terça-feira, 21 de agosto de 2012

El dia en que me quieras

Leminski era de pouca prosa. As que escreveu ficaram todas na sua obra máxima, CATATAU, cuja última edição traz a seguinte apresentação:  "O Catatau (1975) de Paulo Leminski é umas das obras-primas da literatura brasileira de invenção do século 20. Escrito durante quase uma década, esse “romance-ideia”, como o denominou o autor, é um monólogo onírico de René Descartes em visita a Pernambuco no período holandês. Diante do absurdo da natureza dos trópicos e dos costumes dos indígenas, o filósofo vê sua razão naufragar: “Duvido se existo, quem sou eu, se esse tamanduá existe?”, pergunta. Num texto lúdico, parodiando as narrativas dos viajantes e empregando recursos do Concretismo e do Tropicalismo, Leminski cria uma fábula inovadora e radical, firmando-se como um dos grandes explicadores do Brasil". 

Nos poucos contos que escreveu, percebe-se nítidamente a influência de Dalton Trevisan, o maior contista brasileiro vivo. Pois, o Paraná ignora ambos. É uma pena que todo artista paranaense, para vencer na vida, tenha que ir parar em São Paulo. 

Certa vez, entrei numa livraria da Praça Osório, ao lado do Bar Stuart, ambos centenários. Percorri as prateleiras, em busca de uma seção de autores paranaenses. Não tinha. Então, dirigi-me à mocinha que atendia os clientes: "Você tem alguma coisa do Dalton Trevisan?"

--- Quem?
--- Dalton Trevisan, o "vampiro de curitiba".
--- Credooo, moçoooo, Curitiba não tem nenhum vampiroooo.   







from Paulo Leminski,  In “Gozo fabuloso”

"Entre os Krause e os Gouveia, as diferenças começaram quando o mais jovem dos Krause (ou foi dos Gouveia?) comprou um aparelho de som.
Desse dia em diante, os Gouveia (ou eram os Krause?) não souberam mais o que era sossego.
Nessa época,  minha avó contava, Curitiba já era famosa pela escuridão das suas noites e produzia o melhor silêncio do Brasil. Um pai de família passava anos sem dizer coisa alguma, e ninguém estranhava. Havia professores, muitos deles célebres, que davam, em silêncio, aulas de francês, de latim, de alemão, de polonês, de italiano, de hebraico, de árabe. E, em silêncio, educaram gerações.
Não era de admirar que o aparelho de som comprado pelo jovem Gouveia (ou era Krause?) fosse execrado como uma praga que se abatia sobre aquela rua Duque de Caxias, até então tranqüila como um assobio de passarinho distraído.
- Quando a cidade era mais calma.
- O bairro não é mais de respeito.
- Caso de policia.
Por cima da cerca, fazendo sabão de potassa, Krauses, Gouveias e vizinhas.
Quando o luxuriante chuchuzeiro dos Krause (ou era o dos Gouveia?) começou a secar, alguém, por acaso, associou o evento com as valsas e tangos que explodiram na casa vizinha. Um mês depois de muito som, o chuchuzeiro estava completamente seco.
Uma semana depois, morria a bisavó dos Gouveia (ou não?), uma senhora quase centenária, dura como couro e surda como uma porta. Seria um absurdo imaginar que a velha tinha morrido por causa do som. E foi o que eles fizeram.
A gravidade da situação exigia uma medida enérgica.
Os Krause (ou os Gouveia?) se reuniram em assembléia familiar, só os machos de mais de quinze anos.
- Isto não pode continuar.
- Procurar as autoridades.
- Invadir e quebrar tudo.
- Poupar as mulheres e crianças.
- Incendiar o casarão.
A mais velha voz:
- Nossa família passou despercebida da penúria para a abundância e agora vocês querem estragar tudo com um escândalo que vai se ouvir léguas daqui, e vai durar mil anos?
Olhou a descendência, e sentenciou:
- Vamos combater com as mesmas armas.
Foi assim que o jovem Krause (quem sabe Gouveia) pegou o trem e desceu a serra em direção a Paranaguá, para comprar um aparelho de som.


2
Mas nem todos os Gouveia (ou eram os Krause?) detestavam o som do vizinho com ódio tão implacável.
A filha mais velha dos Krause, por exemplo, costumava ficar olhando a lua, quando o som começava. Mesmo que não tivesse lua. A mãe percebeu logo.
- Nem pensar.
Mas ela pensava. Como é que seria uma pessoa que ouvia aquelas coisas, àquelas horas, naquela altura? Como é que ele seria?
Talvez fosse baixinho, e por isso ouvia o som tão alto, um baixinho bonitinho, como um filho querido. Quem sabe fosse alto, por isso deixava o som naquela altura. Só sei que não podia ser uma pessoa comum aquele que ouvia 
el dia en que me quieras
como se fosse o dono da rua, o rei da vida e senhor do mundo.
- Essa gente não tem educação.
Como seria? Louro, alto, baixo, moreno, esbelto, gordinho, forte, frágil?
- Espere só o seu irmão voltar.


3
Em Paranaguá, o irmão mais velho ia na importadora, comprava a máquina e embarcava serra acima, de volta para Curitiba.
- Eles estão com os dias contados.
- Dizem que é agulha inglesa, o som cobre uma quadra.
- Isso não pode continuar
- Como é que ele será?
- Isso não pode continuar.
- El dia en que me quieras.
- A gente não devia ter vindo.
- Bem que a avó avisou.
- Combater com as mesmas armas.
- Uma loucura a gente se encontrar assim.
- No trem das sete.
- Alguém pode ver a gente."







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