segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A REPÚBLICA DE PLATÃO





Os gregos pré socráticos comunicavam suas ideias principalmente através de poemas, como Odisseia ou Ilíada. Sócrates (470 a 399 a.c.) resolveu apenas falar. Nunca escreveu uma linha. Se suas ideias fossem úteis, seus discípulos que se encarregassem de proclamá-las, do modo que melhor lhes parecesse.

Platão (428 a 348 a.c.), talvez o principal deles, permaneceu mudo e calado ao longo do processo de julgamento e até a execução de Sócrates, por um crime improvável, o de "exercer más influências sobre a juventude de Atenas", num período em que “deuses” estrangeiros estavam se tornando populares em Atenas. Tal acusação foi formalizada por dois poetas que lhe tinham inveja, o que torna ainda mais injusta a sentença conferida por um tribunal popular.

O mexerico devastador provocou um terremoto nas hostes gregas, mas, não foi possível evitar o pior. O Rei adiou ao máximo a sentença, chegou a oferecer a Sócrates uma possibilidade de fuga, saída recusada pelo condenado. 

Platão ficou todo esse dramático tempo doente, em profunda depressão, refletindo sobre as injustiças cometidas pela Democracia, como praticada pelos ignorantes, interesseiros e egoístas cidadãos atenienses ordinários. Não chegou a aproveitar as últimas e imperdíveis conferências dadas pelo mestre em sua prisão, no aguardo do cumprimento da sentença fatídica.

Finalmente, Sócrates tomou seu cálice de cicuta, veneno mortal utilizado para executar os prisioneiros mais nobres, em suicídio deliberado. Então, PLATÃO levantou-se de seu catre e retomou a palavra escrita. A linguagem que escolheu para se comunicar com o mundo e deixar suas mensagens para a posteridade, foi a forma de DIÁLOGOS.
Neles, Platão usa argumentação dialética. Assim, o sol-luz-claridade são conceitos antagônicos a escuridão e trevas, da mesma maneira que JUSTIÇA está em contradição com CORRUPÇÃO.


No centro dos debates, estava sempre o personagem SÓCRATES, como se Platão dissesse "Você não escreveu nada a vida inteira, agora deixa que eu escrevo por você". Logo o primeiro diálogo foi 'APOLOGIA DE SÓCRATES', onde Platão reproduz o discurso que teria sido proferido pelo próprio réu em sua defesa na sessão de julgamento. Depois, Platão escreveu mais 35 diálogos e 13 cartas (o equivalente bíblico das epístolas).

A REPÚBLICA de Platão é um diálogo suposto entre Sócrates (então já falecido) e os dois irmãos mais velhos do próprio Platão, Glauco e Adimanto, então ainda bem vivinhos da silva, além de mais alguns personagens circunstanciais.  É o Diálogo mais célebre de Platão, com dez grandes capítulos chamados de Livros. Cada um deles é dedicado a um tema principal, embora um seja praticamente continuidade do outro.
O primeiro trata de responder a questão 'EM QUE CONSISTE A JUSTIÇA?".
Ao longo dos livros 2, 3 e 4, tenta-se detalhar o que seriam os PRINCÍPIOS DA JUSTIÇA. Aqui, Platão delineia sua famosa tese semelhante às castas indianas, provavelmente sem saber delas. Trata-se de dar ordem ao Estado, dentro do princípio de que CADA UM DEVE FAZER AQUILO QUE LHE CABE, sem diferenciação hierárquica de poder ou de riqueza. À categoria dos dirigentes, por exemplo, não é permitido gerar descendência nem possuir bens materiais. Que tal?
O Livro 5 fala especificamente das condições de ascensão para a SOCIEDADE IDEAL. Nele encontramos a DIALÉTICA DA LINHA DIVIDIDA, mostrando que o conhecimento é fundamental para a ascensão em direção ao BEM, ou seja, ao estado de excelência do ponto de vista individual tanto quanto social.
O Livro 6 fala do MITO DA CAVERNA, explicando que aquele que se liberta das ilusões pode ver o sol sem cegar-se. A este seria bom entregar a responsabilidade de DIRIGIR a sociedade organizada, ou a cidade, no caso de Atenas, que equivaleria ao atual moderno conceito de Estado.
Quando chega nos Livros 8 e 9, Platão fala da inevitável decadência da Cidade/Estado, quando o poder se concentra numa dada aliança oligárquica, levando ao individualismo dentro da democracia, que fatalmente redundará na TIRANIA.
Finalmente, no Livro 10, Platão conjectura sobre a função e a importância da ARTE, MORAL e FILOSOFIA. Parece que se trata de um adendo ao tema principal. 



