quarta-feira, 30 de maio de 2012

Memórias do rádio

Antes de seguir para o quartel,  trabalhei tres anos na Rádio Jornal de Maringá, a menina dos olhos da Rede Paranaense de Rádio. Nossa programação era diferenciada, com alta qualidade musical e locução impecável, segundo o modelo da Rádio Jornal do Brasil, que procurávamos imitar. Provavelmente não dava muito lucro, mas, para isso existiam as outras emissoras da rede. Certa vez, os diretores resolveram fazer uma pesquisa de audiência e convocaram a mim e outro colega,  para percorrermos em horários alternados os bairros de Maringá, perguntando de casa em casa qual emissora estavam ouvindo. A maior parte do tempo nós ficávamos sentados na mesa de algum bar, onde preenchíamos os questionários, dando a liderança para a Rádio Jornal. O gerente de outra estação da rede nos chamou para uma conversinha. Levou junto um famoso apresentador, muito popular, em cujo programa tocava Jerry Adriani, Wanderlei Cardoso, Roberto Carlos, essas coisas. Pois em nossa pesquisa, nós colocamos o homem abaixo do nosso programa de rock and roll tradicional, apresentado por duas lindas locutoras cariocas. Elas sabiam do tesão que provocavam e iam ao programa em minúsculas saias. Dançavam acompanhando as músicas no estúdio, que tinha paredes de vidro para a Avenida Herval, onde se aglomerava uma pequena multidão masculina, a admirar as lindas coxas das morenas.  Lembro-me dessas coisas, por que estou isolado no meio do coqueiral infinito de Sauassuhy, no interior de Maceió, só tendo acesso à programação da Jovem Pan pelo canal FM da TV. 

A emissora de Maceió é a mesma de Floripa, mais outras 150 franquias da rede, que tocam interminavelmente as mesmas vinte canções selecionadas, um jabaculê mais grave que nossa inocente pesquisa de 1978. Ainda ontem, o excelente locutor anunciou a campeoníssima do dia, a qual já fez o favor de traduzir para o distinto público: "Eu não vivo sem você". E entra uma balada com fundo eletrônico, declarando que "I will never be the same, without you". É. Pode ser. Em matéria de tradução de letras musicais, parece que está valendo tudo. Bem diferente do nosso tempo!

Ainda que a Jovem Pan se anuncie como a maior audiência, aqui o que tem a preferência do povão é mesmo o forró, que toca em todas as rádios, que ouço pelas casas e pelos bares da minha vizinhança. A origem do nome "forró" é uma deliciosa piada, que não sei se é verdadeira, e passo adiante como recebi. Durante a segunda guerra mundial, havia uma base naval norte americana em Natal (RN). Conta-se que, aos domingos, os militares promoviam um baile, para o qual convidavam os mais populares sanfoneiros da região. Como o baile era público, eles o chamavam "for all". De "for all" em "for all", a língua do povo criou o forró.  

Tenho notado que o Gonzagão continua sendo o rei do baião, mas, percebo também a popularidade de outro cantor, que eu julgava acabado. Fagner. Eu tenho um amigo argentino, que vive de ensinar música, além de ser produtor de espetáculos de tango, regente de coros universitários e grande cantor de ópera. Eu lhe mostrei o disco que Fagner gravou na Andaluzia, Espanha, no início da carreira. Ele ficou impressionado: "Esto és una maravilla, todavia más interessante que aquel muchacho que canta com timbre de mujer", referindo-se a Ney Matogrosso. De fato, apesar de serem completamente diferentes um do outro, são dois grandes artistas brasileiros. Que não tocam na rede Jovem Pan. 




A Jornal do Brasil faliu juntamente com o próprio, e da Jornal de Maringá, desde há muito tempo que não tenho notícias. Sobraram apenas memórias de um tempo feliz. Fui demitido da Rádio Jornal, por conta de outra irresponsabilidade. Eu fazia o horário nobre da estação, operando a mesa de som das 18 horas até meia noite. Às dezenove horas, colocava no ar a "Voz do Brasil", sintonizando a rádio Nacional, conforme era nossa obrigação. Naquele dia, fomos eu e o locutor, à festa de inauguração de uma churrascaria, ali pela região central. Nos entretemos com as maravilhosas batidas de limão e maracujá. Quando dei por mim, já era quase nove da noite. Saímos em desabalada carreira até a emissora, onde chegamos praticamente juntos com o gerente, que nos demitiu ali mesmo e retirou a rádio do ar, até que convocasse nova dupla de operadores. Ao locutor ele não perdoou, embora o sujeito fosse tão bom que rapidamente conseguiu colocação numa grande emissora de Londrina, onde fez carreira de grande sucesso. Talvez ele se lembre de nossa irresponsabilidade juvenil.  Quanto a mim, que era menor de idade e pobre, porém talentoso, além de ser um dos alunos preferidos da sua esposa, o gerente me arranjou emprego como redator numa agência de publicidade.  Criando textos para super mercados e lojas de tecidos, comecei minha carreira literária. O gerentão, pessoa doce que era, acabou a vida como produtor de mel. E nunca mais eu soube da minha querida professora de geografia. Bons tempos!

  

3 comentários:

  1. Lalá, ontem assisti um grande espetáculo aqui no Rio, uma homenagem à Emilinha e Marlene, as eternas "Rainhas do Rádio", daqueles bons tempos do Rádio a que te referes.

    Na peça, fazem referência à uma demissão em massa promovida pelos milicos em todos os quadros da Rádio Nacional "suspeitos de serem comunistas". Foi uma devastação tão grave que a Rádio não suportou e caiu em decadência. Coincidentemente, foi neste período que iniciou o império global.

    Outro detalhe, a rádio JB FM continua existindo aqui no Rio de Janeiro, fica num ponto inesquecível do dial: 99,9. Ainda mantém uma programação de bom nível, boa música, e bons jornalistas, boa informação e papos interessantes.

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    1. Não sabia desta existência da Rádio JB no setor FM. Sabes a quem pertence? Por que a AM havia sido vendida para a Manchete (que também faliu).

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    2. Nós sempre vivemos de ciclos políticos, não é? A Rádio Nacional foi no tempo do Getúlio, que, dizem, gostava tanto de algumas de suas estrelas, que chegava com elas a ter relações mais do que amistosas.

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