terça-feira, 19 de junho de 2012

ROMANTISMO NA MÚSICA POPULAR - Yolanda




A ilha caribenha de Cuba é conhecida por sua música extravagante, colorida, cheia de raízes africanas, das quais são exemplos o Mambo e a Rumba. Também tem tradição nas canções hispânicas de acentuada sensualidade, como o Bolero, que ali foi criado pelos colonizadores espanhóis há uns duzentos anos atrás. Ninguém poderia supor que neste país tão mulato e alegre, parecido com a nossa Bahia, nascesse um hino visceral à paixão de um homem por uma mulher.

Na canção YOLANDA, o seu autor, Pablo Milanés, foi às últimas consequências da entrega incondicional de uma pessoa à outra, a busca ideal pelo casamento total e indestrutível. Mas, sua amada Yolanda o abandonou justamente no pior momento, quando o rapaz descobre um câncer ósseo e tem que se afastar do mundo artístico para se tratar, vindo a perder uma perna e a ficar vários meses entrando e saindo de hospitais. Daquele amor apaixonado, restou apenas sua voz melancólica entoando:

“Si me faltaras, no voy a morirme  
Si he de morir quiero que sea contigo.
Mi soledad se siente acompañada
Por eso a veces sé que necesito 
Tu mano, tu mano, tu mano, 
eternamente tu mano…"

A própria Yolanda conta que conheceu Pablo quando este tinha 25 anos de idade, e era apenas um rapaz cubano, mulato, pobre e triste. Apesar de ter construído a carreira com várias canções de intensa alegria, suas grandes obras foram Yolanda e Años, canções tristes que consolidaram um estilo completamente novo e desconhecido da música cubana, a partir do movimento que se autodenominou "Nova Trova", inspirada nas canções românticas e nos "blues" dos negros norte americanos. Mais tarde, com sua doença sob controle e uma prótese na perna amputada, Pablo Milanés correu o mundo, física e artisticamente. 
Nenhum outro músico  cubano foi tão reverenciado no exterior, nem mesmo os que se exilaram para os Estados Unidos, fugindo da revolução comunista, como Célia Cruz e Bola de Nieve. Aqui no Brasil,  Pablo ganhou um fan de carteirinha, Chico Buarque, que o chamava jocosamente de "meu homem em Cuba". 

Chico Buarque fez uma versão impecável da música Yolanda, que ofereceu para a cantora Simone fazer enorme sucesso nos anos 80. A letra de Chico, como seria de se esperar, melhorou ainda mais a dramaticidade da canção. Ele poderia simplesmente traduzir do espanhol para o português e, pronto, o sucesso seria o mesmo. Mas, além  de manter o sentido desesperado do poema original, Chico criou novas imagens poéticas e manteve a sonoridade das frases musicais, para que soassem em português igual ao canto de Pablo em espanhol. Por exemplo, se traduzisse  literalmente os versos finais, 

"rezando el credo que me has enseñado, miro tu cara y digo en la ventana: Yolanda"    
  
ele teria que colocar a palavra "janela", que em português soaria totalmente isento de poesia. Por isso, manteve o espírito da letra, mas trocou "ventana" por "ventania". Ficou muito melhor:  

"rezando o credo que tu me ensinastes, olho teu rosto e digo à ventania: Yolanda" .


Vamos acompanhar a versão de Chico Buarque na íntegra?
    
"Esta canção não é mais que uma canção
Quem dera fosse uma declaração de amor
Romântica, sem procurar a justa forma
Do que me vem de forma assim tão caudalosa
Te amo, te amo, eternamente te amo

Se me faltares nem por isso eu morro
Se é pra morrer, quero morrer contigo
Minha solidão se sente acompanhada
Por isso às vezes sei que necessito
Teu colo, teu colo, eternamente teu colo

Quando te vi eu bem que estava certo
De que me sentiria descoberto
A minha pele vais despindo aos poucos
Me abres o peito quando me acumulas
De amores, de amores, eternamente de amores

Se alguma vez me sinto derrotado
Eu abro mão do sol de cada dia
Rezando o credo que tu me ensinastes
Olho teu rosto e digo à ventania 
Iolanda, Iolanda, eternamente Iolanda."





domingo, 17 de junho de 2012

ROMANTISMO NA MÚSICA POPULAR - Te Recuerdo, Amanda



Uma das mais celebradas canções de amor de todos os tempos foi feita no Chile nos meses que precederam o golpe de estado de Pinochet. Seu autor era um militante político, ator e diretor de teatro, poeta e compositor. O mais famoso e querido do país, por isso mesmo odiado pelos fascistas. Assim que deram o golpe, eles o prenderam, extirparam sua mão direita, para que não mais tocasse seu instrumento, o violão. Soltaram-no, para, em seguida, prenderem novamente no campo de concentração que era o Estádio Nacional. Três dias depois seu corpo apareceu, com marcas de tortura e desfigurado, numa favela de Santiago. Nada disso era necessário, por que Victor Jara era um doce, incapaz de fazer mal a qualquer pessoa. Era apenas um poeta e cantava seu tempo.   "Te Recuerdo, Amanda" fez enorme sucesso no Brasil, na interpretação de um grupo de música latino americana, então na moda, chamado Tarancón. Eram músicos brasileiros e duas cantoras bolivianas, que corriam o país de norte a sul, cantando em universidades, sindicatos e igrejas. Qualquer entidade democrática que lhes abrisse as portas, as mesmas que tinham sido fechadas pela ditadura militar brasileira, amiguinha de Pinochet.









