domingo, 3 de agosto de 2014

O panorama visto da ponte




PANORAMA 1
ARROGÂNCIA RENDE VOTOS?


Fazer previsões sobre economia e investimentos se transformou em profissão de risco. Daqui pra frente, os analistas econômicos dos bancos podem requerer adicional de periculosidade. 

O Brasil, que retirou seu embaixador de Israel por considerar desproporcionais as forças em combate, vê agora sua "presidenta" apelar aos infernos, frente a uma simples avaliação negativa vinda de uma profissional, que supostamente era paga para dar palpites aos investidores ligados ao Santander. Como os petistas vão se explicar com mais esta atitude explícita de arrogância?


Você já viu investidor gostar de perder dinheiro? Então, o que o Santander previa para seus clientes é que a subida eventual de Dilma nas pesquisas, teria como consequência a baixa nos mercados. Só isso. Escrito por uma moça paga para dar palpites nessa área. Se o palpite foi publicado nos extratos bancários das pessoas acima de 10 mil reais de renda, isso não era problema dela. Passou a ser um problemão, com o assédio moral de Dilma, que, junto com Lula, fez um escândalo internacional sobre o assunto. Pois bem, o presidente mundial do Santander demitiu a moça. Estão satisfeitos? Vingados? Quantos votos ganharam com isso?





PANORAMA 2
SEJA COMO FOR, VAMOS MUDAR!

Não digo que seja uma onda como a Vermelha, que varreu o país em 2002 e colocou Lula na presidência. O povo estava cansado de oito anos de PSDB. A privataria, que eles achavam popular, realmente o foi, no início, por que o povo também estava cansado do mundo de faz de conta das estatais, herdadas do regime militar. Com inflação baixa, história de crescimento sustentado e o escambau, o sucessor de FHC foi um oposicionista, Lula.

Com o tempo, descobrimos que havíamos trocado seis por meia dúzia, mas, é parte da vida. Desencantos e decepções à parte, o importante FOI MUDAR!

Agora, parece que os ventos da mudança começam a soprar de novo. Não há grande variedade de oferta no mercado de novidades. A megamilitante da sustentabilidade, Marina Silva, vem acompanhada de um sujeito burocrata e medíocre, que inventou o financiamento através das letras lastreadas no passivo judicial depositado em juízo. Não sabem o que é? Também não importa. O fato é que o sujeito foi governador de Pernambuco duas vezes, sucedendo o avô Miguel Arraes, que também o foi por duas vezes (ou tres, se somadas). Sua mãe é conselheira do TCU, o que por si só já é um cartão de desapresentação negativo. Ninguém chega lá sem culpa no cartório.

De outro lado, temos outro neto, este fictício. Aécio, que nunca foi Neves, se apresenta como herdeiro político do avô adotivo Tancredo. Não tem nem um terço da malandragem nem da competência do velho de S.João del Rey, mas, sendo mineiro, pra bobo não serve.

Os outros candidatos não contam, por absolutamente inviáveis.

Fazer, o que? Mudar por mudar? Eis o que penso:

"A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro."
John Kennedy

SEJA COMO FOR, VAMOS MUDAR!



PANORAMA 3
DILMA E A FALÊNCIA DAS DISTRIBUIDORAS DE ENERGIA ELÉTRICA
O modelo do setor de energia elétrica no Brasil foi concebido na gestão de Dilma Roussef à frente do Ministério, no primeiro governo Lula. Foi construído a partir dos escombros da Privataria Tucana, sobre a qual Lula disse em campanha que realizaria uma auditoria internacional. Convenientemente, esqueceu o assunto mesmo antes de tomar posse. Eu sou um dos que desconfiam que "nesse angú tem caroço" e houve negociação por debaixo do pano, afinal, são todos farinha do mesmo saco e um poderia precisar do outro no futuro.
A tal Privataria ainda cometeu o crime lesa pátria de privatizar o filé mignon da geração hidrelétrica para o capital internacional, ficando com a geração à carvão, as novas usinas à gás, a manutenção cara de extensas linhas de transmissão e a encrenca da distribuição em estados inviáveis (AM, RM, AC, AP, PI, RO, AL), onde o empresário privado levou o sistema à falência e o devolveu ao governo central, que, para não deixar TUDO no escuro, os colocou debaixo das asas da generosa galinha federal chamada Eletrobrás.

