terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Violência




Cinco anos atrás eu ia entrando no cartório do Rio Tavares, Floripa, quando um sujeito de capacete me apontou uma pistola. Achei engraçado, pois ele se parecia com o filho de um amigo meu. Quase dei um abraço naquele rapaz, dizendo "Tá bem, entendi a brincadeira, mas, como vai o velho?". Graças a alguma força superior, não completei a intenção, pois ele gritou "Não me olhe! Senta naquele sofá e cala a boca!".  Foi quando eu vi várias pessoas deitadas no chão e outras sentadas nos sofás da recepção. Outro sujeito revirava as mesas do cartório. Era um assalto à mão armada, cinco horas da tarde de uma sexta feira.

Dez anos atrás numa manhã de sábado eu saia da praia de Campeche, vizinha do tal Rio Tavares, e me dirigia ao meu veículo estacionado num lugar ermo, no meio de um gramado perto das dunas. No meio do curto caminho dois rapazes que eu supunha serem surfistas, que estavam na mesa ao meu lado no Bar do Chico, se chegaram como quem não quer nada e um deles me apontou uma arma: "Passa a chave do carro, rápido, rápido..." Espantado, tentei negociar: "Aqui está, mas, deixa pelo menos eu pegar minha sacola, que contém roupas e dinheiro!!!". "--- Cale a boca, não me olha e só me dá a chave". Não me sobrou alternativa senão vê-los sair em disparada com meu carro, enquanto eu ficava semi nu no meio da rua. Precisei voltar e pedir ao velho Chico um empréstimo emergencial para pegar um táxi.    

Se a violência pura e simples já chegou no interior da Ilha de Santa Catarina, um local considerado até outro dia um paraíso para se viver com tranquilidade e segurança, imagine a situação em metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo.  

Algum tempo atrás eu estava trabalhando em Furnas, estatal federal de energia elétrica localizada em Botafogo, Rio de Janeiro. No final de semana planejava uma visita a um subúrbio distante, Pavuna, ponto final da linha do metrô. Meus colegas ficaram apavorados: "Você está louco? Não faça isso, pois, é provável que não saia vivo de lá".  Quarenta e poucos anos atrás, eu subia os morros e favelas do Rio de Janeiro, vez em quando frequentava ensaios de samba na Império da Tijuca, no Salgueiro, nos subúrbios e outros lugares, sem qualquer problema. Éramos muito bem recebidos nestes lugares e meus amigos só se envolviam em confusão quando estavam paquerando alguma morena, cujo eventual namorado ficasse enciumado. 


Normalmente os assaltos contra cidadãos e pequenos estabelecimentos, assim como os sequestros relâmpagos,  são práticas usadas principalmente para a compra de drogas. Esta é a grande novidade do mercado, a dependência química que leva os indivíduos a perderem a noção de valor da vida humana, inclusive a dos próprios assaltantes, que se arriscam cada vez mais diante da reação da população e das polícias. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em média DUAS MIL pessoas são mortas por ano no Brasil em confronto com a polícia. Por seu turno, 300 policiais perdem a vida no mesmo período. 




Interessante notar que em comparação com os Estados Unidos, país considerado ultra violento, a polícia brasileira mata QUATRO vezes mais, por grupos de 100 mil habitantes. Em todo o Reino Unido, a polícia matou 15 cidadãos em confronto durante todo o ano de 2012, ou seja, a polícia brasileira matou 100 pessoas por grupo de um milhão, enquanto o Reino Unido matou 4,3 pessoas na mesma base, quase 25 vezes menos. Deixando de lado a guerra restrita a policiais e bandidos, os números da sociedade civil não são menos preocupantes: 50 mil homicídios por ano no país, tres vezes mais do que há 30 anos.

Ainda assim, a elite e os governos brasileiros não se dão conta (ou não querem ver) da gravidade social representada pela violência. Talvez por que a imensa maioria desses crimes e mortes em confronto sejam entre pessoas das classes subalternas, pobres, negros e excluídos sociais. 

Mas, deveriam! O custo da violência no Brasil oscila entre 6% a 10% do PIB, a depender de variadas fontes. Se a isso agregarmos a corrupção endêmica, a qual, segundo a FIESP gira em torno de 2% do PIB, podemos estar jogando no lixo algo como US$ 250 bilhões (de dólares!, de dólares!) por ano, maior que os PIBs de nossos vizinhos Uruguai, Paraguai e Bolívia e, certamente, maior que o produto interno bruto da maioria dos países do planeta Terra. É assustador !




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