Te recordo, Amanda,
A rua molhada
Correndo para a fábrica
Onde trabalhava Manuel.

O sorriso largo
A chuva no cabelo
Não importava nada
Tu corrias para encontrar-te com ele.

Com ele, com ele, com ele, com ele.
São cinco minutos. A vida é eterna em cinco minutos.
Soa a sirene. De volta ao trabalho
E tu caminhando iluminas tudo,
Os cinco minutos te fazem florescer.

Te recordo, Amanda,
A rua molhada
Correndo para a fábrica
Onde trabalhava Manuel.

O sorriso largo
A chuva no cabelo
Não importava nada
Tu corrias para encontrar-te com ele.

Com ele, com ele, com ele, com ele.
Que partiu para a serra
Que nunca cometeu qualquer deslize. Que partiu para a serra,
E em cinco minutos caiu destroçado.
Soa a sirene, de volta ao trabalho.
Muitos não voltaram, tampouco Manuel.

Te recordo, Amanda
A rua molhada
Correndo para a fábrica
Onde trabalhava Manuel.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

MELHORES TANGOS DE TODOS OS TEMPOS

Tango, a sensualidade dançável. 




VOLVER (Carlos Gardel e Alfredo le Pera)
Antes da segunda guerra mundial os tangos tinham força dramática impressionante. A começar com La Cumparsita, o primeiro sucesso mundial, seguiram-se grandes tangos de forte impacto como À Media Luz, Cuesta Abajo, Cambalache e tantos outros que ficaram na memória inconsciente do público, retratando quase sempre crises morais e decadência, em ambientes que misturavam elegância e violência, sedução e traição. Carlos Gardel, que foi o maior de todos, pertencia a esse universo meio marginal, meio romântico. Consta que frequentava o baixo mundo de Buenos Aires e interagia profundamente com os personagens que descrevia em suas canções, a ponto de ter sofrido um tiro, disparado por ninguém menos que o pai de Ernesto Guevara, o futuro Chê, numa briga de bar, não sei dizer se disputando alguma dama da noite. No entanto, quando excursionava pela Europa na década de 1930,  Gardel encontrou em Paris o paulistano naturalizado argentino, Alfredo le Pera, que passou a cuidar não só das letras das músicas, mas também do figurino e da imagem do ídolo, além de dirigir seus filmes. Em 1935 os dois produziram juntos o mais brilhante disco de tango de todos os tempos, poucos meses antes de ambos morrerem no acidente aéreo que os vitimou e à toda a orquestra. Era simplesmente fantástico, pois trazia pérolas como El Dia que me Quieras, Por una Cabeza (que foi tema do filme Perfume de Mulher) e, na minha opinião, um dos tres mais belos tangos de todos os tempos, VOLVER, um poema escrito por Alfredo,  dando cor à inconfundível marca tangueira do grande moroso del Abasto, o bairro onde cresceu o pequeno marginal que veio com sua mãe do Uruguai, para ali se instalar quando ele tinha dois anos de idade.  Aqui, mostramos Volver na voz da espanhola cantora de flamenco, Estrella Morente, trilha sonora da famosa película homônima dirigida por Pedro Almodóvar. 











BALADA PARA UN LOCO (Astor Piazzolla e Horácio Ferrer)

Astor Piazzolla já nasceu milionário, pois era filho de um grande empresário da cidade de Mar del Plata. Este senhor tinha grandes planos para o filho: queria vê-lo dirigindo óperas e grandes orquestras sinfônicas no circuito Paris-Nova Yorque, por isso o mandou estudar música nos Estados Unidos. Acontece que o pequeno Astor gostava mesmo era de bandoneón e tango, o que lhe era proibido terminantemente pelo zeloso pai. Mas, não teve jeito. Assim que se viu formado, Piazzolla voltou para a Argentina e se instalou em Buenos Aires, onde aprendeu a técnica perfeita com uma orquestra clássica de tango, para, em seguida, revolucionar tudo e mostrar o que vale uma boa formação erudita. Seu início de carreira nos anos 1950 foi tão conturbado e suas canções tão complexas, que os tangueiros o proibiram de anunciá-las como "tango". Então, ele passou a chamá-las de "música contemporânea da cidade de Buenos Aires", para não se misturar aos desafetos que o rejeitavam. Porém, chegados os anos sessenta, Astor Piazzolla começou a pegar o jeito do gosto popular e lançou um grande hit,  que descrevia poeticamente nos versos de Horácio Ferrer, as aventuras de um maluco beleza completamente doido e santo, livre nas ruas da capital portenha, "mistura rara do penúltimo vagabundo com o primeiro caroneiro clandestino na viagem para Vênus".   Assim nasceu Balada para un Loco, neste vídeo interpretado pela atriz Joseán Morloesin Mellado, com ilustrações dela própria.









