quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Nasci debaixo de um pé de café





Fui criado num vilarejo do norte do Paraná, entre violeiros e lavradores, que se encontravam nas vendinhas, lá pelas horas das ave-marias. Dizem que alguns desses inspirados caboclos até negociavam com o diabo, para que as cordas soassem com brilho, tanto as de aço como as vocais, e ajudassem a causar boa impressão nas mocinhas. O sucesso dessas empreitadas junto ao corisco perigoso, não cheguei a constatar, por que cedo deixei aquele paraíso da infância e fugi em direção às capitais, onde estou até hoje. Moro na Ilha de Santa Catarina, onde está a cidade de Florianópolis. Aqui crio minhas galinhas, cuido das flores e do pomar, levo minha vida simples e escrevo coisas que até deus duvida! Também canto, mas sem o mesmo brilho dos que fizeram o pacto. Sentindo saudades da terra natal, plantei alguns cafeeiros no meu quintal, mas, eles nunca deram flores. 


Quando eu criei este blog de crônicas, era para guardar aqui os textos que antes eu espalhava pelos ares. Perdi vários deles em quedas abruptas provocadas pelos ventos soprando em diversas Windows, fazendo-os cair ao chão e ficarem em estado irrecuperável. Outros, recuperei de velhas missivas eletrônicas trocadas com outros computadores, prosas carquejadas pela ferrugem do tempo. Ainda outros, os recuperei de arquivos perdidos alhures em várias pastas escondidas no meu próprio computador. Então, ficaram todos juntos num único depósito virtual. Ali, tenho assunto para qualquer conversa. 
http://laerciodoarte.blogspot.com.br/2012/02/cuentos-dela-frontera-estavamosos-dois.html


Utilizo fartamente o recurso preferido dos cronistas sem assunto. Falarei de mim mesmo! Minhas crônicas sempre trazem no espaço no lado direito da tela, um pequeno texto à guisa de auto apresentação, onde eu afirmo categoricamente na primeira frase que "nasci debaixo de um pé de café". Nada mais verdadeiro!  Assim que fui desmamado, lá pelos seis meses de vida, fui apresentado a um belo copo de café com uma gema de ovo jogada lá dentro, afim de aproveitar o calor do líquido e torná-la levemente palatável a um bebê ainda sem dentes. Disso resultou uma saúde de ferro e o primeiro vício: cafeína, rs rs rs. Depois, toda minha vida foi pautada pelas flores do cafeeiro, seus frutos vermelhos que aos pouquinhos iam ficando pretos, até serem colhidos, torrados, moídos e embalados na fábrica onde trabalhava meu velho pai. No páteo da fábrica se espalhava o sub produto do processo de fabricação: montanhas de palhas de café, formando perigosos sulcos que podiam engolir os pequenos brincalhões, fonte permanente de pânico para as abnegadas mães. Os primeiros rubores apaixonados da adolescência foram sofridos entre milhares de cafeeiros recobertos de flores branquíssimas, a esconder as folhas verdes que guarneciam cada pé de café, os pequenos arbustos formando campos inteiros de noivas estilizadas, com seus imaginários vestidos brancos. Ali, apenas apreciando a beleza indescritível de um cafeeiro florido, aprendi a escrever, enquanto sentia o aroma sem igual das toneladas de grãos pretos sendo torrados em grandes fornalhas, espalhando um certo cheiro viril e arrebatador da fumaça preta por todo o sertão do Pindura Saia. 

http://laerciodoarte.blogspot.com.br/2012/02/grande-sertao-veredas-da-alma.html


Muito antes de ser homem e ter escolhido o Campeche para viver ... 
http://laerciodoarte.blogspot.com.br/2012/02/jornada.html       

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Viajando dentro de um casulo





Entrei na Rua Francisco Dias Areias, localizada no bairro da Trindade,  e subi direto, passando da casa onde fica a sede do Centro de Metafísica Atman Amara, da mesma forma que já houvera feito na quarta feira passada,  quando fomos assistir a palestra do terapeuta Rafael de Souza, facilitador do trabalho denominado "Casulo", para o qual eu finalmente havia me inscrito, apesar de todo o medo do novo que me inaugurava naquele estilo terapêutico.  Felizmente eu havia decorado o número da casa e fiz retorno, percebendo que o local já havia passado.

Ao chegar na casa, já atrasado, a diretora Bárbara Machado, que foi minha mestra de iniciação no Reiki,  foi logo sapecando: "É melhor acertar o pagamento agora, por que depois você pode sair do ar, né...".  Eu, que já vinha meio assustado pelo caminho, tive um ligeiro estremecimento e brinquei, pra disfarçar a ansiedade: "É, pode ser também que eu acabe desistindo no meio da sessão, né, então é melhor garantir o faturamento já.".  Ela deu um sorrisinho amarelo, meio envergonhada, e foi aí que  percebi que sua pequena gafe deu-se por conta da completa inapetência para os assuntos comerciais. Também entendi o motivo pelo qual a placa que identifica o Centro  não dá pra ver da rua, pois está colocada na parede do piso inferior, quando o cliente já adentrou à casa e se dirige para as salas de trabalho. Percebi que a discrição, aliada a uma certa ineficiência marquetológica, é parte integrante da filosofia desse pessoal ligado aos movimentos inspirados na Teosofia, espécie de relicário de conceitos  espiritualistas orientais,  sistematizada no final do século XIX pela mística russa Helena Bravatski, da qual derivaram alguns dos principais movimentos esotéricos do século XX.




O Rafael, responsável pelo trabalho do "Casulo", apesar de muito jovem, já é um experimentado xamã e terapeuta corporal, trabalhando também com as técnicas da  Sauna Sagrada. Passou por vários caminhos, incluindo ritos amazônicos, e seu foco atual está no trabalho com sons atávicos, associados à aromaterapia, usando intensamente plantas medicinais e do universo memorial e emotivo do cliente. Ele explicou-me que eu seria colocado deitado sobre um colchonete, envolvido por cobertores, e que eu deveria unicamente prestar atenção no que acontecesse, fosse o que fosse.

