domingo, 23 de outubro de 2016

Rosário, Maravilha e Decadência.

Monumento à bandeira nacional argentina


Em Rosário há uma monumental construção erguida em 1957, em homenagem à bandeira argentina, la celeste, que foi inventada aqui mesmo em fevereiro de 1812, às margens do Rio Paraná. Nos primeiros anos da guerra da independência contra os espanhóis, o General Belgrano, um dos tres comandantes superiores, percebeu que tanto as tropas espanholas quanto as argentinas usavam o vermelho como cor principal do uniforme. Percebendo a beleza azul do céu nesta região, o comandante  escolheu esta cor para identificar os revolucionários, estendendo o azul e branco para as cores nacionais. Os dois outros comandantes analisavam demoradamente a questão, temerários de que a França, uma das patrocinadoras principais da revolta, pudesse se ofender com a retirada do vermelho. Belgrano, impaciente,  colocou a nova bandeira em uso imediatamente e, quando se deram conta, o azul já estava em uso em todas as frentes de batalha.  

Além da bandeira nacional, Rosário é conhecida por ter gerado outros personagens famosos, a começar por Che Guevara, o ícone revolucionário comunista. O atual treinador da seleção argentina, Marcelo Bielsa, também é daqui, além de Angel di Maria e Javier Masquerano, igualmente famosos na seleção de futebol. O cantante Fito Paéz e mais um sem número de artistas, esportistas e políticos importantes também são daqui, embora menos cotados do que o revolucionário cubano e os futebolistas. Nenhum deles se iguala à fama do jogador do Barcelona, Lionel Messi, várias vezes considerado o melhor do mundo. Messi passou por uma estúpida agressão física em sua última visita à cidade natal: foi hostilizado publicamente num luxuoso shopping localizado no bairro mais rico da cidade, por conta da imbecilidade de um torcedor que resolveu protestar contra o astro, por que achava que ele não se empenha pela seleção nacional o tanto quanto se esforça pelo clube catalão. O torcedor foi preso e Messi prometeu nunca mais regressar, igual quando prometeu não vestir mais a camisa da seleção, por outras razões, às quais já reconsiderou, algo que também deve acontecer em relação a Rosário.

A cidade está seriamente comprometida econômica e socialmente. O narcotráfico tomou conta dos bairros pobres, imitando o que acontece nas favelas brasileiras. A população de camelôs e vendedores de bugigangas triplicou nos últimos dez anos. Observa-se a decadência na sujeira e mal cuidado com as edificações, principalmente as que demonstram a elegância e riqueza de outras épocas. A cidade já existia no começo dos anos 1600, como porto de parada na subida do Rio Paraná, ora por viajantes que iam para Asunción no Paraguay, ou como parte da rota que levava à cidade de Córdoba e dali à subsequente subida aos Andes, principalmente por causa das minas de Potosi. Rosário permaneceu como simples ponto de passagem, até que em 1812 o General Belgrano revolveu fazer aqui uma importante fortificação para a  guerra de independência. 

A partir de 1885, a cidade recebeu grandes ondas imigratórias da Europa, o que determinou profundas mudanças na sua geo política. A região tornou-se grande potência agro pecuária, com a criação de rebanhos e produção de grãos, que passaram a ser exportados, gerando enormes fontes de divisas, que fizeram surgir uma cidade moderna e progressista. 

A decadência começou já na ditadura militar, quando Rosário foi sub sede da copa do mundo de 1978, mas foi se aprofundando pelos posteriores governos civis, de modo que quando chegou o ano 2000 e os governos Kirchner, Rosário já contava com mais de 20% da população economicamente ativa desempregada. A política econômica dos Kirchner terminou por levar ao fracasso o projeto de exportação se soja, prejudicando os mais de trinta portos locais do Rio Paraná, onde os navios à granel se abasteciam para cruzar o oceano Atlântico, passando direto por Buenos Aires. Também as restrições às exportações de carne prejudicaram muito a economia local.   
  
Os mais de 1,2 milhões de habitantes fazem de Rosário a terceira cidade do país, maior até que a capital da província, Santa Fé. A esperança dessa gente é que o novo governo elimine, como no Brasil, ou pelo menos baixe os impostos sobre exportação de soja. Na área da carne, a coisa é um pouco mais complicada, por que a proibição das exportações, determinada pelo governo Kirchner, fez com que a Argentina perdesse o espaço que tinha nos mercados da Europa e Ásia, além de ter baixado drasticamente a produção interna. 

Rosário já foi um grande centro anarquista no início do século XX, graças principalmente aos imigrantes italianos. O reflexo disso é uma população jovem bastante ativa, politicamente engajada em movimentos de raízes esquerdistas. A cidade está cheia de pixaçôes anti capitalistas, anti machistas e anti clericais, enfeiando os muros e paredes e deteriorando ainda mais o quadro urbano.  Ao mesmo tempo que representa um problema, este vigor político traz consigo uma esperança: a de que novos tempos serão possíveis, ainda que estes provavelmente venham como resultados de reformas capitalistas liberais. Não importa! A ordem dos tratores não altera o viaduto da história.


























.

Nenhum comentário:

Postar um comentário