EM QUE CONSISTE A JUSTIÇA ?

“Em dizer sempre a verdade e pagar as contas”, afirma um ancião ao receber Sócrates em sua casa para conversarem, os dois, já idosos, mais um grupo de jovens, após uma festa religiosa. Um dos jovens contradita que a Justiça, em sua visão pessoal, decorrente das observações que tem do mundo, “é fazer bem aos amigos e mal aos inimigos”. 
Sócrates vai conduzindo um longo debate com os jovens, nos quais se colocam teses estranhas como:

  • A justiça é a arte de roubar a favor dos amigos
  • Não é próprio dos justos ajudar amigos que não o mereçam
  • Em nenhum caso parece justo fazer o mal
  • A justiça é sempre a favor do mais forte
  • O justo tem sempre prejuízo. Portanto, a injustiça é melhor
  • O homem culto tira vantagem sobre o ignorante. 
  • O homem justo não tira vantagens sobre o injusto
  • Governar é estar a serviço dos governados
  • Cada coisa tem VALOR na sua virtude. 
No final, conclui-se que a prática da JUSTIÇA faz o homem BOM. 
E um homem bom não pratica o mal, nem aos inimigos.
Portanto: 
JUSTIÇA é virtude e sabedoria. 
INJUSTIÇA é vício e ignorância.
Apesar de terem assim concluído, permanece a dificuldade na definição do que é JUSTIÇA.
Sócrates questiona: Não sabendo o que é JUSTIÇA, como poderei saber que a Justiça é virtude, e não o contrário?
Ser JUSTO é trabalhoso e difícil, enquanto ser INJUSTO é mais fácil e prazeroso.
Por que então as pessoas seriam JUSTAS? 
POR OBEDIÊNCIA ÀS LEIS. 
Por que é perigoso e custa caro ser Injusto.
Aqui, o conceito de JUSTIÇA sai do plano individual e passa para o nível coletivo da SOCIEDADE.  A Justiça é uma virtude por si mesma, para regular as interações sociais.

PORTANTO, É NECESSÁRIO QUE AS LEIS SEJAM BEM FEITAS.

E mais:

A Injustiça não pode ser mais proveitosa que a Justiça.
Onde houver Justiça, haverá felicidade geral.