Aqui no sul, tivemos a entrega de usinas classificadas entre as mais rentáveis do mundo para os franco-belgas da Tractebel, enquanto a estatal Eletrosul continuou cuidando da transmissão. Quando a Eletrosul foi re-autorizada a gerar energia, ninguém sequer tocou no assunto de que seria bom rever o processo de privatização das usinas. Pra que chatear os amigos com isso, se as grandes famílias que comandam o estado já estavam tão simpáticas e em breve estariam apoiando o governo Lula? Então, a estatal Eletrosul se concentrou na geração eólica e solar, ainda muito caras por serem experimentais, e na construção de pequenas hidrelétricas, que podem parar diante de regimes de seca. Moral da história: enquanto a Tractebel navega em céu de brigadeiro, a Eletrosul vive de sonhos e do talento de seus colaboradores.
Era fácil prever que o sistema de distribuição entraria em colapso, diante de uma crise de secas como as que tivemos nos dois últimos anos. Por que? Por que as distribuidoras estaduais teriam que comprar energia térmica dez vezes mais caro que as hidrelétricas, sem repassar os custos reais para as tarifas, devido ao contingenciamento do governo central, sob o argumento indiscutível do controle inflacionário.
O cenário estava, portanto, prontinho para a tragédia que seria encenada.
No começo de 2013, Dilma anunciou com pompa e circunstância que as tarifas de energia seriam mais baratas dali pra frente. E as represou por decreto, de olho na sua reeleição. Num país que depende de São Pedro para encher os reservatórios das hidrelétricas, que tem geração complementar baseada em carvão e gás, uma promessa desse nível de irresponsabilidade está levando as distribuidoras à falência. Por enquanto, elas vão sobrevivendo na marra, às custas de financiamentos à curtíssimo prazo do BNDES, mas, os analistas já estão dando como certo que não elas não vão honrar os pagamentos das parcelas do financiamento. A primeira delas, a de julho, já está postergada pelo próprio credor. Como o futuro governo vai sair dessa sinuca de bico? Preparem os bolsos!



domingo, 13 de julho de 2014

Minho, capital Braga



Os jardins de Braga são como a província do Minho: doces e austeros.


A história de Portugal se perde nas brumas dos tempos pré medievais, quando partes de seu território foi ocupado por vários povos antigos, entre os quais os fenícios, depois os cartagineses. Tres séculos antes de Cristo a região entre os rios Douro e Minho estava ocupada pelos celtas, que nela se estabeleceram e se misturaram com os povos bárbaros nativos desde tempos imemoriais. Foi quando deu-se a invasão romana, que a ocupou por aproximadamente oito séculos, deixando impregnadas ali sua herança na cultura, nos costumes, na religião e na língua. Com o declínio do império romano, partes de Portugal foram ocupadas pelos mouros a partir do ano 800, vindos de suas colônias no sul da Espanha. Nessa época, os territórios ao norte de Portugal já estavam convertidos ao cristianismo e seus habitantes, fugindo ao assédio muçulmano, abrigaram-se na Galícia, que então pertencia ao reinado de Leão, atual Espanha. 

Coube aos reis de Leão os combates iniciais para expulsão dos mouros. Ao longo dos anos 800 e 900, a região foi palco de inúmeras batalhas, não apenas entre árabes e cristãos, mas também entre os próprios cristãos, pela disputa do território, num entra e sai, conquistas e retiradas que marcaram profundamente o território, ora anexando-o à Galícia, ora estabelecendo protetorados autônomos, comandados pelos nobres espanhóis que estivessem na sua posse transitória. Finalmente, em 1093 foi estabelecido o Condado de Portugal, como presente do rei de Leão à sua filha Tereza de Leão pelo seu casamento com Don Henrique de Borgonha, nobre que havia se destacado na luta contra os mouros. Agora Conde, Don Henrique passou a governar de modo semi autônomo o Condado Portucalense, que ia de Coimbra até a fronteira com a Galícia. 

Morto Don Henrique, seu filho Don Afonso Henriques se revoltou com a preferência que sua então regente e mãe, Dona Tereza, dava aos nobres galegos, em detrimento dos nascidos no Condado. Armou-se como "cavaleiro de armas", abandonou o castelo e passou a dedicar sua vida na luta contra os mouros, até que, em 1139, após uma importante vitória, Don Afonso Henriques foi aclamado Rei pelas suas tropas. Nascia, então, o Reino de Portugal, com capital em Coimbra. Em 1143, o Rei de Leão reconhecia a independência de Portugal e ajudou a organizar o exército, fornecendo soldados para a continuidade do combate aos Mouros, sob o comando de Don Afonso I. 

Em 1147, as tropas portuguesas conquistam Sintra e Lisboa, empurrando os muçulmanos na direção sul, de volta aos territórios da Andaluzia, de onde haviam saído tres séculos antes; e de onde seriam finalmente expulsos de volta à Africa ainda mais tres longos séculos depois. Este o extrato do resumo da epopéia moura em território lusitano. 


Mural na Estação São Bento, cidade do Porto, celebra as vitórias de Don Afonso contra os mouros
A consolidação definitiva das fronteiras do Reino de Portugal ocorreu por volta de 1250, tendo sido o primeiro país europeu a fazê-lo. A Espanha, por exemplo, só foi unificada na ponta da espada já no século XV pelos reis católicos de Castela e Aragão, Don Fernando e Dona Isabel. Mesmo assim, ainda hoje várias províncias reivindicam autonomia em relação ao poder central. 

O Portugal de hoje não está mais dividido administrativamente em províncias, mas ainda é cultural e socialmente muito importante a divisão tradicional que classifica as regiões de acordo com suas peculiaridades para a produção de vinhos, como nos mostra o mapa abaixo.


