quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Heróis e Bandidos



Em 1989 realizava-se a primeira eleição presidencial desde 1961. Todas as tendências políticas estavam representadas. Foi a última eleição realmente politizada de nossa história recente. A escalação era sui generis: na direita, Paulo Maluf.   No centro, Mário Covas. Na meia direita, Fernando Collor, e, na meia esquerda, Luis Inácio disputava o posto com Leonel Brizolla. A ponta esquerda estava, de fato, desprovida de representantes, mas, o conjunto da opinião pública, influenciado grandemente pelas grandes mídias se encarregou de colocar Lula neste posto. 

Eu já era ex-militante do PT, mais pela minha impaciência e falta de disciplina, do que pelos defeitos do partido, que era o mais organizado dos partidos de massa, ou seja, aqueles voltados para o grande público, e não centrado em si mesmos, como os partidos de "quadros", como se auto intitulavam os nanicos marxistas. No entanto, eu torcia pelo Leonel Brizolla, por que achava que o PT não tinha justamente os quadros necessários para comandar uma transição tão difícil, como seria o da ditadura para a democracia plena, convivendo com as diferenças sociais e os interesses capitalistas tão fortes e politicamente poderosos, que desde sempre influenciaram os governos nacionais, inclusive os militares. Já o PDT tinha gente experiente e bem formada, cheia de qualidades, como o professor Darci Ribeiro e o arquiteto Oscar Niemayer, além do próprio Brizolla, um comandante de porte internacional, que já havia provado sua capacidade de organizar mudanças. 

Meses antes da eleição, fui a um encontro de ambientalistas na Chapada dos Guimarães, próxima a Cuiabá. Lá, a maioria das pessoas presentes eram torcedores do Mário Covas, devido a sua fama de moderado e habilidoso nas negociações, uma qualidade que Brizolla não tinha. Até o pessoal do PV, cujo candidato era Fernando Gabeira, torcia pelo Covas, a começar pelo Gilberto Gil, que animava a festa e falava pelos cotovelos nas horas vagas, quando não estava cantando ou discursando.

Apurados os votos do primeiro turno, surpreendentemente Lula ficou 200 mil votos na frente de Brizolla e assumiu a tarefa de dar combate a Collor no segundo turno. Covistas e Brizollistas insistiam que ele deveria renunciar, deixando esta tarefa para alguém mais experiente e palatável ao gosto do povão. Diante do absurdo proposto, Lula desafiava os aliados com bravatas "quando eu quis ter um filho, eu fiz o filho, não pedi pra ninguém fazer", ou "se o povo quisesse o Brizolla no segundo turno, teria votado nele mais do que em mim", até que o velho caudilho gaúcho decretou "É, vamos ter que engolir o sapo barbudo".

Lula não fez feio na votação final. Acho que a diferença foi abaixo dos 10 milhões de votos, mas, com todas as forças conservadoras a bater-lhe impiedosamente, perdeu para Collor de Mello. O ambiente das vésperas do pleito estava carregado. Nós tínhamos muito medo de um novo golpe, enquanto os ultra esquerdistas desafiavam a direita escancaradamente, sem medo de ser feliz. Mario Amato, presidente da FIESP, dizia que se Lula ganhasse, 800 mil empresários deixariam o país. O presidente do Bamerindus contratava artistas e soltava dinheiro a rodo, em apoio a Collor, cuja campanha suja foi buscar uma filha fora do casamento e o depoimento da mãe dela, a acusar que Lula tinha tentado que ela abortasse a criança... Assunto tabu no Brasil, que destrói lideranças construídas em longos anos de intenso trabalho. Foi o caso de Lula. No debate final contra Collor, Lula não foi bem. Mas, na edição da Rede Globo, veiculada fartamente pela TV na véspera da eleição, Lula era apresentado como um idiota despreparado, enquanto Collor brilhava como bom moço. Bonito já era, contra o baixinho e feio Lula, mas, em termos de propaganda enganosa, a TV foi ao seu momento mais triste em nossa história. 

Hoje, Lula é o grande lider político brasileiro. Venceu a eleição na prefeitura de São Paulo com um ilustre desconhecido, que tinha 3% das intenções de voto quando começou a campanha. Bancou Dilma como candidata e a elegeu, contra as forças da direita convencional, que se reagrupavam em torno de José Serra, quanto contra os petistas da velha guarda, que viam Dilma com desconfiança, por ela ter vindo do PDT de Brizolla, ou melhor, de Alceu Collares, do qual foi secretária tanto na prefeitura quanto no governo do estado. Se quiser, volta à presidência em 2014, apesar de Dilma ter-se antecipado e se lançado com todo o poderio de sua artilharia pesada, a caneta presidencial. Se Lula quiser, basta ordenar à convenção petista que não dê a Dilma o direito de disputar a reeleição, e duvido que sua ordem seja desobedecida. Mas, não o fará, por que não precisa. Dilma lhe faz todos os desejos e vontades.

Diante desse quadro de hegemonia política, eu me pergunto por que o PT precisa dos aliados que tem. Collor empurrou goela abaixo da nação o sequestro das contas bancárias da população, quando tinha apenas 18% de apoio no congresso. Por que Dilma precisa ter esta maioria escandalosa e, para isso, dar abrigo em seu governo a figuras como Sarney? Por que não organiza sua base de acordo com métodos modernos, alinhados com sua política de governo, orientada para a reforma social? Por que insiste em manter aliança com o que há de mais retrógrado na política brasileira?

Alguém é capaz de me responder?


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Nada é Tudo




Tenho hábitos madrugadores. Desde tenra idade, acordo com a luz do sol. Antes, levantava-me e ia caminhar, depois tomava uma boa ducha gelada e saia para o trabalho, onde fazia o desjejum e iniciava com gosto as atividades do dia, renovado pelo frescor da manhã bem vivida... Tempos já passados, hábitos tornados dispensáveis pela aposentadoria e terceira idade que finalmente chegou. Então, fico mais um tempo na cama, meditando. 