SUR (Anibal Troilo e Homero Manzi)

Anibal Troilo é tão importante que a data de seu aniversário foi declarada "Dia Nacional do Tango" na Argentina. Veio do Uruguai ainda criança, como Gardel, e também se naturalizou argentino. Está situado cronologicamente entre Gardel e Piazzolla, lá pelos anos quarenta. Morou a vida inteira perto do obelisco da Avenida Nove de Julho, o ponto emblemático da capital. Tinha precária saúde cardíaca e, por mais que tomasse cuidados, provavelmente a fumaça dos cigarros de terceiros, nas longas noites passadas desempenhando sua arte pelos cabarés, acabou liquidando com seu FRÁGIL coração. Antes da hora, por que mal passara dos cinquenta anos. Foi o professor que ensinou bandoneón para Astor Piazzolla, que aqui lhe presta uma homenagem mais do que sincera, tocando ao seu estilo próprio a mais importante canção do mestre, considerada pelos críticos como o mais belo tango jamais feito. O cantor é Roberto Polaco Goyeneche, o crooner eterno da banda de Anibal Troilo. A canção fala de uma Buenos Aires que não existe mais, quando um velho se põe a recordar o passado, do tempo em que namorava sua pequena e adorada mulher, nos seus "vinte anos de idade tremendo de carinhos". Desiludido, chega a conclusão de que "nunca mais iluminarei com as estrelas nossas caminhadas tranquilas pelas noites de Pompéya", partindo da esquina de barro e pampa, San Juan com Boedo antiga, o ar ainda puro perfumando a noite com aromas de ervas daninhas e alfafa. 







quinta-feira, 7 de junho de 2012

Como entender pessoas, sem falar suas línguas

Noite Estrelada, obra prima de um sujeito incompreendido no seu tempo



Eu gostaria de ser poliglota, para poder falar e entender pessoas de diversas partes do mundo. No entanto, às vêzes não é necessário falar outra lingua, pois existe algo universal, que é a  linguagem  da emoção humana. Aqui no Nordeste, por exemplo, as pessoas são muito mais emotivas e se manifestam mais livremente sobre seus sentimentos. É comum nas estações de ônibus as cenas de choros, tanto dos que embarcam, quanto dos que ficam.  Os motoristas, sempre atrasados, coitados,  precisam apressar os chorões "Vambora, minha gente,  se não ninguém sai daqui hoje".  Na Europa, só me lembro de ter visto uma única cena assim, quando embarquei num trem na Holanda para ir à Dinamarca. Na mesma cabine que eu, estava uma senhora muçulmana e seu filho, ambos chorando copiosamente, enquanto do outro lado da janela de vidro, na plataforma da estação de Rotterdam, um homem também se comovia às lágrimas. Eu sei que eram muçulmanos pelas vestimentas da mulher, mas, árabes não eram. Pareciam eslavos, talvez alguma família imigrante daquelas antigas repúblicas asiáticas que formavam a União Soviética, podiam ser da Tchechênia, por exemplo, ou de qualquer país tão miserável que era melhor encarar o preconceito na Europa.



Na mesma cabine estava também um senhor de idade. Chamou-me a atenção, por que ele não tirava os olhos da Bíblia, com  a particularidade de que a dita cuja estava  escrita em português. Quando cruzamos a fronteira alemã, um oficial pediu os passaportes de todos os passageiros da cabine. O velhinho não entendia o que lhe pediam, que lhe tentavam explicar em alemão, inglês e até francês. Eu achei que poderia  ajudar e disse-lhe em bom e claro português: "Eles querem ver seu passaporte, senhor."   Ele imediatamente enfiou a mão no casaco e tirou o documento, passando-o ao guarda. Então, começamos a conversar. Contou-me que era português, mas havia se casado e morado em Vitória da Conquista, Bahia, até sua esposa falecer. Lá, converteu-se a uma dessas igrejas protestantes pentecostais e iniciou-se como pastor. Ficando viúvo, voltou a Portugal e entregou-se ao trabalho de espalhar sua fé, atuando em toda a Europa. Eu lhe perguntei como fazia para pregar, que língua falava. Ele respondeu "a única que sei, ora bolas, o português" 




--- Mas, como o senhor se fazia entender na Holanda, falando português?, e como vai fazer  agora, na Dinamarca? E ele respondeu com a maior tranquilidade: "Deus sempre providencia um tradutor. Não arrumou-me alguém como tu, agorinha mesmo?"      Quando chegamos na estação principal de Colônia, eu levantei-me e lhe disse: "Vamos, aqui temos que trocar de trem".  Como bom português, o homem era também meio cismado. Ele me respondeu que não, "não vou sair daqui de jeito nenhum, por que ninguém me disse que tinha que fazer isso".   Então, eu olhei bem sério para ele e expliquei com calma, porém ameaçador, dizendo que se ficasse no trem, iria parar em Berlim, e talvez lá Deus não fosse complacente com ele de novo, de modo a lhe arranjar outro tradutor, uma vez que já tinha feito esse milagre para o dia de hoje.  Ele pensou por um instante e resolveu me acompanhar, por via das dúvidas, pois vá que Deus só conceda mesmo um milagre por dia... 