Sobre minha barriga seria colocado um recipiente de couro contendo o chá derivado das plantas que eu trouxera, mais algumas que ele próprio havia providenciado. Disse que o chá iria aquecer meu corpo e que o trabalho demoraria entre 60 e 90 minutos, mas, eu não deveria me preocupar com isso, pois ele estaria o tempo todo ao meu lado e dirigiria o trabalho.

E assim foi. Durante algum tempo eu ainda estava muito tenso, aflito diante do desconhecido e do imponderável,  e, por isso mesmo, a respiração profunda a que me propunha se dava com alguma dificuldade. Através de exercícios de relaxamento muscular, associados às técnicas respiratórias, fui perdendo o medo e me deixando conduzir pelas sensações provocadas pelos cheiros e pelos sons atávicos.  Os aromas não vinham apenas do chá, sobre minha barriga, mas também das plantas espalhadas ao natural ao lado do colchonete e, principalmente, vaporizados pelo terapeuta a partir de frascos que ele mesmo havia preparado, como parte de seu instrumental permanente de trabalho, que incluem também incensos e velas.

Assim como os aromas, os sons também me influenciavam para sentir prazer ou desconforto. Diante de alguns cheiros-sons eu entrava num estado de plenitude e, diante de outros, o pânico batia às portas da minha sensibilidade. O que me ajudou muitíssimo a passar ambas as experiências, foi a orientação que recebi para que apenas observasse. Então, procurei não intervir em nada, de modo que mesmo as sensações desagradáveis não atingiam o estado de pavor, por que estas perdiam importância no exato momento em que minha consciência se dava conta de que não passavam de fantasia. Se as sensações estavam relacionadas a alguma situação penosa, acontecida na infância, por exemplo, o ato de simplesmente observar devolvia-me à realidade de que aquilo deu-se no passado remoto e não mais faz parte da minha realidade presente. Isto foi fundamental para que o pânico não tomasse conta de minha mente, em determinados momentos de angústia, nos quais minha boca secava e eu me parecia sufocar.  E assim também foi com os momentos de êxtase. Eu sempre procurava não perder a consciência, ou seja, não entrar no moinho de energias que conduziam para o estado de prazer absoluto, que eu sabia estar relacionado com a proximidade do prana  cósmico, da energia universal, ou seja, do contato com a energia da Fonte Divina.

Num certo momento, que não sei precisar a duração, meu corpo vibrava ao som da música. Dos meus pulmões saia um ar bendito, passando pelas cordas vocais, que produziam um som parecido com o "OM", o som do universo na mitologia indiana, e eu sentia que era fundamental expressar aquele som. E quanto mais minha respiração se aprofundava no processo, quanto mais demorada era a etapa de expelição do ar pela voz, mais prazeroso se tornava.  Era um prazer orgástico!

Tentando sempre manter a condição de observador, e apenas neste papel, penso que tenha me ajudado  a fazer uma limpeza consciente das manchas que estão agregadas à minha estrutura de caráter, devido aos longos anos de adaptação às condições do mundo externo, competitivo e repressor. Como também sabemos, este é um dos fundamentos da teoria do encouraçamento muscular, estudada profundamente por Wilhelm Reich no início do século passado, e que resultou no desenvolvimento da Bioenergética. 

Por duas ou três vezes vi uma luz muito brilhante (note-se que eu estava de olhos fechados, com uma toalha cobrindo os olhos) e racionalizei na ocasião que o terapeuta havia colocado uma destas lanternas à lazer para iluminar meu rosto, tamanha era a intensidade do brilho (não riam, crianças!).  Posteriormente, depois da sessão encerrada, eu lhe perguntei se houve isso e ele me garantiu que nunca acendeu qualquer lâmpada na sala e especulou se, por acaso, eu não havia enxergado o brilho das velas que estavam acesas, atrás da minha cabeça. Com certeza não, eu concluí, pois a luz era bem na vertical e muito mais intensa do que uma vela poderia brilhar. Ainda não ouso especular sobre a origem ou o significado daquela Luz. Só espero que ela continue me acompanhando pela vida afora ...



O que posso dizer é que foi uma das meditações mais profundas que já experimentei em minha vida atual, uma vez que não tenho acesso aos registros akáshicos no meu corpo mental, para avaliar como foram as experiências em outras vidas,  rs rs rs. Quando o trabalho terminou, havia se passado cento e poucos  minutos e, ao voltarmos para a sala de recepção do Centro de Metafísica, a Bárbara me olhou e comentou: "Puxa vida, você é outra pessoa, heim?" E eu perguntei: "Como sabes?", ao que ela completou: "Ora bolas, o teu rosto está dizendo isto!"


Então caímos todos numa gostosa gargalhada.  E eu saí para a rua, leve como um passarinho,  na monumental noite domingueira de Floripa.




terça-feira, 23 de outubro de 2012

Tres momentos de um cavalo louco



Quando John Lennon decretou que The Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo, houve um assombro de indignação no mundo conservador. Apesar disso, ele estava certo. Se fosse considerar a popularidade dos Beatles no Japão e outros países asiáticos, na União Soviética, na África e no Oriente, os fans da banda de rock eram em número bem maior que que os cristãos que habitavam o mundo.  Depois, Lennon prosseguiu com suas provocações sutis e inteligentes,  constatando que "o sonho acabou". Referia-se, claro, ao imaginário hippie de construção de um novo mundo, baseado (opa!) no amor e na paz, contra a guerra e o ódio. Daí houve outro assombro de indignação, só que agora entre os cabeludos rebeldes e suas musas da contra cultura, que tinham acabado de realizar o festival de Woodstock nos EUA e, em vista do fenômeno que foi aquele encontro de paz e amor, achavam que o ídolo mais articulado do quarteto de Liverpool estava literalmente gagá e ultrapassado.   

Em seguida, os Estados Unidos recrudesceram a guerra contra os Vietcongues, vários golpes de estado seguiram-se ao da ditadura brasileira, acabando com a democracia em importantes partes do mundo, inclusive em países clássicos como a Grécia, nossa mãe da democracia; assim como em terras latinos-americanas como  Argentina, Chile, Peru, Bolívia e Uruguai; em continentes como Ásia, África e Oriente.  Num intervalo de tres meses, morreram de overdose os ídolos da juventude revolucionária, Jimmy Hendrix e Janis Joplin. Pronto! O sonho tinha mesmo acabado e ainda tínhamos que ouvir as brincadeiras sem graça dos nossos obtusos adversários conservadores, "se o sonho acabou, então vamos comer bolos", gozavam tais tipos ignorantes, que só estavam interessados em nos desmoralizar, afim de se aproveitarem da liberdade sexual que nós havíamos arduamente conquistado, lutando nos campos da batalha moral contra o status quo então estabelecido. 

