sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Disparada e Poeira Vermelha





Ontem de tarde tive a enorme satisfação de encontrar o engenheiro Rocha. Ele foi meu colega de trabalho e juntos estivemos em vários comitês de planejamento estratégico, além de atuarmos como treinadores em projetos de controle da qualidade do serviço na Eletrosul. Ele estava saindo de uma ala do prédio onde funcionam  várias empresas encarregadas da construção de linhas de transmissão de energia elétrica. São parcerias público-privadas, em cujo mérito não há necessidade de entrar neste momento. No entanto, o pessoal que trabalha nessas empresas são aposentados da própria Eletrosul, a imensa maioria ligada politicamente com a direção. São pessoas que militaram em greves audaciosas no passado, algumas até em greves de fome. Eles têm todo o direito de continuarem trabalhando, em busca de uma segunda ou terceira remuneração. Só não aceito que o façam à custo de suas militâncias partidárias, tirando a oportunidade de tanta gente que anseia por um emprego... É a velha prática política do "é dando que se recebe".  Preocupado justamente com isso, eu pergunto ao meu amigo Rocha: 

--- Você está trabalhando nas empresas de construção de linhas?
--- Não, amigo. Quando me aposentei, eu prometi nunca tirar uma vaga de alguém.
--- Parabéns! Esta postura ética não se encontra à venda no super mercado. 


Eu também acho que, assim como eu, não é proibido ao aposentado continuar em atividade, desde que corra os riscos de empreender, sem as garantias de um emprego público. Infelizmente não é essa a mentalidade dos oportunistas, que sempre querem levar vantagem em tudo. Essas questões me remetem à minha própria história profissional. Fui demitido da companhia de informática do estado do Paraná,  por que liderei o movimento para fundar um sindicato da categoria, na década de setenta. Hoje o sindicato está nas mãos da esquerda mais ortodoxa e nossos antigos companheiros de luta ocupam cargos de confiança em grandes empresas públicas, como o SERPRO federal e as estaduais dos governos petistas. 

Eu poderia ter chegado bem mais longe, naquilo que se convenciona chamar de "carreira". Mas, não consegui me adaptar aos inúmeros regimes administrativos pelos quais passei. Nunca fui gerente, por exemplo, que é o cargo mais rentável nas estruturas organizacionais. Sempre que estava na liderança de algum grupo de trabalho, primeiro estágio da carreira gerencial, era dispensado por alguma incompatibilidade com os superiores. Certa vez, um grande amigo pessoal estava na gerência do departamento de informática da Eletrosul, quando sobreveio o governo Collor, querendo acabar com as estatais. Nosso sindicato lutava contra isso, orientado que era pelo PT da época. Eles aproveitavam o intervalo do café, 15 minutos, para fazer manifestações políticas na porta da empresa. Numa reunião gerencial, o meu amigo coloca a necessidade de alterar o sistema de frequência, para não mais considerar o intervalo de 15 minutos, de modo a impedir a presença dos empregados em tais manifestações. 

--- Certamente você disse ao presidente que isso não seria possível.
--- Não, Laércio, não disse. Até por que ele poderia contra argumentar "quem dá as ordens aqui sou eu".
--- Neste caso, você deveria entregar-lhe imediatamente o cargo de gerente, ora bolas.  Uma intromissão política deplorável em nossa equipe técnica não poderia ser admitida. Além do mais, é ilegal. O intervalo para café está na CLT. 
--- Chega de provocação Laércio, eu entrego o cargo a você, agora e diante desses seus colegas. 

Colocaram outro coordenador no meu lugar, claro, e a alteração foi feita no sistema. Acabaram-se as manifestações instantâneas anti-Collor. Depois, este mesmo gerente vestiu a camiseta preta dos "cara pintadas" à favor do impeachment de Collor de Mello. Isso sim, é uma atitude politicamente conveniente. Não a minha, de negar tudo que seja autoritário. Por isso, minha aposentadoria não é das melhores. No entanto, é suficiente para viver.   Quando viajo, vou de mochileiro. Não pago táxi nem fico em hotéis caros. Namoro com também mochileiras, que, além de mais alegres e divertidas, são mais amorosas e não ficam andando por shopping centers, hábito que detesto. O essencial da vida é estar bem consigo mesmo, sem fazer juízo de valores morais, porém, atentos para não quebrar as próprias crenças. Nisso consiste a felicidade. Destruir o ego e as ambições. Pena que só fui entender isso agora, na velhice. Se tivesse sabido antes, teria sido mais feliz e convivido melhor com minhas atitudes "radicais".






   

4 comentários:

  1. É por estas e outras q concordo com vc, parabens e penso da mesma maneira q vc....e me irrita auqela cambada agarrada nas tetas e ainda vem com um discurso sem o menor escrúpulo...

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  2. Lalá,
    Gostaria de fazer umas considerações sobre o texto:
    1. Em primeiro e destacadíssimno lugar, quero saudar a conclusão do texto, é sabedoria pura, eu também gostaria muito de ter chegado a esta conclusão muito antes. Toda a vida teria sido muito mais descomplicada, com menos certezas e mais leveza, muito mais feliz. Inclusive, com abertura para quebrar as próprias crenças, porque não? Defender firmemente um ponto de vista até olhar por outra perspectiva e ser convencido de que há outras verdades. E, por coerência, mudar de opinião. Sem pragmatismos ou oportunismos, apenas sendo coerente consigo mesmo e com aquilo que acredita a cada momento.

