segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Arte e Cultura. Sinônimos?

Estava se aproximando a data de aniversário do Lula. Os puxa sacos mais próximos confabulavam para decidirem o que cada um iria dar de presente, para não haver repetições ou constrangimentos. Um dos assessores mais íntimos do presidente, advertiu:

--- "Livro não dá, não, por que ele já leu um."

Eu posso fazer essas piadinhas com o nosso maior líder popular da história, por que fui um dos primeiros a trabalhar em seu favor e abrir caminhos para sua carreira política. Quando ele ainda era um iniciante em matéria de sindicalismo, para o qual foi levado por seu irmão comunista, ele mal despontando como liderança emergente de esquerda, nosso centro acadêmico na UFPR o convidou a fazer uma palestra em Curitiba. A assessoria de segurança da reitoria chamou a mim e ao presidente do Centro, procurando nos convencer da inoportunidade daquela promoção, ameaçando com possíveis represálias policiais e seduzindo com promessas de apoio financeiro, caso concordássemos em convidar alguém mais palatável. Isso soava como provocação aos nossos sonhos ingênuos, próprios da irresponsabilidade dos nossos vinte e poucos anos de idade. Fizemos a palestra e eu tive que passar listinhas de doações no meio da estudantada, para hospedar o homem num hotel, já que nenhum político da cidade ou cidadão bem estabelecido tinha coragem em receber o metalúrgico em sua casa. A chamada elite intelectual se considerava muito progressista, por que iam ao cinema de arte assistir "Mimi, o Metalúrgico", filme da fase política do realismo italiano, antes de terminarem a noite n'algum bar elegante, discutindo Marx, Trotski e Gramci, mas, diante de um metalúrgico de carne e osso, cada qual tratava de tirar o seu da reta. 

Apesar de ser um grande oportunista e manipulador, como várias vezes constatei pessoalmente, ninguém pode tirar de Lula o mérito de ter sido o presidente que rompeu com a lógica do capitalismo colonialista de obediência cega. Nem FHC moveu uma palha para se libertar, apesar de sua carreira acadêmica ter sido construída sobre o tema da dependência estrutural do terceiro mundo, em relação aos países centrais do ocidente. Lula foi que deu o grito de basta!, botando o FMI para correr, embora com todo cuidado, não tão forte para não parecer provocação, nem tão suave que parecesse medo. Durante seu mandato, nenhum dos seus ministros tirou os sapatos na aduana dos Estados Unidos, episódio lamentável ocorrido com o ministro das relações exteriores do Brasil no governo FHC.

Eu uso a comparação de Lula e FHC para levantar a tese de que a cultura não é essencial para a gestão pública nem para uma carreira política de sucesso. Ao contrário, até atrapalha, às vezes. O grande pensador sociológico brasileiro, Florestan Fernandes, mestre de FHC, chegou à câmara dos deputados levado pelos votos populares dos petistas sem instrução nenhuma, feito Lula, por que Florestan era muito boa gente, mas um péssimo comunicador.  Consta que tentou ser vereador em São Paulo, muito tempo atrás, e um amigo lhe aconselhou que produzisse algum material de propaganda, algo simples que pudesse ser lido no trem ou no ônibus, quando os eleitores iam e voltavam do trabalho. Ele fez uma cartilha com doze páginas só de textos, chamada "pequena história da classe operária no Brasil", he he he.

Outra coisa que não depende de cultura é a arte. O que a manifestação artística precisa é inovação e sensibilidade, mas não conhecimento acadêmico ou linguagem prolixa. Fora da arte clássica, perfeccionista, o que geralmente conta é a capacidade de impacto frente ao público. Fiquemos no campo da música, que é a especialidade deste Blog. Uma canção como "Arreuni". de Chico Maranhão, é absolutamente desprovida de capacidade intelectual ou recursos instrumentais, e poderia ser feita por qualquer trabalhador do campo, sem qualquer instrução musical. Mas, impressiona por ser um primor de sensibilidade.

video


Outra característica marcante da arte é sua capacidade de provocação aos valores estabelecidos. No vídeo que vem a seguir, um artista com extensa formação erudita em música e teatro, se utiliza das técnicas e conhecimentos que acumulou em ambas as formas de expressão, para provocar na platéia reações de ódio e admiração, dependendo se o espectador se choca com manifestações fora do padrão conservador, ou, ao contrário, se é levado à emoção pelo rompimento artístico com as regras de boa educação.


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