    
O Minho é por excelência a região dos Vinhos Verdes, assim denominados por que as uvas são colhidas semi verdes, antes de estarem totalmente maduras, para a fabricação dos vinhos que são feitos principalmente a partir da uva denominada Alvarinho. Com moderado teor alcoólico, e portanto menos calórico, o Vinho Verde é um vinho frutado, fácil de beber, ótimo como aperitivo ou em harmonização com refeições leves e equilibradas, principalmente saladas e peixes. Eu costumava pedi-lo em jarras de um litro nos restaurantes de Braga e Guimarães,  e não raramente saia da mesa com a sensação de que teria sido bom beber mais um pouco, rsrsrs.

A região demarcada dos vinhos verdes do Minho produz 90 milhões de litros ao ano, envolvendo 22 mil produtores, caracterizando propriedades familiares de pequeno porte. Para se ter uma idéia, as regiões demarcadas de vinhos de Bordeaux, na França, com a metade da quantidade de produtores gera um volume sete vezes superior, passando de 600 milhões de litros. Neste particular, infelizmente a produção de vinhos de qualidade no Brasil demonstra sua total imaturidade, pois a nossa produção de vinhos finos em todo o estado do Rio Grande do Sul, praticamente o único estado produtor,  não chega a 50 milhões de litros ao ano, com grande variação de produtividade que leva em alguns anos a quedas que chegam a 50% desse volume. O Verde é o segundo vinho mais consumido em Portugal. É também o segundo mais exportado, depois dos vinhos do Porto.  


O vinho verde mais consumido no Brasil é o Casal Garcia. Mas, há centenas de outras marcas de alta qualidade.

A gastronomia do Minho, assim como toda a alimentação portuguesa de modo geral, é extremamente saudável. Praticamente não há frituras, pois os pratos são cozidos ou assados, usando-se principalmente o azeite de oliva, ao invés de óleos e gorduras, como vemos no Brasil. Fora do alto verão, predomina o clima frio, o que nos leva automaticamente aos deliciosos caldos, especialidade da região. Turismo no Minho é isso: comer, beber, apreciar! Passear pelos campos ondulantes de vinhedos, entremeados por castelos e aldeias milenares, na grande Braga ou na pequena Monção, parando aqui e ali nas suas tabernas e restaurantes. 

Mais uma jarra, por favor, tin tin !!!







   

 







 





domingo, 29 de junho de 2014

Diálogo de Surdos






Se o o que rola nas redes sociais tipo "facebook" serve de modelo da realidade, vamos mal! Principalmente vamos mal se o foco de análise for a capacidade das pessoas de interagirem-se, de se colocarem em pontos de vistas diferentes mantendo a dignidade e o respeito pelo semelhante, ou seja, de se comportarem de forma civilizada. 



Depois de trinta anos de redemocratização, o que vemos são agrupamentos políticos interessados apenas nos próprios umbigos, disputando de forma raivosa os espaços públicos e o poder. A política já não se constitui em ferramenta de evolução social e pessoal, mas, é apenas o território perigoso da mentira e da supostamente esperta enganação. 


Tirando raríssimas exceções, os posts aqui colocados estão a defender uma posição solidificada e tão firmemente ancorada em interesses pessoais, que perdeu-se o sentido do debate. 

Na campanha eleitoral em curso, por exemplo, vemos de um lado o pessoal do governo a espalhar mitos e meias verdades, como valores absolutos que justificam sua permanência no poder, que não querem largar de maneira nenhuma, custe o que custar. Um deputado do PT de Pernambuco chegou a afirmar "Fui um bom oposicionista no passado. Depois que virei governo, gostei tanto da brincadeira que não saio daqui nem puxado por tres juntas de bois". E quando as "tres juntas de bois" significam mais do que o seu valor em ouro, agregando nesse desejo um enorme ego metro-umbilical, percebe-se o baixo nível de qualidade pessoal dos que estão envolvidos em "ser governo", e o que isso significa para a nossa cidadania em geral. Ao mesmo tempo, cuidam de desacreditar e jogar no ridículo todos os seus adversários, tratando-os de maneira torpe e desrespeitosa. 

Apoiadores do governo Dilma ridicularizam adversários
Quando os militantes do PT e de alguns partidos aliados, notadamente os do PCdoB, colocam no mesmo saco de gatos todos os que lhes fazem oposição, na verdade não querem discutir nem debater coisa alguma. Apenas tratam de agredir seus "inimigos". Para estes governistas, a manutenção do Poder em suas mãos (ledo engano, já que o "poder" real no Brasil nunca mudou de mãos), é o objetivo fundamental de suas atividades políticas. Vejam que eles costumam chamar pejorativamente de "coxinhas" todos os grupos oposicionistas, desde o mais burocrático parlamentar do PSDB ou PFL, notórios liberais conservadores, até o mais empedernido militante comunista do PSTU, PCB ou PCO, que usualmente estão milhas mais à esquerda que o PT e o PCdoB. E propositalmente se esquecem que a sustentação do governo se dá por personagens tragicamente ligados à ditadura militar, ao latifúndio e às elites eternamente dominantes no país, gente como José Sarney, Fernando Collor, Renan Calheiros, etc, agrupados em partidos muito mais conservadores e corporativistas do que os da oposição pequeno burguesa.  