    2. Me permitas um reparo.
    Quando fizemos a luta contra as privatizações - Collor e FHC - nós não éramos “orientados pelo PT”, como disseste. Nós éramos o próprio PT. O Diretório Nacional do PT, à época, não percebia o que estava se passando. Estavam mais preocupados com as lutas internas. Eu, ‘pessoalmente em pessoa’, fui diversas vezes convidado para reuniões no Diretório Nacional, e tive reuniões fechadas com José Dirceu, presidente do PT na ocasião, ou com o Secretário de Assuntos Institucionais, que não lembro quem era, para “debater a conjuntura”, explicar o impacto das privatizações e traçar uma estratégia do partido para enfrentar este debate na sociedade.

    Nosso Sindicato, na época, foi um dos expoentes da luta contra as privatizações. Tenho orgulho de ter sido um dos protagonistas dessa luta.

    3. Outro reparo.
    Com relação aos aposentados que voltam a trabalhar, podemos olhar a questão por dois pontos de vista. Um seria o que expressaste, ou seja, que os aposentados estariam, por meios não muito elogiáveis, “tirando a chance de tanta gente que sonha com uma oportunidade no setor elétrico”.
    Por outro lado, também podemos olhar pelo ponto de vista do que ocorre hoje no mundo do trabalho no Brasil: há falta de profissionais qualificados para exercer muitas atividades, em todas as áreas.

    Um dos efeitos desastrosos do obscurantismo neoliberal foi acabar com as carreiras de engenharia e com as áreas de desenvolvimento de projetos no Brasil. Desprezaram a inteligência nacional e passaram a importar inteligência na forma de projetos acabados. Atrofiaram a engenharia nacional. Abriu-se uma lacuna muito grande.

    Ontem, conversei com uma professora da Engenharia da Universidade do Acre. Ela disse que, durante alguns anos, sobravam vagas no curso por falta de procura de interessados. Inclusive, deu-se um fenômeno, alguns graduados de outros cursos, inscreveram-se na engenharia para aproveitar aas vagas que sobravam. Somente a partir de 2011 a tendência se inverteu. Hoje existe mais procura do que vagas.

    Falta gente com experiência prática. Falta gente com vivência de campo. Temos muita gente que “sonha com uma oportunidade no setor elétrico”, mas que só tem cursos no currículo. Tem MBA, tem mestrado, tem doutorado, cursos disso e daquilo. Nada de experiência prática, muito pouco de campo, muito pouco de “mão na massa”. E tu sabes bem a diferença entre um grande currículo cheio de títulos e uma boa experiência prática aliada à teoria. Assim, a realidade é que grande parte dos aposentados está de volta à ativa porque detém experiência e conhecimentos que não se encontram no “mercado”.

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  3. Mo entanto, acho que preciso te ar duma resposta meu camarada. Em primeiro lugar, vai meu pedido de desculpas, por expor de forma pública um sentimento privado, recorrente do sentimento de agonia e raiva, costumeiramente contra o estado geral das coisas. Isso acontece de forma repetitiva em minhas metafísicas lutas com a realidade, estampadas ao looongo da vida, e não deveria ser exposta sem a necessária auto crítica e relativização das condições humanas a que todos estamos sujeitos. Foi lastimável. Desculpe!

    Depois que li o depoimento do Jorge Oro, senti-me um cavalo mal educado.

    No entanto, Delman, usas o mesmo argumento utilizado pela ditadura militar, para justificar os que ocupavam cargos nas estatais, quando sabíamos todos que o real motivo era suas militâncias na ARENA, o aglomerado político a que chamavam de partido, aliás, o "maior do ocidente", segundo falou um de seus presidentes, o então "exportador (ilegal) de jóias preciosas", Abi Hackel, hoje aliado dos petistas.

    O resumo da ópera é o sempre o mesmo. "O mundo gira e a Lusitana roda". "Lusitana" era o nome de uma famosa empresa de mudanças, no Rio de Janeiro, durante o tempo que aí servi num quartel da Tijuca, onde eram torturados os prisioneiros e suspeitos políticos. Bastava uma simples denúncia, e já iam os pelotões para militares do DOI-CODI a prenderem os denunciados e "esticar os cordões da verdade", que era o codinome para o processo de "apuração das denúncias", que começava já com o famoso pau de arara com fio desencapado enfiado no rabo ou na vagina, só para começar e mostrar ao torturado que ele não era nada ali. Todos que sabiam alguma coisa ou segredo a entregavam logo, com raras exceções, cujos heróis fatalmente morriam na tortura e eram dados como desaparecidos ou mortos em combate.

    A estratégia de estado para manipulação das verdades e das nomeações só mudaram de mérito, amigo, mas não estão distantes uma das outras. Os heróis da vanguarda do proletariado pensam da mesma forma que os anti comunistas milicos. "Vale tudo, quando os fins justificam os meios". Esta é a verdadeira justificativa para a nomeação dos compadres.

    A mudança que precisamos seria de outra monta, Delman, e estou cada vez mais convencido que ela só será feita de dentro para fora. Tipo o pensamento do Jorge Oro, este sábio adolescente que parece um velho mestre do crescimento pessoal em direção à Luz e à Pax.

    Laercio

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