terça-feira, 1 de maio de 2012

Encantos e Cantorias em Imbituba


Ainda hoje se pode ver pelas imensas dunas e restingas do litoral de Imbituba o famoso cipó imbé, como chamado pelos índios Carijós que habitaram aquele trecho por tempos imemoriais. Era o material básico na prática da pesca, a principal ocupação dos indígenas e também dos pioneiros açorianos, que aqui desembarcaram lá por 1720 e, embora a atividade tenha se tornado indústria de alta tecnologia, ainda é utilizado nas lidas artesanais, graças a sua surpreendente resistência, que pode durar cinquenta anos ou mais, mesmo submersos nas profundezas oceânicas. Além da utilidade nos serviços da pesca, pintam de verde o branco predominante nesta terra dos imbés em abundância, a nossa Imbituba. 



Não sabíamos nada disso quando embarcamos no ônibus, às 07:30 da manhã de domingo em Florianópolis, sob os primeiros frios do inverno. Assim como ainda não sabíamos das hospitalidades e amabilidades dos imbitubenses da Vila Nova, pequena comunidade que foi fundada muito antes de Imbituba, propriamente dita, por que seria ali a sede da missão religiosa que por lá chegou com o objetivo principal de catequizar os Carijós. Eram tempos ásperos aqueles de 1620 e os sacerdotes encarregados de implementar a missão foram expulsos por guerreiros portugueses e espanhóis, que não queriam ver seus virtuais futuros escravos sob a proteção papal. Assim, a Vila Nova voltou a ser apenas um território Carijó selvagem por mais cem anos, até a chegada dos açorianos.

Vila Nova de Imbituba. Onde chegaram os primeiros brancos, em 1620. 

Assim que chegamos, encontramos nos esperando as nossas amadas irmãs nativas da terra, Mada e Rosa. Tinham como presente para nós um docinho feito com farinha de mandioca e amendoim, com certo nome estranho e difícil de pronunciar, além do reconfortável café da manhã que a Paróquia de Santa Ana nos oferecia. De nossa parte, levamos também um presente para a Rosa, na figura do seu cambaleante, porém firme cravo, o Pedro, apoiado em sua bengala pós cirúrgica.  

E iniciamos as cantorias.


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Leínha, emocionada com o próprio encanto.
Talvez fôssemos mil ou mais cantantes, entre sopranos, contraltos, tenores e baixos. Alguns grupos mais sofisticados ainda se davam ao luxo de apresentar vários solistas, além de especialistas mezzo-sopranos e barítonos, nas receitas de arranjos dos naipes de cantantes, que nos mostravam suas emoções sobre o pequeno palco formado no altar da igreja histórica.  Tecladistas e guitarristas vários acompanhavam os cantantes. Não raro, as mocinhas desciam do palco sob  a forte emoção do choro, visto que aos marmanjos esses arroubos são devidamente reprimidos, por não serem bem vistos pela moral coletiva ocidental machista, mesmo que algumas lágrimas furtivas insistissem na tarefa de molhar nossas faces levemente ruborizadas, preventivamente enxugadas às pressas, antes que a nossa realidade emocional interna fosse denunciada. 



Maestro Robson e algumas de suas centenas de cantantes.






A platéia se encantava a cada nova presença no palco-altar. 
No final da tarde, ouvi muitos moradores de Imbituba se perguntando, "será que o maestro Robson ainda vai se apresentar com algum de seus coros?"
Eu, intrometido que sou, para variar, disse que "sim, ele ainda vai nos reunir para encerrar o Encontro". Então,  meus confidentes reafirmavam sua admiração: "ha, se é assim, não dá para ir embora, temos que esperar!".   Com a chegada da hora do ângelus, todos os corais presentes cantamos juntos a última canção. 
E o domingo musical de cantoria veio conosco, de volta, destinado a ficar gravado em nossa memória, tais quais as lembranças boas que embalam nossos sonhos na dura batalha do cotidiano de cada um. Até que um próximo encontro nos anime a repetir tudo de novo. 



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