Me-ditar é uma prática boa, significa "dizer para mim mesmo", ou, de outro modo, ouvir a minha voz interior. Nesses momentos, antes de botar o pé no chão da cozinha para o café da manhã, fico um tempo fazendo Reiki, orando minha reza miscigenada de catolicismo e budismo, fazendo símbolos no ar e pronunciando pedidos explícitos em bom português. Na verdade, a maior parte do tempo fico agradecendo, mas, minha ganância sempre encontra o espaço de um novo pedido, um novo desejo, uma nova vontade de atingir mais isso e mais aquilo, não necessariamente em termos de valores medíveis, mas, na linha da realização sensorial afetiva de auto aplacamento das vivências perdidas no tempo. A busca pela paz interior, digamos assim...   Gostaria de poder escrever neste horário, para registrar melhor os insights, mas, infelizmente outros deveres menos charmosos, mas igualmente importantes, me chamam, como aguar as plantas e trabalhar na jardinagem da Chácara Mansidão, um enclave maringaense "pé vermeio" no centro do Rio Tavares, interior da Ilha de Santa Catarina. 





Dylan rompeu com o judaísmo, por não aceitar sua herança de dor e sofrimento. Migrou para o cristianismo, ora vejam só! Parece que ficou pouco tempo por lá... Eu também rompi com minha herança religiosa, por não aceitar os dogmas introduzidos pelos romanos, coisa que só fui tomar conhecimento histórico muito tempo depois das missas domingueiras com minha avó, dominu-dominis, confessionários, hóstias e padres com vestidos-batinas, incensos, dúvidas e mistérios. O respeito e o medo impedem a reflexão, até que chega a idade da consciência e tudo fica questionável, até os dogmas. Ninguém precisa mesmo de nenhum salvador, ninguém está pagando seus pecados com o sangue de ninguém, nem há pecado, de fato. Apenas contas a acertar.  Todos seremos salvos, é apenas uma questão de tempo. Aliás, o que é o tempo? Na perspectiva universal da eternidade, o tempo nem conta. Minha base atual só poderia ser teosofista, depois de tudo, mas, não sigo movimento nenhum. Acho que a maestria deve ser algo construído individualmente,  embora pense que talvez seja bom ter uma relação mestre-discípulo. Acho que ajudaria na evolução de ambos, desde que o mestre não se revele um espertalhão, o que é mais comum do que as pessoas imaginam, como aprendi desde que minha namorada de muito tempo atrás contou-me que seu "mestre" lhe disse que, se ambos ficassem pelados, o efeito energético seria maior, rs rs rs... Quanto a isso, não resta dúvida de que seria !
  

Não tenho vergonha de dizer que fiz trinta anos de terapia. Do grito primal ao divan lacaniano. Participei de grupos de biodança, chamanismo, bioenergética e terapia convencional em grupo, várias vezes. Acho que tudo me ajudou muito, ainda que também me tenha levado muito dinheiro. Apenas para dez dias de internamento num sítio em Itapecerica da Serra no ano de 1990, foram mais de mil dólares. Investia muito em terapias, por que eu me sentia muito culpado de ter, de certa forma, rompido com a família tradicional quando caí no mundo. Ela nem eu nunca nos perdoamos por termos valores tão diferentes. Quando me descasei pela primeira vez, as crianças ainda muito pequenas, passei por profunda crise pessoal que me levou a síndrome de pânico. Aí muito me ajudaram as terapias, especialmente aquelas fincadas em vivências profundas, em jornadas de final de semana, do tipo psicodrama ou catarses com meditações dinâmicas, feitas em grupos fechados, de auto confiança e proteção. Foram minhas mais verdadeiras experiências comunitárias.  



O amor é mesmo a base de tudo, no entanto, mesmo pessoas amorosas podem tentar impor suas visões de mundo aos demais viventes. É o caso de nossos heróis cristãos, né? Quem não acreditaria na boa vontade de um João Paulo II? No entanto, foi o principal responsável pela igreja católica regredir décadas, talvez séculos, e voltar a seu mundinho de exclusões e preconceitos. Uma vez fui a Brusque participar da festa de 80 anos do mestre Edino Kruguer , o maior personagem musical catarinense de todos os tempos, professor, compositor, diretor, músico, ativista cultural, secretário pessoal e ajudante de Villa Lobos, uma sumidade tão perfeitamente integrada em sua humildade, que não precisa de nenhum reconhecimento oficial, como realmente não o tem. Ele é luterano, como bom alemão, e a festa estava programada para a frente da Catedral de Brusque. Choveu a píncaros e uma comitiva foi falar com o padre, para deixar que o concerto de uma orquestra sinfônica da PM do Paraná fosse executado dentro da Catedral. Ele não deixou e o concerto foi cancelado. A princípio fiquei revoltado com a atitude do padre, e não só por que o Estado brasileiro gasta milhões mantendo e reformando catedrais católicas, mas, principalmente pelo seu profundo desprezo com o semelhante diferente, no caso uma personalidade luterana. Achei que teria sido elegante da parte dessa autoridade católica retribuir um pouco do que recebe da sociedade, abrindo-se para aquela ocasião especial em Brusque. 

---  "Não, senhor!", responderia depois um bispo católico brasileiro, com quem conversei no interior da França.  "O estado não faz mais do que sua obrigação, já que as Catedrais são imóveis tombados pelo patrimônio histórico".    


