sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Apenas mais uma canção hippie





Em 1965 um poeta hippie estava preso na cidade de New Orleans, por consumir maconha na via pública. Era branco. Ali na prisão, conheceu um homem negro que dançava como um bailarino. Diz ele que o homem era um ser iluminado, que não se importava de estar preso, ao contrário, fazia de sua cela um palco para dançar e brilhar. Este homem se auto intitulava "Senhor Bojangles", em homenagem a um artista do passado, igualmente negro, que havia trabalhado em circos e teatros da região sul, até que finalmente obteve alguns papéis no cinema norte americano, lá pela década de 1930, fazendo algum sucesso. O hippie se chamava Jerry Jeff Walker e se inspirou no "Senhor Bojangles" para escrever esta canção, que foi um imenso sucesso mundial, menos no Brasil da ditadura, evidentemente.

Nos anos sessenta, os Estados Unidos ainda viviam sua fase extremamente racista e um negro poderia ser preso por qualquer motivo, até por sorrir e dançar na rua, mesmo numa cidade negra. 

New Orleans se parece com Salvador, a maior cidade negra fora da África. Em Salvador, assim como em New Orleans, 90% da população é negra, mas o poder sempre esteve nas mãos de brancos.  Pode ser que o velho e negro Bojangles tenha sido um caso de racismo. Brancos carrancudos e cristãos não gostam de alegria. Ainda assim, a importância da cultura negra para a grande nação norte americana nunca será devidamente recompensada pelas atuais políticas de proteção social. Parece que algum ódio sempre restará nas mentes de ambos os lados, tanto dos negros quanto dos brancos. Não se pode dizer que os negros não são Americanos, como eles costumam fazer com outras etnias importadas, dos quais os latino americanos são o mais triste exemplo. Negros vieram para os Estados Unidos contra a vontade, embarcados em navios de escravos. Foram o sustentáculo da produção agrícola nas férteis terras do sul. Em nome deles se fez uma guerra fratricida que durou 5 anos, entre os estados atrasados e rurais do sul e o governo da União, que havia planejado construir um estado nacional industrial, e porisso mesmo,  não queria a economia baseada na mão de obra escrava. Ao contrário, precisava gerar mercado interno para consumir os produtos que seriam industrializados. Hoje, quarenta milhões de negros formam um fantástico mercado interno. Inclusive para canções negras, como esta Mister Bojangles.







Eu conheci um homem chamado Bojangles,
ele dançava com velhos sapatos,
cabelo prateado, uma camiseta rasgada,
folgadas calças,
velho sapato macio,
ele saltava muito alto,
depois tocava suavemente o chão.

Eu o conheci na prisão em Nova Orleães.
Eu estava triste e deprimido.
Ele me olhou com seus olhos de velho,
enquanto falava direto,  sem rodeios.
Ele falou da vida,
vez em quando ria e fazia uma dança.
Mister Bojangles, dance! 

Ele disse seu nome, "Mister Bojangles",
e dançava velozmente pela cela,
saltando e batendo os calcanhares.
Ajeitava as calças e pulava mais alto.
Apertava o cinto para maior conforto
e ria como uma criança,
suas roupas folgadas sacudiam no ar.

Ele conta que dançou para andarilhos
e que se apresentava em feiras rurais
por todo o sul dos Estados Unidos.
Ele falou com lágrimas de adolescente 
como ele e seu cão viajaram por essas estradas.  
Ele viu o cão crescer e morrer
e mesmo depois de 20 anos,
ainda sente saudades dele.
Mister Bojangles, dance!

Ele disse, “Sempre que posso eu danço em bailes,  
em troca de bebida e gorjetas, 
mas a maior parte do tempo eu gasto
nessas vendinhas de estrada,
por que eu gosto de beber um pouquinho.”
E balançou a cabeça, conformado,
e, enquanto balançava a cabeça,
ouvi alguém lhe pedir “Por favor,

Mister Bojangles, dance"
Mister Bojangles, dance! dance!

4 comentários:

  1. É mesmo, brancos carrancudos e cristãos não gostam de alegria...

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  2. Caro Laercio, com relação à sua publicação sobre o cantor Bonjangles, o texto está muito bom, agradável e interessante. Porém, gostaria apenas de comentar uma única frase:

    "Ainda assim, a importância da cultura negra para a grande nação norte americana nunca será devidamente recompensada pelas atuais políticas de proteção social."

    Eu colocaria um ponto final após a palavra "recompensada" e eliminaria o resto.

    Mas o ideal mesmo é eliminar toda a frase pois ela induz as pessoas a acreditar que algo, alguém, ou alguma coisa mereça, por algum motivo abstrato, recompensa.

    Em outras palavras, achar que existe uma recompensa justa para uma contribuição cultural é querer medir algo que não pode ser medido. É querer tornar concreto algo que é abstrato.

    Inevitavelmente eu entrei no assunto das ações afirmativas. Talvez você nem teve a intenção de levantar este assunto. Neste caso é bastante provável que a falha seja minha, pura e simples falha de interpretação ao ler seu texto. Caso tenha sido, peço desculpas.

    Como você acabou de notar, sou contra as ações afirmativas. Na verdade até 2009 eu as defendia. Mas foi impossível continuá-las defendendo apor assistir a vídeos disponíveis no YouTube sobre o tema e ler o livro referência sobre o assunto.

    Abcs

    Marcos Gelain - Florianópolis

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    1. Eu acho que sem as ações afirmativas, os negros norte americanos continuariam a viver na miséria. Hoje formam um exército consumidor de 40 milhões de cidadãos, com renda média muito superior à da classe média brasileira. Claro que continuam isolados, mas, aí a culpa de novo não é deles e sim da sociedade excludente norte americana. Lá tudo é feito de forma a isolar e não integrar, então você tem bairros negros, chineses, chicanos, italianos, etc. Não fosse Kennedi enfrentar os governadores racistas do sul, até hoje os negros não teriam acesso à universidade. Eu sei que é difícil para um cidadão branco de classe média brasileira, quando assiste um negro pobre entrar na vaga de seu filho na universidade, mas, à longo prazo esta é uma das soluções possíveis. O resto, seria admitir que a barbárie é para sempre. Obrigado por seus sempre inteligentes comentários, embora possamos divergir em nossas opiniões.

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  3. Bom dia Laercio

    Ha um livro referência sobre ações afirmativas. Ele foi-me indicado por um amigo meu. Não existe tradução para o português. Como comecei a lê-lo recentemente, na versão kindle, ainda não terminei a leitura, principalmente em função das festividades de final de ano e férias.

    http://yalepress.yale.edu/reviews.asp?isbn=9780300107753

    O livro não se baseia em opiniões. Foram coletados dados históricos sobre as ações afirmativas desde 1840 na Nova Zelândia, data esta mais antiga na qual o autor conseguiu informações.

    Em resumo, o livro analisa como são implantadas as ações afirmativas e seus resultados alcançados. Inclui a análise de cotas em universidades, subsídios para os menos favorecidos, bolsas de proteção social e até mesmo o motivo pelo qual a composição dos membros em postos de comando da sociedade nunca representam igualmente todos os grupos.

    Algumas das conclusões do livro são apresentadas em diversos vídeos no YouTube e textos na internet. Basta pesquisar pelos economistas Thomas Sowell e Walter Williams.

    Sei que você é bastante curioso e vai dedicar alguns dias para assistir aos vídeos.

    Depois voltamos a conversar sobre o assunto.

    Abcs
    Marcus Gelain

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