sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Jeri, a praia que coacoara


Na língua tupi significa "terra dos ventos uivantes".  Bueno, se não é, devia ser.
Na verdade, Jericoacoara significa "jacaré tomando banho de sol". Em linguagem nordestina quer dizer "jacaré quarando ao sol".  Aqui, à exemplo de todo o litoral cearense, os ventos predominam 23 horas por dia. Quando acaba um, começa outro, no lado contrário. Ou do lado de lado. Nossos óculos, bolsas e apetrechos deixados na areia da praia ficam impregnados da fina poeira que o vento levanta nas dunas. Como há dunas por todos os lados, é inevitável que alcance as praias e a pequena vila que virou o centro do mundo moderno.

É uma espécie de Rua Gomes Freire ou Visconde de Pirajá, com as mesmas griffes internacionais, o mesmo público dito "diferenciado", a mesma badalação e até o mesmo sotaque internacional, percebido nas conversas dos vizinhos de mesa ou de praia. Para aqui convergem todas as líguas faladas no mundo rico. Só que ninguém veste calça comprida, nem camisa social, nem estampa o ar de bem informado e updateado com a última tecnologia. É uma nova aldeia hippie, como foi Canoa Quebrada há trinta anos, incrementada com o padrão de consumo dos dias atuais. Mas, não chega a fazer o estilo Yuppie, que é o contrário da simplicidade hippie. Não, aqui o doutorzinho branquelo desembarcado em Fortaleza, diretamente de Oslo ou Genebra ou algo assim, bate papo com o caboclo jericoarense que fala seu inglês com a mesma naturalidade gramatical de um músico de banda inglesa. Ele certamente aprendeu na lida do dia a dia com os gringos. Às vêzes mal conhece o português e não tem nem curso básico completo, mas fala tres ou mais línguas. Há uma lenda de um sujeito, dono de pousada e restaurante numa praia isolada, que fala oito línguas, sem nunca ter passado da pequena Jijoca, porta de entrada para o mundão de areia e sofisticação.   As pousadas e resorts na beira da praia são mais elegantes e bem transadas que qualquer cinco estrelas do litoral brasileiro. Dão um banho na caretice do Costão do Santinho. Certamente não terá os recepcionistas ridiculamente vestidos como motorista de madame, que encontramos nos hotéis chiques. A música ambiente também não será uma orquestra de violinos tocando fugas de Bach ou valsas vienenses, mas o visitante há de encontrar um monte de criolos bonitos, de ambos os sexos, todos alegres e sorridentes como se tivessem fumado o último baseado há cinco minutos. Ao mesmo tempo em que trabalham no atendimento gentil da clientela, sugestionam danças sutilmente erotizadas, ao som de uma banda de reagge. Como tem muito cliente das antigas, Pink Froid toca direto, às vêzes reescrito em ritmo de reagge por bandas das quais você e eu nunca ouvimos falar.

Um detalhe interessante desse mundo moderno é que o padrão de turismo sexual mudou. É raro você encontrar um gringo barrigudo ao lado de uma sensual caboclinha nativa, como antigamente. Agora, o que se vê é tremendos tribufus europeus do sexo feminino desfilando com musculosos representantes da macheza cearense. E os rapazes fazem questão de prestar serviços com grande assiduidade e publicidade. Beijam as companheiras clientes o tempo todo, com grande volúpia e (talvez) falso tesão, eu suponho, dado o desconforto da evidente diferença de padrão estético e muitas vêzes de idade. Eles parecem não se importar e até fazem questão de mostrar ao público que estão em plena atividade, talvez até como propaganda para futuras transações. Claro, também há as belas loiras deslumbrantes, sobre suas pranchas de kitesurf ou coisa assim, aquela geringonça amarrada num paraquedas que ziguezagueia nas ondas, ao sabor dos ventos. Essas, que eu saiba, já estão suficientemente paqueradas por todos os homens presentes, nativos ou não, e recusam qualquer oferecimento erótico, ao contrário, as gostozonas se fazem de inatingíveis e misteriosas.  Também não fazem questão nenhuma de tentar falar a língua local.

Intrigado com ouvir tanta pronúncia em espanhol e curioso para saber a procedência daquela gente, intervi em duas ou tres rodas de conversa, perguntando educadamente a origem dos falantes, dizendo tratar-se de uma pesquisa que eu fazia para fins de uma dissertação de antropologia. É, amigo leitor, cara de pau nunca me faltou. Descobri que não havia nenhum latino americano, sequer algum mexicano. Eram todos de diferentes regiões da Espanha, daí a diferença de acentos. Eles podem até estar em crise econômica, mas continuam bons consumidores e excelentes animadores de bares.     

A aventura de cruzar as dunas desde Jijoca é um capítulo à parte. Só posso dizer duas coisas: 1) é uma sensação maravilhosa; e, 2) vão tentar te enganar no preço. Desconfie e cheque todas as ofertas de transporte e de passeios. Nesse quesito, só digo uma coisa: o custo da tua estadia vai cair dez vezes em relação aos preços iniciais que tentarão te cobrar.


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