domingo, 5 de fevereiro de 2012

Chabuca Granda





Lima foi uma das primeiras cidades construídas pelos espanhóis na América do Sul. Era um centro onde se concentravam riquezas impressionantes, extraídas das serras dos Andes, roubadas do imenso império Inca, que ia das fronteiras colombianas, ao norte, até os limites com a Patagônia, ao sul. Antes de Buenos Aires, Lima foi elevada à condição de vice-reinado espanhol.

Até que se descobrisse a passagem pelo Canal de Magalhães, no extremo sul, só era possível acessar a costa peruana atravessando à pé ou à cavalo o relativamente curto caminho que cruza o Panamá, indo do Mar do Caribe ao Oceano Pacífico. Quando ainda não havia o famoso Canal, os navios ficavam ancorados num lado do continente,  enquanto se construíam navios menores e outras embarcações, para navegar na outra costa. Foi nessas condições que Pizarro, o grande matador de índios, chegou para conquistar os Incas. Afim de garantir que suas tropas lhe seriam fiéis, mandou queimar as caravelas ancoradas no litoral do caribe panamenho, episódio tão insano quanto corajoso. Daí veio a expressão "queimar os navios", para significar desprendimento total por uma causa ou missão.   

Don Eduardo Granda San Bartolomé era um cidadão da alta sociedade da capital Peruana, descendente dos primeiros colonizadores espanhõis. Cavalheiro de fina estampa, como o classificaria mais tarde sua filha Maria Izabel, num poema que o descrevia com as fantasias da sua infância, relembrando seu sorriso arrebatador debaixo do elegante chapéu, capaz de encantar os gerâneos, magnólias e cravos, enquanto o distinto senhor caminhava  pelos páteos e calçadas da velha Lima. Este cavalheiro se apaixonou por uma negra, algo completamente condenável no mundo em que vivía. Fugindo dos preconceitos, foi administrar uma mina de ouro a 4.600 metros de altitude, na região de Apurimac. Ali nasceu Maria Izabel, aquela que viria ser a mais completa artista peruana de sua geração.

Ainda criança, voltou para Lima com a familia, instalando-se no distrito de Barranco, hoje famoso por sua vida boêmia, mas, na altura dos anos 1930 era o bairro da burguesía, onde a elite havia construido suas mansões, entre alamedas ajardinadas à francesa, perto das melhores praias da costa limenha. Ali Maria Izabel estudou no melhor colégio e começou a cantar no coro. Tinha voz de soprano, característica que foi perdendo com o tempo, até que uma cirurgia de garganta a transformou em contralto, com voz mais grave que a média das cantoras deste naipe. Quando começou a atuar profissionalmente, deu a si mesma o apelido de Chabuca, por razões familiares, conservando o sobrenome Granda, de seu pai. 

Não chegou a ser tão virtuosa como sua contemporânea Yma Sumac, a cantora Quetchua que levou ao mundo a música dos varios Perus, o canto índio da pampa andina, da amazônia, dos negros do litoral, o carnavalito do deserto ao sul, brilhando intensamente nos Estados Unidos por mais de cinquenta anos. Yma Sumac é comparável, em talento, a Maria Callas ou Ella Fitzgerald. Não, Chabuca não chegava perto dos recursos vocais de Yma, mas foi excelente intérprete, principalmente de suas próprias canções, cujas letras são magníficos poemas.

Chabuca tentou seguir o destino de todas as mulheres da alta classe, o papel de  respeitável dama da sociedade. Casou-se com um empresario brasileiro e teve tres filhos, no entanto, sentía falta dos amigos artistas e da vida nos palcos, atividades que lhe eram proibidas por seu ciumento marido, o que a fazia muito infeliz. Quando completou o décimo ano de matrimõnio, mal havia completado 32 anos de idade, cheia de vida e tesão, encheu-se de coragem e pediu o divórcio, mudando completamente sua vida.  Escândalo na sociedade limenha, que Chabuca compensou com dedicação total à sua arte.  Não sei dizer por que razão, e talvez razões não tenham tanta importância, a partir daí Chabuca assumiu seu lado sensual, deixando um pouco de lado os poemas e canções que descreviam a sua vivência alegre e tranquila de moça rica no distrito de Barranco, tão bem espelhada na canção Fina Estampa.

O balançar das cadeiras da mulata, caminhando pelas ruas de Lima, o jogo de sedução que antecede o toque sensual dos corpos em ebulição erótica entre uma branca e um negro, o despertar da sexualidade da menina pobre, filha de pescadores, o romance secreto e proibido, que vira juramento entre o moço rico e a criolla empregada da familia, toda a sensualidade da alma popular peruana vira assunto nas canções de Chabuca Granda. Essas composições inspiradas nos costumes populares, principalmente negros e criollos, fez enorme sucesso e foram gravadas pelos mais conceituados intérpretes do mundo hispánico. Infelizmente o Brasil está de costas para seus vizinhos e não conhece nada desse interesante mundo latino.  Este nosso isolamento é apenas mais uma grave deficiência cultural. Nos demais países da América Latina e na própria Espanha, Chabuca Granda é nome popular bem conhecido. Se entrarmos no site Youtube, vamos verificar que é tocada até em programa de calouros na Argentina, canta na televisão mexicana, é interpretada por artistas do porte de Paco de Lucia.  Também não sabe quem é? Bem, neste caso, só tomando um Pisco. Um dos poucos compositores e cantores brasileiros que se interessaram pela música peruana, que não fosse tocada com quenas, tipo El Condor Pasa, foi Caetano Veloso. De fato, é nosso artista mais latino americano, que escreve como poeta sensível,  mas também revela valores extraordinários ao cantar coisas de outras pessoas, algumas que ele sequer conhece pessoalmente.













Em minha última visita a Buenos Aires, no último novembro/2016, pude ver que Chabuca continua sendo um grande mito latino americano, quando a televisão entrevistou sua neta com grande destaque e audiência. Infelizmente, o Brasil continua de costas para seus vizinhos. 





















2 comentários:

  1. Muito bom, Laercio! Tanta riqueza na cultura latinoamericana, e o Brasil, como bem dissestes, de costas pra esse mundão...

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  2. Lindo Laércio, mas para mim a mais linda gravação desta música é do maravilhoso Tenor Peruano Juan Diego Florez, que em minha opnião é o melhor Tenor do mundo na atualidade. Contratado do Metropolitan Opera House: http://www.youtube.com/watch?v=nJ4pEd1qWZk

    Um Abraço

    André Franzoni Alexandre

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