segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Cordoba, zero grau



Certos temas sao dilemas permanentes da raca humana e nunca serao suficientemente resolvidos. Viajar só ou acompanhado, por exemplo, é um deles. Antigamente as viagens eram tao difíceis, que praticamente se impunha  um acompanhamento, até para protecao individual através de estradas perigosas, percorridas em carruagens movidas por tropas de burros, äs quais era preciso alimentar, matar a sede e proteger do frio nas noites de inverno, conforme li em vários relatos de viagens... Em nossa América Latina, entao, era uma aventura sem destino garantido. Hoje, tudo é diferente e torna-se até mais fácil o travelling alone, como prega a revista especializada australiana que vende milhoes de cópias pelo mundo, chamada Lonely Planet. Ainda assim, há quem nao suporte a solidao dos caminhos e prefira o velho deitado “antes mal acompañado que sozinha”.  Outro dilema insoluble é o estilo de viagem. Reservar hotel, sim ou nao? Minha opcao também é NAO e explico por que.

Certa vez estava com minha mulher chegando em Bruges, na Bélgica, mas poderia perfeitamente ser Holanda. Estávamos na companhia de outro casal, eles mexicanos que encontramos no trem, e comecamos a procurar hotel, iniciando pelos mais baratos e subindo de categoria ä medida em que nao encontravamos vagas. Lá pelas tantas, já estávamos nos “quatro estrelas” e eu propus ao mexicano se poderíamos dividir um apartamento, para pelos menos baixar um pouco o custo. Ele consultou sua mulher e respondeu que nao. Vá lá saber o que se passa na cabeca de mexicanos e argentinos, heim? Eles devem achar que brasileiros sao todos bandidos ou tarados. Para encurtar a conversa, tive que pagar 180 dólares por uma noite, sem café da manha. Se eu estivesse sozinho, simplesmente ficaria na cidade até a meia noite e picos, depois tomaria um trem para qualquer lugar, apenas para dormir, e na manha seguinte estaria de volta, tomaria um banho na estacao e estaria pronto para aproveitar a cidade. Aproveitar? Perguntariam alguns. O que uma pessoa sozinha aproveita? Pois é … Quem faz essas perguntas gosta de tranquilidade, programacao definida, sem surpresas, tipo assim: “Bem, se hoje é sexta feira de madrugada, entao isto aquí deve ser Córdoba, Argentina”. Nao lhes tiro a razao, só acho que, neste caso, deve-se viajar de excursao...  De fato, eu acabara de pousar em Córdoba. E FUI SÔZINHO PARA UM HOTEL, já que minha suposta namorada não apareceu para me pegar no aeroporto. Eu não estava  bem humorado naquela madrugada, tampouco a recepcionista: 

--- Aquí na Argentina, todos que cruzam a Aduana recebem uma Tarjeta de Ingresso ao país.

Tentei explicar-lhe que o único documento aceito internacionalmente para identificacao de passageiros é o Passaporte, como aquele que eu lhe mostrava. E que provavelmente a tarjeta a que ela se referia era para os que ingressam com carteira de identidade. Ela parecia ainda em dúvida.

--- Como vou saber quem é o senhor?


--- “Bueno”, digo eu, “trinta anos atrás eu era bonito e cheio de futuro. Passado tanto tempo, creio nao ser muito mais que um desiludido, minha senhora”. Notei que ela nao estava gostando da conversa, entao completei rapidamente: “Eu sou este que aparece nesta foto horrível e alguns de meus dados estao escritos ahí. Outros que a senhora necessitar eu posso completar”.

Ela fechou ainda mais a cara, enquanto digitava no computador ä sua frente. Quando terminou, virou-se para mim e disse. “O senhor deve deixar uma diaria e meia de adiantamento”. 

--- Aceita cartao de crédito? Pergunto eu.
--- Nao. 
--- Quem sabe Reais? Insisto.
--- Muito menos. 

Entao eu lhe expliquei com nova calma,     apesar da canceira, que eu troquei apenas algum dinheiro para o taxi, por que a cotacao do aeroporto era uma vergonha e que assim que abrissem os bancos, faria um cambio apropriado e lhe pagaria em pesos. Que ficasse com os meus reais e com o cartao de crédito, em garantia. Ela respondeu secamente: “Lo siento mucho, pero, sao as regras da companhia”. Entao virei-me para o taxista que me acompanhava e exclamei em voz alta na língua portuguesa mesmo:  “Essa espelunca aquí é o hotel bom e barato que o senhor me indicou?”, passei a mao no passaporte e disse “vamos embora”.  Notei que ela cambaleou um pouco, ao perguntar “Quanto é mesmo, que o senhor disse que tinha?”. Eu respondi secamente “Nao interessa mais. Passe bem” e ela respondeu “Lo mismo a Usted” e me jogou de volta na madrugada gelada de Cordoba, com o motorista ao meu lado se desculpando. Ficou tao desolado que nem cobrou a parte da corrida que ia do hotel ä estacao rodoviaria. Mas, apesar de tudo, continuo achando que o melhor é nao reservar hotel e confiar nos taxistas.

Há males que vem para bem, desde que se esteja sozinho. Mais tarde eu soube que minha amiga, que nao havia respondido meus emails,  estava de excursao familiar para Buenos Aires. Entao, de que me adiantaria ficar naquela cidade grande e fria e que, afinal, já é minha velha conhecida? Na rodoviária, tomei o primeiro önibus para San Miguel de Tucumán. Já era cinco da manha e economizei uma diária de hotel. A poltrona semi-leito daquele Marcopolo parecia flutuar…    
Canteiros de lavandas em Córdoba, Argentina. Uma expressão européia em plena América Latina.

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