domingo, 5 de fevereiro de 2012

Beijando inglesas no Museu do Prado



Depois de caminhar horas e horas por galerias várias, afim de aproveitar ao máximo o preço do ingresso, estávamos na frente do Museu do Prado, aguardando o ônibus que nos levaria de volta à Porta do Sol, local de referência para nosso hotel, que ficava à algumas quadras medievais dali, por um caminho tortuoso que levamos três dias para aprender, com  o mapa do local em mãos. Não era longe, mas, nossas pernas já não agüentavam o peso dos cinquenta anos. 

O Passeio do Prado é um dos locais mais agradáveis do mundo. Pode-se descrevê-lo como uma larga avenida, belíssimamente arborizada e ajardinada, com seu canteiro central largo e confortável, com diversos bancos e mesinhas à disposição dos caminhantes, onde se pode fazer um lanche maravilhoso com baguetes e frios comprados em supermercados, acompanhados pelo melhor vinho branco do mundo, o das regiões demarcadas de Sevilla, conhecidos como "vinho fino", veja você que chegam a 17 graus alcoólicos, a meio caminho do conhaque, porém com uma delicadeza só possível aos descendentes de mouros. Computados os custos, uma refeição ligeira nessas condições não vai sair mais do que 10 euros, pouco mais de vinte reais para duas pessoas. E você ainda tem a proteção da ordem e dos bons costumes madrilenhos.

É o que eu sempre digo, "turismo é mais aventura que lazer". Concluí esta máxima depois que encontrei um casal de paraibanos na porta do teatro Ópera de Londres, a mulher parecendo a Maria Bonita, de tantos penduricalhos em prata, e o homem, gordo como eu, tinha o fraque aberto, devido à imensa pança, provavelmente um bem sucedido senhor de engenho ou médico do sertão. Na  fila de entrada, eles se tratavam de "painho" e "mainha". Não estavam nem aí para os turistas internacionais, inclusive eu, que me disfarcei e não pronunciei uma palavra que pudesse me associar com aqueles "caipiras".

Pois bem, estávamos no ponto de ônibus do Prado, quando três senhoras de cabelos brancos se aproximaram. Suas tentativas de comunicação foram devidamente ignoradas pelo público ao redor, que não entendiam nada, quando elas pediam informações sobre o ônibus turístico. Na Espanha, como na França, não é bem vista a língua inglesa. Você é capaz de se entender melhor em português, do que se tentar falar a língua de Shakespeare. Por seu lado, ingleses e norte americanos acham que é obrigação do planeta entender o que dizem, seja lá com o sotaque que entoarem. Eu, que não consigo ficar quieto, me adianto e gentilmente lhes pergunto, " Where are you intend to go ?". Elas se viraram maravilhadas e passaram a descrever coisas do arco da velha, que eu não tinha a menor condição de compreender. "Wait a moment, please, I'm not English, so I need you to speak slow, OK?". A partir daí descobri que elas estavam em Madri acompanhando a torcida de um clube de futebol Inglês que iria enfrentar o Real Madrid pela copa dos campeões. E queriam passear pela cidade, enquanto não chegava a hora do jogo. Eu ainda as provoquei, perguntando se tinham autorizações dos maridos, ao que elas riam e diziam que todos estavam mortos. Calculei mais de 200 anos, somadas as três idades. Conversamos um monte, elas se mostraram muito agradecidas pelas conversas e pelas minhas orientações sobre o roteiro turístico e se foram.  Não sem antes trocarmos vários beijos. 


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