Tá bem, já passou, já nem me lembro como era a triste figura do padre. Mas, é fácil saber quando o coração está no comando ou quando o ego é que predomina. Imagine um monge tibetano que se imola pela libertação de seu país do jugo estrangeiro. Até que ponto está sublimando sua própria vida em função de uma causa nobre, ou até que ponto está indo ao extremo do egoismo, destruindo-a em função de uma causa que o tornará respeitado (e talvez famoso)...? Outro caso são os homens bombas islamitas. Claro que são extremos, casos de provável e profundo desespero. Eu considero religiosidade e espiritualidade coisas bem próximas, senão sinônimos, mas, isso não tem nada a ver com igreja. Os chefes de igrejas se consideram portadores da religiosidade, e bem sabemos que não são. É perfeitamente possível iluminar-se espiritualmente numa catedral milenar católica, como a Notre Dame à beira do Rio Sena, ouvindo a música de um luterano alemão como Bach, interpretada por  Anglicanos, apenas para ficar no mundo cristão, uma minoria absoluta em termos religiosos no planeta ...




Viajar por culturas e paisagens estranhas também pode ser uma forma de contemplação, muito próxima da religiosidade. Gosto muito de viajar assim.   Prefiro o estilo mochileiro, que me deixa livre, leve e solto, além de sair muito mais barato, claro. Nas cidades, prefiro andar de metrô ou ônibus. É impossível andar por Paris, Londres, Madrid, São Paulo, se não for assim. Uma vez fui de trem ao Charles De Gaulle pegar o vôo para Madrid. Encontrei um brasileiro sozinho na fila do checkin. Ele levava quatro malas imensas e pagou 80 euros de taxi. Eu havia gasto 4, imagina a diferença de estilos. Ele só queria saber de como estava indo a Bolsa de Valores em SP, eu estava chegando na França, ele voltando ao Brasil e achava que eu poderia ter informações úteis. Ao final, perguntou-me se eu havia ido ao Crazy Horse. Esse também é o nome da minha banda de rock preferida e, para espanto do meu parceiro de fila, eu perguntei: "Eles estavam aqui? Puxa vida, como fui perder essa?".    Desfeitos os equívocos, ficou claro que o Cavalo Louco em questão é uma casa de dançarinas de can can,  rs rs rs. 


Gosto da simplicidade, da natureza e das tradições populares. Evito o luxo e a luxúria. A elite econômica e intelectual não me interessa.   Mesmo em Buenos Aires, eu prefiro as casas de tango mais simples, na periferia, sem aquela ostentação para turistas estrangeiros. Gosto de associar a viagem a um propósito cultural. Já fiz todo o roteiro de Van Gogh, desde sua vila rural na Holanda até seu túmulo nos arredores de Paris, passando pelas margens do Rhone no sul da França. Desci em Barcelona para "caminar" com Caetano Veloso e sua vaca profana pelas "ramblas", com Miró e Gaudi,  depois fui de trem até a Noruega, ver as loiras mais sensuais e lindas do planeta. Fui  num coro cantar nos grandes templos católicos, Lourdes, Fátima, Saragoza, El Escorial, Santo Antonio em Lisboa, Matosinhos no Porto e Santiago de Compostela na Galícia. Visitei alguns dos mais deliciosos terroirs do planeta (locais especiais de cultivo de uvas para vinhos) provando seus encantos, da Borgonha aos vinhedos das terras altas arriba do Minho, o mais fino branco sequíssimo da Andaluzia ao branco frutado da Pomerânia, caminhadas à pé pelas montanhas alpinas e passeios de carro entre milhares de Chateauxs pela planície sem fim de Bordeaux. Sempre que bate a saudade, vou tomar um branco seco no deserto de Cafayate, província andina de Salta, ou um malbec nas cantinas de Mendoza.
  


Certa vez, hospedei-me na Avenida Corrientes,  Buenos Aires, num hotelzinho defronte ao mercado público "del Abasto", onde cresceu Gardel, e fui visitar seu túmulo em Chacaritas, no final da avenida. Dancei na esquina mística, descrita na canção 'Sur', o mais lindo tango de todos os tempos.


É preciso aproveitar o tempo que nos resta.  
Pois, mestre Fellini já ensinava que "La nave va...".   
E quem sou eu para questionar???




























segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Estratégia ou Sorte ?



Corria o ano de 1982. Eu gostava de caminhar ao léo pelo centro de Floripa, ainda relativamente nova para mim, em busca dos segredos que a velha Desterro escondia em suas entranhas históricas. Subir a Felipe Schmitt até a ponte Hercílio Luz, de onde se apreciava o esplendor do Cambirela e sua cadeia de montanhas, ao fundo da Baía Sul, logo acima dos prédios ainda baixos do centro de São José. Cruzar a ponte à pé e ir tomar cerveja ou almoçar uma feijoada no Tritão, em Coqueiros, hoje tristemente transformado em bar da terceira idade movida à viagra, sob o ilusório nome de "Trintão", ora veja!   Interessava-me particularmente os museus e bares, talvez por alguma herança genética. Refiro-me ao segundo item. 

Pois o Vitor Meirelles ficava exatamente na frente da Quibelândia, mistura de mineiro com turco, intelectual com viciado, gatas gostosíssimas com sapatões incríveis,  enfim, tudo o que um rapaz de 30 anos quer da vida boêmia, além do impagável "quibe", claro, a seis reais a unidade, pudera!    Mas, tinha o Chopp mais bem tirado do país, a preço convencional.  Na Praça XV, a Confeitaria Chiquinho servia suas empadinhas de camarão e o Bar do Japonês fazia sua batida de limão adoçada com mel. 

Ai, ai, ai, ... não dava pra juntar os dois? Não! O freguês tinha que comprar umas na Confeitaria e levá-las empacotadas no bolso para a bancada do Japonês, que não gostava nem um pouco daquela prática desleal, pois ele próprio servia um pratinho de pasteizinhos de camarão, que deixava o freguês vendo papagaio e gritando "Gol do Avaí !". 

E, se o distinto público olhasse para o alto da cozinha, onde se abria a única janela para o mundo externo,  seria capaz de ver que a fantasia era real. 