Favela de Bombaim, India, é apresentada na mídia internética como se fosse localizada nos Estados Unidos
Dentro da campanha insidiosa de desmoralizar qualquer oposição, os governistas tentam conectá-la simbolicamente com os valores norte americanos, numa suposta manifestação anti capitalista, não fosse o Brasil de Dilma uma das mais atraentes aplicações financeiras para o capital internacional, graças aos juros estratosféricos que pagamos. Recentemente, militantes petistas fizeram circular uma foto, supostamente tirada de uma favela na cidade de Detroit, afim de caracterizar a "decadência do capitalismo". Felizmente, graças ao novo mundo inter-conectado em escala global, rapidamente vários posts reportavam a verdadeira fonte informativa de onde veio aquela foto: uma revista inglesa sobre economia e desenvolvimento, mostrando a cidade de Bombaim, na Índia, sobre a qual a revista fazia extensa reportagem, falando de seu novo planejamento urbano, aliás, coisa inexistente nas grandes metrópoles brasileiras administradas por petistas ou aliados.   


Por outro lado, fazendo de conta que os governistas estão todos metidos em profundas encrencas morais e criminais, o que no fundo não é verdade, corre o rio de larvas ardentes da oposição. Quem vê os posts do suposto candidato que vai renovar os princípios morais e éticos da política, pensa que o cidadão nasceu puro e santo, nesta santa manhã sacramentada pelos deuses das boas intenções. 






É um diálogo de surdos e tenho dúvidas se alguém, em uso são de suas capacidades mentais, vai definir seu voto ou sua opinião com base nesses tão precários debates. E pior, nada indica que durante a campanha eleitoral, algo vá mudar para melhor, ao contrário. A própria urna eleitoral eletrônica começa a ser objeto de questionamentos, logo ela, um dos orgulhos da tecnologia nacional. A cada eleição o Tribunal Superior Eleitoral chama os partidos para que indiquem técnicos ou representantes, afim de participarem de auditorias sobre a confiabilidade do processo de votação e apuração das eleições. Além disso, várias entidades internacionais também são acionadas com esse fim, uma vez que os partidos raramente se interessam pelo assunto. Pois, no momento de apuração dos resultados, sempre surge um ou outro político, normalmente derrotado, colocando em dúvida a respeitabilidade do processo, que, na verdade, representa um grande avanço nas práticas eleitorais do Brasil arcaico, que sempre votou por cabresto. Se ainda existe algum, estes cabrestos se dão ao nível da campanha mesma, dos programas televisivos e das propagandas enganosas, por que a eleição brasileira está entre as que melhor se apuram no planeta.  



A triste realidade mostra que, infelizmente, talvez sejam nossos próprios partidos políticos que não a mereçam!


Há quase cinquenta anos, um compositor letrista foi perseguido e proibido no país, por que descrevia em seus versos a realidade de um Brasil submerso no terror e na ignorância. Será que, às portas da Era de Aquario, teremos que novamente conviver com um país dominado por oligarquias midiáticas, em plena era da informação? Será que a política estará repetindo as práticas nazi-fascistas da ditadura militar? Será que voltaremos a eleger candidatos, a partir de suas propagandas enganosas, sem qualquer debate que esclareça o eleitor sobre a natureza e personalidade dos representantes que está escolhendo?



Espero sinceramente que não!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Alto Douro Vinhateiro



Foto premiada em concurso mostra o espetáculo das vinhas no Alto Douro, Portugal 

Começara a crise econômica européia em 2007. Eu encerrava com chave de ouro minha peregrinação pelos mais significativos templos católicos do mundo. Lourdes, Pilar, El Escorial, Fátima, Santo Antonio de Lisboa, Santiago de Compostela e Matosinhos, este último ali mesmo na cidade do Porto.

Chego na portaria do pequeno hotel e pergunto à simpática senhora da recepção (aqui a narração merece um parêntesis: senhoras idosas em recepções de hotéis só encontrei na Europa e em Havana).

--- Diga-me uma coisa, por favor, senhora. Se eu fosse um turista português, de Lisboa, digamos, qual passeio recomendarias na região do Porto, além da cidade?

--- Haaa!, se fosse eu, escolheria comer um cabrito assado no Alto Douro. Podes pegar o trem na estação Campanhâ, passar o dia nas montanhas e voltar à noitinha.

Fiz conforme a programação da sensata conselheira.
Passei um dia maravilhoso, mas, infelizmente não encontrei cabrito assado.



No interior de São João da Pesqueira estão aldeias tão antigas quanto o próprio Portugal 







Agora, seis anos depois, eis-me novamente no Alto Douro Vinhateiro, em busca de seus sabores incomparáveis e de seu vinho maravilhoso, seguramente um dos melhores do mundo.





