sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Compostela, campo de estrelas

Peregrinas norte americanas chegam cansadas e se dão o direito de alguns momentos de reflexão. 

Cheguei em Santiago de Compostela por volta das dezoito horas. Estava começando o outono e o dia já se tinha transformado numa suave penumbra, quando o excelente serviço de informações local me disse que estávamos a um par de quilômetros do centro histórico, e que no caminho existiam vários hotéis. Sendo assim, continuei caminhando devagar, carregando nas costas a leve mochila que me acompanhava.  

Quando a rua se transformou num calçadão avistei um simpático hotel e me dirigi à portaria. 

--- "Busco habitación para una persona, disse no meu espanhol carregado.
.
--- Brasiiiiileiro? Pergunta a moça com um sorriso na face.

--- Si, soy brasileño. Pero, como lo sabes?

--- Por el accento (sotaque). 
--- Mas, então, já que és brasileiro, vamos falar a nossa própria língua.

Foi quando me dei por conta que todos ali falavam português, quero dizer, galego, com um mínimo de diferenças idiomáticas. Por exemplo, "uma', eles dizem "unha", "pedra", eles dizem "petra". e assim por diante. Satisfeito da vida, acomodei minhas coisas no quartinho que me arranjou a bonita moça e saí para conhecer o centro medieval. Milhares de pessoas caminhando pelas ruelas, todos branquelos europeus e norte americanos, até que se me apresenta um negão gordo, vindo devagar na direção contrária, subindo a leve inclinação de la calle. Pensei comigo, "este só pode ser brasileiro" e, ao nos cruzarmos, eu disse bem claro "E aí, companheiro, tudo bem?"   

O negão estancou no meio da rua e, abrindo um sorriso escandaloso, me disse. "É a primeira vez que um estranho me cumprimenta nesta cidade de merda. Isto merece uma comemoração e vou te pagar uma bebida da tua preferência. Vem comigo". Era colombiano e trabalhava como porteiro noturno de um prédio residencial. Deu um trabalho danado rejeitar a oferta que me fazia em agradecimento a um simples "buena noche"...



É inegável a influência ibérica na cultura brasileira. Andaluzia ou Galícia, dois extremos da sensibilidade e sensualidade de uma raça mista em constante evolução.

Então, percebi que Compostela é um centro de peregrinação dos descolados do mundo inteiro. Gente jovem, que se aventura pelo Caminho em busca de emoções, muito mais do que religação com a sua suposta origem pessoal divina. Milhares de bares espalhados pelo centro, onde jovens do mundo inteiro se paqueram no entorno dos edifícios católicos milenares e da espetacular catedral, que está ali para lembrar a lenda de São Tiago, mandado pela própria Nossa Senhora a procurar o fim do mundo, guiado pelo brilho espetacular das estrelas que lhe apontavam o caminho no campo aberto.

Compostela é exatamente o oposto dos demais centros de peregrinação católicos, todos conservadores e tétricos, como vi em Fátima e Lourdes, os mais famosos.  Na missa dos peregrinos, meio dia de domingo, imensos castiçais balançam de um lado a outro da imensa platéia, queimando seu incenso que exala um perfume muito parecido com o da maconha. O próprio bispo de Compostela dirigia aquele ofício religioso, num traje completamente branco, com seus longos cabelos igualmente brancos, acompanhado de várias crianças pequenas no lugar dos tradicionais coroinhas.




Isso é Compostela. A exaltação do belo, jovem e alegre!





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