quinta-feira, 30 de abril de 2015

Festival Internacional de Corais Tres Fronteiras



Jardel e Rosângela frente ao imponderável e místico fenômeno da natureza


Conheci as Tres Fronteiras quando eu e as cidades fronteiriças ainda éramos jovens, eu com 24 anos de idade, as cidades variando de acordo com as respectivas histórias regionais. Foz era a mais antiga, certamente, tendo servido como ponto de parada à Coluna Prestes, lá por 1925. Era então apenas um amontoado de casas rurais, onde, segundo depoimento do próprio Luis Carlos Prestes, os homens cultivavam a terra fértil com suas próprias mãos, pois sequer enxadas tinham como ferramental agrícola. Estas cidades eram frentes avançadas de um mundo em formação!  Das tres, Puerto Iguaçu, Presidente Stroessner e Foz do Iguaçu, esta última era a mais organizada, digamos assim, com suas ruas empoeiradas de barro vermelho. 

O lado paraguaio era uma desolação completa, a começar pelo nome, depois oportunamente substituído para Ciudad del Este, uma forma de esquecer definitivamente o nome do ditador que tanto terror causou aos paraguaios.  Por falar nisso, a família dele vive confortavelmente em Brasília, usufruindo do dinheiro que roubou ao longo de quarenta anos de ditadura militar no seu país original.  No lado sul da Ponte da Amizade, ficava uma vila de moradores locais, cujos filhos foram sendo convocados a trabalhar nas lojas de mercadorias importadas que abasteciam principalmente brasileiros na vila vizinha, fronteiriça à própria ponte, onde aprendiam a falar português e inglês, e apesar disso,  nunca perderam a identidade com a língua guarani de seus ancestrais, para vermos como isso era e ainda é forte na formação cultural do Paraguai. Os velhos pais e tios eram gente simples, muitos dos quais sequer falavam o idioma espanhol. Viviam basicamente da agricultura e pesca nos imensos rios Paraná e Iguaçu, assim como nos seus "pequenos" afluentes, como o belo Monday paraguaio, que deságua ao lado norte da imensa ponte.

Do lado argentino, Puerto Iguazu era um aglomerado comercial no meio da exuberante mata, separada do Brasil por um serviço de pequenos barcos para transportar as pessoas,  e barcaças para transportar os poucos automóveis e caminhões que se aventuravam por aqueles caminhos, uma vez que depois da fronteira, em direção à Posadas, capital da província de Misiones, as estradas de barro paralisavam o transporte de mercadorias nas temporadas chuvosas, que duravam até 15 ou 20 dias sem parar.  

Em termos de música regional, certamente a paraguaia é fundamental. A Polca foi trazia ao país pela esposa francesa do ditador Solano Lopes, uma mulher culta que se encantou com o povo paraguaio. 

Hoje as cidades estão muito diferentes. No lado argentino percebe-se que foi o mais bem conservado, com as matas maravilhosas enfeitando a cidade e o parque das cataratas. Em compensação, para se ter a visão privilegiada paga-se sete vezes mais que do lado brasileiro. Além disso, eu sinto uma certa raiva e despeito dos argentinos pelos brasileiros, cujas razões não sei explicitar. No lado paraguaio, vi um mutirão de obras impressionante, embelezando a cidade que outrora era a mais tacanha e mal servida da fronteira. Apesar da decadência comercial, percebida pela queda nas vendas de produtos importados, principalmente eletrônicos, creio que Ciudad del Este está se tornando uma bela experiência de urbanização. 


Porém, Foz do Iguassu, do lado brasileiro, é um esplendor ! 

Que cidade especialíssima, dotada de belas e largas avenidas, parques majestosos, templos religiosos grandiosos e bem pouco comuns nas cidades brasileiras, como o Budista e o Islâmico, produto certamente dos asiáticos e árabes que vieram para cá ganhar dinheiro, mas, não esqueceram de suas fés religiosas. Nada se parece com aquela pequena tragédia de 1975!  Uma boa explicação para o desenvolvimento de Foz e Ciudad del Este são os royalties pagos pela usina de Itaipú, a maior produtora de energia elétrica do mundo, fora a China. 


Pois foi neste cenário que nós, manèzinhos da Ilha de Santa Catarina viemos nos apresentar no   Festival de Corais, com o abusado nome "Vozes de Santa Catarina". Havia outras vozes de Santa Catarina, onde se destacou o coral da Unisul, de Tubarão. Também se destacaram os corais universitários de Asunsión, Paraguay, além de outros brasileiros muito bem alinhavados com as melhores técnicas cênicas e musicais. 

Nossa performance também não foi de se jogar fora e a modéstia me impede de dizer que fomos um sucesso absoluto.



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Quando o espanhol Cabeça de Vaca chegou aqui lá por 1540, depois de naufragar sua caravela entre o sul da Ilha de Santa Catarina e Garopaba, tendo decidido com a tropa trocar o destino da viagem, mudando o objetivo para encontrar o Eldorado, jamais poderia imaginar que quase 500 anos depois nós estaríamos cantando "Eres Tu" num auditório brasileiro dentro da Argentina.

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