Regiões Demarcadas são zonas de lavouras estanques que produzem sob condições de qualidade severamente controladas, de modo a torná-las inconfundíveis em suas características. Tais como as regiões demarcadas para produção de vinhos, das quais o Alto Douro foi a primeira do mundo a ser efetivamente regulamentada. Esse importante fato histórico deu-se no ano de 1757, menos de dois anos depois do grande terremoto que arrasou Lisboa.

A criação da zona demarcada foi iniciativa do Marquês de Pombal visando agregar valor às exportações de vinho, notadamente para a Inglaterra, e fazia parte do grande esforço feito pelo país para recuperar-se da tragédia e reconstruir a capital. Outra medida extrema naquela direção, tomada pelo então primeiro ministro do Rei Don José I, foi o aperto fiscal nos produtores de ouro da província de Minas Gerais. 







Hoje o Alto Douro é uma das regiões mais ricas de Portugal, com suas cidades de pequeno porte, porém extremamente limpas, organizadas e acolhedoras, com economias baseadas na produção de vinhos, complementadas por azeites de oliva. Nesta região, o Rio Douro se transforma num paraíso navegável, de onde se observa nas encostas o espetáculo das vinhas, entremeadas por formidáveis construções, algumas das quais produzindo os mais apreciados vinhos do planeta, incluindo os famosos "vinhos do porto", caracterizados pela sua extrema doçura natural, embora os adeptos da arte dos someliers prefiram os vinhos maduros, tintos e secos. Ainda que os brancos também sejam de qualidade superior, ideais para acompanhar os pescados do rio, saboreados em tabernas ao largo das margens, fritos ou ensopados.  


Barcos de grande porte navegam pelo Alto Douro, com turistas do mundo inteiro.  

A culinária é um espetáculo à parte, com suas comidas rurais de montanha que vão desde cozidos de carne e caldeiradas de peixes do rio, até o tradicional bacalhau preparado à moda lusitana, em suas diversas versões. 


A principal porta de entrada para o Alto Douro é a Cidade do Porto, onde convém ficar pelo menos uns tres dias, afim de aproveitar o que esta pequena metrópole oferece em termos de cultura, lazer e culinária. São imperdíveis os passeios de barcos que incluem as vinícolas do outro lado do rio e as tabernas do lado de cá, mais próximas do centro histórico. 

Quando achar que chegou a hora apropriada, e se estiver pronto para deixar a cidade grande e mergulhar na verdadeira alma do Douro, é subir a serra de trem. Também é possível ir de carro, porém, nada se compara à viagem de trem, com suas paisagens deslumbrantes, parando em pequenas estações ao longo do caminho, lugares tão antigos quanto o próprio Portugal. 

Ficamos hospedados em Peso da Régua, um próspero centro de comércio e lazer, onde há maior disponibilidade de acomodações a preços que variam entre 80 a 200 dólares, enquanto certos resorts na região chegam a 500 dólares por dia para duas pessoas.  Em compensação, os restaurantes oferecem refeições de alta culinária, acompanhada por excelentes vinhos, a custos médios de 30 dólares para duas pessoas. Muito mais em conta que restaurantes portugueses no Brasil !

Lá em Peso da Régua alugamos um carro por 50 dólares ao dia, enquanto o mesmo modelo sairia por no mínimo 100 dólares nas grandes cidades de Porto, Coimbra ou Lisboa. Coisas do interior, para quem gosta da vida simples, passeios em ar perfumado de roseiras, visitas a castelos e igrejas perdidos no tempo... Ainda com a vantagem de sermos os únicos brasileiros na área, ao contrário das cidades do litoral, onde se escuta por toda parte nosso inconfundível sotaque diferenciado, que tanto trabalho dá aos portugueses para nos entender.   



quinta-feira, 5 de junho de 2014

Revolução dos Cravos


As muralhas e os jardins de Braga servem de cenário ao poeta da revolução necessária 

Em 1974, Portugal vivia sua fase obscurantista, iniciada ainda em 1926, com um golpe de estado patrocinado pelos comandos militares de então. O controle do poder acabou nas mãos de um extremamente conservador militante religioso e economista, chamado Antonio de Oliveira Salazar, um catedrático da Universidade de Coimbra, o qual tornou-se o mais famoso nome e símbolo da ditadura portuguesa, vindo a ser admirado pelos fascistas do mundo inteiro, inclusive pelos brasileiros, que nele se inspirariam para implantar aqui um regime de igual teor, inspirando igual temor, o auto denominado Estado Novo.

De "novo", o estado não tinha nada. As soluções propostas por Salazar eram as de sempre: diminuição drástica de gastos públicos, proibição da circulação e debates de idéias, acompanhadas de repressão brutal, que mantinha as cadeias lotadas de prisioneiros políticos, submetidos à toda sorte de torturas físicas e morais. Nós brasileiros mais idosos conhecemos bem essa realidade, pois, depois do nosso próprio Estado Novo, apenas decorridas duas décadas e já experimentaríamos novamente mais um período de ditadura inspirada no fascismo. Entretanto, para os que não sabem o que foi aquele período, ou queiram ter uma idéia de como é irrespirável o ar que paira sobre uma ditadura, recomendo o belíssimo filme alemão "Trem Noturno para Lisboa", que recém passou em rede comercial e deve existir ainda em locadoras no país.    

