terça-feira, 24 de julho de 2012

O FIM DE UM GRANDE AMOR - Run Run se fué para el norte

Antes de Violeta Parra, a produção musical visível chilena era representada principalmente pelo cantor e compositor Lucho Gatica, que cantava boleros e fazia grande sucesso popular em todo o mundo hispânico. Vivia no circuito Madrid-Mexico e raramente ia ao Chile. Suas letras falavam de amores perdidos e desilusões, numa linguagem antiga, envelhecida pelo tempo desde que esse ritmo foi desenvolvido em Cuba, lá pelos anos 1800, quando as moças colonizadoras espanholas bailavam com seus vestidos longos, com desenhos de grandes bolas coloridas, daí o nome da dança, bolero.







Violeta também falava de amores perdidos e desilusões, só que numa linguagem moderna, apropriada ao seu país, sem parecer uma "caribenha", como Gatica. Compunha em ritmo de "cueca", a música folclórica dos camponeses e índios chilenos, mesmo quando tratando de temas banais como o abandono. Contemporânea de Gabriela Mistral, era completamente diferente da poetisa chilena que ganhou o Prêmio Nobel.  Era rebelde e comunista de carteirinha, não tinha nada a ver com  a moça bem comportada e respeitosa dos valores familiares, tão à gosto dos conservadores cidadãos chilenos brancos de classe média. 

Os que acompanham a música folclórica sul americana, como eu, especialmente as canções de protesto político e comportamental, têm na chilena Violeta uma referência na luta contra a ditadura fascista de Pinochet, embora a maioria não saiba que ela morreu seis anos antes do golpe, por suicídio que cometeu em pleno teatro que mantinha junto com os filhos, anexo a um restaurante folclórico em Santiago, conhecido como La Peña de Los Parra, onde se apresentava regularmente, com grande sucesso de público e crítica. Os negócios iam bem, estava rica e na melhor fase artística.  Só não estava feliz. Vá se compreender as mulheres apaixonadas! Havia completado 50 anos de idade e tinha passado por três casamentos oficiais. Já tinha feito uma sólida carreira internacional, na poesia e no canto. Folclorista fundadora da música chilena, conquistou padrão de qualidade inigualável, gerando e educando talentos como Victor Jara, Quillapayum e Inti-Illimani, músicos que tornariam suas canções mundialmente famosas.

Estava apaixonada por um sujeito que ela chamava de Run Run... A questão é que ele tinha ido para o norte, ao deserto de Atacama e sua principal cidade, Antofagasta, dizendo-se em missão do partido. E ela se lamentando em Santiago, sem saber quando ele regressaria ... Que tristeza!  Ele nunca mais voltou.








En un carro de olvido,
antes del aclarar,
de una estación del tiempo
decidido a rodar,
Run Run se fue pa'l norte,
no sé cuándo vendrá;
vendrá para el cumpleaños
de nuestra soledad.
A los tres días carta
con letras de coral
me dice que su viaje
se alarga más y más,
se va de Antofagasta
sin dar una señal,
y cuenta una aventura
que paso a deletrear.
¡Ay, ay, ay, de mí!

Al medio de un gentío
que tuvo que afrontar,
un trasbordo por culpa
del último huracán,
en un puente quebrado
cerca de Vallenar,
con una cruz al hombro
Run Run debió cruzar.
Run Run siguió su viaje;
llegó a el Tamarugal.
Sentado en una piedra
se puso a divagar
"que sí", "que esto", "que lo otro",
"que nunca", "que además",
"que la vida es mentira",
"que la muerte es verdad".
¡Ay, ay, ay, de mí!

La cosa es que una alforja
se puso a trajinar,
sacó papel y tinta,
y un recuerdo quizás;
sin pena ni alegría,
sin gloria ni piedad,
sin rabia ni amargura,
sin hiel ni libertad,
vacía como el hueco
del mundo terrenal,
Run Run mandó su carta
por mandarla no más.
Run Run se fue pa'l norte,
yo me quedé en el sur;
al medio hay un abismo
sin música ni luz.
¡Ay, ay, ay, de mí!

El calendario afloja
por las ruedas del tren;
los números del año,
por el filo del riel.
Más vueltas dan los fierros,
más nubes en el mes,
más largos son los rieles,
más agrio es el después.
Run Run se fue pa'l norte,
¡qué le vamos a hacer!
Así es la vida entonces,
espinas de Israel;
amor crucificado,
coronas del desdén,
los clavos del martirio,
el vinagre y la hiel.
¡Ay, ay, ay, de mí! 
Em um vagão de esquecimento,
antes do amanhecer,
de uma estação do tempo
decidido a viajar,
Run Run foi para o norte,
Não sei quando voltará;
Voltará para o aniverrsário
de nossa solidão.
Aos tres dias uma carta
com letras de coral
me diz que sua viajem
se alonga mais e mais,
se vai de Antofagasta
sem dar qualquer notícia,
e conta uma aventura
que passo a soletrar,
Ai de mim!

Em meio a uma turba
Que teve que enfrentar,
Uma travessia por culpa
do último furacão,
Em uma ponte quebrada
Perto de Vallenar,
com uma cruz nos ombros
Run Run teve que cruzar.
Run Run seguiu sua viagem;
Chegou a (pampa de) Tamarugal.
Sentado em uma pedra
Se pôs a divagar
que sim, que isto e que aquilo,
que nunca, que portanto,
que a vida é mentira,
que a morte é verdade
Ai de mim!

A questão é que um alforje
começou a trotear,
 tirou papel e tinta,
E talvez uma recordação;
Sem sofrimento nem alegria,
Sem glória nem piedade,
Sem raiva nem amargura,
Sem aflição nem liberdade,
Vazia como um ôco
Fincado no meio da terra,
Run Run mandou sua carta
Apenas por mandar.
Run Run se foi para o norte,
Eu fiquei aqui no sul;
Entre nós há um abismo
Sem música nem luz.
Ai de mim!

O calendário perde importância
Conforme giram as rodas do trem;
O passar dos dias do ano,
Pelos fios de aço dos trilhos.
Mais voltas dão os ferros,
Mais nuvens no mês,
Mais longos são os trilhos,
Mais ácido fica o futuro.
Run Run se foi para o norte,
O que se vai fazer!
Então a vida é assim mesmo,
Espinhos de Israel;
Amor crucificado,
Coroas do desprezo,
Os pregos do martírio,
O vinagre e o fel.
Ai de mim!

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