Ficamos duas horas na estação,  para aguardar  a chegada de nossa conexão. Enquanto caminhava com ele pelo saguão, pensei sair para tomar uma cerveja alemã, mas, desisti, em solidariedade a seu modo de ser. Então, convidei-o para um lanche, que ele aceitou imediatamente, com uma ressalva: "Eu somente posso devolver-te o dinheiro da despesa quando chegarmos à Dinamarca, assim que o pastor local for pegar-me na estação".  

Não tinha no bolso um puto centavo, que pudesse trocar por marco alemão. 



É noite de São João




Nos últimos vinte dias, passei mais de 100 horas dentro de ônibus viajando ou andando em cidades de Alagoas, Sergipe e Bahia. Esta é uma maneira interessante e barata de entrar em contato verdadeiro com o povo, sua cultura, seus modos de viver e falar. Eram basicamente pessoas simples e pobres, tanto que andavam de ônibus. O comportamento dos passageiros, por aqui, é completamente diferente de todas as demais regiões do Brasil. Estabelecem-se várias conversas e ambientes variados dentro do coletivo, com conversas altas e acaloradas, onde as pessoas não têm medo de se mostrarem, falando abertamente de seus problemas, suas experiências pessoais, ou dando conselhos e analisando os problemas dos demais. É uma verdadeira terapia em grupo.

Num coletivo no centro de Maceió, o sujeito do lado sintonizou seu celular e começou a tocar um antigo sucesso de Fagner, que foi tema de novela, "... e se teu amigo vento não te procurar, é por que multidões ele foi arrastar."  Cantarolava junto com a música e tocava meu ombro "veja que maravilha".  Eu criei coragem e comecei a cantar junto. Parece que a ninguém aquilo pareceu extravagante ou  se incomodou com o fato. Depois ele passou para uma canção totalmente brega, que eu nunca tinha ouvido antes, mas, nessa altura vi que já tinha chegado meu ponto de desembarcar, eu disse "valeu cara, muito bom seu gosto musical" e ele ficou sorrindo, todo satisfeito, perguntando "Conhece Fortaleza?"  Tenho a impressão de que poderíamos continuar aquilo por horas e eu não sabia no que ia dar, portanto, achei mesmo melhor desembarcar.

Lua cheia sobre o Rio São Francisco, em época de seca.


Num ambiente cultural desses, o São João só teria que ser diferente, primeiro por  que começa ainda em maio e segue julho adentro. A estas últimas manifestações, nós do sul costumamos chamar de festas julinas, o que é totalmente incorreto, pois continuam a fazer parte do ciclo de festas rurais juninas, que festejam o início do plantio e agradecem pela colheita anterior. Aqui no nordeste é tudo São João, não importa a data em que se realizem. Além disso, coincidem com a época de chuvas, o que sempre é uma alegria para o povo pobre do interior. Cada cidade anuncia com grande entusiasmo uma ou várias festas oficiais, para as quais convidam artistas de todo tipo. Fora as festas familiares ou de grandes empresas. Os grandes ídolos vagueiam pelas cidades mais ricas e os mais simples têm sua oportunidade de se firmarem como artistas populares. Tem pra todo mundo, mesmo para bandas que em outras épocas do ano se dediquem a outros gêneros, como a Chiclete com Banana, por exemplo. Só tem que cantar forró, sendo isso, vale tudo! 

Ao passear por essas paragens, percebi a importância do Gonzagão. Eu sabia que ele era admirado no nordeste, mas, não que fosse ainda tratado como um deus. É impressionante a adoração que o povo tem por esse mito sertanejo. Todas as bandas, inclusive as de música brega nordestina, tipo Calcinha Preta, estão a serviço dos cem anos do homem. Tenho notado que o Gonzagão continua sendo o rei do baião, mas, percebo também a popularidade de outro cantor, que eu julgava acabado. Fagner. Eu tenho um amigo argentino, que vive de ensinar música, além de ser produtor de espetáculos de tango, regente de coros universitários e grande cantor de ópera. Eu lhe mostrei o disco que Fagner gravou na Andaluzia, Espanha, no início da carreira. Ele ficou impressionado:"Esto és una maravilla". Para os nordestinos em geral, continua sendo. 



