sábado, 26 de setembro de 2015

Florianópolis, um nome escrito à sangue




CENÁRIO DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

Em 1889 era proclamada a República brasileira, em rebelião de tropas do exército sob o comando do Marechal Deodoro da Fonseca. Como sempre, as mudanças no Brasil se dão no formato de "golpe", uma vez que Deodoro era ministro da guerra do Imperador Dom Pedro II. Traiu seu chefe e se juntou ao movimento republicano, que já tinha atrás de si um longo caminho percorrido, com lideranças civis de alta formação. Lutavam desde muito tempo pela libertação dos escravos e outras mudanças estruturais na sociedade brasileira. No entanto, foram os militares de alta patente que fizeram a "república", parodiando o famoso ditado "façamos logo a revolução, antes que o povo a faça". Estes militares, até outro dia combatiam no Paraguai em nome do Imperador e sua aliança com os ingleses. Este é o Brasil, desde sempre.

A nova força emergente do Exército republicano era formada basicamente de oficiais que tinham origem na classe média urbana, enquanto os antigos comandantes da Marinha eram oriundos da elite dos nobres monarquistas, que detinham um certo controle do aparelho militar imperial. Não gostaram nem um pouco daqueles "novos tempos". Este descontentamento iria se juntar a vários outros, vindos de várias frentes resistentes a implantação definitiva do novo regime republicano.

MOVIMENTO FEDERALISTA

Em fevereiro de 1893, o Rio Grande do Sul entrava de novo em guerra civil. Os "maragatos" comandados por Gumercindo Saraiva iniciaram uma revolta armada, a que chamaram "movimento federalista", para em primeiro lugar derrubar o governo de Julio de Castilhos no RS e, em seguida,  exigir reformas constitucionais do governo comandado pelo então presidente Floriano Peixoto, alagoano como Deodoro, marechal como Deodoro, mas, duro como pedra, ao contrário do "molenga" Deodoro. A primeira reação de Floriano frente aos revoltosos gaúchos foi mandar tropas federais, através de navios das forças navais que lhe eram fiéis, para ajudar o governador do RS. Tres frentes de combate foram instaladas ao redor de Porto Alegre, impedindo a entrada dos revoltosos. Diante disso, Gumercindo Saraiva resolveu imitar a tentativa fracassada de Bento Gonçalves e "nacionalizar" o conflito, iniciando a marcha em direção à capital do país, sendo contido por outras tropas federais nas cercanias de Curitiba, onde protagonizou o histórico "Cerco da Lapa", tendo sido derrotado em seus propósitos de subir ao centro do país. Impedidos de prosseguir, as tropas federalistas retornaram ao RS e lutaram ainda mais um ano, até que foram finalmente derrotadas e assinaram um tratado de rendição em agosto de 1895. Acabava ali a aventura federalista, que deixou aproximadamente 10 mil mortos entre militares e civis. 


Um dos efeitos da tentativa guerreira dos maragatos foi a Revolta da Armada, movimento disparado em setembro de 1893 , quando um grupo de altos oficiais da Marinha exigiu a imediata convocação de eleições gerais para a escolha de novos governantes nos planos federal e estaduais. Entre os revoltosos estavam os principais almirantes da Armada, refletindo o desgosto com o pequeno prestígio político da Marinha em comparação com o Exército.  Foi neste cenário nebuloso que a pacata cidade de Desterro, capital de Santa Catarina, assistiu em 14 de outubro de 1893, na frente do Palácio hoje chamado Cruz e Souza, o comandante militar Frederico de Lorena declarar instalado o Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil. O novo governo considerava-se separado da União, enquanto Floriano Peixoto não fosse deposto. Esse Governo Provisório almejava unir os rebeldes da Armada aos federalistas do Rio Grande do Sul, com o objetivo comum de derrubar Floriano. 



Este Floriano não era bobo nem santo e, em meio a tantos problemas, largou a revolta catarinense da inexpressiva Desterro para lá e só foi se ocupar com ela em abril de 1894, quando, após ter derrotado os federalistas no Cerco da Lapa (PR), iniciaria a consolidação de seu domínio militar no sul do país. O episódio decisivo para o fim da revolta catarinense foi o combate naval travado na madrugada de 16 de abril de 1894. Do lado legalista federal estava uma frota de onze embarcações fiéis a Floriano, e de outro as forças  que representavam o último elo de resistência contra o governo. Passava das 11 horas da noite quando a frota legalista iniciou o bombardeio à Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, na entrada da baía norte da ilha. O amanhecer marcou o fim do encouraçado Aquidaban, a melhor embarcação da Marinha Brasileira, então em poder dos revoltosos. Com ele ia a pique também a Revolução Federalista e a Revolta da Armada em Santa Catarina. Tão logo a cidade do Desterro soube do resultado do combate, os membros do governo "revolucionário" catarinense fugiram para o interior do continente. Tres dias depois, chegaria à cidade o coronel Antonio Moreira César, o terrível homem de confiança de Floriano,  que lavaria em sangue o "ajuste de contas" com os revoltosos vencidos. 