Quando chegaram os tempos de chumbo, precisávamos de um colo amigo, de alguém que cantasse suavemente aos nossos ouvidos, que nos embalasse na travessia do pesadelo. Muitos artistas se prontificaram a esse papel. Um deles foi Neil Young, um caipira que veio do Canadá para tocar guitarra na Califórnia. Inicialmente entrou na lendária banda The Buffalo Springfield, mas, acabou fazendo outra carreira paralela, cantando suas doces canções que falavam de amor simples e de solidariedade, da sua busca por um coração de ouro, que propositalmente confundia com a expressão "heart of gold", filão de ouro, o ideal dos velhos colonos que iam ao velho oeste em busca de fortuna fácil. Esta canção foi o maior sucesso country na primeira metade da década de 1970. E olhe que ela não tem qualquer apelo comercial. É apenas o sonho de um rapaz norte americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior, um Belchior canadense, para ficar mais claro, ora bolas...!!! Ele ganhava seu pouco dinheiro cantando improvisadamente em bares e acampamentos hippies, ao longo da costa do Pacífico norte americano.

Depois, quando entraram os anos noventa, fundou o estilo "grunge", sofisticando o velho rock and roll. Antes de meter uma bala na cabeça, Kurt Kobain, o líder da banda Nirvana, deixou um bilhete com os versos do refrão da canção onde Neil lançava o novo estilo: "Hey Hey, Hi Hi / Rock and Roll wil never die --- Hi, Hi, Hey, Hey / Rock and Roll is still the same". Para a terefa de reinventar o Rock, Neil Young foi ao submundo de Los Angeles buscar dois mexicanos perdidos nas drogas. Juntou a eles dois canadenses bem comportados, os internou a todos numa casa num costão do Pacífico e ficou meses experimentando o novo estilo. Não sei se usavam drogas nesse confinamento, mas, criaram obras primas.  Já aclamados pela crítica, a banda Crazy Horse produziu um clipe dirigido por ninguém menos que o cineasta Jim Jarmush, o grande revolucionário do cinema alternativo norte americano. 

Hoje setentão, Neil Young baixou um pouco a bola, depois que passou por uma cirurgia para remover um tumor alojado junto ao cérebro. Mas, continua fazendo chover. Seu encontro anual com os amigos Crosby, Stills e Nash, é sempre um acontecimento nacional na América do Norte, especialmente por que celebra 40 anos de militância anti guerra e pelo desenvolvimento social, batalhas nas quais os quatro amigos sempre estiveram envolvidos. 

Além do envolvimento nos movimentos pacifistas, ele sempre comparece a homenagens que lhe são prestadas pelo mundo afora (menos no Brasil, evidentemente, por que aqui tudo chega com pelo menos dez anos de atraso), como nesta ocasião em que foi atuar num festival de verão na Inglaterra, ao lado de  "sir" McCartney e alguns remanescentes de bandas famosas, como o Pink Froyd, ocasião em que cantou um clássico de Lennon. Precisa de muita coragem para tal. Mas, ele não se saiu mal ...




quinta-feira, 18 de outubro de 2012

CANTANDO POR CONTA PRÓPRIA

Igreja de São Benedito, da Arquidiocese de Floripa, 
apóia o Coro Lírico Catarinense cedendo o espaço para os ensaios, 
que antes se realizavam em espaço público, o Centro Integrado de Cultura.  

O Brasil já foi um país bem mais musical.  Não que tenha deixado de sê-lo, afinal, agora nós temos um verdadeiro mercado interno, a tal classe "C", consumidora voraz que tudo compra e a tudo quer ter acesso. Nada mais natural que tenhamos uma categoria artística muito mais rica que as anteriores, tanto financeira quanto qualitativamente, graças ao capital investidor e às novas tecnologias de gravação e distribuição. Até mesmo a música caipira, antes tão discriminada, hoje vende milhões de discos, excursionando de avião próprio, com suas bandas próprias, dezenas de técnicos e músicos. Em seu tempo, os "Tonicos e Tinocos" de antigamente viajavam de ônibus e tocavam em auditórios de rádios. 

No campo da música artística de alto nível, temos gênios como Arrigo Barnabé, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e tantos outros desconhecidos do grande público, que vivem de sua própria música. E não consta que estejam passando dificuldades, ao contrário de seus pares do passado, que morriam de fome e das doenças da miséria. Músicos eruditos também estão em boa fase, como o demonstra nosso querido Arthur Moreira Lima, pianista que mora em pleno Costão do Santinho e frequenta os melhores points de Floripa e do Brasil, como bem merece este grande personagem de nossa música, que alguns dizem maldosamente também representar a linha etilizada, além do elitizado, papéis que, aliás, ele desempenha muito bem.

Quanto a essa questão mercadológica, o Brasil vai muito bem. Quando digo que o país já foi bem mais musical, lembro-me de Villa-Lobos e seu livro didático "Canto Orfeônico", que orientava a disciplina musical ensinada nas escolas primárias e secundárias do país. Lembro-me de nosso compatriota maestro Edino Krueger, de Brusque,  como então secretário do MEC, espalhando corais e partituras pelo país afora. Eu mesmo tive maravilhosos professores de música, matéria obrigatória nos  primeiros anos escolares. Enfim, dos anos sessenta para trás a música era realmente popular, e não apenas um fenômeno de marqueting. Toda escola, sindicato, clube, empresa, até famílias, tinham seu coral. 

Então, veio a “redentora” com seus militares, que só gostavam de marchas. Não as de carnaval, maravilhosas, mas aquelas tocadas nos quartéis. Daí que resolveram trocar o Canto Orfeônico por outra disciplina, mais de acordo com os novos tempos: “Educação Moral e Cívica”. Três falácias numa só, pois aquilo nunca foi "educação", de "civismo" não tinha nada e nossa governamental ética "moral" ficou cada dia mais na lama, digo, no chumbo. Foi uma péssima troca.