quarta-feira, 30 de maio de 2012

Memórias do rádio



Antes de seguir para o quartel,  trabalhei três anos na Rádio Jornal de Maringá, a menina dos olhos da Rede Paranaense de Rádio. Nossa programação era diferenciada, com alta qualidade musical e locução impecável, segundo o modelo da Rádio Jornal do Brasil, que procurávamos imitar. Provavelmente não dava muito lucro, mas, para isso existiam as outras emissoras da rede. Certa vez, os diretores resolveram fazer uma pesquisa de audiência e convocaram a mim e outro colega,  para percorrermos em horários alternados os bairros de Maringá, perguntando de casa em casa qual emissora estavam ouvindo. A maior parte do tempo nós ficávamos sentados na mesa de algum bar, onde preenchíamos os questionários, dando a liderança para a Rádio Jornal. O gerente de outra estação da rede nos chamou para uma conversinha. Levou junto um famoso apresentador, muito popular, em cujo programa tocava Jerry Adriani, Wanderlei Cardoso, Roberto Carlos, essas coisas. Pois em nossa pesquisa, nós colocamos o homem abaixo do nosso programa de rock and roll tradicional, apresentado por duas lindas locutoras cariocas. Elas sabiam do tesão que provocavam e iam ao programa em minúsculas saias. Dançavam acompanhando as músicas no estúdio, que tinha paredes de vidro para a Avenida Herval, onde se aglomerava uma pequena multidão masculina, a admirar as lindas coxas das morenas.  Lembro-me dessas coisas, por que estou isolado no meio do coqueiral infinito de Sauassuhy, no interior de Maceió, só tendo acesso à programação da Jovem Pan pelo canal FM da TV. 

A emissora de Maceió é a mesma de Floripa, mais outras 150 franquias da rede, que tocam interminavelmente as mesmas vinte canções selecionadas, um jabaculê mais grave que nossa inocente pesquisa de 1978. Ainda ontem, o excelente locutor anunciou a campeoníssima do dia, a qual já fez o favor de traduzir para o distinto público: "Eu não vivo sem você". E entra uma balada com fundo eletrônico, declarando que "I will never be the same, without you". É. Pode ser. Em matéria de tradução de letras musicais, parece que está valendo tudo. Bem diferente do nosso tempo!


Ainda que a Jovem Pan se anuncie como a maior audiência, aqui o que tem a preferência do povão é mesmo o forró, que toca em todas as rádios, que ouço pelas casas e pelos bares da minha vizinhança. A origem do nome "forró" é uma deliciosa piada, que não sei se é verdadeira, e passo adiante como recebi. Durante a segunda guerra mundial, havia uma base naval norte americana em Natal (RN). Conta-se que, aos domingos, os militares promoviam um baile, para o qual convidavam os mais populares sanfoneiros da região. Como o baile era público, eles o chamavam "for all". De "for all" em "for all", a língua do povo criou o forró.  


Tenho notado que o Gonzagão continua sendo o rei do baião, mas, percebo também a popularidade de outro cantor, que eu julgava acabado. Fagner. Eu tenho um amigo argentino, que vive de ensinar música, além de ser produtor de espetáculos de tango, regente de coros universitários e grande cantor de ópera. Eu lhe mostrei o disco que Fagner gravou na Andaluzia, Espanha, no início da carreira. Ele ficou impressionado: "Esto és una maravilla, todavia más interessante que aquel muchacho que canta com timbre de mujer", referindo-se a Ney Matogrosso. De fato, apesar de serem completamente diferentes um do outro, são dois grandes artistas brasileiros. Que não tocam na rede Jovem Pan. 







A rádio Jornal do Brasil faliu juntamente com o próprio, e da Jornal de Maringá desde há muito tempo que não tenho notícias. Sobraram apenas memórias de um tempo feliz. Fui demitido da Rádio Jornal, por conta de outra irresponsabilidade. Eu fazia o horário nobre da estação, operando a mesa de som das 18 horas até meia noite. Às dezenove horas, colocava no ar a "Voz do Brasil", sintonizando a rádio Nacional, conforme era nossa obrigação. Naquele dia, fomos eu e o locutor, à festa de inauguração de uma churrascaria, ali pela região central. Nos entretemos com as maravilhosas batidas de limão e maracujá. Quando dei por mim, já era quase nove da noite. Saímos em desabalada carreira até a emissora, onde chegamos praticamente juntos com o gerente, que nos demitiu ali mesmo e retirou a rádio do ar, até que convocasse nova dupla de operadores. Ao locutor ele não perdoou, embora o sujeito fosse tão bom que rapidamente conseguiu colocação numa grande emissora de Londrina, onde fez carreira de grande sucesso. Talvez ele se lembre de nossa irresponsabilidade juvenil.  Quanto a mim, que era menor de idade e pobre, porém talentoso, além de ser um dos alunos preferidos da sua esposa, o gerente me arranjou emprego como redator numa agência de publicidade.  Criando textos para super mercados e lojas de tecidos, comecei minha carreira literária. O gerentão, pessoa doce que era, acabou a vida como produtor de mel. E nunca mais eu soube da minha querida professora de geografia. Bons tempos!

