos do pior. A entrevista foi um sucesso, como sempre!



O que protege nossa praia da poluição humana são suas dunas eternas.

Cheguei no centro místico da Praia do Campeche, de onde se avista a famosa Ilha. 
A Missa corria solto, cantorias do divino e várias entonações emocionantes.
Me impressionou a qualidade do coro e dos músicos encarregados da liturgia. 
Os padres e coadjuvantes distribuiam o sacramento, há um momento de discursos das autoridades presentes, falam tres vereadores, dos quais eu conheço um, o Sandrini, uma espécie de sobrevivente da velha política, onde os Ramos comandavam tudo em todos os partidos, há pelo menos cento e cinquenta anos. Os outros dois vereadores não sei dizer quem são. Produtos da transformação de Floripa em metrópole, eleitores novos e ignorantes das regras locais,  que não sabem das tradições de manter a mesma elite no poder. Mas, não se preocupem, eles também cumprem a mesma missão de manter o poder nas mãos da oligarquia, a serviço da especulação imobiliária. E que se "fodam" os interesses de nativos e moradores que vieram de fora! O que interessa são os lucros fenomenais, decorrentes da exploração pura e simples dessa maravilha que é a natureza de Floripa, um dos cenários mais encantadores do Planeta, sem dúvida ...


Ilha do Campeche ao fundo
Terminada a missa, os discursos das autoridades remetiam sempre à necessidade de cumprir o estabelecido pelo Ministério da Pesca, ou seja, iniciar a pesca artesanal com canoas somente a partir do dia 15 de maio. Uma das reivindicações maiores dos pescadores artesanais era justamente iniciar esta atividade a partir de 1º de maio, hoje. Acho sinceramente que isso não tem qualquer importância econômica, pois a pesca artesanal está mesmo condenada à falência. Mas, o que custava deixar isso ao encargo dos próprios pescadores? Por que a indústria pesqueira, baseada em Itajaí, precisa tanto humilhar as comunidades litorâneas de Santa Catarina?

Falaram vários intérpretes dessa premissa, o superintendente do Ministério da Pesca, o do Meio Ambiente, o da Secretaria de Pesca da prefeitura municipal, até o presidente da federação dos pescadores, um pelego bem falante, se dizendo muito corajoso, até o ponto de ignorar as ofensas pessoais e poder recomendar aos pescadores do Campeche que não entrassem em litígio com a autoridade, aconselhando que cumprissem o que está posto pelo governo federal, a serviço dos industriais de Itajaí: pesca com rede e canoa, só entre 15 de maio e 15 de julho. Ridículo!!!



Tudo bem, todo mundo satisfeito, autoridades deixam o palanque ao lado dos padres e lideranças sindicais, todos tranquilos em relação à massa que ali esperava pelo espetáculo musical que viria em seguida, a pelegada confiante de que tudo já estava resolvido. Então, sem ninguém perceber a importância disso,  entra em ação ninguém mais que uma simples feiticeira açoriana, uma mulher bruxa que se deu como missão preservar as tradições ilhoas. Dona Bilica!!!



Dona Bilica começa sua intervenção chamando as "autoridades" de volta ao palco; "Dondeé qui ocêx vão, ô istepô, vorta cá! Pensa qui é falá bobagi e si mandá, é? Olholholho,lho,lhói, te exconjuro, cambada de mandrião!". 

Em seguida passa a fazer considerações perfeitamente lúcidas, politicamente perfeitas dentro do quadro da luta de classes, tomando partido nitidamente pelos desvalidos que ali estão a assistir a um espetáculo engendrado pelos poderosos. Dona Bilica, sutilmente e de forma escancaradamente cômica, chama a atenção para o fato de que aos pescadores artesanais está proibida a pesca de arrasto, enquanto se pode observar no mar o movimento dos barcos pesqueiros, que praticam a pesca predatória. Não houve como contestar tamanha autoridade moral. O público veio abaixo, em aplausos emocionados.  

Saí daquele palco de areia branca com a alma lavada! Nem esperei o espetáculo musical dos valores que habitam esta província, a planície imaculada entre a Baia Sul e o mar aberto, onde se pode avistar o verde intenso das copas que enfeitam a imensidão azul, a Ilha do Campeche,  "abençoada por deus e bonita por natureza" .