Depois dos militares, Fernando Collor se encarregou de jogar a pá de cal no caixão da cultura popular musical do país. 

Hoje, governos de todos os naipes adoram reformar e construir teatros. Minha ingenuidade não me permite perscrutar as razões por que o fazem, uma vez que tais palcos vivem fechados.  Vendo que era necessário ocupá-los minimamente, inventaram complicadas leis de incentivo à cultura, que são espertamente apropriadas por políticos e grupos de empresários, especializados não em música, mas, em negócios. Ao invés de incentivarem grupos artísticos locais, trazem artistas prontos da televisão nacional e faturam duplamente: o dinheiro do governo e dos bolsos das plateias imbecilizadas pela telinha na novela das nove.  Os grupos locais que se julguem com algum talento, e queiram se expressar ao público apreciador de arte, que tirem a grana dos próprios bolsos, ora bolas!


Foi o que fizeram o Coro Lírico Catarinense e a Orquestra Piu Mosso. 




O Coro Lírico Catarinense e a Orquestra Piu Mosso se apresentaram no Teatro Álvaro de Carvalho. 



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Ligações Perigosas, tenebrosas transações.

O ministro do STF, Joaquim Barbosa, está bombando na mídia e na Internet. Não faltam admiradores e fans, propondo inclusive sua candidatura a Presidente da República, acima dos partidos. É o novo "messias", tal como Lula já foi um dia. 

Messias é um tema perigoso. Uns, como os judeus, ainda esperam o seu. Outros, como os cristãos, celebram a morte do seu, que foi o judeu Jesus Cristo, episódio visto como o acontecimento crucial da humanidade, que resultou na civilização ocidental, construída a partir das cinzas do império romano. 

Messias é aquele que vem para salvar. Neste sentido, a presença de um tal culto a um homem só é extremamente perigoso. Hitler foi um deles, só para citar o pior de todos. Não estou dizendo que o Joaquim Barbosa será um Hitler, nem mesmo que Barbosa vai aceitar o papel de salvador da pátria. Apenas constato este momento histórico, em que as lideranças populares estão mais sujas que pau de galinheiro, daí o sucesso da presença de um causídico negro na suprema corte, condenando "mal feitos" de gente ainda muito poderosa.

Agora mesmo, Joaquim Barbosa profere mais uma de suas frases demolidoras: " Há lavagem de dinheiro porque, ao invés de fazer como todas as empresas do país, que é receber dinheiro na empresa, ele (Duda Mendonça) recebeu o dinheiro através de uma offshore. A empresa tem outro nome, não é Duda Mendonça, é Dusserdolf Company. Isso não é lavagem de dinheiro? Não é ocultar?".     Foi o único ministro a condenar o marqueteiro Duda Mendonça. Todos os demais ministros o absolveram. 

O caso é que Duda Mendonça fez a campanha vitoriosa de Lula em 2002 e ainda não tinha recebido o valor total combinado. Faltavam 10 milhões de reais. Então, os encarregados das contas do PT lhe propuseram que abrisse uma conta bancária num paraíso fiscal, para onde mandariam o dinheiro. Se fosse dinheiro limpo, não precisaria nada disso, certo? Um a zero para o Joaquim Barbosa. Se é assim, por que os demais ministros do STF o absolveram, depois de terem condenado próceres como José Dirceu e José Genuíno? Há algo de estranho no ar .... tchan tchan tchan tchan!!!!

Os analistas da grande mídia começam a especular coisas. Uma delas é que, agora que foi inocentado, Duda Mendonça pode voltar tranquilamente ao mercado de marketing eleitoreiro. O comentarista Kennedy de Alencar, na CBN, informou que o governador de Pernambuco já faz contatos para contratá-lo para a próxima campanha presidencial, que ele jura de pés juntos que não haverá, por que vai apoiar a reeleição de Dilma. Lula já está fora, não só pelo escândalo do qual foi o chefe real, embora escondido, mas, principalmente pelo estado de saúde declinante. Se, por acaso, Dilma não se mostrar eleitoralmente viável em 2014, quem seria o titular a defender a meta governista? Quem apostar em Eduardo Campos tem grande chance de sair ganhando.  

O fato é que Duda Mendonça é muito competente no trabalho de engambelar o prezado cidadão público-eleitor ouvinte e telespectador. Cria fantasias virtuais que se transformam em imagens de uma realidade passada como real. Ele não é chulo como esses marqueteiros aqui de Floripa, que deixam evidente sua intenção de nos tratar como idiotas, como o comercial do Gean que tenta nos convencer de que nós, que não votamos no Cézar no primeiro turno, temos agora como única alternativa o voto no pimpolho da elite, rouco e de olho azul. Mais ainda, diz na cara dura que ele vai representar todas as "propostas" colocadas pelos candidatos do PCdoB-PT, PSOL e um tal Pátria Livre.  Não, esses não servem de parâmetro para comparar com o bruxo lulista! Duda Mendonça produziu um novo Lula, enterrando o fantasma do sapo barbudo e criando o príncipe operário. Com ele, Lula aprendeu a fazer campanha política, por que política propriamente dita ele já sabia fazer muito bem, mas, enfrentou o poder da mídia, com a Globo manipulando escandalosamente o debate que se deu na campanha final de 1989, entre Lula e Collor. Ali, Lula foi derrotado pela esperteza da estratégia demolidora de Collor, que já havia apresentado uma senhora que dizia ser a ex-mulher de Lula, mãe de sua filha Lurian, a qual teria sido pressionada por Lula para abortar a criança. Foi um estrondo nas classes conservadoras e religiosas. Fora isso, Collor olhava insistentemente para uma pasta sobre a mesa, que o disse-me-disse espalhava sutilmente conter dossiê sobre o caso de Lula, então já casado, com uma jornalista de Brasília, no tempo que foi deputado federal. Não deu outra: Lula amarelou. E perdeu o debate e a eleição.