  

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Zumbi, herói do Brasil


  
O Quilombo dos Palmares  estava localizad​o na atual região do município de União dos Palmares, norte de Alagoas. Era uma comunidade auto-suste​ntável, um reino africano encravado no Brasil (alguns historiadores o classificam como república, mas é pouco provável que fosse uma democracia). Era formado por escravos angolanos, que fugiram das fazendas de Pernambuco e Bahia. Ele ocupava uma área equivalente ao tamanho de Portugal. 
Em seu momento mais importante, a população alcançava trinta mil pessoas, competindo com Salvador e Recife.





Quando ainda não tinha completado 40 anos, Zumbi viu o quilombo ser invadido pelas forças portuguesas, que tinham a missão de destruí-lo e levar os líderes a julgamento, ordem comandada pelo próprio rei, para servir de exemplo a outras eventuais tentativas de revolta. O quilombo não se rendeu. Preferiram morrer, a perderem sua liberdade.


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cem Anos do Gonzagão


No final de março de 1973, assisti um show de Luiz Gonzaga, por conta do aniversário de Curitiba. Fazia um frio do baralho, em meio a uma chuvinha fininha típica dos campos gerais, a mil metros sobre o nível do mar. Gonzagão vivia seu esplendor, aos 61 anos de idade, famoso no Brasil inteiro e idolatrado no nordeste. Subiu ao palco encasacado em vários blusões de couro, com seu chapéu típico de cangaceiro e cumprimentou o público: “Alô, Curitiba”, destacando bem o “tiba” com a pronúncia típica dos nordestinos, e não com o “txiba” pronunciado por cariocas e outros mal falantes da língua pátria brasileira.  Como o tempo não estava para sorrisos, saiu-se com esta: “Tempo tá ruim, né não? É a natureza que chora emocionada com teu aniversário, Curitiba”, Tiba com “T” verdadeiro. Se fosse uma tarde de sol, garanto que diria que a natureza sorria emocionada. Era um grande populista. Eu só fui ao espetáculo por que não tinha nada para fazer naquele feriado, pois até nem gostava tanto do Gonzagão. Eu preferia seu filho Gonzaguinha, nosso herói político contestador, que ainda não havia se reconciliado com o pai fujão, que o abandonou juntamente com a mãe à própria sorte, fazendo com que fosse criado por uma família pobre no Morro de São Carlos, enquanto ele próprio usufruía de sua gloriosa carreira de sucesso. 



Maragogi, onde toca Gonzagão a toda hora em todo lugar.




Agora, comemora-se cem anos do Gonzagão. Eu sabia que ele era admirado no nordeste, mas, não que fosse ainda tratado como um deus. É impressionante a admiração que o povo tem por este mito sertanejo. Todas as bandas, inclusive as de música brega nordestina, tipo Calcinha Preta, estão a serviço dos cem anos do homem. Eu vi uma entrevista do cantor de um grupo de forró moderno de Alagoas, quando ele disse na TV que, normalmente, por ocasião das festas juninas, eles já se dedicam para o forró tradicional, mas, neste ano, é como se fosse a celebração do fim do mundo. Toca Gonzagão em todos os lugares e a toda hora. Ouvindo agora suas canções, com a formação musical mínima que adquiri ao longo da vida, vejo que era de fato um grande cantor. Sabia fazer com grande competência a sua arte.  No final da vida, entrou na mesma canoa furada que levou vários artistas ao declínio, quando tentou ser político. Depois de várias décadas a serviço das oligarquias, cantando em seus comícios, ele achou que poderia ser prefeito de sua cidade, Exu, no sertão pernambucano. Deu-se mal. Ele não sabia das regras do jogo e foi simplesmente descartado pelos seus antigos parceiros de campanhas. Ao povo, este pequeno detalhe passou despercebido. O que ficou foi sua imensa capacidade de entretenimento.  





Mais de quarenta anos atrás, outro nordestino intuía a importância de Gonzagão para a música brasileira, ainda que os meios intelectuais o vissem com desconfiança, principalmente pelas suas posições políticas. Lá de seu exílio em Londres, Caetano Veloso mandava uma magistral interpretação reconfigurada da música de Gonzagão. Vejam o que ele conseguiu criar em cima de algo já pronto e tradicional. Uma versão absolutamente revolucionária do baião.




terça-feira, 22 de maio de 2012

Suahssuy




Deixei o burburinho da Pajuçara e vim passar uma semana em Suahssuy. Casa ampla, com piscina e muita sombra, em meio ao coqueiral infinito. De vez em quando um som forte, "ploc", corta o silêncio da noite. São os cocos maduros despencando e batendo na areia fofa. O único valor econômico destes maravilhosos e saudáveis frutos é sua água, vendida na praia a 2 reais. E côco maduro tem muito pouca água, então, ficam lá, apodrecendo. O cajú, infelizmente foi vítima de uma praga, que deixa o cajueiro enferrujado e anulou a safra de inverno. Não há cajú nem para remédio. Em compensação, as mangas dão show de bola. Nunca comi tanta manga no pé, deliciosas, sumarentas, dividem a minha preferência com a água de coco e não sei escolher o que é melhor, sendo assim, fico com as duas. 

