quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

The Lily of the West



Poucos anos antes da revolução francesa, alguns colonos vindos daquele país fundaram uma cidade no estado de Kentucky, à qual deram o nome de Louisville, em homenagem ao seu rei, que em breve perderia a coroa e o pescoço. Durou pouco a influência francesa. Logo o território seria tomado por imigrantes de todos os cantos do mundo, na louca aventura da conquista da América. Lá montou-se um cabaré, onde atuava uma moça muito bonita chamada Flora. Numa primeira visita, o cowboy foi ao cabaré apenas para se distrair e ficou com Flora.  Na segunda vez, soube que ela estava com outro homem. Foi quando percebeu que estava apaixonado. Ao visitá-la mais uma vez, falou de seus profundos sentimentos, mas, percebeu que ela se aborrecia. Ainda assim, voltou ao cabaré pela quarta vez, e o mesmo homem estava lá, namorando com Flora. Na sua cabeça de apaixonado, Flora tinha preferência pelo outro. Esperou a saída de seu rival, cercou-o o matou com uma facada certeira no coração. Foi preso e julgado. Até hoje cumpre pena, mas ainda se diz eternamente apaixonado por Flora, a Lily do Oeste.  




Essa lenda tenebrosa é uma das mais famosas canções do folclore norte americano. Das várias teses, a mais aceita é que foi feita por um aventureiro irlandês que viveu um tempo na América, depois correu o mundo e foi morrer velho e contente na Escócia, tomando seu whisky do bom.  Ninguém sabe quando foi escrita, mas, supõe-se que lá por 1850, quando houve a grande marcha para o Oeste. Há notícias de que ela foi cantada num show de country music no ano 1851, numa casa de espetáculos em Viena. Como sabemos, os anos sessenta foram dedicados ao Rock and Roll e às canções de protesto. Os antigos sucessos do folclore norte americano eram considerados extremamente bregas e desprezados pela juventude politizada. Num cenário desses, como é que uma canção típica de "puteiro" virou o grande sucesso em que se transformou a nossa Lily do Oeste? Pois bem, iniciados os anos setenta, com a morte de vários ídolos do Rock pelo consumo exagerado de drogas pesadas, o mercado pedia algo novo. Então, a gravadora encomendou a Bob Dylan uma trilha sonora para o filme do diretor Sam Peckinpah, hoje considerado cult, que fazia uma homenagem aos famosos sheriffs do passado, Pet Garret e Bill the Kid.  Mas, Dylan não ficou satisfeito com o resultado.  Ele queria ter colocado na trilha aquelas canções tradicionais do velho oeste, sem autores definidos, cujas origens se perdiam no tempo, às quais ele havia dedicado muita pesquisa. Então, dois anos depois veio ao mundo uma obra prima, onde ele gravava exatamente aqueles countries que queria cantar, entre eles "Lily of the West". O álbum se chamava simplesmente "Dylan" e não existe mais nem para remédio. Virou raridade de museu e Dylan não o deixa reeditar.   Assim, o álbum e todas as suas canções foi elevado a um patamar igualmente cult, atingindo um público muito além dos tradicionalistas, que gostavam de  Peter, Paul and Mary.   

 

Este country ficou na história como um típico representante da colonização branca não-inglesa, tais como alemães, italianos, holandeses, polacos e, principalmente, irlandeses, que veio da Europa para doar seu sangue na construção da América. Foram 5 milhões de irlandeses, mais da metade do pequeno país do Reino Unido, tratado a ferro e fogo pela arrogante Inglaterra, como vingança contra sua rebeldia política e religiosa. Já ouvi falar que na moderna Irlanda, a dos dias de hoje, é bastante popular a tese de que a canção expressa, na verdade, a situação geral de todos os imigrantes irlandeses, explorados, sugados e depois desprezados. Então, a prostituta Flora seria a própria América. 

    

Na ausência de gravações da canção interpretada por Bob Dylan, vamos homenageá-lo usando um recurso caseiro, feito por nós mesmos, na voz da norte americana de origem boliviana, Joan Baez.  Não querendo fazer fofocas, mas já fofocando, consta que ela foi a primeira namorada do rapaz, quando este chegou em Nova York, no começo dos anos sessenta.


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