Com Duda Mendonça, Lula aprendeu a manipular a emoção das pessoas simples a seu favor, como no último debate da campanha de 2002,  quando contou um episódio que teria passado num estado do nordeste, onde uma mãe lhe procurou pedindo ajuda para uma criança que levava ao colo. Disse ele que, quando descobriu o lençol que protegia a criança da luz solar,  viu que ela estava morta. Não importa se depois desse debate, ele, Duda, Dirceu e outros poucos membros da "diretoria" foram jantar num restaurante de luxo no Leblon, onde brindaram com um vinho Borgonha de 7 mil reais a garrafa. Provavelmente, naquela altura, o caixa dois já estava abarrotado.

Seria mesmo um ótimo marqueteiro para o Eduardo Campos. Mas, para isso, não pode ser condenado no STF pelo dinheiro que le(a)vou do Mensalão. 


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O Contestado, restos mortais





O filme de Silvio Back, "O Contestado, restos mortais",  
está pronto há mais de sete anos, mas nunca chegou à rede comercial.  Não é do interesse dos que mandam no país e na sua cultura. 

Silvio é um catarinense de Blumenau nascido em 1937. Estudou e iniciou carreira em Curitiba. Seus filmes costumam chocar, pela ousadia das cenas ou pelo conteúdo absolutamente instigante. Há mais ou menos uns 45 anos, seu primeiro filme já tratava da questão do Contestado, "A guerra dos pelados". Ali, ele desmistificava a versão oficial de que a guerra era apenas por divisão de terras entre PR e SC. Ele deixava claro que a guerra era de fazendeiros contra posseiros, em terras devolutas do Estado, num cenário em que a companhia que construía a estrada de ferro PR-RS obteve do governo federal a cessão de alguns quiilômetros de terras ao largo da ferrovia, para ambos os lados. Por causa disso, a estrada talvez seja a que mais dá voltas no mundo, kkk. E mais, ele mostrava aviões do exército bombardeando os acampamentos caboclos, na primeira vez que o invento de Santos Dumont foi utilizado como arma de guerra, o que teria levado o ilustre inventor mineiro ao suicídio, versão historicamente não confirmada. 




A guerra propriamente dita, com os combates, emboscadas, incêndios de serrarias e massacres de caboclos nativos, ocorreu no período entre 1912-1916, que coincide com o início da exploração de madeira pela companhia norte americana Lumber, supostamente uma especialista em colonização, subsidiária da detentora da concessão das terras do planalto catarinense, por onde passava a ferrovia. Esta Lumber não estava interessada em colonizar nada, mas, apenas e tão somente na exportação dos pinheiros centenários, que cortava e preparava em suas serrarias, todas equipadas com tecnologia de ponta para a época, operadas por especialistas norte americanos. Estima-se que neste período se tenha exportado cerca de 10 milhões de pinheiros adultos por ano (BISHOP, S. - Relatório da Southern Brazil Lumber and Colonization Company. 1917a (Abril). Arquivo Público do Estado de Santa Catarina.).


Nessa guerra suja, estava diretamente envolvido o governador de SC, um fazendeiro do planalto, que tinha interesses pessoais nas artimanhas guerreiras. Era o patriarca da família Ramos, detentor de várias homenagens e estátuas espalhadas por Santa Catarina, cujos descendentes,  junto com os Bornhausen, formaram uma aliança política que domina o estado há mais de cem anos.  Os espíritos dos caboclos do Contestado, que ainda não tenham reencarnado, esperam ansiosamente por uma nova oportunidade para um novo Contestado ... 








domingo, 23 de setembro de 2012

Nos vamos tornando velhos



No filme "Sonhos", de Akira Kurosawa, há uma cena em que um ancião de mais de 100 anos se recorda de como sua amada preferiu outro, ao invés dele, quando ambos eram ainda jovens. Agora, prepara-se para o cerimonial de sepultamento da ex musa e dá risadas do tempo que passou. Não guarda qualquer mágoa, numa prova cabal de que o tempo a tudo cura e reconstitui. Como nos foi contado, no Japão os funerais são festivos, exceto os das crianças. No caso de uma idosa, que viveu longo tempo, todos festejam sua passagem para outra dimensão, visto que os budistas japoneses são crentes na lei do "karma", segundo o qual a roda de reencarnações só terá fim quando o espírito atingir a iluminação, o "satori", estado de santidade que dispensa a volta ao mundo da terceira dimensão. Alguns espíritos iluminados só voltam se quiserem, caso pretendam ajudar a evolução dos outros espíritos ainda em processo de santificação. Acredite quem quiser. Os evangélicos, por exemplo, como a maioria dos meus sobrinhos, acham isso "coisa do demônio", rs rs rs.   



Parece que o amor é algo sempre complicado, em qualquer civilização. Apesar disso, todos querem envelhecer na companhia de um grande amor.  As canções de amor não se cansam de repetir o mantra do amor eterno. Na minha opinião, quem chegou mais perto da explicação espiritualizada de um grande amor foi um cubano,  Pablo Milanez, provavelmente ateu, visto ser comunista de carteirinha, que compôs uma canção chamada "AÑOS".  A própria namorada dele, Yolanda, para quem dedicou outra canção primorosa,  conta que conheceu Pablo quando este tinha 25 anos de idade e era apenas um rapaz cubano, mulato, pobre e triste. Yolanda o abandonou justamente no pior momento, quando o rapaz descobriu um câncer ósseo e teve que se afastar do mundo artístico para se tratar, vindo a perder uma perna e a ficar vários meses entrando e saindo de hospitais. Apesar, disso, nunca deixou de amá-la. 

Pablo construiu sua carreira com várias canções de intensa alegria, mas, foram grandes obras românticas como  "Años" que consolidaram um estilo completamente novo e desconhecido da música cubana, a partir do movimento que se autodenominou "Nova Trova", inspirada nas canções românticas dos negros norte americanos, como o blues do delta do Mississipi. Mais tarde, com sua doença sob controle e uma prótese na perna amputada, Pablo Milanez correu o mundo, física e artisticamente. Nenhum outro músico  cubano foi tão reverenciado no exterior.