Pois bem, caminhava eu pela Vidal Ramos numa tarde de sexta feira, bem na frente do point das gatinhas, o antigo Bar Degrau,  quando alguém bate no meu ombro e me diz: "Oi, companheiro !".  Era o marido da futura senadora e ministra, querendo saber onde ficava a sede da ALISC.  Eu tinha sido apresentado ao casal na casa de alguns amigos cristãos, que compartilhavam conosco a criação da escolinha Sarapiquá, então uma cooperativa de pais de crianças pequenas, a maioria comunista e ateu (os pais, quero dizer!)  

O casal tinha recém chegado de Joinville, onde a esposa fora trabalhar como professora de matemática e ele atendia afazeres auxiliares em escritórios de contabilidade. A origem de ambos era a Grande São Paulo, onde atuaram como militantes dos movimentos de base da Igreja Católica, alinhados com os grupos que fundaram o PT. Por isso, eram amigos pessoais de Lula. Ela veio a Floripa para assumir um cargo de direção estadual na associação representativa dos professores de segundo grau da rede pública estadual, numa época em que os funcionários públicos não podiam se sindicalizar, razão pela qual optavam por criar "associações", que, a bem da verdade, eram sindicatos. Ali, na "associação" ALISC, nossa amiga fez carreira e chegou a eleger-se deputada estadual. O mandato não foi grande coisa e o mais certo é que não seria reeleita. Foi então que a sorte bafejou o casal, então já separado (uau! militantes católicos também se separam!).  Perdido por perdido, ela resolveu sair para Senadora. Foi levada na Onda Vermelha de Lula!

Quase o PT faz os dois senadores naquele ano de 2002 e, não fosse uma fatídica semana a separá-los das eleições, faria também o governador, segundo admitiu o próprio Luiz Henrique (PMDB), igualmente beneficiário da "onda". 

Na liderança do governo Lula no senado, nossa amiga fez chover. Primeiro na sua horta pessoal. Depois, choveu a atual mulher de seu ex marido na superintendência estadual do INSS. Ciúmes? Isso é coisa para fracas de cabeça! Principalmente quando o assunto principal são negócios!  Assim que foi possível, nomeou o próprio ex marido como presidente da Eletrosul, a maior estatal federal no sul do país, embora o pobre coitado não saiba a diferença entre uma tomada e um focinho de porco. Isso depois que ele já tinha falido o banco do estado, BESC, incorporado pela falida mãe de todos os banqueiros falidos, o Banco do Brasil. Não seria o caso de ter montado um simples escritório de contabilidade para o sortudo ex marido? 

Agora, consta que dona Ideli vai colocar o ex prefeito Dário Berguer numa diretoria da Eletrosul, além de seu irmão Djalma, que perdeu a eleição em SãoJosé,  num cargo importante do lucrativo setor que cuida de obras em estradas federais. Isso faria parte da sua estratégia regional de combater os Ramos-Bornhausen no comando da oligarquia local há mais de cem anos. Ocorre que  a dupla de irmãos que ela tenta escalar para a importante missão civilizatória, acabam de largar as prefeituras de Floripa e São José na mais completa penúria financeira e moral. Que boa companhia em tão boa hora, dona ministra da articulação política ! Isso lembra minha avó, dizendo sobre os acordos políticos dos coronéis de sua época: "Por fora, bela viola! Por dentro, pão bolorento." 







    

domingo, 13 de janeiro de 2013

Quando fui para a pampa

A palavra "pampa" para nós brasileiros está ligada ao interior do Rio Grande do Sul. Todos imaginamos os gaúchos como os aventureiros dos "pampas", e assim tudo fica meio explicado, meio misterioso, afinal quem são esses pampeiros e como se originaram? Instintivamente, nos damos conta de que se trata de mais uma mestiçagem com os castelhanos. O próprio termo "gaúcho" , para muitos de nós não passa de uma identificação dos habitantes ou nativos do Rio Grande do Sul... Não vamos entrar nesta questão, por enquanto. Vamos ficar apenas com o significado da palavra "pampa",  o que já nos dará suficiente trabalho. 

A palavra "pampa" é um vernáculo Quechua, língua de diversos povos indígenas subordinados ao império Inca, que ia do sul da Colômbia ao norte da Patagônia.  Significa "planície", exatamente o relevo geográfico predominante que se inicia na metade de baixo do Rio Grande do Sul e vai até as escarpas de acesso a Bariloche, nos Andes argentinos. Neste imenso território floresceram dois importantes ritmos musicais. Um urbano, criado nas cercanias de Buenos Aires e Montevidéo, o mundialmente conhecido "Tango". Outro, rural, originado nas solidões perdidas das terras onde não se vê nada além do horizonte, um ritmo tão importante quanto o tango, só que absolutamente desconhecido fora de sua zona de influência regional. Este ritmo é a "Milonga", presente com muita força, inclusive em nossa pampa gaúcha, quero dizer, naquela planície pampeira que fala português. 

No entanto, existe uma outra Pampa, não ao nível do mar como a que estamos falando. A "pampa" andina situa-se a 2 mil metros de altura. Os únicos animais que habitam aquelas paragens nevadas no inverno e quentes no verão, além dos insensatos humanos, são as alpacas e lhamas, animais mamíferos que substituem com vantagem vacas e cabritas.  Os humanos lá estão por conta de uma indústria importantíssima para a economia global, a mineração. A vida destes pobres mineiros foi cantada por muitos poetas, no entanto, nenhum deles chegou perto da chilena Violeta Parra. 





A canção de Violeta é do início da década de 1960. Imediatamente foi associada com as músicas de protesto político que influenciou fortemente aqueles anos no mundo todo, a partir de movimentos denunciando a cruel injustiça que predominava em nossos países terceiro mundistas, vítimas quase sempre da guerra fria entre o "primeiro" e o "segundo" mundos. 