Moreira César e seu time de comando



CHACINA DO ANHATOMIRIM

No comando de um contingente expedicionário do exército, Moreira César tomou conta da cidade e estabeleceu o regime de terror absoluto. No dizer do jornalista Duarte Schutel, "encheu-se de presos tudo que se podia servir de prisão". A cadeia propriamente dita, mais a câmara de vereadores, o quartel central da polícia, o teatro Álvaro de Carvalho e a Fortaleza de Anhatomirim. A tortura era utilizada como meio trivial de interrogatório. Os condenados sem sentença nem julgamento foram escolhidos à dedo, para servirem de exemplo de como a República pune com rigor os que se lhe ousam fazer confronto. Muitos inocentes foram fuzilados, degolados ou enforcados, calculando-se entre 185 e 200 executados na Ilha de Anhatomirim. Pais eram obrigados a assistir o fuzilamento dos filhos, outros tinham que enterrar em covas rasas seus parentes e conhecidos, antes de eles próprios serem mortos. 

Para coroar o escárnio, o governador Hercílio Luz, que perdera vários parentes e amigos entre os executados, decretou a mudança do nome da capital do estado, de Nossa Senhora do Desterro para a atual FLORIANÓPOLIS, uma homenagem ao "marechal de ferro" Floriano Peixoto.  

Quis o destino que o coronel Moreira César tivesse pouco tempo a celebrar seu feito nas rodas do Rio de Janeiro. Enviado dois anos depois a combater os revoltosos de Canudos, foi morto por uma bala certeira cabocla, durante a segunda tentativa do exército em tomar o baluarte de Antonio Conselheiro, no sertão da Bahia. 

Florianópolis continua tendo o nome oficial de seu algoz, mas, nenhum logradouro na capital ostenta este nome sangrento, nenhuma praça, nenhuma rua ou avenida, nenhum prédio sequer. Por outro lado, a cidade está cheia de homenagens às vítimas: Gama D'eça, Pinto da Luz, Caldeira de Andrada, Batovi, etc.  É estranho que o poder político não tenha providenciado a mudança de nome da capital.  Talvez seja a síndrome de Hercílio Luz, ou o medo de não agradar aos poderosos. Apesar disso, o povo se encarregou de mudar na prática e, nas conversas internas, poucos cidadãos se referem à cidade pelo seu nome oficial. Instituiu-se o simpático "Floripa", que acabou sendo "oficializado informalmente" pelo resto do Brasil. 



Anhatomirim, vista interna













Anhatomirim, vista do mar

















A NOVEMBRADA


Se os mandantes da ditadura militar tivessem se ocupado de saber a verdadeira história da cidade, ou se tivessem disso sido informados previamente pelos puxa sacos de plantão,  teriam possivelmente evitado a tragédia anunciada para aquele 30 de novembro de 1979. Naquele dia, o presidente João Figueiredo cumpria em Florianópolis mais uma etapa da missão que lhe impuseram os marqueteiros do regime militar. Tomar cafezinhos pelo país, afim de se fazer popular e apagar a enorme besteira que fizera alguns meses antes, quando disse que preferia "cheiro de cavalo ao invés de cheiro de povo". O regime militar tentava se prolongar, em meio a manifestações de rua que se multiplicavam pelas grandes cidades. E olhe que naqueles anos de regime militar, não existia CUT nem UNE, muito menos MST.

Florianópolis, apesar de não ser uma grande cidade,  tinha uma peculiaridade: duas grandes universidades, uma federal e outra estadual concentravam grande quantidade de jovens estudantes, daqui e de fora. Era uma reserva de mercado onde o Partido Comunista Brasileiro e outras organizações de esquerda, então ainda clandestinas, ia buscar militantes.

Nos dias anteriores, o governo havia aumentado o preço da gasolina e agora, justamente na companhia do ministro de Minas e Energia, Figueiredo tomava seu café no Ponto Chic, acompanhado de uma galera de notórios puxa sacos, entre eles o governador Jorge Bornhausen (biônico) e o secretário de obras do governo, o ex prefeito (igualmente biônico) Esperidião Amim.

Não foi gente do PCB que começou a arruaça. Foi um motorista de táxi que, indignado, aproximou-se sem despertar a atenção dos seguranças (o que os estudantes certamente o teriam feito) e desferiu um tapa na orelha do ministro Cesar Cals.

Os estudantes esperavam na Praça XV, para onde Figueiredo seguiria depois, com o objetivo de inaugurar uma estátua do Marechal de Ferro, Floriano Peixoto, certamente a figura histórica mais odiada pela população desterrense, por razões que já abordamos anteriormente. Mas, quando souberam do incidente, a estudantada correu para o calçadão da Felipe Schmidt, e cercaram a comitiva de Figueiredo. A PM baixou o pau, isolou a comitiva e a conduziu para o interior do Palácio Cruz e Souza, a uma quadra dali, na frente da Praça. De lá, Figueiredo saiu na sacada e começou a mandar o povo "tomar caju", fazendo o tradicional gesto com o dedo indicador. Recebeu estrondosa vaia de aproximadamente 4 mil estudantes, agora sim, liderados pelos militantes esquerdistas, que puxavam palavras de ordem contra o regime militar.

Irritado, João Figueiredo voltou ao tempo da caserna, esqueceu a lição dos marqueteiros e desceu para a rua, afim de tirar satisfações de um manifestante que, segundo o presidente, havia "ofendido a honra de sua mãe". Uma provável tragédia tupiniquim estava em curso, diante de um apavorado Bornhausen, que pedia "pelo amor de deus" à segurança que tirasse o presidente dali. Foi o que fizeram.

Mas, a partir daquele dia, a menção a FLORIPA passou a ser cortejada com admiração pelo resto do Brasil. Eu vi isso de perto na viagem de férias que fiz ao nordeste, durante o mes de dezembro de 1979. Aonde eu ia e dizia ser desta formosa e heroica ilha, era louvado pelas moças e invejado pelos rapazes.










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