O tempo passa e vamos ficando velhos
Eu, o amor já não reflito como ontem
Em cada conversação, cada beijo, cada abraço
Se impoe sempre um pedaço de temor



Passam os anos e como muda o que eu sinto
O que ontem era amor vai se tornando outro sentimento
Porque anos atrás, tomar tua mão, roubar-te um beijo
Sem forçar o momento, fazia parte de uma verdade



O tempo passa e vamos ficando velhos
Eu o amor não reflito como ontem 
Em cada conversação, cada beijo, cada abraço
Se impõe sempre um pedaço de temor



Vamos vivendo, vendo as horas
que vão passando, velhas discussões
Se vão perdendo entre as razões
A tudo diga que sim e a nada digo que não, para construir
Essa tremenda harmonia que põe velhos os corações

Porque o tempo passa e vamos ficando velhos
Eu o amor já não reflito como ontem
Em cada conversação, cada beijo, cada abraço
Se impõe um pedaço de temor



Vamos vivendo,vendo as horas
que vão passando, velhas discussões
Se vão perdendo entre as razões
A tudo diga que sim e a nada digo que não, para construir
Essa tremenda harmonia que põe velhos os corações
O tempo passa e vamos ficando velhos
Eu o amor não reflito como ontem
Em cada conversação, cada beijo, cada abraço
Se impõe sempre um pedaço de razão



Porque O tempo passa e vamos ficando velhos
Eu o amor já não reflito como ontem




segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Carole King


A moça que aparece neste clipe é uma das mais belas cantoras-compositoras do mundo. Em todos os sentidos. Belíssima na aparência, seduziu meio mundo do show business norte americano, aliás, os homens adoram se encantar com essa loira descompromissada e descolada, filha da nova era. Foi casada com James Taylor, época em que compôs suas melhores canções, muitas delas de grande sucesso na voz aveludada do famoso e chato cantor. Naquele tempo, ela tinha horror ao palco. Escondia-se dos espetáculos e só aparecia  vagamente, como a consorte do marido famoso. Quando deu-lhe um belo 'bye-bye', criou coragem e começou a cantar. Que cantora o mundo estava perdendo! 

Isso se deu em 1972. Longos quarenta anos e sua voz continua bela e clara, dá até para entender perfeitamente o inglês cantado por ela, ao contrário de outros monstros sagrados que falam como se estivessem no lombo de um cavalo no Texas, tipo Bob Dylan. Ela, não. Ao contrário, soa sempre divina e refrescante, um colírio para os homens e uma referência para o público feminino.  

Os anos sessenta foram os do rock and roll, do movimento hippie, do sonho de paz e amor, do faça amor não faça guerra, entre outros símbolos emblemáticos daquela época. Isso tudo ficou para trás quando John Lennon decretou que "o sonho acabou". Os anos setenta entraram soturnos, o filme Easy Rider mostrando a decadência do movimento hippie, os ídolos da juventude revolucionária morrendo de overdose, Jimmy Hendrix e Janis Joplin, num intervalo de apenas tres meses. A barra estava muito pesada. No Brasil a ditadura baixava o cacete sem dó nem piedade. Nesse cenário de tristeza, nós necessitávamos de alguém que nos balançasse o berço nas noites aterrorizantes, que se anunciavam em nosso futuro próximo. Então, Carole King cantou que tínhamos uma amiga. 

  
Carole King hoje dá palestras e shows pelo mundo afora, discutindo o que é ser mulher. Um tema muito instigante e atual. Seu espetáculo, que apresenta em shows beneficientes, cruza no momento a Austrália. Evidentemente, nunca chegará ao Brasil. Pra que, se as mulheres brasileiras há muito já estão conscientes e atentas ao seu papel na família e na sociedade, não é? Tem até o Ministério da Mulher, cuja ministra mulher me esqueço o nome, tão importante e estratégico é este ministério do governo Dilma, cuja artituladora para compra de deputados no momento é a Ideli Salvati. E a Greyce Hoffmann vai de gestora dos negócios interministeriais, depois de ter feito o ex tucano Fruet prefeito de Curitiba. E depois, os linguarudos de sempre ainda dizem que as mulheres não são prestigiadas no Brasil. 


domingo, 16 de setembro de 2012

ENSAIO







A TV Cultura tinha um programa onde apresentava artistas musicais, mostrando os bastidores de suas vidas,  onde o personagem se expunha de forma franca e supostamente verdadeira, contando seus dramas e alegrias, enquanto cantava ali, ao vivo, seus melhores momentos. Era muito bom. Pena que o governo do PSDB de São Paulo acabou com isso e muito mais que a gloriosa Cultura nos proporcionava. 

Agora, vou passar a descrever bastidores da minha experiência pessoal. Não que eu tenha algo a ensinar, mas, em nome da literatura, aproveitando o suporte multi mídia que temos disponível. Quando se descreve fatos desconhecidos do grande público, penso que muita gente pode se informar melhor do que se passa antes do produto cultural ou político ser entregue ao distinto público. Alguém já pensou no trabalho que dá montar, ensaiar, produzir e, finalmente, apresentar uma peça de teatro? Mesmo assim, há aqueles que debocham dos atores. Eu mesmo, não suporto assistir peças de atores amadores, tipo estudantes ou trabalhadores comuns. Mas, não debocho. O que me encanta são os grandes atores e atrizes, feito Antonio Fagundes e Fernanda Montenegro. No entanto, vocês acham que para eles a coisa foi fácil? Ledo engano. Pelas entrevistas que já vi, suas vidas de sucesso foram construídas com sangue, suor e lágrimas. Da mesma forma, os coros amadores ficam devendo muito em termos de qualidade, mas sempre se inspiram na perseverança de um dia chegar perto do nível de um "Monteverdi Choir", de Londres.  

Participei de várias montagens de apresentações musicais, como baixo coralista. Na Associação Coral, fizemos um espetáculo que correu o estado, em conjunto com uma banda de rock. Foram meses de ensaios, duas vezes por semana. Nas vésperas da estréia, ensaiávamos com a própria banda. Horas em pé, empuleirado no palco, ora cantando, ora esperando a banda se acertar, ora apreciando o ensaio de outros naipes. Amadorísticamente, deixamos o controle do som com a banda. Foi um erro primário. O sonoplasta colocava a guitarra explodindo nas alturas, bateria, contrabaixo, teclado, tudo encobrindo nossas vozes. Mesmo assim, com todos os transtornos não esqueci da emoção de subir ao palco e receber o aplauso de centenas de pessoas, às vezes milhares, em teatros lotados, com o ingresso ao custo de um quilo de alimento não perecível. A grana para pagar a banda e a infra estrutura vinha de incentivos fiscais do governo. Nós cantávamos de graça, e ainda pagávamos uma taxa de manutenção mensal. 