ARRIBA QUEMANDO EL SOL é um tremendo clássico do cancioneiro popular chileno. Clássico e perigoso, por que aqueles que a cantavam nos anos da ditadura Pinochet eram automaticamente acusados de comunistas traidores da pátria, como os rapazes do grupo folclórico Inti Illimani ("festa do sol", em quechua), um dos grupos latino americanos de mais belo vocal que já ouvi. Por cantarem essa e outras canções de Violeta, notória comunista morta em 1966, o Illimani foi expulso do Chile. Só voltou depois que os milicos de Pinochet já não mandavam na justiça e na polícia chilena. Fizeram um show no Estádio Nacional de Santiago, no ano de 2002, para resgatar aquele importante monumento da história moderna do Chile, onde brilhou Mané Garrincha em 1962, que os fascistas transformaram em campo de concentração, logo depois do golpe em 1973, local do sacrifício de milhares de cidadãos chilenos, cujo único crime foi  o de pensar diferente. Naqueles anos, pensar era muito perigoso. Ser independente também. Era por demais arriscado. Apenas por que se negou a saudar o ditador Pinochet, convidado de honra dos ditadores brasileiros, em visita ao "nosso" Congresso Nacional, o deputado baiano Francisco Pinto foi punido com a perda do mandato. Anos de chumbo puro. Salve Inti Illimani e sua festa da reconquista do Estádio Nacional para a nação chilena em paz, ainda que continue injusta!   



terça-feira, 1 de janeiro de 2013

No tempo em que as palavras eram importantes





Em 1964, um festival de música folclórica nos Estados Unidos lançava um dos mais belos poemas do século passado. Cantado por seu autor, um jovem ainda desconhecido, poeta e músico judeu nascido na fronteira com o Canadá. Sobrenome Zimmerman, lhe pareceu pouco atraente. Por isso, mudou para Dylan. Poeta inglês vinte anos mais velho que ele, igualmente belo e contestador. 

Nesta apresentação, Dylan já cortava duas estrofes de seu poema, para caber no formato comercial do festival. Um ano depois, o grupo The Byrds atingia o primeiro lugar nas paradas dos Estados Unidos e Inglaterra. Para isso, cortou mais um tantão, ficando só com a estrofe central, que cabia nos 2,5 minutos que a banda dispunha nas rádios do planeta musical. Menos no Brasil, onde o poeta não era considerado bom exemplo para a nossa juventude.   






domingo, 30 de dezembro de 2012

Blues

Poderia ser uma roda de samba na Bahia.
Mas é uma "roda de blues" no Mississipi.


O Blues é um ritmo negro nascido nos campos de algodão do sul dos Estados Unidos. Foi derivado dos cantos religiosos, conhecidos como spirituals, mas, desenvolveu-me mais como música caipira, feita para expressar as tristezas de uma vida dura, como era a rotina dos ex escravos, pobres e submetidos a todo tipo de humilhação e preconceito. Não raramente, o Blues esteve associado com os bairros de prostituição das cidades de maior porte, bem como com a música dor-de-cotovelo. 

Hoje, os negros formam um formidável mercado consumidor de 40 milhões de indivíduos de classe média nos Estados Unidos, algo invejável até para países de economia sólida e boa distribuição de renda. Isso foi possível graças ao sistema de formação acadêmica e profissional, antes proibidas aos negros, e que foi implantado à ferro e fogo pelo poder central a partir do governo Kenneddy (1961), contra a resistência dos estados racistas e conservadores. Isso se deu principalmente devido ao conceito de Reserva de Cotas Raciais,  ainda em discussão no Brasil, algo que aterroriza nossa classe média, assim como incutia medo nos norte americanos de 50 anos atrás.

O Blues também ascendeu socialmente. A partir das bandas inglesas dos anos sessenta, que nele se inspiravam, o ritmo foi gradualmente conquistando admiradores fora dos Estados Unidos. Hoje, faz parceria com o seu irmão siamês, o Rock and Roll, entre os estilos que mais rendem faturamento no mundo da música. Ainda que a venda de discos esteja decrescendo de forma radical, outros campos são abertos, como o da Internet e apresentações ao vivo, onde os cantores e bandas de Blues sentem-se à vontade e fazem grande sucesso.

Aqui, uma lembrança dos tempos pobres. O cantor e guitarrista B.B.King costumava se apresentar com esta canção nas penitenciárias dos Estados Unidos. Evidentemente, a grande maioria da platéia era formada por negros. Lá, como cá, a triste realidade social. Felizmente, algo mudou por lá, principalmente a auto estima dos cidadãos negros, em parte graças ao esforço de artistas como B.B.King, que tornou-se um mega star da indústria cultural e se apresentava para ricos e pobres, brancos e negros, pregando apenas a alegria de viver, idolatrado pela juventude roqueira européia e mundial. A revista norte americana Rolling Stone o colocou no pódium dos três melhores guitarristas da história, na companhia de Jimmy Hendrix e Eric Clapton.     








Não espere que as canções Blues sejam revolucionárias ou preguem transformações sociais. Não! Estas acontecem por conta do próprio movimento social. O que os bluezeiros querem é apenas balançar,  amar, sonhar  e cantar suas dores e alegrias. Como qualquer outra música do planeta ...

How Blue Can You Get ?

Ive been down hearted baby
Ever since the day we met
I said ive been down hearted baby
Ever since the day we met
Our love is nothing but the blues
Baby, how blue can you get?


Youre evil when im with you, baby
And youre jealous when were apart
I said youre evil when im with you, baby
And youre jealous when were apart
How blue can you get baby
The answer is right here in my heart


I gave you a brand new ford
But you said: i want a cadillac
I bought you a ten dollar dinner
And you said: thanks for the snack
I let you live in my pent house
You said it just a shack
I gave seven children
And now you wanna give them back
I said ive been down hearted baby
Ever since the day we met
Our love is nothing but the blues
Baby, how blue can you get?

Quão Egoista Você Pode Ser ?

Tenho estado com o coração pra baixo, baby
Desde o dia em que nos conhecemos
Eu disse que tenho estado com o coração pra baixo, baby
Desde o dia em que nos conhecemos
Nosso amor não é nada, além de melancolia
Baby, quão egoísta você pode ser ?



