segunda-feira, 10 de junho de 2013

Missa de Sétimo Dia


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Esis Rocha foi nosso companheiro no naipe dos baixos do Coro Lírico Catarinense. Convivi pouco tempo com ele, o suficiente para admirar sua coragem, lucidez e inteligência. Era um ativista por natureza, inquieto, polêmico, contestador... Conhecia profundamente a música erudita, especialmente a de natureza sacra, na qual era especialista. Extremamente bem humorado, de vez em quando assustava os taciturnos com sua personalidade de brincalhão: "Ainda seremos o melhor coro do Brasil, especializado em música sacra eslava", ao propor Tiebe Poem para o repertório do Coro. 










Nunca desistia da vida. Ao voltar para o Coro, depois de meses em tratamento de saúde, sugeriu uma lista de (apenas!) quinze canções sacras pouco conhecidas, para nossa apresentação no Concerto Páscoa 2013 da Catedral de Florianópolis, lista da qual aproveitamos duas.  

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Sonhava com a turma toda excursionando pela Europa. Sonhava com uma orquestra própria, com os cartazes anunciando nossos espetáculos "Coro Lírico Catarinense e sua orquestra". E justificava "deste modo, não teremos mais que pagar cachê para  orquestras de terceiros, ora bolas!".  E ria...  como sabem rir as crianças inocentes, sem se darem conta de sua tremenda força, a mesma que impulsiona os puros de coração na direção do infinito. Acho que foi assim que ele partiu. Olhando com doçura e inocência a sua passagem. Sem culpas, sem rancores, sem remorsos, apenas agradecendo à Divindade pelas oportunidades que teve. E talvez lamentando um pouco por não tê-las aproveitado tanto quanto sonhara. 

Deixou várias coisas e várias mensagens. Seus ternos escuros como herança para o Coro. Seus pertences, sua incrível coleção de músicas sacras, seus livros, suas memórias... e principalmente sua sabedoria, estampada claramente na lucidez com que fez a passagem da linha de chegada, como o demonstra o seguinte texto que foi encontrado entre seus deixados:


"A morte é nada
Eu somente passei para o outro lado do caminho.
Eu sou eu, vocês são vocês,
O que eu era para vocês,
Eu continuarei sendo.
Me dêem o nome que vocês
sempre me deram,
Falem comigo como vocês sempre fizeram.
Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas,
Eu estou vivendo no mundo do criador.
Não utilizem um tom solene ou triste,
Continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos.
Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.
Que meu nome seja pronunciado como sempre foi.
Sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra ou tristeza.
A vida significa tudo que ela sempre significou.
O fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora de seus pensamentos,
Agora que eu estou apenas fora de suas vidas?
Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho.
Você que ai ficou, siga em frente.
A vida continua
Linda e bela como sempre foi."






2 comentários:

  1. Linda homenagem ao seu amigo...e pelo que entendi ele não quer ser lembrado com tristeza...então trate de sorrir.

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  2. Delicado, bonito, poético, profundo, alegre, como tudo o que parece ter sido a marca dele. Especial, para alguém especial, que não passou pela viva simplesmente, mas viveu! Justa homenagem.

    Suely Pedroso Riskala - Itajaí(SC)

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