sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Grande sertão. Veredas da alma.





Foto tirada na Serra da Canastra. À poucos metros dali, nasce o Rio São Francisco.

Não é fácil escrever sobre o Grande Sertão. Ele não é facilmente acessível. Existe uma coisa que é a terra em si mesma, pobre e triste. Não dá muita alegria entrar por estradas poeirentas, povoados sem graça, aquela vida de interior, sem TV a cabo, sem Internet, sem lavanderias automáticas, sem ar refrigerado, sem companhia para analisar a conjuntura econômico-política enquanto se bebe um whisky de qualidade.  Aqui não há nada.   A primeira camada do grande sertão,  a que está mais aparente, se mostra com todos os seus defeitos e incompletudes.

Não penses que vais ouvir uma viola e um cello afinados como o da música que anima esse vídeo que vai anexo.  Não penses que essa música foi produzida num desses cantões do sertão, sem eira nem beira. É óbvio que a gravação foi feita em Belo Horizonte, com músicos treinados no Palácio das Artes, maestros e compositores estudados em São Paulo, Rio, Paris e Nova Yorque. Não penses que terás acesso imediato ao fantástico mundo dos contos de Guimarães Rosa e aos sonhos da meia noite. Pra encontrar o sertão é preciso ir bem mais longe. Não será na primeira camada que vais achá-lo. É preciso antes perder-se de si mesmo. É preciso deixar sua alma viajar em madrugadas silenciosas, quando somente o cio dos felinos alimenta a noite de sonidos. Aos poucos você vai se afastando da realidade nua e crua, distanciando-se do trivial e do bruto, para galgar espaços mais rarefeitos, onde o sonho possa transmutar a realidade pelo mundo da fantasia. Quando tiveres atingido o ponto de não mais te importar com o que se passa ao teu lado, então terá chegado o momento de adentrar ao grande sertão. Vá sozinho e, de princípio, não ligue tanto para as gentes. O mais certo é prestar atenção nos bichos: cavalos, jegues, bois e vacas, que são os mais comuns. Se der a sorte de encontrar um animal em estado selvagem, será como tirar a sorte grande no prêmio principal da essência vital.

Quanto mais nos permitirmos chegar perto da natureza dos seres do sertão, sua fauna e flora, mais perto estaremos de compreender as veredas. Quanto mais percebermos a presença metafísica do sertão, mais ele se estará introduzindo em nossa alma, a ponto de nos transformar em pedra para falarmos com as pedras, em bicho para falarmos com os bichos, em terra, ar, fogo e água para falarmos com a Mãe Natureza e em humanos, como nós mesmos, para falarmos com o Absoluto. 

Um casal de sertanejos atravessando a rua, contra o por do sol no Grande Sertão. Veredas.


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