Formalmente, Portugal também tinha partidos políticos em funcionamento supostamente normal, inclusive elegendo o presidente da república, o que passou a ser feito indiretamente pelos parlamentares, sob estrito controle ditatorial, ante o remoto risco de alguém da oposição vencer o pleito. Mas, quem mandava mesmo era o Presidente do Conselho de Ministros, ou seja, Salazar. O ditador teve trágico destino:  em 1968, no apogeu do poder absoluto, sofreu um derrame cerebral. Ficou ainda dois anos em estado vegetativo, até que veio a falecer em 1970. Em seu lugar, assumiu Marcello Caetano, um fantoche do regime, pau mandado da aliança conservadora entre o catolicismo mais arcaico e as lideranças políticas regionais mais atrasadas e autoritárias. Como todo bom demagogo, Caetano começou seu mandato com um novo apelo à esperança da sociedade portuguesa em dias melhores. Qual o quê? O próprio lema de seu governo evidenciava a farsa: "Renovação na continuidade", rsrsrs. A polícia política e a exploração da nação por uma elite sanguinária continuaria a ser o mote central do governo. 

   

Por baixo dos cenários oficiais, nos meandros da guerra colonial movida contra os africanos, germinava entre os militares mais novos um sonho impossível: a derrubada da ditadura. Aos poucos foi se estabelecendo uma tênua rede de relacionamentos entre militares, intelectuais e a juventude civil, resultando numa aliança clandestina que se manifestaria de forma inesperada. Tão inesperada que, na noite de 24 de abril de 1974, Marcello Caetano ocupava sorridentemente sua cadeira especial no estádio da Luz, para assistir uma importante partida de futebol. Mal voltou ao palácio, pouco depois da meia noite, e foi surpreendido pelo anúncio da revolta, cujo sinal combinado secretamente era o entoar da canção Grândola, Vila Morena, por uma emissora de rádio de Lisboa. 


Estava finalmente concluída uma das etapas mais tristes da história da grande nação portuguesa. Naquele 25 de abril de 1974, começava uma nova era, a Revolução dos Cravos.


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Mamãe, mamãe, mamãe, ...


Foi primeiro Sigmund Freud quem apontou o mal feito pelas mães para seus rebentos pela vida afora, embora inconscientemente e bem intencionadas. Escândalo certo na sociedade burguesa e conservadora do século XX, apenas cem anos atrás. Se fosse 300 anos antes, certamente o pesquisador alemão morando em Londres seria queimado na fogueira da inquisição. O papel de mãe é sagrado, certamente, mas é apenas na espécie humana que elas continuam a cuidar do filho, mesmo decorrida uma vida inteira. 

Dois importantes pesquisadores da vida moderna cotidiana, igualmente ingleses, porém poetas e músicos, investigaram o problema e dele fizeram relato. 

Resultaram duas obras primas.









quinta-feira, 15 de maio de 2014

Paris



Pelas margens do Senna, a melhor forma de viver Paris. Andar, andar e andar...

O tempo que fiquei em Paris desta vez foi absolutamente insuficiente para curtir a cidade do jeito que eu e ela merecíamos. Quatro noites e cinco dias, como costumam apregoar as agências de viagens em grupo. Cidades do porte de Paris, Londres, Madrid, New York, São Paulo, Rio de Janeiro, etc, exigem muito mais tempo. Um mes talvez fosse o ideal, mas, uns quinze dias pelo menos, se considerarmos o custo benefício ideal. Sim, por que são caras. Paris mais ainda! Para se ter uma idéia, um café médio no restaurante do Cristo Redentor no Rio de Janeiro sai por tres euros. No da Torre Eiffell sai o dobro! Numa rua comum, no centro de Paris, a gente não toma um cafezinho preto por menos de quatro euros. Se o cardápio incluir um sanduíche regado a bom vinho (como são todos os daquelas paragens) ou uma gelada à la pression, coloque pelo menos 20 euros na carteira (66 reais). Quer outro exemplo de carestia comparada? Jantar com sobremesa, animado por grupo de fado de primeira qualidade, na casa onde iniciou carreira a dama Amália Rodrigues, tradicional reduto da noite Lisboeta (atenção, não estou falando daquele restaurante da Dilma, heim?) custou-me 150 euros para duas pessoas, com duas garrafas de vinho. Num restaurante equivalente em Paris, sem música ao vivo, não sai por menos de 400 euros, incríveis 1.320,00 reais. Convenhamos: esta Paris é para gente muito endinheirada, não é? Ou então, o turista tem que se virar como eu me virei: carregando o próprio lanche preparado no hotel, e a própria garrafa de vinho adquirida em super mercado, para deliciar-se nos incríveis parques da cidade, entre um passeio e outro... O jantar, para coroar com chave de ouro mais um dia na cidade luz, pode ser feito também no quarto do hotel, o cardápio de primeira servido em quentinhas, devidamente comprado nos Carrefours da vida. Não é tão chique, mas, com um pouco de imaginação... tudo é possível. 


