quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O Contestado, restos mortais





O último filme de Silvio Bach,  "O Contestado, restos mortais" está pronto há mais de dois anos, mas, nunca chegou à rede comercial. Não é do interesse dos que mandam no país e na sua cultura. Silvio é um catarinense de Blumenau, embora tenha estudado e iniciado carreira em Curitiba. Seus filmes costumam chocar, pela ousadia das cenas ou pelo conteúdo absolutamente instigante. Há mais ou menos uns 40 anos, seu primeiro filme já tratava da questão do Contestado, "A guerra dos pelados". Ali, ele desmistificava a versão oficial de que a guerra era apenas por divisão de terras entre PR e SC. Ele deixava claro que a guerra era de fazendeiros contra posseiros, em terras devolutas do estado, num cenário em que a companhia que construía a estrada de ferro PR-RS obteve do governo federal a cessão de alguns kilômetros de terras ao largo da ferrovia, para ambos os lados. Por causa disso, a estrada talvez seja a que mais dá voltas no mundo, kkk. E mais, ele mostrava aviões do exército bombardeando os acampamentos caboclos, na primeira vez que o invento de Santos Dumont foi utilizado como arma de guerra, o que teria levado o ilustre inventor mineiro ao suicídio, versão historicamente não confirmada. 




A guerra propriamente dita, com os combates, emboscadas, incêndios de serrarias e massacres de caboclos nativos, ocorreu no período entre 1912-1916, que coincide com o início da exploração de madeira pela companhia norte americana Lumber, supostamente uma especialista em colonização, subsidiária da detentora da concessão das terras do planalto catarinense, por onde passava a ferrovia. Essa Lumber não estava interessada em colonizar nada, mas, apenas e tão somente na exportação dos pinheiros centenários, que cortava e preparava em suas serrarias, todas equipadas com tecnologia de ponta para a época, operadas por especialistas norte americanos. Estima-se que neste período se tenha exportado cerca de 10 milhões de pinheiros adultos por ano (BISHOP, S. - Relatório da Southern Brazil Lumber and Colonization Company. 1917a (Abril). Arquivo Público do Estado de Santa Catarina.).



10 milhões/ano de araucárias foram exportados durante a construção da ferrovia PR-RS 

Nessa guerra suja, estava diretamente envolvido o governador de SC, um fazendeiro do planalto, que tinha interesses pessoais nas artimanhas guerreiras. Era o patriarca da família Ramos, detentor de várias homenagens e estátuas espalhadas pelo estado, cujos descendentes,  junto com os Bornhausen, dominam o estado há mais de cem anos. Agora mesmo, têm dois dos principais candidatos a prefeito de Florianópolis. Todos muito felizes e fiéis na base política de Dona Dilma e seus comparsas, comandados por Lulla, que articulou e patrocinou as alianças espúrias que nos comandam desde séculos. Os espíritos dos caboclos do Contestado, que ainda não tenham reencarnado, esperam ansiosamente por essa nova oportunidade, para darem um jeito nessa pouca vergonha... 






Entre outras polêmicas catarinenses, ele abordou a repressão da sociedade brasileira aos germânicos durante a segunda guerra mundial (Aleluia, Gretchen), e uma homenagem ao poeta Cruz e Souza (O Poeta do Desterro), vista a partir do racismo local, disfarçado na virtual aceitação do negro parnasiano dentro do meio artístico e jornalístico da época (1880). Estes filmes chocaram profundamente as autoridades e o público dito bem educado. Fui na estréia de "O Poeta do Desterro", no CIC, em Florianópolis. A sessão começou com festa e discurso, na presença do governador, prefeito, deputados, senadores, industriais, etc, só faltou mesmo o arcebispo. Também, pudera !, o negro descendente de escravos, adotado por um coronel branco, é considerado vagamente herói local e dá nome a um dos palácios mais bonitos do Brasil, embora não seja ensinado nas escolas e quase ninguém lhe conheça a complexa obra, fora dos círculos intelectuais literários. 

Começada a exibição vieram as cenas chocantes, especialmente a morte do herói, escarrando sangue de tuberculoso no vagão de carga de um trem suburbano no Rio de Janeiro. Foram todos se retirando sutilmente e, quando as luzes se acenderam, o auditório estava pela metade. Então, Back levantou-se para fazer as considerações finais sobre a obra. Já ninguém o acompanhava na primeira fila. Entre irônico e constrangido, disse que aquilo não era surpresa e nem era a primeira vez que acontecia, por que, quando ele fazia sucesso, nós o reconhecíamos como "catarinense", porém, quando chocava nossas consciências pequeno burguesas, ele virava "cineasta paranaense".   




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