Mesmo num coro de menor porte, o trabalho é o mesmo, talvez até maior, pois a estrutura também é menor. São abnegados voluntários, que se esforçam em um trabalho de grupo, buscando expressar na música a emoção que nos vai levando a um patamar superior de felicidade, até mesmo ouso dizer alegria que alimenta nossos espíritos. No Coral Eletrosul, nossos ensaios são no auditório da empresa, durante o horário de almoço. Porém, frequentemente somos desalojados  para dar lugar a algum evento. Qualquer evento, que poderia ser realizado em qualquer outro espaço, torna-se mais importante que o ensaio do coro. E lá vamos nós para a associação dos empregados, ou para a sala de licitações, enfim, em busca de um espaço amplo onde possamos cantar. Mas, continuamos ensaiando sempre, nunca ninguém pensa em desistir. O regente se esforça em colocar o coral apto a uma apresentação em público e, nesse trabalho, ele gasta horas ensinando e corrigindo os cantores, ensaiando naipe por naipe. Quando todos estão ensaiados, ele junta todos no mesmo canto. E é aquela trapalhada! Tem que começar tudo de novo, reconfigurar cada naipe de acordo com as falhas diante do arranjo correto da canção e, pacientemente, voltar ao grupo. Na véspera da apresentação, o nervosismo leva muitos a desaprender tudo; Lá vai o mestre a reconfortar, dar coragem e corrigir de novo os erros. Adiante, vai um extrato de parte do ensaio do coral, onde os "baixos" aprendem a cantar uma canção que será apresentada no "Outubro Rosa", onde estarão no palco das escadarias da Catedral de Florianópolis um multi-coral de umas 500 vozes.  Aqui é possível constatar o cuidado com que o maestro cuida de cada detalhe. 


Finalmente, chega o dia da apresentação. Aí o papo já é completamente outro. Todos estão sorridentes, com as almas lavadas e brilhantes, como se tivessem tomado um banho de chuva com águas vindas diretamente do espaço cósmico. Nunca vi uma pessoa infeliz no momento de uma apresentação musical de coral, mesmo em ambientes deprimentes como hospitais e prisões, onde cantamos costumeiramente. Aqui, o maestro apresenta um mini coro, formado dentro de uma escola de menores delinquentes em Minas Gerais. É de chorar de emoção, ao ver a música coral a serviço da integração pessoal e social, independente de qualquer linha política ou religiosa. 




sábado, 15 de setembro de 2012

Nossa linda juventude



Quando vejo a atuação de alguns históricos militantes ou ocupantes de cargos na estrutura do governo federal, fico cada vez mais perplexo. Como pode o ser humano mudar tanto? Antes de assumir a representação do poder, éramos todos unidos em torno da causa democrática, contra a ditadura militar. As várias tendências políticas de esquerda, leninistas, trotskistas, stanilistas, maoistas, enfim, todos os "istas" se agrupavam na luta contra a repressão do estado. No período da guerrilha, várias ações foram organizadas como frentes aliadas, onde os ativistas pertenciam a várias organizações diferentes, caso típico do sequestro do embaixador norte americano, fartamente mostrado em filme de grande sucesso inspirado no episódio.



Agora não! O que há é uma grande divisão por influência e poder na máquina do Estado, a serviço principalmente da máquina partidária, com seus líderes negociando todos os negócios que envolvem o Estado, independentemente da questão ética ou moral. Isso já está resolvido na cabeça dos mandatários de representação popular ou de cargos executivos. Em grande parte, estes se confundem, algo que só tem no Brasil, bahhh, o sujeito se elege deputado federal, mas, assumindo um Ministério qualquer, deixa sua vaga para o inexpressivo suplente que está na fila esperando há muito tempo... Com o detalhe que o titular pode voltar na hora que quiser, de modo que o suplente vai fazer tudo que lhe seja ordenado, como ordenança fosse, para não perder a boquinha. Tô falando alguma bobagem...?



  

domingo, 2 de setembro de 2012

Brevíssima história da música ocidental






Uma das cenas mais emblemáticas do cinema foi o final do filme "Zorba, o grego", onde um cidadão do povo, grego tradicional, ensina um inglesinho engravatado a dançar, depois da fracassada experiência em que ambos tentaram empreender a exploração de uma mina no interior da Grécia. Anthony Quinn era o "grego", apesar de ser mexicano criado nos Estados Unidos. A propósito, seu último filme foi feito no Paraná, devido a uma "visão" que teve, indicando que deveria procurar uma certa criança na cidade de Guaratuba, para levá-la a educar-se nos Estados Unidos. Já o "inglês" era Alan Bates, que ganhou vários prêmios e foi nomeado "Sir" pela rainha, em retribuição ao seu trabalho pelas artes visuais britânicas. Ambos estão mortos, assim como o diretor do filme, que foi lançado em 1964, mesmo ano do trágico golpe que inaugurou vinte anos de ditadura militar no Brasil. 






Nós entrávamos nos anos de chumbo, enquanto o cinema internacional viveria sua era de ouro, com as produções italianas, francesas, espanholas, asiáticas, e, principalmente, norte americanas. Sem dúvida, o principal componente daquele Zorba   era a trilha sonora, baseada na música tradicional grega, o que nos leva a pensar que nos primórdios da civilização ocidental, aquele tipo de música animava as festas do período pré-romano, famosas por sua promiscuidade, onde as damas da sociedade serviam de prostitutas ao povo em geral, buscando arrecadar grana para obras sociais e que tais. Que tempos ousados, heim!

Depois, a história da música foi influenciada principalmente pelos cristãos adotados por Roma, instituindo a Igreja Católica como a oficial do império. Isso fez com que Roma sobrevivesse mais uns duzentos anos.  Daí se perderam todas, ou quase todas, as raízes do cristianismo original, mas se obteve o grau máximo na cultura musical até então desenvolvida. A idade média fez o encanto dos mosteiros, onde proliferava o canto gregoriano, como nos mostrou o filme "O Nome da Rosa". 

