sábado, 4 de fevereiro de 2012

Cuentos de la Frontera



Estávamos os dois naquele final de tarde a beber whisky na varanda da Hosteria del Lagono tempo que a tríplice fronteira de Foz do Iguaçu ainda não se tinha convertido na central de contrabandos e drogas que é hoje.    Ainda era o tempo dos agradáveis restaurantes sob a sombra de frondosas árvores da mata Atlântica. Na toalha impecavelmente branca repousava o litro de Dimple, mais uma geleira e a água gasosa que chamávamos de soda, que adicionávamos ao precioso líquido amarelo para não ficar bêbado muito rápido. Volta e meia a cozinheira guarani mandava mais um pratinho com delicioso aipim frito, ao qual chamávamos mandioca.  


Meu cunhado falava de modo 
calmo, mas olhando diretamente nos meus olhos.


---- “Luchin, a noite foi feita para o prazer. Os bons cidadãos descansam para a jornada do dia seguinte, o que não deixa de ser até necessário, mas, nós, profissionais da noite, a aproveitamos para ganhar dinheiro e conquistar novos amores. Não pense que a vida de jogador de cartas seja fácil, mas, eu não a trocaria por nenhum cargo de gerente de banco ou coisa assim. Você tem muita experiência com mulheres?”

O atrevimento da pergunta repentina e seu estilo direto me irritaram, a ponto de atrapalhar-me ao tentar completar mais bebida no copo ainda cheio, enquanto respondia qualquer coisa sem sentido. Depois de um minuto de silêncio constrangedor, ele se explicou, retomando o controle da conversa.

---- “Digo isso por que é muito importante saber aproveitar as mulheres, caro cunhado Luchin. Elas podem te levar ao céu ou ao inferno, dependendo de como você as trata e conduz. O segredo é fazer com que elas se apaixonem por você. E isso se consegue com sexo e dinheiro. Primeiro, quando você vai para a cama pela primeira vez com uma mulher, deve se dedicar a ela de corpo e alma. Esqueça de você mesmo e concentre-se apenas na satisfação dos desejos dela. Gaste o que for necessário num jantar fino e romântico que nenhum homem anterior tenha lhe proporcionado. Na segunda vez, capriche mais ainda no sexo. Só comece a aproveitar lá pela quarta vez, quando então você pode começar a reclamar dos negócios, a dizer que falta dinheiro, que não está muito satisfeito como sua vida tem andado, coisas assim. Ela vai tentar protegê-lo, aí você poderá tirar dela o que quiser. Prazer, dinheiro, favores, tudo.”  

Eu ia ficando cada vez mais perplexo e furioso com aquelas idéias bizarras para mim, mas nada podia contra aquele conselheiro vinte anos mais velho, talvez chegando na faixa dos cinquenta, quando eu mal acabava de passar pelos vinte e cinco. Ele me dizia para aparecer no cassino, preferencialmente na alta madrugada, pois tinha muitas amigas interessantes para me apresentar.  O fato de eu ser casado com a irmã dele, pelo jeito não tinha qualquer importância. Dizia que gostava de mim e que eu era um bom cunhado, por isso me ensinava sua vasta experiência mundana de garoto nascido na margem direita do Rio Paraná, bem defronte ao  afamado encontro com as águas barrentas do Rio Iguaçu. Já era de meu conhecimento que sua vida de guri do mato fora bem animada. Mal surgia a alvorada e já saia com os demais mitaís  de sua idade, navegando precárias canoas sobre as profundezas abissais da foz ou entrando nos pequenos e calmos rios que gentilmente doavam suas águas ao colosso fluvial. Se apontasse a proa para o norte, cruzava para o Brasil, senão, para a Argentina. Às vezes entrava Iguaçu adentro, a levar pessoas e mercadorias desconhecidas a lugares ermos para onde as polícias não tinham coragem ou motivação de chegar. Não raro, atingiam as cataratas que o aventureiro Cabeza de Vaca foi o primeiro homem branco a apreciar, depois de naufragar no sul da Ilha de Florianópolis e mudar sua rota da fracassada cruzada terrestre em busca do El Dorado, em 1540. Esse Cabeza de Vaca de  quem a professorinha falava na escolinha de pau a pique era seu único herói, pois detestava os chefes militares paraguaios que mandaram seu pai lutar no Chaco boliviano, de onde voltou um pouco perturbado da cabeça e sem a mesma força nos braços. Apesar de ser um aventureiro internacional, o crupier Rojas mantinha profundo respeito e admiração pelas coisas paraguaias. 

O cenário da selva foi sua escola até que Juscelino Kubichecky, o presidente do Brasil, foi lá para inaugurar a Ponte da Amizade. Ao lado da ponte, o cassino de mesmo nome, para o qual o jovem canoeiro foi selecionado antes dos outros paraguaios, graças aos seus jeitos calmos e sua pele clara, que denunciava a origem espanhola de sua mãe, contra a herança guarani do pai. Hábil com as cartas, logo tornou-se crupier de primeira, chamado para as melhores e mais endinheiradas mesas, onde também pontificavam as mulheres mais calientes da noite fronteiriça.  


---- Bueno, cunhado,  chegou minha carona, tengo que ir me. Adiós ...

Embarcou num automóvel dirigido por bela senhora, tomando destino ignorado, porém presumível. O que foram fazer também não era difícil adivinhar e certamente não seria a primeira vez que o faziam. 

Enquanto a noite ia caindo sorrateira em meio aos relâmpagos na mata verde ao redor,  as primeiras luzes se ascendiam no ambiente familiar do restaurante. O garçom teve que perguntar uma segunda vez se eu queria o cardápio do jantar, imerso estava eu em meus pensamentos.

----- Haaaa, no, gracias, traga-me apenas a conta.
----- Yá está paga, señor.  

E saí noite adentro, de volta a cruzar a imensa ponte, pensando no que faria de minha vida.




















Um comentário:

  1. Bom... mas o pensamento deste teu cunhado não tem nada a ver, comigo pelo menos que sou mulher; nem todas querem dinheiro e sexo de um homem...

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