Você é má quando estou com você, baby
E você é ciumenta quando estamos distantes
Eu disse que você é má quando estou com você
E você é ciumenta quando estamos distantes
Quão egoista você pode ser, baby
A resposta está bem aqui no meu coração


Eu te dei um carro top da linha Ford 
Mas você disse: Eu quero um Cadillac
Eu paguei-lhe um jantar caro
E você disse: Obrigada pelo lanche
Eu deixei você viver na minha cobertura
E você disse que era apenas uma cabana
Eu te dei sete filhos
E agora você quer devolve-los
Eu disse que estou com o coração pra baixo, baby
Desde o dia em que nos conhecemos
Nosso amor não é nada além de melancolia
Baby, quão egoista você pode ser ?

Vai, Presidenta!

Dilma terminou o ano desautorizando qualquer crise. "Todas as falhas do setor elétrico foram produto de ações humanas. O Brasil é um país imune a apagões", disse, entre outras inacreditáveis fantasias. Se fosse homem, gaúcha que é, por adoção, Dilma seria comparada ao grande Capitão Rodrigo, da obra imortal de Érico Veríssimo, o aventureiro egoísta que só enaltecia a  si mesmo, "buenas e me espalho", era seu lema, assim que chegava a algum ambiente amistoso e logo se achava em casa; onde passava a cobiçar e paquerar as mais interessantes mulheres presentes, independentemente se o alvo fosse casada ou freira.  É o caso da nossa presidenta! A mídia nacional em peso, Globo e todas as demais, Folha, Estadão, até RBS, presentes na coletiva/café de imprensa promovida em Brasília pela Presidenta, nenhuma delas teve a capacidade/coragem de fazer qualquer pergunta questionadora. Dilma falou à vontade,  assim como todos os demais ocupantes anteriores de seu cargo em ocasiões semelhantes. Coisa de um país onde a imprensa exerce um papel muito importante: o de apoiar o governo, qualquer governo!

Levando pau de todo lado, sendo chamada de "golpista" pelos mensaleiros, de elitista pelos pseudo-esquerdistas no governo, enfim, nenhuma agressão vinda do poder parece ofender nossa imprensa. Ela continua no papel de enaltecer as qualidades do nosso tão desenvolvido modelo sócio econômico, responsável pelo grande crescimento que se verifica no país. Disso resulta a imensa popularidade dos Presidentes no poder, FHC que o diga! Passou oito anos bombando. Quando Lula assumiu, FHC virou automaticamente bandido. 

Quero ver quando o jogo virar  de novo, se é que um dia vai virar...  


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Sobre Deus





O texto que segue é o melhor sobre Deus que li nos últimos 55 anos (desde que aprendi a ler). Inicialmente, pensei tratar-se de algo novo e contestador, próprio da juventude, embora tenha sido divulgado pelo pessoal da Eubiose, que eu considero bastante conservadores. No final, li o autor e a data da publicação original. Fiquei pasmo! Depois, fui ler na Wikipedia algo sobre Spinoza e vi que ele nasceu na Holanda, para onde sua família judaica havia se mudado, fugindo à perseguição da Inquisição portuguesa. Está explicado!

"Para de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.

Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.

Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?

Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.

Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso? Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti. Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia. Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas. Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno. Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste? 

Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar.
Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.

Pára de louvar-me!
Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam.
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido?...
Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. 
A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás.

Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti."

( Baruch Spinoza, filósofo, 1632 - 1677 )

Não é impressionante a lucidez deste homem? Como é possível que a seu tempo, quando os reis de Espanha queimavam bruxas na Plaza Mayor, em Madrid, pudesse haver alguém ou algum movimento que expressasse tamanho grau de liberdade?  Pensando nesta fantástica contradição, lembrei-me de Bach, o alemão nascido em 1685, que passou a vida a serviço da igreja, mas, promoveu a maior transformação ocorrida na teoria musical, a escala temperada, base de toda a música ocidental.   O maior especialista em Bach de todos os tempos é um coral de Londres. Ouvindo o Monteverdi Choir, cheguei a conclusão de que a graça divina sempre esteve em todas as eras. Os homens é que lhe jogam sombras, por que não suportam o brilho de sua Luz.





quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Canções para a solidão das estradas



--"Desça deste cavalo e passe a noite comigo. Eu te amo, Henry, e tudo de melhor que tiver eu te oferecerei".
---"Eu não posso descer e passar a noite com você. Uma outra pequena e linda garota espera por mim em Cornersville, e eu a amo mais que tudo nesta vida".

Assim começa a canção "Love Henry", mais um romance de cowboys estradeiros, dos muitos que Bob Dylan recolheu do folclore e recriou,  na sua sina de retratar o velho oeste norte americano.  A música típica que embalou aquele período da história foi o ritmo hoje conhecido como "countrie", cheia de erros de gramática e muito pouco literária, fazendo mais o estilo seco, direto e cruel, pois, na verdade os vaqueiros e trabalhadores envolvidos nas disputas e nas guerras da conquista, eram quase todos analfabetos, com pouca erudição cultural. Ainda assim, a conquista do oeste entrou no imaginário mundial como algo fantástico e grandioso.   A Europa logo se encantou com os cowboys e suas histórias. Muitos espetáculos se realizavam nos teatros mais chiques daquela época, estrelados por rudes cantadores de voz rouca e poucos recursos musicais. Sua principal atração e motivo de admiração geral eram as canções de estrada, as baladas que retratavam o novo continente que se construía do outro lado do oceano. Há notícias de vários espetáculos em teatros chiques de Paris, Viena, Londres, etc, principalmente no período da guerra civil, 1860-1865. 

Esta canção cowboy específica, que abre esta crônica, tem suas origens provavelmente na Escócia nos anos 1700. Termina de forma trágica, como muitas vidas jovens daquele tempo, ceifadas por equívocos monumentais, como a morte do jovem cowboy assassinado com uma facada certeira pela jovem enciumada, que o queria só para si, após seduzi-lo a baixar a guarda e acompanhá-la num bom whiskie de milho, enquanto o amanhecer não chegava.  

