sábado, 9 de fevereiro de 2013

A língua dos anjos



Derrama o Teu Espírito aqui.
Acende o fogo outra vez

Quando tinha lá meus dezesseis anos de idade, minha mãe queria que eu entrasse para a banda de metais que animava os cultos na sua igreja, o templo da Congregação Cristã no centro de Maringá (PR). Mas, eu só queria estar no meio dos roqueiros, principalmente para transar com as meninas que andavam atrás deles. Logo fui parar num quartel bem longe e em seguida ingressei na dura vida de adulto. Perdi as duas coisas.  De fato, na conta Perdas Intangíveis do balanço existencial de minha adolescência, consta com destaque não ter aprendido a tocar numa banda gospel, assim como não tive as menininhas que sonhava.

Passadas quatro décadas e meia, a vida me deu a sorte de cantar num espetáculo de músicas spirituals, os hinos cristãos dos negros norte americanos. Em outubro do ano passado nós transformamos o Teatro Álvaro de Carvalho, no centro histórico de Florianópolis,  num grande templo evangélico e cantamos ao som de uma banda de metais. Eu mal podia conter o choro, para não fazer feio junto a meus companheiros do Coro Lírico Catarinense.



A seita onde minha mãe professava sua religiosidade, depois de ter perdido a fé no catolicismo,   está considerada dentro do grupo de igrejas pentecostais. Este movimento místico foi uma dissidência tanto do lado dos reformistas, como luteranos e calvinistas, e ao mesmo tempo anglicano, rompendo com a igreja Batista. A partir do ano 1900, um pastor norte americano começou a pregar diferente do usual dos demais pastores batistas. Ele considerava que o culto religioso não era apenas ouvir lições da bíblia, que muitos consideravam chatas e sonolentas, nem rezar de forma convencional. Ele propunha algo mais alegre, mais vivo e mais vibrante. Em sua pregação, o Pastor Charles Parhan, do estado de Kansas, dizia coisas como: "Gente, vocês aprenderam errado a Palavra de Deus!  Vocês são uma geladeira!  Agora vocês vão dar ouvidos aos sentimentos que fluem de vossos corações!  Esqueçam o que os fundamentalistas ensinaram por mil anos, está tudo errado!".  E  passou a incluir nos atos religiosos um espaço para que os crentes pudessem expressar seus sentimentos de adoração. 

Nos cultos pentecostais, é comum a igreja entrar em transe coletivo. Todos rezam ao mesmo tempo, em alto brado, cada qual fazendo sua oração pessoal, o que gera dentro do templo um barulho ensurdecedor e catártico. Alguns crentes entram em estado de semi alucinação, proferindo cantos e frases sem sentido algum, que julgam terem sido canalizadas pelo espírito santo. Seria a língua dos anjos, a mesma que pairou sobre os apóstolos no dia de Pentescostes, como descrito no novo testamento da Bíblia, daí o nome do movimento. 

No Brasil, o movimento pentecostal desembarcou em 1904, trazido por dois pastores suecos. Surpreendentemente a igreja Assembléia de Deus, uma das principais entre as pentecostais, iniciou sua propagação por Belém do Pará, uma das capitais brasileiras sob maior influência dos cultos afro, indígenas e católicos. Além de apresentar uma paisagem humana única, sensual e erótica,  própria do forno tropical que é a floresta ao redor, em meio a um mar de águas doces.  Junto com estes pregadores suecos, veio o mega sucesso gospel de sua igreja.


5 comentários:

  1. Para quem a vida religiosa já caminhou por lá é indescritível o que os cânticos continuam a provocar pela vida afora. Então, sua mãe era da Congregação. Que coisa incrível, a minha também.

    Suely Riskaia (Itajaí - SC)

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    1. Concordo contigo, Suely. As experiências religiosas que vivemos na infância e adolescência, mesmo quando renegadas, continuam a provocar arrepios até quando já entramos na terceira idade. Quando fui ao norte da Europa, percebi o quanto o povo em geral se afastou do Luteranismo, que é predominante lá. No entanto, minha irmã da Dinamarca contou-me que, diante de qualquer crise ou doença grave, a primeira coisa que eles fazem é procurar o pastor.

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  2. Eu parei para refletir sobre o hino. Sei cantar de cor. Aprendi nas missas católicas carismáticas.

    Maria

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    1. Parece estranho que um hino evangélico seja cantado em missas católicas. Mas, no caso dos carismáticos, eles foram justamente uma tentativa de parte da igreja, de confrontar o crescimento fantástico dos pentecostais. Como as missas eram muito chatas, uma parte dos padres começou a colocar músicas e a usar as técnicas dos pentecostais. Não me consta que tenham chegado a canalizar anjos, rs rs rs.

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  3. Penso que se padres e pastores deixassem as almas cantar, as missas e cultos seriam mais interessantes. Quando eu frequentava os cultos protestantes entediava pela falta de cantos com vibração. Depois fui para católica onde só gostava dos cantos....rsrsr. Quão grande és tu também cantei na católica.
    Vera

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