A CIDADE e o INDIVÍDUO

Fica claro logo no início de "A República",  que a Grécia passava por grandes transformações sociais a partir do ano 500 a.c., em confrontos contra seus vizinhos, então sob influência direta do Império Persa, atual Irã, que dominou todo o meio oriente, leste da Europa e norte da África. A ilusória vitória na batalha de Matarona (490 a.c.) deu novo ânimo à cidade de Atenas, mas, não conseguiu evitar que toda a Grécia fosse invadida pelos persas no ano 480 a.c., tendo a população ateniense fugido para as ilhas, vendo saqueada sua capital. Poucos anos depois, os gregos expulsaram os persas e fundaram novas alianças entre si, conquistando grande progresso material, assim como nas artes, medicina, matemática, arquitetura e na FILOSOFIA.  A aliança helênica entre Atenas e Esparta foi amplamente beneficiada pelo período de paz, com apenas pequenas rusgas entre os vizinhos, trazendo grande prosperidade a todo o mundo egeu e mediterrâneo. É nesse ambiente de riqueza e prosperidade que se dá o apogeu da civilização grega, onde cada cidadão tinha ampla liberdade de língua, religião, pensamento político e influência na escolha dos administradores do Estado. Mesmo a escravos e estrangeiros asilados, eram concedidos confortos e facilidades nunca antes proporcionados. Nesse período, que vai até a capitulação ante o reino da Macedônia (323 a.c.), viveu Platão.
Mesmo no ambiente progressista de Atenas, Platão passou a imaginar a cidade perfeita. Ela haveria de praticar a justiça perfeita, sim, mas também deveria preparar sua transição para o mundo perfeito, o mundo do BEM. Isso deveria ser necessariamente papel do processo educacional. Nesse assunto, o personagem Sócrates faz várias considerações interessantes, como o papel da Música e da Ginástica na educação dos jovens. Ambas são convenientes para a perfeita harmonia entre tensão máxima e relaxamento máximo.  Experimentando os dois extremos, o ser humano se aperfeiçoa para o caminho do meio, nem tão tenso como os que fazem só ginástica, nem tão relaxado como os que só ouvem música. Também se deve levar em conta a importância da vivência pessoal e experiência acumulada, como um Juiz, a quem o passar dos anos e o observar das penúrias da condição humana, vai tornando mais sábia a aplicação da justiça.
A cidade perfeita é constituída de TEMPERANÇA, CORAGEM e SABEDORIA. Isso lhe é transferido a partir dos méritos de cada cidadão que a habita, que devem ter passado por um processo educacional que os preparou ao desempenho eficaz de sua missão na vida. Cada qual deve fazer aquilo que lhe cabe, dentro de uma organização perfeita, voltada para o bem comum.  A cada cidadão lhe será exigido executar com o máximo de perfeição o papel que lhe cabe, mas, não lhe é permitido invadir a área de atuação de outra especialidade. Assim, Platão imagina três grandes categorias de cidadãos especializados.
Uma está dedicada à TEMPERANÇA. Esta é movida por interesses ligados às atividades produtivas. São os artesãos, dedicados aos processos de fabricação de coisas e de manutenção dos serviços necessários à vida da Cidade. Corresponde ao campo somático, ou ao físico-etérico na visão teosófica.
A segunda categoria está dedicada a CORAGEM e tem como atributo a defesa e a organização da Cidade. São os administradores públicos, os soldados, os que se responsabilizam pelo suprimento de mercadorias necessárias, através do comércio e da logística, por exemplo. Corresponde ao campo da Psique, ou ao astral-mental na visão teosófica.
No degrau superior está a SABEDORIA, suportada pela razão, pelo pensamento abstrato e pela capacidade de resolução de problemas complexos, tanto materiais como mentais. Aqui estão os administradores de nível superior, que supervisionam os Guardiães e o planejamento estratégico dos processos produtivos. Corresponde ao campo da inspiração divina NOUS, ou ao mundo Causal na visão teosófica ou a Manas, na visão oriental.
A grande inovação imaginada por Platão não foi a diferenciação em classes, por que isso já existia desde sempre. Em sua visão utópica, as classes não teriam diferenciação de poder, riqueza e importância entre si. Todos estariam no mesmo patamar. Um sujeito que possuísse grande fortuna, mas, cuja índole fosse a de um produtor artesanal, não seria diferenciado de seus colegas por ser mais rico. Nem de um amigo seu que fosse da categoria dos Guardiães. A justiça seria aplicada por igual, até por que seus aplicadores seriam da categoria dos sábios, a quem deveria ser proporcionada uma educação especial, assim como lhes seriam proibidas a acumulação de riquezas e inclusive a geração de filhos. Aos olhos do mundo de hoje, este é um mundo completamente inviável e excêntrico. O mundo platônico, por exemplo, não concebe a luta de classes.
Uma Cidade ideal tem que ser governada por uma categoria especial de dirigentes. Sobre isso Platão falará detalhadamente, a partir do personagem central imaginado em Sócrates:  “somente o homem sábio tem a inteira idéia do bem, do belo e da justiça”.  Essa ideia de Platão, de que a sociedade deve ser governada por homens sábios, preferencialmente FILÓSOFOS, atravessou as civilizações modernas e hoje justifica até a tecnocracia.