---"Levante vôo, meu pequeno pássaro colorido e aqueça meu joelho direito. As portas da sua gaiola serão revestidas de ouro e estarão suspensas num pé de salgueiro".
---"Eu não posso voar, eu não quero voar e aquecer seu joelho. Uma garota capaz de matar seu verdadeiro amor, também mataria um pequeno pássaro como eu".





A maioria das canções herdadas desse período não possuem origem comprovada nem "certidão de registro", apenas especulações e lembranças desgarradas umas das outras, inviáveis para serem consideradas provas históricas. Essa que vem a seguir, provavelmente veio da Inglaterra nos anos 1830. Foi um importante sucesso nos anos 1960 e 70, gravada por músicos famosos. A balada conta a história de uma moça que se disfarça de marinheiro, afim de embarcar num navio e seguir  em busca de seu amor, Jack-a-roe, que desertou de seu pelotão durante uma guerra e fugiu. Ela vai atrás dele na América.  





O filme "Brother, where art thou?", uma dos obras primas dos Irmãos Cohen, está repleto dessas canções de cowboys brancos, juntamente com famosos spirituals negros. A música mais tocada naquele filme, apresentada em várias versões, é "Man of Constant Sorrow",  cuja origem provável está na Irlanda dos anos 1880. Foi adaptada pelos colonos irlandeses e contextualizada ora para o Kentucky, ora para o Colorado. Em todo caso, é um "sofrimento constante" apenas alegórico, embora pudesse ter sido verdadeiro na Irlanda de 1880. Por detrás das reclamações do cantante, está sua esperteza em fugir do trabalho pesado e sonhar com uma montanha mágica onde não existe ladrões de gado nem polícia, onde não é necessário trocar as botas e meias e onde se pode mergulhar num lago de whiskie ou colher cigarros diretamente das árvores. 








quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Tempo bom








--- O senhor acha que eu teria condições de ir para a Polícia do Exército?

O velho capitão médico do 20º Regimento de Infantaria do Bacacheri, ficou um tanto pensativo e me olhava de cima abaixo naquela tarde de sexta feira,  num  longínquo ano  de 1970.   Eu era um pouco mais alto e robusto que ele, mas, sem dúvida, muito abaixo das qualificações físicas dos soldados que havíamos destinado ao 1º Batalhão de Polícia do Exército, situado no Rio de Janeiro. 

--- Meu jovem, quem tem que achar aqui é você, por isso lhe perguntei para onde você quer ir.  Cumprir essa sua vontade é o mínimo que posso fazer,  por sua ajuda aqui nessa bagunça.  Eu, no seu lugar, iria pra casa. 

--- Pois bem, se  é assim, eu gostaria que o senhor me indicasse para a Polícia do Exército do Rio de Janeiro.

Assim, sem mais nem menos, eu conseguia o objetivo de iniciar uma carreira militar no quartel mais famoso do Brasil durante os tenebrosos anos de chumbo da ditadura militar.  Mesmo sem possuir as qualificações físicas dos demais colegas, que acabaram me apelidando de “grilo”, devido a minha aparência pequena diante dos demais soldados, eu havia batalhado a semana toda para organizar e manter funcionando o serviço de arquivo da equipe que selecionava os   recrutas da 5ª Região Militar, em Curitiba.

Quando saí de Maringá para me alistar em Curitiba eu já tinha um propósito em mente: “Vou sentar praça no exército, chegar ao posto de sargento e correr o Brasil. Ao mesmo tempo vou desenvolver a carreira de escritor”, que era, na verdade, o que me interessava.  

Para isso eu não perdia qualquer oportunidade que me facilitasse este sonho, tão simples, ingênuo e inviável. Eu me inscrevia como voluntário para qualquer atividade aonde pressentisse alguma ajuda intelectual, desde elogiar palestrantes em museus e teatros no ambiente artístico de Maringá, onde eu atuava como locutor de rádio, até escrever crônicas que nunca foram publicadas no jornal conservador local.

Depois de dois meses de ordem unida na Rua Barão de Mesquita, Tijuca, tivemos nossa primeira licença para deixar o quartel e conhecer a “cidade maravilhosa”, com uma polpuda ajuda de custos nos bolsos da farda nova, vestimenta de luxo para a grande maioria daqueles colonos e pés-vermeios, agora convertidos em respeitados “Catarinas”, tropa de elite que se renovava ano a ano na Guanabara.

Quando chegávamos em patrulha na Lapa ou na zona do Mangue, os malandros abaixavam os chapéus para esconder o rosto e era bonito ver Madame Satan se levantar de sua mesa para nos cumprimentar na noite da Cinelândia.  Todos tínhamos por ele um grande respeito e temor, pois era famosa sua capacidade de enfrentar sozinho uma patrulha inteira de soldados.  Agora, depois dos 70 anos, ele já não representava perigo, em sua impecável camisa branca de seda, tratado com reverência mística pelos garçons em cada bar que entrava. Na juventude, foi o malandro mais famoso da Lapa. É dele uma frase antológica, numa entrevista ao Pasquim em 1971, quando  afirmou "Eu nunca matei ninguém, só fiz os furos, quem matou foi Deus". Passou metade de sua vida na cadeia. Numa briga de rua em 1955, assassinou o sambista Geraldo Pereira, autor de grandes clássicos como Acertei no milhar Sem compromissoPisei num despacho, etc.

A "viadagem" se agitava sempre com a nossa chegada, fosse  na Cinelândia ou nos meios intelectuais de Copacabana e Ipanema. Grandes atores e escritores famosos eram doidinhos por um "catarina" bem dotado; e alguns de nossos colegas acabaram se casando com homossexuais ricos, que lhes davam tudo do bom e do melhor. Eu, heim? rs rs rs.