Chegamos ao período Barroco, com suas harmonias perfeitas, em intervalos melodiosos e tranquilizantes, que nunca fugiam do padrão. Ninguém ousava nada diferente, do que não fosse agradável ao ouvido, e levasse o distinto público ouvinte ao delírio místico. Inicialmente os solos gregorianos é que prevaleciam, dando as cartas cantantes em apenas sete notas originais, com intervalos de um tom entre elas. Lá por 1500, começou um movimento diferente, o Renascimento, ousando mudanças no campo musical, assim como em todos os demais campos da arte, o que levou a transição para o período clássico. Johann Sebastian Bach foi o principal compositor dessa transição, que deu-se definitivamente lá por 1600, por que ele inventou a escala temperada, que usava semi tons. Assim, as sete notas originais se transformaram em 14, com o uso do bemol e do sustenido. Mas, a música continuava basicamente ao serviço de Deus.



Quinhentos anos depois da renascença, a música transformou-se num mundo de possibilidades. Houve o período clássico, com suas obras primas de Mozart e seus colegas, as óperas de Verdi e os demais italianos, que anunciavam as telenovelas que viriam quase cem anos depois. E em seguida várias experiências de cunho popular, com a introdução da indústria cultural, separando a música tradicional, erudita, da popular. Porém, a principal experiência da música contemporânea deu-se com a entrada em cena da música negra. Experienciada nos duzentos anos de escravidão nos Estados Unidos, sufocados em sua religiosidade africana original, os negros criaram os "spirituals", hinos cristãos só de negros, que haviam sido convertidos à força para o cristianismo. Desses "spirituals" surgiu o jazz e o blues. Depois, ambos desaguaram no Rock and Roll, que é desde pelo menos 1950 o ritmo predominante no mundo da música. É de longe o maior sucesso popular ao redor do mundo. Há muita porcaria na jogada, mas, existem algumas belas canções inspiradas nos velhos negões escravos do Mississipi.









terça-feira, 28 de agosto de 2012

Música Medieval Brasileira: Na quadrada das águas perdidas


Existe um Brasil que pouca gente conhece. Aliás, existem vários. Nos cafundós da Amazônia, por exemplo, há lugares completamente ignorados pela consciência nacional. No interior do Maranhão, do Pará, do Piauí, do Tocantins, vixe maria!... há muito por descobrir. Até mesmo no sul maravilha. Quem conhece a Colônia Cecília, que foi uma experiência anarquista fracassada no século 19, em pleno estado do Paraná? Alguém já foi ver o festival de Chamamé de São Luiz Gonzaga, na região Missioneira gaúcha? Os maiores cantadores de Corrientes, Argentina, a capital do chamamé,  já foram se apresentar ali. O povo simples sequer sabe o que aconteceu ali entre 1690 e 1750. Os gaúchos desavisados acham que Sepé Tiarajú era o Negrinho do Pastoreiro. 

Pois, então. Nossa ignorância é grande. Apesar disso, nosso povo é criativo, solidário, alegre e sensível.

O que eu vou falar agora é algo ainda mais desconhecido. Passa-se numa pequena comunidade rural, no interior do município baiano de Vitória da Conquista. É um incrível núcleo protestante batista, encravado na católica e apostólica Bahia, onde está o cardeal primaz do Brasil, cargo no momento ocupado orgulhosamente pelo nosso irmão e bispo nascido aqui em Brusque, que foi arcebispo de Florianópolis, e nos levou a cantar em vários templos católicos da Europa, no ano de 2008. 

Pois bem, naqueles cantos da Serra da Carantonha, de onde desaba o Rio Gavião, antes de traçar suas corredeiras pela planície que contorna a cidade de Vitória da Conquista, justamente ali, está um dos expoentes culturais do Brasil. A casa de espetáculos, centro cultural antropológico e caboclo, chamada Casa dos Carneiros. Não sei o por que do nome, já que seu proprietário não é nenhum "carneiro". Ao contrário, é um lobo lutador pela cultura sertaneja brasileira. 

Este herói pátrio estudou arquitetura em Salvador. Mas, sua verdadeira missão era cantar sua terra, e assim o fez. Ao invés de seguir carreira projetando prédios e casas para a pequena burguesia, Elomar Figueira Melo voltou à sua terra e fundou aquela casa cultural. Sabendo que música não dá sustento a ninguém no Brasil, principalmente se for de origem profunda das raízes da alma sertaneja, Elomar cria bodes. Isso mesmo, bodes. Pensando melhor, acho que descobri a razão do nome "casa dos carneiros". Não é um tipo de bode? Elomar vende os bodes/carneiros para manter a propriedade. Eu estive lá e vi os bodes, criados ao solto, inclusive invadindo perigosamente a estrada de terra. 

Uma ocasião, centenas de anos atrás, Elomar foi fazer um show em Curitiba. Estávamos pelos momentos das manifestações de primeiro de maio, atos políticos que os milicos detestavam, e para tergiversar,  promoviam uma festa grande no campo do Ferroviário, atual Paraná Clube,  para onde ia toda a pelegada. Mesmo assim, nós, cinquenta gatos pingados, fazíamos nossa manifestação obrigatória. Naquele ano, resolvemos fazê-la em plena cidade industrial de Curitiba, um atrevimento muito perigoso. Por isso mesmo, contávamos com algumas proteções, tipo assim alguns artistas famosos, contra os quais a polícia iria pensar duas vezes antes de baixar o pau. Por isso, eu e mais alguns ingênuos fomos ao hotel do Elomar convidá-lo para o evento.     

--- Meus amigos, vocês me desculpem, mas eu não sou desse mundo, não!  Minha vida é completamente distante dessas coisas terrenas. Eu vivo num mundo à parte, compreende? Não tem sentido a minha participação nesse evento que vocês querem promover, esse fogo de dragão que vocês querem mandar contra um dragão maior. Isso não pode dar boa coisa. Desculpem, mas, eu não posso aceitar o vosso honroso convite.

Jovens inexperientes da vida, que éramos, saímos dali decepcionados. "É apenas um cagão", dizia um. "Mais que isso, covarde", complementava a outra.  E eu concordava literalmente com eles. Só hoje, tanto tempo depois, é que compreendo o que é "ser de outro mundo".