Turismo popular. Lanche coletivo no Jardim de Luxembourg.


Paris sempre foi uma cidadela da liberdade. Quando os negões do jazz eram tratados pior que cachorros em Nova York, foi a parisiense Le Blue Note quem primeiro lhes abriu as portas do sucesso mundial. Retribuíram com seu talento, como nesta canção de 1948, feita pelo branco mais negro dos Estados Unidos, ele próprio um desalojado dentro de seu próprio mundo cultural e artístico, e aqui interpretada à moda branca por uma das maiores cantoras negras da história.







O que mais impressiona na grande Paris é a personalidade inconfundível da cidade. Ali fica claro que você está diante de mais de mil anos de história, apenas na sua fase cristã e ocidental, sem considerar que o território já foi província romana, depois de seu período pré histórico, digamos assim. É uma circunstância no mínimo respeitável, quando você adentra às instalações do Palácio de Versalhes, para descobrir que foi ali que a cultura ocidental começou a comer de garfo e faca. Sim, até 1650, mais ou menos, todos comiam com as mãos, inclusive os reis e princesas, sim, senhor!  

Impressiona quando você anda pela cidade e vê esculturas celebrando feitos militares do ano 840 da era cristã. Impressiona mais ainda quando lhe cai dentro da cachola a informação que a nação francesa foi consolidada por Clovis, o primeiro rei Franco, por volta do ano 500, quando uniu em torno de seu exército todas as tribos bárbaras que habitavam o pedaço. O sacrifício da mocinha de 19 anos, Joana D'Arc, só aconteceria 900 anos depois... Nós, brasileiros, que somos uma nação eminentemente moderna, não temos a menor ideia do que isso significa, em termos de percepção da passagem do tempo e sentimento da verdadeira nacionalidade. Talvez a Itália tenha algo semelhante!  Por isso, é natural que os parisienses ainda comemorem a vitória de sua resistência contra a ocupação da cidade pelas tropas de Hitler, afinal, isso foi ainda outro dia qualquer...






Eu não tenho nada contra as viagens feitas de forma organizada, promovidas por agências de turismo. Ao contrário, eu as considero otimizadas e produtivas, onde o viajante gasta todo seu tempo em atividades fins, pelas quais pagou o justo preço da terceirização: você chega no aeroporto e já está lá um ônibus ou van para levá-lo ao hotel, que já está reservado, líquido e certo. Cada passeio já está programado e as datas bem definidas, não lhe cabe qualquer preocupação quanto a isso. Eu já fiz uma viagem assim e me senti muito confortável, tão à vontade que quase não estabeleci contato com os lugares que visitei. Falávamos apenas português dentro do grupo, as senhoras da excursão todo dia ligavam para suas casas no Brasil, ora para perguntar o que o maridão andava fazendo, ora para se informar do estado do animal de estimação, quando não para perguntar ao filhão como é que funcionava aquela encrenca da máquina de fotografar. Isso tira um pouco da graça de viajar por terras estranhas, acredito eu. 

Por mais trabalho que dê, eu acho interessante o sentimento de frio na barriga quando você chega num lugar sem reserva em hotel, às vezes até sem a mínima noção de como é que vai chegar ao centro da metrópole, como no caso de Paris, tendo o ilustre e desinformado passageiro desembarcado no desconhecido aeroporto de Orly, pois veio de Lisboa e não do Brasil, cujos vôos desembarcam no Charles de Gaulle, do outro lado da cidade.  É bom (e barato) andar de metrô, convivendo com os pobres, muitos deles estrangeiros como você, porém, em pior estado, pois são imigrantes na babilônia mal encarada. Você se sente mais internacional, quando está no segundo andar de um ônibus turístico, ouvindo conversas nas mais distintas e diferentes línguas, algumas das quais você nem consegue identificar, quanto mais entender. Para quem gosta de sofrer a síndrome da estranheza, onde tudo (ou nada) pode acontecer, é ótimo! Só precisa um pouco de sangue frio. E alguma cara de pau!








Manhã chuvosa defronte ao Louvre e sua famosa pirâmide.

Curtindo a paz dos jardins de Maria Antonieta.

Impressionado com a grandiosidade dos palácios. 



terça-feira, 8 de abril de 2014

Conexão em Köln, Alemanha.

Chácara Mansidão, Campeche. 

Há um padrão de símbolos e imagens que estão gravadas no inconsciente da humanidade. Sempre que pensamos em Bagdá, nos aparece a figura de um califa cercado de belas mulheres, a sorver tranquilamente seu vapor de cannabis, viajando nas aventuras eróticas das mil e uma noites, como se não fosse preciso plantar e colher, guerrear e vencer para usufruir daquela vida de califa. Também pensamos ser natural dos alemães a franqueza rude com que lidam com a disciplina. Um policial latino americano nos aparece sempre como um sujeito meio gordo, de óculos escuro, a sugerir que pode ser comprado a qualquer instante por qualquer oferta. 