Allan, o dono da casa, está em Maceió, onde trabalha na companhia estadual de energia, que foi reestatizada, pois o empreendedor privado abandonou o negócio. Para não deixar o estado ainda mais escuro, o governo federal a encampou e a colocou no conglomerado Eletrobrás, que é igual coração de mãe e aceitou também outras estaduais falidas pelo Amazonas, Rondônia, Acre, Piauí, etc. Em compensação, vendeu a Eletrosul, entregando as galinhas dos ovos de ouro por uma bagatela aos príncipes belgas e franceses da Tractebel, que recebeu algumas das jóias da coroa, como as duas usinas do Rio Iguaçu. E quase fica com todas as demais usinas naquele rio, pois o governo pefelista do Paraná, no mandato de Jaime Lerner, estava entregando a Copel inteira aos mesmos felizardos. O negócio só não se concretizou por que o PT do Paraná comprou a briga e começou a criar comitês de defesa da Copel pelo estado inteiro, dezenas deles só na capital. Mais ainda, prometia uma campanha pública para boicote das faturas, assim que a Tractebel assumisse a companhia. Diante do imprevisível, e mediante o impacto do ataque às Torres Gêmeas, os belgas se encagassaram e desistiram da compra. Hoje, a Copel é seguramente uma das melhores companhias de energia do mundo, como era a Eletrosul Geração e talvez seja a Tractebel. 


Conheci Allan quando trabalhei no projeto da Eletrobrás para dar confiabilidade aos controles financeiros das empresas do Grupo. O plano era detectar os pontos falhos, propor melhorias e implementá-las. Claro que o projeto foi boicotado por todos os lados, inclusive por quem deveria zelar pela sua implantação. Alguns gestores, mais sinceros, simplesmente se negavam a assinar o relatório de Falhas, quanto mais a aceitar sugestões de melhorias. Outros, mais espertos, simulavam interesse a participavam ativamente da fase de estudos, sabendo que nunca implementariam os planos. Nenhuma autoridade os obrigava a tanto, visto que eram nomeados por políticos que continuam mandando no sistema, todos da mesma farinha com que são feitos os Sarneys. Gastou-se uma fortuna incalculável em consultoria internacional e despesas com mão de obra interna, hospedagem e deslocamento de pessoas, mas, o projeto nunca foi concluído. Não sei o que fizeram com a papelada, mas, é possível imaginar. Na iniciativa privada, gestores como aqueles teriam sido demitidos. Abrigados nas estruturas federais, nada acontece com eles, ao contrário, alguns são guindados para posições ainda mais importantes. É o jeitinho do estado brasileiro fazer negócios. Isso explica por que o projeto de privatização foi tão apoiado pela nossa população. 
Todas essas energias negativas do setor elétrico não abalaram minha amizade com Allan. Também não fazem a menor diferença aqui em Suahssuy, casa ampla, com piscina e muita sombra, em meio ao coqueiral infinito.     





sexta-feira, 18 de maio de 2012

Comparações

A renda per cápita de Santa Catarina é a quarta melhor do Brasil, com mais de 21 mil reais por habitante/ano. A de Alagoas é a terceira menor do Brasil e não chega a 7 mil reais. As populações da grande Maceió e da grande Florianópolis se equivalem, na margem calculada pelo IBGE em cerca de um milhão de pessoas. Seria excelente para um bom padrão urbano, equivalente a Barcelona, Amsterdan ou Copenhaggen,  ao contrário de muitas capitais do país, incluindo nossas co-irmãs do sul, Porto Alegre e Curitiba, ambas com mais de tres milhões de pessoas. Incomparável com o trio BH, Rio e São Paulo, verdadeiras máquinas de malucos, sem qualquer condição de qualidade de vida para o povão em geral, apertados nos trens, ônibus e metrôs, levando até quatro horas de deslocamento para ir ao trabalho. Maceió, assim como Florianópolis, tem vários problemas comuns às cidades brasileiras, mas são muito melhores do que os enfrentados pelos moradores da Penha, Cidade Ademar ou a periferia de Contagem. 

A Pajuçara não tem hora para ser admirada. Aqui, um visual na direção sul.