Roda de samba era comum e segura! Subíamos Mangueira, Salgueiro, Borel ou Jacarezinho, e ninguém contestava nossa presença, a não ser um ou outro com ciúmes da mulata,  logo acalmado por seus pares, que não queriam problemas com a soldadesca... Traficante praticamente não existia e bandido era tão raro, que era mais fácil vê-los em filme de caubói americano nos cinemas da Praça Saenz Peña, Tijuca, um bairro de classe média, cujas empregadinhas adoravam namorar os "catarinas" da PE pelas pensões do bairro.   Hooo, tempo bom!





quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Caos Energético. "Mais do mesmo..."

Eu gostaria de entender o critério da ANEEL para conceder reajustes das tarifas de energia elétrica na faixa de 12 a 15% ao ano, contra uma inflação oficial de 5%. Os governos siameses de Tucanos e Petralhas conseguiram o milagre de cometer uma das mais altas tarifas energéticas do planeta, num país com uma das melhores condições naturais de produção energética sustentável e barata. Uma usina como as que os Tucanos privatizaram no Rio Iguaçu, tem custo operacional abaixo dos 10% do preço final de venda ao consumidor. Esta incrível margem de 90% é apropriada pelo estado brasileiro, na forma de impostos, e transferida às matrizes em crise no exterior pelos capitalistas estrangeiros, que "compraram" cada usina pela bagatela média abaixo de 500 milhões de dólares nos anos 1990. Isso lembra a personagem de um programa humorístico antigo da televisão: "brasileiro bonzinho, né?".  O preço previsto de construção de Belo Monte Xingú, uma usina que vai funcionar à plena capacidade apenas tres ou quatro meses por ano, está orçada na faixa de 15 bilhões de dólares. Pode tranquilamente passar de 20 bi, a depender do câmbio e "jeitinhos brasileiros". 



Mas, não pense que todo mundo paga caro. Os mil maiores consumidores do país, normalmente grandes plantas industriais de extração mineral ou siderúrgica, de capital estrangeiro, pagam apenas 20% dos CUSTOS médios DE PRODUÇÃO, ou seja, dão um prejuízo de 80% ao sistema de geração e transmissão. Não vamos perguntar quem paga essa diferença, certo?, pois a resposta é obvia.  

Quer dizer, os tucanos privatizaram a mineração (Vale do Rio Doce) e as siderúrgicas  (Volta Redonda), além de que montaram a sala de visitas para as grandes exploradoras de alumínio e outros minerais estratégicos na Amazônia. Todas consumidores intensivos de energia elétrica. A usina de Tucuruí Tocantins, por exemplo, pouco serve aos povos amazônicos, que vivem na miséria e no escuro, mas, sai quase de graça às multi nacionais canadenses. Para mudar tudo, de forma que tudo continue como está, os Petralhas sustentam o velho sistema oligárquico de tirar dos pobres para dar aos ricos. Dá até para entender porque Lulla não quis a CPI da Privataria.

Agora, vem por aí um confronto de dimensões imprevisíveis. As companhias energéticas do Paraná, São Paulo e Minas Gerais, as maiores do país, todas de governos estaduais tucanos, resolveram não aderir ao programa (correto) de Dilma, para redução de tarifas. Quer dizer, na verdade não vai reduzir p* nenhuma, pois o que Dilma vai tirar com a mão forte do poder concessionário, a ANEEL vai devolver com o poder real do reajuste leonino a serviço das empresas. Mas, a questão é que se estabelece um confronto federativo entre a Nação e seus principais estados produtores de energia elétrica. Dilma terá coragem de cancelar as concessões de CESP, CEMIG e COPEL?   Depois do que doou ao Rio de Janeiro na questão Petróleo?

No passado recente, os tucanos-pefelistas tentaram privatizar a COPEL. Foram impedidos pela força da manifestação popular e pela campanha cívica promovida por sindicatos e entidades do movimento popular de então.    



Hoje, os principais líderes que impediram a venda da COPEL aos investidores franco-belgas que compraram a Eletrosul, estão no sistema de poder ocupando cargos no governo federal. Portanto, já não contam como massa crítica, por comprometidos que estão.  Quanto à oposição,definitivamente, eles não são do ramo. Estão  paralisados, perdidos na esperança insensata da morte de Lulla ou que ele caia de maduro,  algo improvável, desde que este cidadão lhes tomou os currais eleitorais do fundão do país e das periferias urbanas, como ficou claro na eleição agora de São Paulo. 

Quando o governo FHC ensaiou privatizar a maior geradora nacional,  FURNAS,o governador Itamar Franco colocou as tropas da PM mineira numa usina daquela empresa e ameaçou desapropriar todas as suas instalações dentro do estado de Minas Gerais. Os tucanos recuaram e acabaram privatizando apenas a federal Eletrosul, por que aqui em nossa bela e santa Catarina eles mandavam e desmandavam, não havia e ainda não há oposição que pudesse ser levada em conta. Ninguém resistiu pra valer à privatização das usinas da Eletrosul. Aliás, as únicas contas que ganharam com "aquilo" foram as bancárias de certos cidadãos bem postados, certamente localizadas em certos paraísos fiscais. Se me processarem por isso, ainda vou parar na cadeia. Claro que não há provas formais disso que vos falo.  

Hoje, felizmente os tempos são outros. Várias pesquisas buscam alternativas energéticas, como faz acreditar a propaganda da Eletrosul veiculada nos rádios e televisões. Uma dessas  "importantes pesquisas" é feita pela ONG do ex deputado federal Mauro Passos,  ex sindicalista e amighinho da Diretoria. Eu estive conversando com um verdadeiro cientista da universidade federal, ocasião onde ele disse ignorar as "pesquisas" de Mauro Passos, que recebe verbas diretamente do caixa da Eletrosul, obviamente sem licitação ou maiores preocupações com lisuras comerciais e científícas. Pra quê rigores éticos, se os resultados de tais investimentos tecnológicos são tão visíveis na área da energia do sol. Ou seria dos ventos???