A  EDUCAÇÃO  DOS  DIRIGENTES

A conclusão a que chegou o personagem Sócrates é que a Justiça se faz quando cada qual executa aquilo que lhe foi confiado pela Sociedade. Segundo esta lógica, ao professor cabe ensinar e ao estudante aprender,  sempre da melhor maneira possível. Conforme a proposição de Platão na divisão em classes,  o artesão produz bens e serviços, o guardião cuida da segurança e da organização da Cidade e aos sábios cabe dirigir e governar. O poder dos governantes deve vir de seu profundo saber, e não de sua posição familiar, ou riquezas acumuladas, ou capacidade de sedução das massas, ou alianças que consegue implementar, etc.  Uma classe especial de dirigentes precisa, pois, de uma educação especial. A este conceito elitista de Platão, o Marxismo gerou uma outra utopia no sentido contrário, de que a classe dos proletários é que deve dirigir a sociedade, extinguindo-se a propriedade dos meios de produção. Entretanto, Platão subverte, mais de dois mil anos antes, a moral conservadora que seria proposta pelo marxismo. Platão imagina a estranha prática que a classe dos dirigentes deveria compartilhar todos os bens materiais e as famílias, incluindo a coletivização dos casais de mulheres e homens, para terem relações sexuais indiscriminadas e livres, além de compartilharem entre si os filhos que poderiam ser gerados nessas relações. Conceitos assim foram considerados absurdos, já por seus próprios concidadãos e seguidores, incluindo Aristóteles.  
A educação dos Guardiães, de onde serão selecionados os dirigentes, deve ser mais aprofundada do que a dos Artesãos. Aos Guardiães não é permitido ter medo, por exemplo. Também devem ser condicionados a equilibrar e moderar os desejos, incluindo os sexuais. A literatura disponibilizada não deve falar de fracassos nem de derrotas militares. Jamais devem ser contemplados poemas que elogiem personagens maus, coléricos ou demasiado emocionais, para não influenciar a personalidade do futuro Guardião, que deve ser um homem ou mulher equilibrado e digno. A música deve ter papel importante e se deve evitar os cantos fúnebres ou tenebrosos, privilegiando-se composições equilibradas com bom ritmo, harmonia e letras construtivas. De preferência odes elogiosas aos deuses, às boas virtudes como coragem, resistência  e auto-controle, etc. Disciplina e treinamento militar, aliado a regime alimentar e prática da dialética. Os Guardiães também devem ser pobres. “Por terem ouro na alma, não será permitido que o tenham no plano físico”. Segundo Sócrates,  riqueza é origem de muitos defeitos, tais como luxúria,  vícios,  desleixo,  etc..   
As mulheres não devem ser discriminadas em nada. Se, ademais,  forem Guardiãs, devem ser educadas no mesmo nível do homem, apesar de serem intrinsecamente mais fracas. No entanto, algumas atividades e assuntos são tipicamente femininas, como tecelagem e culinária. Na escolha do campo de trabalho, também deve se levar em conta a peculiaridade de procriar e amamentar os filhos.
Os governantes devem zelar para que a Cidade não fique super populosa, mas, também para que não falte população. A melhoria genética deve ser uma preocupação social e, para isso, os acasalamentos devem ser incentivados entre os melhores homens e as melhores mulheres, para a geração de filhos sadios. 
Um dos interlocutores de Sócrates questiona se tal educação não estaria condenando à infelicidade os Guardiães, especialmente aqueles escolhidos para serem dirigentes. A resposta dura e seca é “SIM”. Este é o sacrifício que têm que fazer, em contra partida ao direito de dirigirem a sociedade. 
Perguntado se tudo isso não seria algo irrealizável, Sócrates explana que essa questão é irrelevante. A Cidade Perfeita, antes de existir, deve ser imaginada e planejada, como eles estão a fazer naquele momento. Uma vez concebida a IDEIA da perfeição, cabe à Sociedade buscar as formas de implementá-la da melhor maneira possível.   O ideal seria que FILÓSOFOS fossem os governantes, mas, diante da impossibilidade de assim ser, que se convoquem os homens mais sábios que a Cidade disponha, selecionados entre os melhores Guardiães. Cabe aos dirigentes garantir o processo educacional desde a tenra infância até a idade madura. Assim, cumprindo com seus deveres, todos terminarão seus dias em estado de felicidade, inclusive os Filósofos. 


DO MUNDO ‘SENSÍVEL’ AO MUNDO ‘INTELIGÍVEL’
A construção da Cidade Ideal é um longo processo de acumulação de conhecimento. Em sua utopia, Platão apresenta conceitos completamente radicais e revolucionários, tais como a dissolução da família no contexto da classe dos Guardiães, de onde seriam escolhidos os futuros dirigentes do governo. Haveria controle da natalidade e os casais seriam formados de modo a acasalar os homens e mulheres mais preparados. O trabalho se dá em condições de igualdade entre homens e mulheres, segundo as aptidões naturais de cada um. O sistema educativo deve ser aprimorado para formar bons trabalhadores, sem distinção de privilégios ou poderes especiais entre as classes. Deve-se incluir a formação que leve ao conhecimento da idéia do BEM como objetivo supremo da Cidade. Sobre o BEM, Sócrates explica o caminho para alcançá-lo, o qual definiu como a Dialética da Linha Dividida.