Por do sol se dá lá por volta de 17 horas, como em todo o nordeste.
Raul Seixas, o filme, a preços promocionais no SESI


Pelo que sei, a indústria de  Alagoas é inexistente, contando apenas com a precária produção açucareira. Nossa bela Santa Catarina, ao contrário, é uma potência nos ramos da agro industria, mecânica, tecelagem, química e tantos outros setores. No entanto, o SESI Alagoas mantém um centro cultural na Pajuçara, onde estréia hoje o filme "Raul, o início, o fim e o meio". Duvido que este filme passe em Florianópolis, assim como não passaram os filmes do Cartola e do Noel Rosa. Nossas entidades culturais, inclusive as públicas, acham que vivemos em algum canto do Alabama. E vai piorar, por que o futuro prefeito será um dos bandidos patrocinados ou pelo prefeito atual ou pelo governador. Pobre Floripa, que pensa ser do primeiro mundo. Maceió, com toda sua pobreza, te dá um banho.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Maceió



Saí de Floripa numa manhã brilhante, típica do mes de maio, temperatura em agradáveis 22 graus. Quando cruzamos o litoral do Paraná, mudou tudo. Desembarquei em São Paulo com tempo fechado, 12 graus. Se fosse em Congonhas, poderia cruzar a rua para qualquer padaria, churrascaria ou bar agradável na frente do aeroporto, afim de gastar as quase tres horas que me separavam do vôo para Maceió, mas, em Guarulhos, você é prisioneiro do aeroporto. Não tem para onde ir, a não ser caminhar pelos imensos corredores luxuosos, cheio de lojas caras e lanchonetes coloridas. Nem parece Brasil, principalmente nos preços. Com fome, pedi uma cerveja Original 600 ml e um sauichinho de presunto. Valor da conta: 33 reais. Um absurdo completo. Equivale ao preço que paguei naquela mesma noite de terça feira, debaixo dos coqueiros de Pajuçara, com meu amigo Allan, por um prato completo de camarão ao molho de coco. Cerveja a 4 reais, na areia da praia, sob as estrelas do céu de Maceió a 28 graus de temperatura. Não é uma verdadeira loucura?

Camarão ao leite de coco, com pirão e salada. Nem toquei no arroz.

Apenas começo a (re)conhecer a cidade, muito mais bonita do que a que eu vi em 1985. Problemas vários, claro, não estivéssemos no Brasil e no Nordeste. Muita gente dormindo na rua e pedindo esmolas. Poluição e sujeira pra todo lado. Trânsito caótico. Fazer o quê? Até achei que seria pior, em vista das condições políticas e sociais administradas por uma velha elite corrupta e incompetente, há tres séculos dominando Alagoas. Chega a ser mais cruel do que as oligarquias de Santa Catarina. Mas, o povo não parece infeliz. Ao contrário, aqui tudo é agradável, desde o papo no boteco, até as caminhadas das mocinhas pelo calçadão da praia.  A paisagem deslumbrante compensa todos os desconfortos e miséria. 

Orla de Pajuçara, ao anoitecer.


 

sábado, 12 de maio de 2012

Strawbery Fields Forever









"Living is easy with eyes closed,
Misunderstanding all you see.
It's getting hard to be someone,
But it all works out;
It doesn't matter much to me."



Era o "lado B" do mega sucesso de 1967, PennyLane.   Ali, os Beatles começavam a mudar a história do Rock, introduzindo arranjos especiais de orquestras ao fundo da canções, usando violinos e instrumentos sinfônicos, inaugurando um estilo que viria desaguar  nos rock progressivos como Pink Froyd. A canção  Strawberry Fields era inspirada num internato na cidade de Liverpool, vizinho do qual morou John Lennon durante parte de sua infância atormentada e pobre.  Observando a vida das crianças que lá moravam, Lennon chegou a conclusão de que aquilo não era nada do que ele esperava da sua própria vida.  As cenas que presenciou ficaram marcadas por toda a sua curta vida de astro do show business, que tão bem usou para quebrar paradigmas e divulgar a nova era, em atitudes e versos anti militaristas, como a declaração polêmica de que os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo (e eram mesmo), ou que "a felicidade é uma arma quente", durante a fase mais propagandista que empreendeu com sua mulher japonesa, Yoko Ono, desfraldando a bandeira máxima do movimento hippie "Faça Amor, Não Faça Guerra", enquanto com ela pousava em camas públicas e dava entrevistas bombásticas à TV americana, defendendo os Vietcongs, por exemplo, que venceram a guerra contra a maior potência militar do planeta, nem tanto por suas potencialidades bélicas, que eram muitas, mas, principalmente por conta da reação da opinião pública interna nos Estados Unidos. 

John Lennon foi um daqueles ídolos que já não se fazem mais. Inspirou uma quantidade sem fim de seguidores, inclusive no Brasil. Os roqueiros Rita Lee e os Mutantes, tropicalistas como Gilberto Gil e Caetano, gaúchos como Vitor Ramil, paranaenses-paraguaios como o Blindagem, mineiros como Milton Nascimento e todo o Clube da Esquina, além dos cearenses Fagner e Belquior, etc, e até mesmo parceiros ingleses que fariam um som diferente a partir dos anos setenta. Pronto! O Rock and Roll não era mais o ritmo negro inventado pelos escravos norte americanos ao longo do delta e da foz do Mississipi, nos anos pós guerra civil de 1860. Agora tínhamos um som universal. 

O ponto máximo da carreira de John Lennon, na minha opinião, foi a desesperada canção que fez em homenagem à própria mãe, com quem teve uma relação mais do que problemática.