Por isso, quando aqueles policiais alemães abriram a porta da cabine do trem noturno no qual eu cruzava o norte da Alemanha, todos trememos em nossas bases. Era como se rememorássemos uma noite invernal de 1941, a Gestapo ali, pedindo nossos documentos. Éramos eu, mochileiro latino americano, um casal de árabes com seu filho pequeno, uma moça hippie de provável origem sueca ou pelo menos Viking, pela expressão nobre de uma linhagem loira. Havia também um velho português. Esse eu reconheci não por que tivesse falado algo em nossa língua, mas, por que não tirava os olhos de um livro onde estava escrito na capa preta: Bíblia Sagrada.  

Depois de três tentativas dos policiais em comunicar em alemão, inglês e francês, que queriam ver seu passaporte, o velho português olhava atônito para aqueles homens altos, fortes e já nervosos. Então, eu não me segurei e disse: "Eles querem ver seu passaporte, senhor!". Imediatamente ele abriu uma sacola e entregou o documento aos policiais. 

-- "Muito obrigado pela sua ajuda, suponho que sejas brasileiro!"



Sim, eu era brasileiro e seria o único naquela sala a compreender que o velho português viajava sozinho, algo temerário na sua idade e condição. Iniciamos um diálogo no qual ele me contou que era viúvo e, diante da morte da esposa querida, resolvera assumir a função de pregador evangélico. Por isso, estava indo na direção da Dinamarca, como eu, para mais uma rodada de pregações. Na última semana, assim como eu, mas, por motivos diferenciados, havia estado na cidade de Amsterdam.

--- "Fui para lá afim de espalhar alguma benção capaz de fazer o Pai Celestial perdoar tanta iniquidade. Você sabia que há mulheres naquela cidade que fazem sexo com cachorros? Não digo os cachorros humanos, coisa comum, mas, refiro-me aos cachorros cachorros mesmo."




Tudo o que o velho não havia falado nas três horas iniciais da viagem ferroviária, soltava ali e agora, na minha frente e no meu ouvido. Aos poucos fui gostando daquela conversa mole, impregnada de preconceitos e equívocos, só por distração e rolagem do tempo na madrugada. Quando chegamos em nossa conexão na estação central de Colônia, ele não queria de jeito nenhum saltar do trem. Achava que estava indo direto à Dinamarca. Precisei ser duro com ele.

--- "Olha aqui, seu português desmiolado. São quatro horas da manhã e nosso trem para a Dinamarca passa daqui a duas horas. Esse trem em que estamos agora vai para Berlim e chega lá ao amanhecer. Se o senhor permanecer nele, nada lhe garante que vá encontrar outro companheiro de viagem que fale a sua língua. Sua última chance é agora. Siga-me!" 


Fizemos um lanche, pago por mim, evidentemente. Não tinha dinheiro nem para um cafezinho. Eu gostaria de ter tomado um litro da monumental cerveja de Colônia, mas, em respeito às suas convicções religiosas, evitei a bebida, ato do qual muito me arrependi, pois não tive outra oportunidade para sorver o precioso líquido. Muito depois percebi que a Heineken dinamarquesa não é a mesma coisa. 




Contou-me que muito cedo, ainda mocinho deixou sua aldeia e emigrou para o Brasil. Desembarcou no Rio de Janeiro e a vida foi lhe mostrando os interiores, até que se fixou em Vitória da Conquista, onde se converteu à fé batista, a igreja norte americana derivada do anglicanismo. Casou-se, teve seis filhos que o ajudaram no pequeno negócio de secos e molhados, até que, cinquenta anos depois, lhe faltou a esposa mulata e baiana que tanto gosto e prazer lhe dera pela vida afora. Sentiu que tinha chegado o momento de retornar ao lar da infância. Portugal já não era a mesma coisa. Seus irmãos estranharam muito que não quisesse ir a Fátima rezar pelos anos de afastamento. Sentiram mais ainda quando ele lhes comunicou que tornara-se pastor da Igreja Universal do Reino de Deus. Foi um pandemônio na família, quando resolveu que sua missão seria daqui pra frente converter a Europa. 

--- "Que língua o senhor fala quando está em missão?"

---"Ora bolas, a única que sei, o português".

---"Haaa, então o senhor tem sempre um tradutor lhe acompanhando. Imagino que na Dinamarca vai estar um patrício seu, que fale dinamarquês."  

---"Olha, meu filho, isso eu não sei. Só me preocupo com a mensagem que eu mesmo transmito como se fosse para mim, entende? Tudo baseado na Bíblia Sagrada.  Como vão traduzir não é problema meu".

Então, eu me lembrei do filme REDS, 1981, que mostra Leon Trotski fazendo discursos revolucionários nos países muçulmanos da Ásia soviética, pregando a luta de classes, enquanto seus tradutores gritavam slogans religiosos, aos quais a multidão respondia em fervorosas preces islâmicas.