Tanto o conhecimento quando a verdade são coisas belas. Mas o BEM é distinto deles e os supera em beleza, assim como a visão permite ver a claridade do Sol,  mas não é a Luz. Podemos dizer que a visão é algo solar, por que só é útil junto com a Luz, mas não se confunde com a Luz nem é o Sol.

Assim como o sol confere credibilidade às coisas, através da Luz, a verdade essencial das coisas só é possível através do Conhecimento, caminho formado etapa por etapa a partir da Opinião, passando pela Crença, que pode ser elaborada como Entendimento a partir da Inteligência, até atingir o objetivo que é o BEM. De outro modo, podemos dizer que o CONHECIMENTO é a passagem do mundo das sombras (sensível) para o mundo das idéias (inteligível).

Para Platão, o BEM deveria ser o objetivo supremo de toda Cidade, por que nele estão as essências de todas as coisas, dado que o estado de ignorância decorre da incapacidade de percepção das coisas reais, motivada pelas Trevas e Sombras. O caminho da Ascensão ao mundo do BEM começa com o desenvolvimento de opiniões e conjecturas, que levam à formação das Crenças.  Para o esclarecimento da essência das coisas, é necessário acessar o Mundo Inteligível, constituído pelas Ideias e Objetos Matemáticos, que se formam a partir do conhecimento científico aperfeiçoado e testado pela Dialética, ou seja, no confronto desses conceitos complexos com as realidades que os cercam, estará a Verdade.

O BEM é o atributo que confere Verdade às coisas do mundo inteligível, assim como o SOL confere verdade às coisas do mundo sensível. Neste sentido, BEM e SOL são as duas faces de uma mesma coisa, a busca da felicidade. Portanto, este deveria ser o objetivo da busca empreendida pelos Filósofos.


Nem tudo que é belo, bom e justo dura para sempre. Tampouco a barbárie é eterna.

Alguns críticos modernos da filosofia de Platão, citam sua rejeição à Arte, conforme delineadas no apêndice de A REPÚBLICA (livro X), como uma falha no enxergar a função artística apenas no contexto da história antiga grega. Ali, Platão lamenta a influência particular da poesia de Homero na formação da juventude, por que ele, Platão, tem em foco apenas a construção do Novo Homem para a Cidade Perfeita. Teria faltado a ele a observação da Arte como um universo a mais da representação do mundo, além do “sensível” e do “inteligível”.  Penso que esse mundo é o da “contemplação”, onde o objeto artístico não tem outro valor senão aquele intrínseco na obra do artista.  Certamente, existe a Arte comprometida com uma ideologia, uma forma de ver o mundo e até com alguma religiosidade específica, mas, a mensagem em si não é a Obra, dado que a mensagem está limitada no tempo e no espaço, enquanto a representação artística em si é atemporal.






O MITO DA CAVERNA 
Foi a forma que Platão encontrou, pela boca do personagem Sócrates, para explicar a “Dialética da Linha Dividida”, ou o caminho que leva ao BEM a partir das Trevas, ou como atingir a Verdade a partir da Ignorância. Estando habituado às Sombras (Ilusão), o homem prisioneiro dentro da caverna da Ignorância imagina ser esta a única realidade existente. Com o passar do tempo, alguns indivíduos vão percebendo que há algo mais que projeções de imagens distorcidas dentro da penumbra da caverna, e resolvem investigar por conta própria. Acabam encontrando uma saída da caverna e se deparam com a luz, inicialmente tão forte que os torna cegos, porém, com o assimilar da luminosidade, os indivíduos começam a perceber a luz das estrelas refletidas num lago. Até finalmente poder encarar a luz do sol, sem cegar a visão. Uma vez libertos, esses homens podem ajudar os outros prisioneiros a libertarem-se também. A moral da parábola é “somente aquele que se liberta das ilusões, pode e deve governar os outros prisioneiros”.  Na visão platônica, este liberto que conquistou a Verdade das coisas é o Filósofo, e cabe a ele governar a Cidade Perfeita dos homens.                              


Em outras palavras, o caminho para a ascensão ao BEM está na conjunção dos atributos do Mundo Sensível, EMOÇÃO, VONTADE e AMOR, com os do Mundo Inteligível, CAPACIDADE MENTAL, USO DA RAZÃO e INTELIGÊNCIA.  É o casamento de Eros com a Ciência.




