quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

URNA ELETRÔNICA, que isso tem a ver com os telhados de Paris?



Em 1982 eu estava apurando de forma paralela as eleições para governador de Santa Catarina, a partir dos boletins de urna liberados pelo TRE-SC. Estava a serviço do PMDB e seu candidato ao governo do estado, que tentava tirar do poder a oligarquia Ramos-Bornhausen, apoiadores tradicionais da ditadura militar e detentores do poder no estado há uns cem anos, mais ou menos. Tínhamos montado um centro de processamento de dados na residência do presidente do PMDB, uma mansão na avenida Beira Mar em Florianópolis. 

Recebíamos cópia dos boletins de urnas do TRE, digitávamos os dados e computávamos o resultado, para orientação da direção do partido. Percebemos que havia uma quantidade muito grande de votos anulados. Por outro lado, vinham notícias de que no interior, as apurações eleitorais se davam em clima tenso, por que as mesas apuradoras atuavam em favor dos candidatos governamentais da ARENA, o partido da ditadura, agora transfigurado em PDS. 

Depois, em 1990, longos oito anos depois, fui convocado pelo TRE-SC para trabalhar na primeira experiência de automação da contagem oficial dos votos, a partir da digitação dos velhos boletins de urnas. Designado para o distante município de São Lourenço do Oeste, ao chegar, fui apresentado à juíza eleitoral, que me apresentou em seguida a um senhor muito simpático, a quem ela se referiu como "nosso candidato". 

--- "Como assim, "nosso candidato", excelência?"
--- "Errr, quero dizer, o candidato da cidade".

O candidato da cidade era do mesmo PDS da ditadura e perdeu a eleição para um farmacêutico filiado ao PMDB, naquele ano em que o povo brasileiro resolveu que os herdeiros da ditadura não tinham mais sua confiança. Está claro que, em seguida, todos migraram para partidos sociais democratas e se desvincularam da herança maldita da ditadura militar,  mas isso faz parte da nossa esperteza política, que não é percebida pelo eleitor comum, como demonstraram as nossas últimas eleições. 

Naquelas eleições manuais,  a Juíza exercia plenamente sua prerrogativa de anular votos, principalmente os que não eram destinados ao seu "candidato da cidade". Anulava principalmente os votos no candidato emergente do PT, um agricultor ligado ao movimento católico das comunidades. Ouvi um assessor da Juíza chegar no ouvido dela e dizer "doutora, os petistas estão irritados, temo pela segurança das apurações, a senhora está anulando muitos votos deles". A resposta dela, de modo totalmente autoritário, me impressionou deveras:  "Não tenho culpa se eles não sabem votar!"








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