Na língua tupi significa "terra dos ventos uivantes". Bueno, se não é, devia ser. Na verdade, Jericoacoara significa "jacaré tomando banho de sol", segundo a versão oficial da prefeitura do município. Mas, há várias outras versões, como "casa de jericó", "gruta das tartarugas marinhas", etc.
Em linguagem nordestina quer dizer "jacaré quarando ao sol". Aqui, à exemplo de todo o litoral cearense, os ventos predominam 23 horas por dia. Quando acaba um, começa outro, no lado contrário. Ou do lado de lado. Nossos óculos, bolsas e apetrechos deixados na areia da praia ficam impregnados da fina poeira que o vento levanta nas dunas. Como há dunas por todos os lados, é inevitável que alcance as praias e a pequena vila que virou o centro do mundo moderno.
É uma
espécie de Rua Gomes Freire ou Visconde de Pirajá, com as mesmas griffes
internacionais, o mesmo público dito "diferenciado", a mesma
badalação e até o mesmo sotaque internacional, percebido nas conversas dos
vizinhos de mesa ou de praia. Para aqui convergem todas as línguas faladas no
mundo rico. Só que ninguém veste calça comprida, nem camisa social, nem estampa
o ar de bem informado e updateado com
a última tecnologia. É uma nova aldeia hippie, como foi Canoa Quebrada há
trinta anos, incrementada com o padrão de consumo dos dias atuais. Mas, não
chega a fazer o estilo Yuppie, que é o contrário da simplicidade hippie. Não,
aqui o doutorzinho branquelo desembarcado em Fortaleza, diretamente de Oslo, Genebra ou algo assim, bate papo com o caboclo jericoarense que fala seu inglês
com a mesma naturalidade gramatical de um músico de banda de reaggie. Ele
certamente aprendeu na lida do dia a dia com os gringos. Quase sempre mal conhece o
português e não tem nem curso básico completo, mas fala três ou mais línguas.
Há uma lenda de um sujeito, dono de pousada e restaurante numa praia isolada,
que fala oito línguas, sem nunca ter passado da pequena Jijoca, porta de
entrada para o mundão de areia e sofisticação.
As pousadas e resorts na beira da
praia são mais elegantes e bem transadas que qualquer cinco estrelas do litoral
brasileiro. Dão um banho na caretice do Costão do Santinho, por exemplo, considerado o melhor resort de praia do país. Certamente não tem
os recepcionistas ridiculamente vestidos como motorista de madame, que
encontramos nos hotéis chiques. A música ambiente também não será uma orquestra
de violinos tocando fugas de Bach ou valsas vienenses, mas o visitante há de
encontrar um monte de crioulos bonitos, de ambos os sexos, todos alegres e
sorridentes como se tivessem fumado o último baseado há cinco minutos. Ao mesmo
tempo em que trabalham no atendimento gentil da clientela, sugestionam danças sutilmente
erotizadas, ao som de uma banda de reaggie. Como tem muito cliente das antigas,
Pink Froid toca direto, às vezes reescrito em outro ritmo por bandas das
quais você e eu nunca ouvimos falar.
Um detalhe
interessante desse mundo moderno é que o padrão de turismo sexual mudou. É raro
você encontrar um gringo barrigudo ao lado de uma sensual caboclinha nativa,
como antigamente. Agora, o que se vê é tremendos tribufus europeus do sexo feminino desfilando com musculosos
representantes da macheza cearense. E os rapazes fazem questão de prestar
serviços com grande assiduidade e publicidade. Beijam as companheiras clientes
o tempo todo, com grande volúpia e (talvez) falso tesão, eu suponho, dado o
desconforto da evidente diferença de padrão estético e de idade.
Eles parecem não se importar e até fazem questão de mostrar ao público que
estão em plena atividade, talvez até como propaganda para futuras transações.
Claro, também há as belas loiras deslumbrantes, sobre suas pranchas de kitesurf ou coisa assim, aquela geringonça
amarrada num paraquedas que ziguezagueia nas ondas, ao sabor dos ventos. Essas,
que eu saiba, já estão suficientemente paqueradas por todos os homens
presentes, nativos ou não, e recusam qualquer oferecimento erótico, ao
contrário, elas se fazem de inatingíveis e misteriosas. Também não fazem questão nenhuma de tentar
falar a língua local.
Intrigado
com ouvir tanta pronúncia em espanhol e curioso para saber a procedência
daquela gente, intervi em duas ou três rodas de conversa, perguntando educadamente
a origem dos falantes, dizendo tratar-se de uma pesquisa que eu fazia para fins
de uma dissertação de antropologia. É, amigo leitor, cara de pau nunca me
faltou. Descobri que não havia nenhum latino americano, sequer algum mexicano.
Eram todos de diferentes regiões da Espanha, daí a diferença de acentos. Eles
podem até estar em crise econômica, mas continuam bons consumidores e
excelentes animadores de bares.
A aventura
de cruzar as dunas desde Jijoca é um capítulo à parte. Só posso dizer duas
coisas: 1) é uma sensação maravilhosa; e, 2) vão tentar te enganar no preço.
Desconfie e cheque todas as ofertas de transporte e de passeios. Nesse quesito,
só digo uma coisa: o custo da tua estadia vai cair dez vezes em relação aos
preços iniciais que tentarão te cobrar.
O vídeo e as fotos foram feitas pelo autor.
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