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Epílogo - DECADÊNCIA DA CIDADE PERFEITA

Na visão do personagem Sócrates, imaginado por Platão em “A REPÚBLICA”, a decadência das Cidades é inevitável, pois todas as coisas do mundo material são transitórias, tendo seu início, seu desenvolvimento e apogeu, e  inexoravelmente seu fim. Depois de ter atingido a perfeição, a Cidade tende a cair por conta de suas próprias contradições, a que são levadas devido às falhas humanas dos que as conduzem.

Em seu estado perfeito, o regime ideal para a Cidade, como foi visto anteriormente,  é a ARISTOCRACIA, o governo dos melhores. Os governantes são selecionados pelo seu profundo conhecimento e por seus méritos comprovados, formando-se uma Escola de alta performance que se mantém pelo tempo que resistir a uma influência nefasta, que a vai contaminar, o EGOISMO que gera a necessidade de obter reconhecimento e glórias pessoais.

Decorrente da decadência da Aristocracia, nasce o segundo tipo de governo, a TIMOCRACIA, o governo das honrarias. Platão chega a especular que uma das causas dessa decadência primordial poderia ser a mistura de raças, as descendências geradas entre homens e mulheres desiguais e fora do tempo certo, a prática excessiva da ginástica em prejuízo da música,  desarmonias que provocam divisões, ódios e inimizades, gerando por fim a guerra civil.

O passo seguinte da derrocada é a tomada do poder pelos mais fortes e mais ricos, ou seja, a OLIGARQUIA. Nela, os governantes vão se tornando cada vez mais avarentos, buscando acumular riquezas ao invés de virtudes. As leis são modificadas para atender necessidades que não são justas, a população pobre é excluída dos benefícios públicos, instalando-se a insegurança. A caminho da pobreza extrema, os excluídos começam a saquear e roubar. A educação das crianças é corrompida, a situação começa a ficar violenta, ameaçando a própria existência da cidade, de modo que a elite oligárquica não tem outra saída senão incluir o povo no compartilhamento do Poder, afim de acalmá-lo. Os cargos de governo passam a ser ocupados através de eleições gerais.

Como decorrência do enfraquecimento dos oligarcas, surge a DEMOCRACIA, onde qualquer cidadão pode pleitear qualquer cargo. O Poder deixa de ser inerente à Sabedoria, como na Aristocracia. As riquezas podem mudar de mãos de forma radical, as fortunas acumuladas podem ser rapidamente transferidas e o Poder já não é exclusividade dos ricos tradicionais, como na Oligarquia. Aparentemente, é um bom sistema de governo e agrada à maioria da população. A Liberdade torna-se o principal benefício do regime Democrático e será ela, a liberdade, a responsável por sua degradação, pois qualquer movimento excessivo numa certa direção, sempre irá gerar uma reação contrária, de igual força e potencial. Devido ao excesso de liberdade, surge a Anarquia, onde a ordem dos valores éticos e da autoridade é facilmente subvertida. Estabelece-se o confronto entre a minoria de ricos e a multidão pobre. No ambiente confuso da luta de classes, surge o líder carismático, que levará o povo a entronizá-lo no Poder.


Do poder popular impessoal e libertário, costuma surgir o encantador líder que que implantará a TIRANIA. Aos poucos ele vai cercando-se de auxiliares entre os indivíduos mais espertos e sedentos por riquezas. Com medo de vir a perder o poder conquistado, vai comprando mercenários para protegê-lo, o que o torna cada vez mais isolado do povo que o tornou poderoso. Assessora-se cada vez mais de pessoas que ignoram as virtudes, buscando apenas vantagens pessoais. Esse grupo desqualificado em termos éticos acaba ocupando todos os espaços e, para evitar possível concorrência, passa a usar poderes indiscriminados e eliminar os adversários. Traição e suborno passam a ser práticas correntes, gerando um governo baseado na corrupção praticada em todos os níveis. Todos viram prisioneiros do sistema, incluindo o Tirano mor,  pois a ninguém é garantida a segurança de seus postos. 

Nessa Cidade, enfim, todos são INFELIZES. 



Um comentário:

  1. Platão fala de uma era, ou época, dominada por governantes, com um único objetivo; poder material, as mudanças no mundo já aconteceram, e dentro de 30 ou 35 anos, o sistema de trabalho e de governo, sera cooperativo, onde todos trabalham para um bem comum, e esta mudança terá inicio em função do aumento da capacidade de raciocínio que a humanidade esta adquirindo. Na nossa mente vem a pergunta: Quem sera o governante? Resposta: Afaste-se dos governantes se não quiser ir junto. [ Bíblia ]

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